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Alô! É da polícia? Tem um leitor beta falando mal do meu trabalho!

01/03/2012

Esse não é um assunto inédito no blog. Já estão todos cansados de conhecer a importância do leitor beta. O cara que vai ler seu original recém-saído do forno. Ler e meter o dedo se ele for bem cri-cri (tem gente que procura leitor beta para receber elogios ou para ver sua genialidade reconhecida de forma inconteste).

Por mais que reconheçamos nossa própria capacidade de avaliação, jamais seremos tão eficientes em nossos próprios textos como supomos ser nos textos dos outros. Não temos o necessário distanciamento, a necessária neutralidade. O que para nós parece ser um reflexo do paraíso, para outros é um lixão fedido.

Eu costumo entregar meus textos para pelo menos dois leitores beta. Três ou mais sempre que possível. É inevitável que comecem a apontar questões duvidosas, inverossimilhanças, erros de continuidade, problemas técnicos e estéticos, e também a manifestar opinião a respeito do plot, externando o que fariam se fossem eles a conduzir a narrativa. Bem, é para isso que eu recorro a eles, não é?

Mas e quando as sugestões de uns vão de encontro à sugestão de outros? Quando dão pareceres conflitantes a respeito do mesmo ponto?

Vou exemplificar utilizando exemplos próprios:

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Leitor Beta 1 – Você repete demais as mesmas informações, trás à tona o âmago do conflito o tempo inteiro. É cansativo. Não precisa repetir desse jeito, o leitor não é burro. Sempre que tropeço nessas repetições, eu pulo o trecho todo, sigo adiante.

Leitor Beta 2 – Acho legal esse reforço que você dá ao drama, trazendo-o constantemente à baila. Faz-nos viver o conflito do personagem, torna-o mais humano.

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Leitor Beta 1 – Me incomoda o excesso de frases curtas. A falta de fluidez que isso provoca no texto. Trabalhe melhor sua prosa, caraça.

Leitor Beta 2 – As frases curtas agregam força, dão impacto à narrativa. É o que você tem de melhor no seu estilo.

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Leitor Beta 1 – Você é maluco? Matou a personagem principal, a melhor personalidade da trama, logo no segundo capítulo? Até onde você pretende chegar destruindo seu trabalho desse jeito?

Leitor Beta 2 – Ousadia. Matar sua melhor protagonista logo no começo me faz pensar o quanto você terá que se superar daqui pra frente. Interessante e perigoso, isso.

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Leitor Beta 1 – A reviravolta na trama me deixou frustrado. Jamais que as coisas se dariam desse jeito na época em que você localiza a história. Científica e tecnologicamente, só alcançaríamos tal evolução dentro de uns cem anos, no mínimo. Quando me deparei com isso, tive vontade de jogar o livro contra a parede.

Leitor Beta 2 – A reviravolta foi surpreendente. E a margem de anos empregada, embora relativamente curta, não inviabiliza o argumento. Ciência para realizar isso nós já temos, talvez nos falte tecnologia. Mas nada que os 30 ou 40 anos abordados não resolvam.

***

Esses textos reproduzem em linhas gerais o que recebi dos leitores beta. As vezes quem mais criticava tecia elogios, as vezes quem mais elogiava tecia criticas. Houve equilíbrio nos comentários e me sinto agradecido que tenham se repetido pouco, apontando quase sempre problemas diferentes.

Mas o que pegou mesmo foram os antagonismos descritos acima. A questão é: como lidar com eles? Minha sugestão (e como os enfrentei) é de que precisamos dar peso maior à crítica do que ao elogio.

Textos curtos demais? Não os elimine, mas os diminua. Repetições demasiadas do elemento dramático chave? Faça cortes sem perder esse caráter dramático, sem descaracterizar o conflito. Pouca verossimilhança tecnológica? Não vá nem tanto ao céu, nem tanto a terra. Amplie a margem de anos sem, com isso, precisar efetuar mudanças drásticas no argumento. Matou um dos protagonistas (o mais forte) muito cedo? Tenha em mente que se isso não for suficientemente explicado e suplantado, você será cobrado mais tarde (talvez já tarde demais). Encare seus desafios e vença-os. A reviravolta não agradou um dos leitores beta? Paciência. É nessa reviravolta que se baseia toda a sua obra. Ela é a essência da obra. Alterá-la seria o mesmo que pegar o original e o jogar na lata do lixo.

Por mais que os leitores beta possam se contradizer, por mais que sejam chatos, irritantes, insistentes no seu erro quando você grita que não errou, que era pra ser assim mesmo (errado mesmo…rs), eles são necessários. Enxergam o que passa pelos seus olhos sem sua devida atenção. Veem o que você não quer ver, porque você não aceita a ideia de ter cometido erros.

Avalie as sugestões recebidas com o uso do bom senso. Guarde a paixão na gaveta, ela só vai te atrapalhar.

Escreveu um conto? Uma novela? Um romance? Procure esses miseráveis e entregue seu trabalho à avaliação deles. Alguns cobram pelo serviço mas existem os abnegados e sádicos que o fazem de coração aberto. Qual dos dois prestadores é melhor? Difícil dizer. Mas garanto que os melhores são os que NÃO SÃO SEUS CHAPAS, NÃO SÃO SEUS AMIGOS DE BAR, NÃO SÃO SEUS PARENTES, NEM AGREGADOS. São aqueles que QUEREM DE TODO JEITO ENCONTRAR UMA MERDA NO SEU TRABALHO SÓ PARA TE FAZER VER QUE VOCÊ NÃO É O GOSTOSO QUE PENSA SER.

Por que estou gritando? Porque tem gente que custa a entender essas coisas.

Ache essas pessoas e esteja preparado… você vai odiá-las.

Brinquedos Mortais e outros assuntos.

27/02/2012

Novos projetos

Estive afastado de meu blog por um longo período. Desde a última postagem, pouco mais de dois meses de ausência. Encontrava-me em mergulho profundo num novo romance de ficção científica; tão mergulhado que ignorei várias submissões cujas deadlines estavam dentro ou perigosamente próximas do horizonte de eventos de meu romance. Esse projeto me absorveu por completo. Passou pelas mãos hábeis de três leitores beta e ainda está nas mãos de mais dois. Depois deles, entregarei o romance a um sexto leitor, cujo nome não defini (aceito sugestões e solicitações). Ainda não fechei com nenhuma editora. Não tenho pressa.

Comecei paralelamente um novo romance, esse de Fantasia. Não é comum escrever um seguido do outro; geralmente me dou alguns meses de intervalo. Uma espécie de período de desintoxicação. Mas a ideia brotou com força e pediu para ser colocada no papel. Não devo afrontar a musa. Quem é escritor, sabe o que estou dizendo.

Coletâneas

Embora tenha me afastado das submissões, fui convidado para algumas coletâneas e os contos que produzi foram em data anterior ao “mergulho” (com exceção de um deles para o qual já estava comprometido. Sinto um pouco que o resultado do conto, escrito meio que sob pressão, não tenha sido inteiramente do meu agrado). Assim, em 2012 estarei presente em pelo menos 6 coletâneas. Cinco delas como convidado e noutra como organizador, o que me leva a outra questão:

Brinquedos Mortais

Os autores aprovados nessa coletânea devem ficar tranquilos. O processo de publicação vai de vento em popa e não deve demorar a divulgarmos a capa definitiva (o trabalho de elaboração está em andamento e os rascunhos entusiasmam). Logo, logo teremos uma excelente seleção de contos numa obra que reúne os melhores nomes da FC nacional.

Leituras

Enquanto escrevo um romance, não leio. Sempre fui assim. Então estou sem ler livros desde setembro. Faço leituras esporádicas de revistas, jornais, panfletos, rótulos de xampu. Estou com uma revista Piauí nas mãos há duas semanas e só li até agora uma matéria. Estou na entressafra e não sei quando vou abrir as páginas de um livro novamente (talvez demore mesmo… devo receber meu Kindle Fire nessa semana :) ).

E por enquanto, é isso.

Tapa de amor não dói.

21/10/2009

leitor

Você está ansioso. Bate furiosamente no teclado, digitando as últimas linhas do seu maravilhoso romance, ou trilogia, ou pentalogia. Aquele que revolucionará a literatura brasileira de todos os gêneros. Aquele que será aplaudido de pé pelos leitores mais exigentes. É com um urro de alegria que você digita “FIM”. Suspira emocionado. Sente as lágrimas assomarem, mas se controla. Precisa ler tudo de novo, do começo. Precisa estar certo de que não deixou nenhum fio solto. De que está tudo como você tem certeza que escreveu. Não iria bobear, não é mesmo?

Após horas de leitura fragmentada (afinal não precisa ler atentamente cada palavra, foi você que escreveu) e alguns errinhos bobos, risíveis, próprios de gênios, porque gênios são mesmo distraídos, você permite que a lágrima teimosa lhe escorra pela fronte.

Sua obra prima, crème de la crème está pronta. Agora só falta imprimir e encadernar. Mandar para as editoras e assistir de camarote a briga entre elas pela obra do novo fenômeno editorial. Depois é ganhar o mundo. Ficar famoso. Abrir as portas para rios de dinheiro. Entrevistas na TV, nos Jornais, nas Rádios. Você sendo citado a torto e a direito. O orgulho dos pais, dos amigos, alvo da inveja dos concorrentes, todos eles inferiores ao seu talento irrepreensível.

Certo?

Errado.

Provavelmente seu romance de estréia é uma bela porcaria que não resistirá a primeira leitura crítica. Sem estilo nenhum, repleto de erros gramaticais (que você, na sua leitura fragmentada, não viu nem tinha competência para identificar), ambientação e cenários ruins, personagens rasos, diálogos bobos e desnecessários, prolixo ao extremo… um verdadeiro desastre.

É o fim do mundo? Ainda não. Mas você está na beirinha do despenhadeiro, prestes a despencar, e vai, se não fizer algo rápido.

Esse algo rápido se chama “leitor beta”. Aquele cara,  sem nenhum vínculo de amizade com você – isso é importante -, que manja do babado e está louco pra te esfregar na cara a sua incompetência. É justamente ele que vai te salvar a vida.

Depois do esculacho geral, você vai pegar esse romance, jogar no lixo – literal ou figurativamente falando –  e escrever outro. Esse melhor. Mas ainda não o ideal. Outro esculacho – porrada atrás de porrada – e mais um romance. Na décima-quarta tentativa o leitor beta – um santo esse homem – esboça um sorriso.

As coisas estão melhorando pra você? Não. Nunca vão melhorar, por mais e melhor que escreva.

Hoje fui esculachado. É uma droga. Mas faz um bem…


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