O símbolo perdido, de Dan Brown, na berlinda.

17/12/2009 por Tibor Moricz

Sergio Pereira Couto, emérito especialista em sociedades secretas e um dos autores mais vendidos do país, mergulhou na última obra de Dan Brown, O símbolo perdido – cuja narrativa explora ramificações com a maçonaria – para lançar um guia para o livro chamado Decifrando o símbolo perdido (Editora Bibliomania).

Vá à Livraria Martins Fontes da Avenida Paulista na próxima sexta-feira, dia 18 de dezembro, a partir das 19h00. Haverá um pequeno bate-papo sobre o livro de Dan Brown e uma apresentação sobre Maçonaria e o guia, que estará sendo lançado no mesmo dia.

Fique por dentro dos meandros da nova trama de Brown e saber o que é fato e ficção nessa obra que já bateu alguns recordes de vendas. E prestigie este que é o primeiro guia do livro escrito e editado no país.

Conheça os mistérios do Best-seller de Dan Brown em Decifrando o símbolo perdido.

O nome Dan Brown dispensa apresentações. Seu polêmico livro, O Código da Vinci, vendeu até agora mais de 70 milhões de cópias no mundo todo e fez com que não apenas esse livro, mas também seus outros três anteriores (Ponto de Impacto, Fortaleza Digital e Anjos e Demônios, a primeira aventura de Robert Langon) constassem na lista dos mais vendidos do The New York Times.

Assim, é natural a curiosidade em saber como seria a sequência de sua obra transformada em filme com Tom Hanks no papel principal em 2006.

Depois de anos de espera o mundo conheceu em 2009 o quinto livro, O Símbolo Perdido. Lançado em inglês em setembro, o novo volume ganhou uma tiragem de cinco milhões de exemplares e vendeu um milhão de cópias apenas nos Estados Unidos e Canadá. Desta vez a sociedade secreta enfocada é uma velha conhecida das pessoas, a Franco-Maçonaria.

Isso gerou muita polêmica e questionamentos, como: o quanto há de verdade na nova aventura do simbologista Robert Langon? Os fóruns de Internet e os fãs começaram um movimento quase simultâneo em busca dos detalhes que confirmariam ou não suas suspeitas. Afinal, os maçons ainda são tão poderosos como afirma a trama? O quanto da capital dos Estados Unidos realmente teve influência maçônica?

Este lançamento, da Editora Bibliomania, traz para você essas e outras explicações. Escrito por um dos nomes nacionais mais conhecidos na pesquisa com sociedades secretas e organizador do I Ciclo de Palestras Sociedades Secretas, este livro, escrito em linguagem simples e acessível, visa esclarecer ao público algumas questões levantadas pelos próprios fãs de Brown, como:

- Robert Langdon é maçom?

- Quem foi o mago Aleister Crowley que serviu de inspiração para que o autor criasse o vilão Mal´akh?

- Há relação entre as pirâmides, a Maçonaria e a cidade de Washington?

- Como funcionam a CIA, a NSA e o FBI?

- Qual o motivo oculto do sucesso de Dan Brown?

- Quais são essas organizações tão poderosas que criam um governo paralelo?

- Templários, Rosacruzes e Illuminati ainda atuam hoje em dia?

Conheça mais sobre os lugares, pessoas, fatos e referências que fazem parte da trama do novo livro de Dan Brown. Mais do que uma obra que faz uma crítica literária, DECIFRANDO O SÍMBOLO PERDIDO é um verdadeiro guia aos meandros da trama de Dan Brown. Uma obra imprescindível para qualquer fã ou interessado no submundo das sociedades secretas.

Data: 18/12 – sexta-feira
Local: Av. Paulista, 509 – Cerqueira César – Tel.: 2167-9900
Horário: das 19h às 21h30
Livro: Decifrando o Símbolo Perdido
Autor: Sérgio Pereira Couto
Editora: Bibliomania

De Bar em Bar dá uma trégua aos entrevistados.

16/12/2009 por Tibor Moricz

Roberto de Sousa Causo e André Vianco suspiram aliviados.

Nas últimas duas semanas desse ano, não publicarei nenhuma entrevista, adiando-as para as primeiras semanas de janeiro.

Estou atolado com uma noveleta que está tomando meu tempo mais do que pretendia (e cujo “deadline” está me mordendo os calcanhares). Me enrosquei no cenário e na ambientação de tal forma que não me sobra espaço para elaborar outras ficções.

Sorte dos dois que escaparam (só por enquanto) da sanha destrutiva de meu relógio quântico, cujas discrepâncias se tornaram rotina.

Mas ano que vem o De Bar em Bar volta com tudo e trará entrevistas surpreendentes, com autores inesperados. Quem viver (epa!), verá.

Xochiquetzal, uma princesa asteca entre os incas.

15/12/2009 por Tibor Moricz

Gerson Lodi-Ribeiro nos apresenta Xochiquetzal, uma princesa asteca entre os incas. Para quem já havia se deliciado com Outros Brasis, um livro com noveletas de história alternativa cujos pressupostos nos apresentam um Brasil (e um mundo) diferente do que conhecemos, esse novo romance com certeza vai agradar.

E se os portugueses tivessem acreditado em Colombo, descoberto a América e se aliado às civilizações que aqui floresciam?

É desse ponto de partida – ou seria ponto de divergência?  – que se desenvolve a história contada por Xochiquetzal, princesa dos astecas e filha d’algo entre os portugueses.

Casada com um dos maiores navegantes do Reino, o almirante Vasco da Gama, acompanha-o em suas viagens às terras distantes d’Além Mar. Com um ponto de vista gravitando entre a ironia e a ternura sobre a relação entre Portugal e as terras do novo continente, chamado de Cabrália, ela nos conduz por um admirável mundo novo em que portugueses e cabralianos se unem para singrar os mares nunca antes navegados. Trata-se de uma crônica minuciosa, divertida e emocionante, passando pela lendária Calicute até a misteriosa Cusco. Um cenário e uma ambientação tão convincentes que fica a dúvida sobre o que é real e o que é alternativo nessa primorosa narrativa.

O livro já está disponível nas livrarias.

Aproveitem!

Ave Caesar, morituri te salutant

12/12/2009 por Tibor Moricz

Bateu mais uma vez.

Não era uma ação mecânica simples. Nem era uma atitude fácil. Mas envolvia decisões consolidadas. Uma questão de princípios. Todos sabem que “princípio” é algo extremamente volátil; ao sabor de culturas, histórias ou geografias. Às vezes de acordo com vontades. Todas elas inerentes aos mandatários. Ou mais acima, aos decisórios, se preferirem.

Bateu mais uma vez.

Por definição um executor. Porque era ele que executava. Embora não demandasse mais que ação mecânica, requeria vigor, força e destreza. E uma boa dose de precisão. Erguer e abaixar, erguer e abaixar. Tantas vezes quantas necessárias até que o objeto da agressão se curvasse ao dominador. Ética ou moral não eram assuntos para serem discutidos. Mesmo porque ondulam não muito graciosamente à vontade das leis. Tirânicas? Nada disso. Antes, necessárias.

Bateu mais uma vez.

Tortura era uma palavra forte demais. Antes, correção. Ato de corrigir, consertar as coisas. Procurar um meio de reparar ações anteriores. Claro que o que está feito não tem reparação. Mas e a consciência de milhares de súditos? E aqueles que lotaram a arena e entre apupos escolheram um herói? A consciência de milhares na consciência de um só. Porque o Imperador, o Cesar, Ele, o Magnânimo, Senhor Absoluto, Deus, representa a todos.

Bateu de novo. E bateria mil vezes se necessário.

O indigno era um bandido. Maldito. Filho de um cão que desonrou a arena.

Quem se julgava ao desrespeitar a vontade da platéia? Onde pensava estar? No chiqueiro, lidando com porcos? Aprenderia a lição custasse o que custasse. Aprenderia após tantas batidas quantas necessárias. Até prostrá-lo ao chão. Até fazê-lo ver que não poderia, em nenhuma hipótese, matar um eleito pelo povo. Pois que o herói escolhido era o outro. O grande gladiador núbio.

E o senhor dos porcos ousara desrespeitar a escolha do povo, fincando no nigérrimo gladiador a espada. Fizera jorrar não o sangue de um só, mas o sangue de todos na areia escaldante. Vaias irromperam. Protestos abafaram a voz do Imperador que, impulsionado pela comoção pública, condenou o vencedor a mais uma luta. E com o pior de todos. Com o gladiador mais fraco, mais obtuso que existia. E perderia. Seria vencido, humilhado e morto diante de espectadores vingados.

Mas, antes, as pauladas que o enfraqueceriam a ponto de não conseguir mover as pernas. Bateu novamente. Bateu e bateu. E bateu muito até que o homem tombou trêmulo e sacudido por espasmos. Com dois outros soldados o carregou para fora. Arrastaram-no para o meio da arena. Milhares aplaudiram. O abobado, o tolo, o fraco e macilento oponente, tão subnutrido, tão esquálido que não tinha forças para erguer a própria espada… Mas a ergueu.

E com ela esfacelou o crânio do ímpio.

E ganhou status de gladiador eleito.

Até a próxima contenda… Quando foi honrosamente decapitado.

Cartas do Fim do Mundo. É amanhã!

11/12/2009 por Tibor Moricz

Não deixem de comparecer ao lançamento que será amanhã, 12 de dezembro, as 15h, na livraria Martins Fontes da Av. Paulista, 509 – pertinho do metrô brigadeiro.

Organizado por Claudio Brites e Nelson de Oliveira, o livro publicado pela Terracota Editora reúne treze cartas de autores novos e consagrados, escrita lá do fim dos tempos. Mais precisamente do dia 31 de julho de 2013, quando o mundo realmente terá seu fim.

Há ainda uma carta apócrifa e um artigo científico da Dra. Nicole Hudson, traduzido pelos organizadores, que trata dos documentos antigos de várias civilizações e de seus indícios sobre o fim dos tempos e sobre a data supracitada.

Os autores são: Moacyr Scliar, Raimundo Carrero, Marcelino Freire, Márcio Souza, Fausto Fawcett, Braulio Tavares, Xico Sá, Menalton Braff, Luis Dill, Luiz Bras, Marne Lucio Guedes, Brontops Baruq, Moacyr Godoy Moreira e Claudio Brites.

Nada melhor que um excelente livro para fechar um ano que foi pra lá de bom na literatura de gênero nacional.

De Bar em Bar entrevista Cristina Lasaitis

10/12/2009 por Tibor Moricz

Esperava aparecer numa praça. Arborizada como todas as praças devem ser. Bancos, pombos, eventualmente um chafariz, quem sabe uma estátua. Mas dei as caras numa rocha larga, vergastada, onde o líquen percorria inúmeras rachaduras.

Não havia pombos, nem árvores, nem bancos. Nada do lounge que estaria ao largo da praça, onde mais uma entrevista teria curso. Me vi mergulhado num cenário inóspito, recoberto por rochas de todas as dimensões, vegetação esparsa e rasteira. Nem frio nem quente, um estranho bafejar morno percorria o chão, enquanto uma brisa mais fria ventilava de cima.

Estava escuro. Não havia como saber se devido ao céu carrancudo, cheio de nuvens negras e vivas, sacudidas por relâmpagos, ou se a noite já havia se instalado para além delas. Esfreguei os braços, sentindo um súbito arrepio, e me vi com um manto grosso que me cobria até os pés. Um capuz tombado às costas. Senti-me um Franciscano.

Puxei a manga do manto e olhei para o relógio quântico. Discrepâncias eram a tônica, me disse o relojoeiro. Não há como controlar cem por cento a alteração da realidade, continuou. A energia é muito instável, as engrenagens muito sensíveis e a imponderabilidade muito presente. Ou abandona o artefato, ou se acostuma a ele.

Dei duas batidinhas no vidro, praguejei baixinho e, num suspiro, dei o primeiro passo em direção nenhuma, já que não sabia para onde ir. Havia um rumorejar nem próximo nem distante, mas que ia se acentuando na medida em que avançava. O bafejar morno que percorria o solo fazia mover o pó e fazia correr o musgo seco que se enrolava em meus pés enquanto caminhava. Puxei o capuz sobre a cabeça, cruzei os braços e ponderei em quais outras surpresas a “imponderabilidade” do relógio quântico me traria.

Não mais que vinte metros depois fui obrigado a parar. Um súbito despenhadeiro se precipitava e era dele que bramia um vento forte e quente. Era esse vento que se colava ao chão, percorrendo-o tépido.

Não havia outro lado. Pelo menos não visível. Era como se ali, exatamente ali, acabasse o mundo. E tudo o mais fosse apenas o vazio. Engoli em seco e observei ao redor. Um foco tênue de luz cintilava em movimentos nervosos, à minha esquerda, umas quatro dezenas de metros além. Virei-me naquela direção e avancei, cheio de cautela.

Fui dar numa construção rústica, meio pedra, meio madeira. A luz vinha de um candeeiro agitado pelo vento. Uma placa meio despregada, que batia irritantemente na parede, exibia uma escrita desconhecida.

Pensei em dar o fora, me esconder dentro do cenário rochoso o tempo necessário para apertar o botão do relógio e sumir dali, mas a minha preocupação com a Cris era grande. Talvez ela ainda não tivesse aparecido, talvez sim.

Era um bar, aquele lugar. Só podia ser. Nenhuma imponderabilidade impediria que os encontros se realizassem em bares. Onde quer que estes estivessem.

Abri a porta e entrei. Fiquei congelado na entrada, perplexo com a estranha frequência do lugar. Não sabia se homens ou mulheres. Se machos ou fêmeas. Figuras estranhas que lembravam humanoides na forma esguia do corpo, mas possuíam membros demais, cabeças demais, olhos demais – e de todos os tamanhos e formatos –, expressões indecifráveis, que ora poderiam ser de paz ora de animosidade.

Meus pés finalmente se despregaram do chão úmido – aquelas coisas pareciam desprender do corpo uma espécie de visco – e me arrastei como pude, tentando demonstrar tranquilidade, para uma mesa. Sentei-me diante dela, numa cadeira grudenta, dando graças por estar com aquele manto. Vasculhei o local discretamente atrás da Cris, mas, além daquelas coisas babentas, não havia mais ninguém.

Afundei a cabeça no peito, temendo que alguém – dá pra chamar de “alguém” as coisas que se arrastavam lá dentro? – me interpelasse, fosse para o que fosse. Não tive que esperar muito. Logo entrou no bar uma figura vestindo uma túnica parecida com a minha; capuz ocultando a cabeça. Olhou discretamente de um lado a outro, vacilou assustado diante dos estranhos, prendeu a atenção instantes a mais em minha pessoa e veio até mim. Sentou-se ao meu lado, aproximou-se e pude enxergar na semiobscuridade oferecida pelo capuz um olhar curioso e inquieto.

Era a Cris. Sorri aliviado.

— Quando você me disse que a entrevista ia ser num lounge, eu acreditei – disse ela num tom de crítica.

— Era pra ser – lamuriei –, mas esse relógio…

— Que lugar estranho é esse?  – ela perguntou.

— E eu sei? Quando cheguei estava de frente para uma pedra.

— Você teve sorte. Apareci diante de um precipício. Um passo adiante e… São amistosos?

— Não faço ideia. Tenho medo de tentar.

Ela, então, para meu espanto, ergueu um dos braços, acenando brevemente. O barman ou coisa parecida veio caminhando com suas três pernas, arrastando atrás de si uma cauda de visco que teimava em não desgrudar do corpo. Inclinou-se, não sei se solícito ou curioso para descobrir quem se escondia dentro dos mantos, e gorgolejou alguma coisa numa língua estranha. Cris manejou um troço no braço e alguns gorgolejos brotaram de lá, me fazendo arregalar os olhos.

— Existem relógios e relógios. O seu não dá pra confiar, o meu dá. Tradutor universal – explicou assim que a “coisa” se afastou.

— E o que você disse?

— Pedi dois drinques da casa. Como não sei o que bebem aqui, vamos arriscar.

— Alienígenas…

— Considerando que não se parecem mutantes nem sobreviventes de algum acidente inexplicável, eu diria que sim. Mas me custa a admitir. Você deveria saber com mais certeza.

— Esperava ser levado para algum lugar na Terra. Mas isso aqui… Bem… Isso aqui não é humano. O relojoeiro disse que…

— Não é pra ser uma entrevista? Cada segundo aqui me põe mais nervosa.

— Ah, tá. Vamos lá, então. Bem… Quer dizer… – olhei para o balcão. Apertavam-se, lá, trocando fluidos, não intencionalmente, uns três alienígenas. Bebiam uma coisa estranha, animados. Gorgolejavam e sacudiam as cabeças fazendo alguns olhos, não todos, saltarem das órbitas –… Quem é Cristina Lasaitis? Fale-me sobre a mulher e a escritora. Diga-me onde uma interfere na outra – se é que há alguma interferência.

— A Cris Lasaitis é uma pessoa de mente hiperativa, insaciavelmente curiosa, distraída, hiper(des)focada, sempre perseguindo pensamentos que a mantém em outros mundos na maior parte do tempo. Se interessa por tudo que esteja relacionado às ciências (exatas, biológicas e humanas), adora artes e culturas, é apaixonada por estilos e estéticas… Quer viajar, quer contar histórias e, quem sabe, intervir na forma das pessoas pensarem o mundo. Tem problemas com disciplina de trabalho. Gosta de comida japonesa. É dependente de cafeína. Aprecia a liberdade acima de todas as coisas, e… O que mais? A escritora só se aventura a escrever aquilo que considera interessante, útil e/ou relevante (ou seja, aquilo que gostaria de ler). Aliás, como pessoa, não gosta de falar demais. Não vejo razão para separar a mulher e a escritora – apesar de estar me descrevendo em terceira pessoa, me sinto mais confortável sendo uma pessoa só, rs. Detesto vida dupla.

Ela concluiu ao mesmo tempo em que o barman colocou sobre a mesa dois copos metálicos, largos e cheios de uma beberagem exótica. Afastou-se de nós, arrastando ainda o mesmo visco de antes. Fiquei enjoado.

— Vai beber isso? – perguntei de olho no líquido borbulhante, amarronzado e denso, de onde surgiam, vez ou outra, coisas estranhas na superfície.

Ela cheirou, torceu o nariz e empurrou o copo ligeiramente para frente.

— Bem que podiam ter trazido um vinho, ou qualquer outra coisa.

— Qualquer outra coisa, trouxeram. Você consegue distinguir, entre eles, alguma diferença de sexo?

— Não. Devem ser assexuados.

— Falando nisso, você acha que os escritores brasileiros de ficção de gênero são conservadores, não gostando, por exemplo, de trabalhar com temáticas sexuais em suas obras? E, caso ache, qual seria o motivo para essa atitude?

— Sou adepta daquilo que os transumanistas chamam de “pós-generismo”, ou seja, aquele ”estado de coisas” onde o sexo das pessoas deixa de ser relevante no seu status social e os papéis de gênero tradicionais deixam de existir. Essa forma de pensar tem se tornado cada vez mais corriqueira nas obras de FC atuais, inclusive de autoria brasileira. Mas a palavra “sexo” se desdobra em dois significados: se você é homem ou mulher, ou o ato sexual em si…

Então ela parou. Uma coisa parecida com um dedo brotou no copo, fazendo movimentos erráticos. Parecia vivo.

– Bem, eu… Hmmm… Que droga é essa?

Então ignorou o inusitado da coisa e continuou:

—… Quanto ao sexo-ato, eu diria que já li autores brasileiros dos mais “pornochanchada” aos moços mais castos. Quanto ao sexo-status, não me recordo de ter lido algum autor brasileiro que tenha abordado a questão do feminismo ou dos papéis de gênero em suas obras - mas confesso que meu conhecimento da literatura brasileira de FC é um pouco limitado.
Sei que quero muito mergulhar na temática do sexo (como ato e status) para um futuro romance, que atualmente está em fase de pesquisa e roteirização.

— Tem quem pense que ficção científica é só entretenimento. Está distante de literatura. O que você acha?

— Dizia Oscar Wilde que toda arte é perfeitamente inútil. Concordo com ele uns 34%. A literatura é útil no sentido de que, às vezes, temos mais necessidade de uma boa história do que de comida. A ficção científica tem a utilidade do entretenimento, mas pode ser um pouco mais do que isso: também funciona como um laboratório de teorias, hipóteses, ideias, projetos…

Então Cris parou por momentos de novo. Não para olhar o copo onde o dedo ainda adejava, mas para dar uma mexida no próprio relógio.

— Arthur C. Clarke poderia ter sido um mero inventor e ter se consolado com o fato de que jamais veria as maravilhas tecnológicas que habitavam exclusivamente seus pensamentos. Mas como escritor propagou ideias “virais” de invenções além do nível técnico atual, porém perfeitamente viáveis (como o elevador espacial, ou a estação espacial de gravidade simulada por rotação), que seguem assombrando e influenciando as gerações que o sucedem, e que um dia poderão realizar parte desse futuro idealizado por ele.

Mais uns acertos no relógio, um franzir de cenho, um leve menear de cabeça, como se algo a estivesse aborrecendo.

— Outro que se refere muito ao potencial de geração de ideias da FC é o Michio Kaku, físico e escritor de divulgação científica. Seu livro mais recente, Physics of the Impossible, apresenta as tecnologias que estão sendo desenvolvidas atualmente e que até pouco tempo atrás eram matéria exclusiva da ficção científica.

— Seus primeiros escritos foram de ficção científica?

— A história que me levou a escrever um romance (que não cheguei a terminar, e está engavetado até o momento em que eu decidir que “dou conta”) era, sim, ficção científica.

— O que você tanto mexe nesse seu relógio?

— Ajustes… Os “caras” lá atrás finalmente se deram conta da gente.

— Como você “ouve” o que eles dizem?

— Implante neural. Ligado diretamente ao relógio. Mas não enfiaram nada em mim. É anímico. Se tirar o relógio do pulso, a ligação se encerra.

— Devem ser meio lerdos. Como foram se dar conta da gente só agora? Não nos serviram?

— Viram minha mão e… Peraí… Vou repetir o que estão dizendo nesse momento: “Cinco dedos, garanto!”, “Não pode ser, impressão sua”, “E sem visco, aquela mão não secreta visco”, “Pensando bem, reparei nos trajes estranhos”, “Não tocaram na sopa, quem em sã consciência e em domínio de suas faculdades mentais não beberia a sopa?”, “Tenho certeza de que foi o braço de um deles que falou comigo!”, “??”, “??”, “!!”, “São alienígenas!”, “Vá você e os inquira!”, “Eu, não!”, “Nem eu!”…

Ela respirou fundo, parou de repeti-los e – para minha surpresa e preocupação – continuou o raciocínio anterior, falando sobre o tema da entrevista:

— Claro, há uma cepa de chatos que se acham no direito de exclusividade – só o que eles produzem é legítimo, todo o resto é amadorismo. Então criam academias onde entronam a si mesmos, criam premiações para se autopremiarem, praticam uma incansável masturbação intelectual que não interessa a mais ninguém senão a eles próprios; e, como acontece na maior parte das instituições humanas, preferem a política da exclusão.

Falo dos caras que classificam tudo o que é ficção científica e fantasia como subliteratura, o que não é outra coisa senão preconceito e arrogância, muita arrogância!  Sou muito preocupada com o aspecto qualitativo das obras, e defendo que os livros devem ser ao mesmo tempo bem escritos e prazerosos de ler. Sei o trabalho que dá para escrever ”da melhor forma possível”, e sempre estou aberta a críticas. Mas que não me venham dizer que o que escrevo é subliteratura! – continuou ela como se o dilema que se desenrolava junto ao balcão não nos dissesse respeito.

— Cris – eu a interrompi, sem conseguir mais conter meu nervosismo –, os “caras” lá atrás… Estou mais preocupado com eles, agora.

— É que certas coisas me deixam maluca.

— Sei, mas eles tão olhando com todos os olhos para cá.

— Esse seu relógio não funciona, não? Aperta esse botão.

— Estou apertando ele desde que você chegou. Tem uma bosta de timer, ele só destrava depois de certo tempo.

— “São humanoides”, “Mas parecem ter só uma cabeça, dois braços e duas pernas… aberrações”, “Será que são comestíveis?”.

Olhamos um para o outro, preocupados de repente. Comestíveis? A pergunta ainda repercutia em nossas cabeças quando eles se moveram devagar. Um deles se postou diante da porta, os outros dois vinham em avanço contínuo, porém cauteloso. Vimos bocas, várias delas. Surgiam nos lugares mais insuspeitos. Olhamos para trás e encontramos outra porta. Uma saída de emergência. Não titubeamos. Nos erguemos num salto e corremos para ela, que se abriu assim que a abalroamos.

Só que não havia uma saída de fato. Ou havia. Depende do ponto de vista. Nos vimos no precipício. Sem possibilidade de retorno. O impulso era demasiado para retrocessos.

Então caímos. Vertiginosamente. Ainda nos agarramos um ao outro, apavorados. Mesmo em completo pânico, vi surgir uma lua no fim do precipício. E o luar era magnífico. Foi quando rugiu o vento. Tão quente que fez arder nossa pele, mesmo protegida pelo manto. Tão forte e intenso que interrompeu nossa queda e nos fez alçar voo, para cima, para além das bordas do despenhadeiro, para o vento gelado que estrondeava no alto.

Foi quando o botão do relógio destravou.

Ainda vi os alienígenas alvoroçados, no solo, aguardando a chegada de duas novas refeições e a expressão incrédula e fascinada da Cris antes de apertar o botão.

Campanha de abate às listas. Dê um tirinho você também.

09/12/2009 por Tibor Moricz

1- Listas de leitura do ano servem pra quê?

2- Listas de filmes assistidos no ano servem pra quê?

3- Listas de livros a serem lidos servem pra quê?

4- Listas dos melhores lidos ou assistidos servem pra quê?

5- Listas dos piores, idem, ibidem, servem pra quê?

6- Listas de compras (nunca as respeitamos) servem pra quê?

7- Listas de listas servem pra quê?

8- Pessoas que fazem listas e mais listas servem pra quê?

9- Pessoas que criticam listas servem pra quê?

10- Pessoas e listas… Servem pra quê?

Minha modesta contribuição à incrível quantidade de listas que surgem todos os finais de ano, com gente vomitando tudo o que leu, assistiu, comeu, listou… Em forma de lista, é claro.

Brinquedos Mortais quebra recorde do blog.

08/12/2009 por Tibor Moricz

Só nos três primeiros dias de chamada para a coletânea, o artigo teve um número de acessos surpreendente. 824 hits. Claro que muitos voltaram mais de uma vez para reler o chamado. Mesmo assim a quantidade de interessados é grande.

Prevejo bastante trabalho se todos resolverem entregar os contos nos últimos dias do prazo oferecido. Faço, então, um pedido. Não, uma súplica. Procurem entregar seus contos antes do limite para que tenhamos TEMPO hábil de ler e avaliar cada um com a atenção merecida.

E pau na tábua, que essa coletânea vai ser um sucesso.

Raiva nos Raios de sol – Lido e comentado

07/12/2009 por Tibor Moricz

Recebi o livro da Não Editora com a indicação de que a coletânea iria me agradar. Em boa parte por ter escrito Fome. Quem brinca com cenas que provocam perturbação deve gostar de histórias desse gênero.

Meio certo.

Fome foi um aborto que saiu como um vômito quente e impossível de conter. Até hoje me sinto perturbado com algumas de suas passagens. Além do que, Fome lida com um futuro pós-apocalíptico fictício, onde toda e qualquer extrapolação se reveste de fingida veracidade. Raiva nos raios de sol fala do agora, do hoje. Isto é obsceno e revoltante.

Então, embora cenários e ambientações que causem choque tenham sido a tônica em uma de minhas obras, isso não significa que todas as obras que explorem situações semelhantes me serão do agrado.

E Raiva nos raios do sol não me agradou.

Essa é, certamente, a maior virtude do livro. O autor Fernando Mantelli acertou em cheio no que queria. Causou-me mais aversão por parágrafo quadrado do que realmente esperava.

Revelar a natureza humana; aquela que a gente sabe estar escondida sob uma tonelada de verniz social. A grande maioria dos contos lida com o revoltante, causa repulsa e indignação. Momentos tão comuns, tão dia-a-dia. Mas tão filhos da puta.

Como não se arrepiar com a cena final do conto Sheila e os ratos, como não se abismar com a ousadia pedofílica em A danação do vampiro, com o desassossego provocado por Os sete mosquitos da insônia e outras ousadias, todas elas inquietantes.

Mas também há contos que cometem pecados que extrapolam a intenção primeira do autor. Contos como O amor de reizinho e Gina, que avançou, indo parar num parágrafo a mais, quando não precisava, Cão branco, que me pareceu inverossímil da primeira à última linha, A fúria que, numa única palavra me fez quase abandonar a leitura desse conto e pular para o seguinte: “Me forneça um pão”. Me dê, me dá, me arruma, me veja. Qualquer coisa. Mas “me forneça, não!

Não foi uma leitura boa. Não terminei o livro achando que vou sentir falta. É o tipo de leitura que atrai, que prende, que não deixa parar até a última página, mas que, ao fim, te faz suspirar de alívio por ter acabado.

Não recomendado aos leitores de sentimentos leves, corações frágeis e aos otimistas na espécie humana, principalmente.

Parabéns ao Fernando Mantelli por saber como ninguém aflorar o horror que existe atrás de cada sorriso e à Não Editora pela publicação de Raiva nos raios de sol.

Problemas no relógio quântico.

05/12/2009 por Tibor Moricz

Agora fiquei preocupado. Correr o risco de causar danos em escritores e editores… Bem… Dane-se. Convido as pessoas para serem entrevistadas e já vou logo avisando: “Caso ocorram discrepâncias que provoquem risco de morte, cada um é dono do próprio nariz e se vire como puder”.

Todos aceitaram sem reclamar. Talvez pelo espírito de aventura, talvez por acharem que essa história de “discrepância” é balela pra deixar a entrevista mais interessante, sei lá.

De qualquer forma, nenhum dos entrevistados aceitará um novo convite. Depois que a coisa acaba é que se dão conta de que era tudo verdade. É que se dão conta de que suas vidas estiveram por um fio. Ou por um mísero botão de relógio.

Acontece que convidei a Cristina Lasaitis para a próxima entrevista e ela, toda faceira, já foi perguntando quem vai ter que matar para a coisa rolar. Se ela soubesse que não é bem assim…

A Cristina é gata. E gatas a gente não coloca em risco.  A gente se coloca em risco por elas, nunca o contrário.

Então resolvi levar o relógio pra consertar. Não quero mais saber de discrepâncias. Chega de surpresas assustadoras, como o ataque dos zumbis na entrevista com o Xerxenesky ou a luta titânica de Godzilla e Megalon na do Erick Santos.

De agora em diante quero entrevistas calmas e pacíficas.

O relojoeiro disse que o relógio estaria pronto até terça-feira. Vou ficar no pé dele.