Esse não é um assunto inédito no blog. Já estão todos cansados de conhecer a importância do leitor beta. O cara que vai ler seu original recém-saído do forno. Ler e meter o dedo se ele for bem cri-cri (tem gente que procura leitor beta para receber elogios ou para ver sua genialidade reconhecida de forma inconteste).
Por mais que reconheçamos nossa própria capacidade de avaliação, jamais seremos tão eficientes em nossos próprios textos como supomos ser nos textos dos outros. Não temos o necessário distanciamento, a necessária neutralidade. O que para nós parece ser um reflexo do paraíso, para outros é um lixão fedido.
Eu costumo entregar meus textos para pelo menos dois leitores beta. Três ou mais sempre que possível. É inevitável que comecem a apontar questões duvidosas, inverossimilhanças, erros de continuidade, problemas técnicos e estéticos, e também a manifestar opinião a respeito do plot, externando o que fariam se fossem eles a conduzir a narrativa. Bem, é para isso que eu recorro a eles, não é?
Mas e quando as sugestões de uns vão de encontro à sugestão de outros? Quando dão pareceres conflitantes a respeito do mesmo ponto?
Vou exemplificar utilizando exemplos próprios:
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Leitor Beta 1 – Você repete demais as mesmas informações, trás à tona o âmago do conflito o tempo inteiro. É cansativo. Não precisa repetir desse jeito, o leitor não é burro. Sempre que tropeço nessas repetições, eu pulo o trecho todo, sigo adiante.
Leitor Beta 2 – Acho legal esse reforço que você dá ao drama, trazendo-o constantemente à baila. Faz-nos viver o conflito do personagem, torna-o mais humano.
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Leitor Beta 1 – Me incomoda o excesso de frases curtas. A falta de fluidez que isso provoca no texto. Trabalhe melhor sua prosa, caraça.
Leitor Beta 2 – As frases curtas agregam força, dão impacto à narrativa. É o que você tem de melhor no seu estilo.
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Leitor Beta 1 – Você é maluco? Matou a personagem principal, a melhor personalidade da trama, logo no segundo capítulo? Até onde você pretende chegar destruindo seu trabalho desse jeito?
Leitor Beta 2 – Ousadia. Matar sua melhor protagonista logo no começo me faz pensar o quanto você terá que se superar daqui pra frente. Interessante e perigoso, isso.
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Leitor Beta 1 – A reviravolta na trama me deixou frustrado. Jamais que as coisas se dariam desse jeito na época em que você localiza a história. Científica e tecnologicamente, só alcançaríamos tal evolução dentro de uns cem anos, no mínimo. Quando me deparei com isso, tive vontade de jogar o livro contra a parede.
Leitor Beta 2 – A reviravolta foi surpreendente. E a margem de anos empregada, embora relativamente curta, não inviabiliza o argumento. Ciência para realizar isso nós já temos, talvez nos falte tecnologia. Mas nada que os 30 ou 40 anos abordados não resolvam.
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Esses textos reproduzem em linhas gerais o que recebi dos leitores beta. As vezes quem mais criticava tecia elogios, as vezes quem mais elogiava tecia criticas. Houve equilíbrio nos comentários e me sinto agradecido que tenham se repetido pouco, apontando quase sempre problemas diferentes.
Mas o que pegou mesmo foram os antagonismos descritos acima. A questão é: como lidar com eles? Minha sugestão (e como os enfrentei) é de que precisamos dar peso maior à crítica do que ao elogio.
Textos curtos demais? Não os elimine, mas os diminua. Repetições demasiadas do elemento dramático chave? Faça cortes sem perder esse caráter dramático, sem descaracterizar o conflito. Pouca verossimilhança tecnológica? Não vá nem tanto ao céu, nem tanto a terra. Amplie a margem de anos sem, com isso, precisar efetuar mudanças drásticas no argumento. Matou um dos protagonistas (o mais forte) muito cedo? Tenha em mente que se isso não for suficientemente explicado e suplantado, você será cobrado mais tarde (talvez já tarde demais). Encare seus desafios e vença-os. A reviravolta não agradou um dos leitores beta? Paciência. É nessa reviravolta que se baseia toda a sua obra. Ela é a essência da obra. Alterá-la seria o mesmo que pegar o original e o jogar na lata do lixo.
Por mais que os leitores beta possam se contradizer, por mais que sejam chatos, irritantes, insistentes no seu erro quando você grita que não errou, que era pra ser assim mesmo (errado mesmo…rs), eles são necessários. Enxergam o que passa pelos seus olhos sem sua devida atenção. Veem o que você não quer ver, porque você não aceita a ideia de ter cometido erros.
Avalie as sugestões recebidas com o uso do bom senso. Guarde a paixão na gaveta, ela só vai te atrapalhar.
Escreveu um conto? Uma novela? Um romance? Procure esses miseráveis e entregue seu trabalho à avaliação deles. Alguns cobram pelo serviço mas existem os abnegados e sádicos que o fazem de coração aberto. Qual dos dois prestadores é melhor? Difícil dizer. Mas garanto que os melhores são os que NÃO SÃO SEUS CHAPAS, NÃO SÃO SEUS AMIGOS DE BAR, NÃO SÃO SEUS PARENTES, NEM AGREGADOS. São aqueles que QUEREM DE TODO JEITO ENCONTRAR UMA MERDA NO SEU TRABALHO SÓ PARA TE FAZER VER QUE VOCÊ NÃO É O GOSTOSO QUE PENSA SER.
Por que estou gritando? Porque tem gente que custa a entender essas coisas.
Ache essas pessoas e esteja preparado… você vai odiá-las.


