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Vós Sois Máquinas – Lido e comentado

17/01/2013

vos sois maquinas

Fiquei sabendo dessa obra no grupo de discussão do CLFC do Yahoo. Goulart Gomes citou-o como uma obra livre, de distribuição gratuita. Interessei-me de imediato e solicitei uma cópia. O autor, bastante solícito, atendeu ao meu pedido.

Devo salientar que a leitura de Vos sois máquinas me cativou.

Prosa madura, vocabulário amplo e bem empregado, abordagem interessante e desenvolvimento idem. A história se passa em 2245, após um surto de cibersuicídio (narrada em obra – Deixando de Existir – que antecede a essa) que eliminou grande parte dos androides da face da Terra.

Dessa vez, um novo e surpreendente fato voltará a abalar as estruturas mundiais: um contato alienígena a partir de um androide (Andr-El) que servirá de intermediário entra Patxa (líder alienígena) e os humanos.

Goulart Gomes lida bem com as emoções humanas, trabalha bem os personagens e instiga o leitor a se manter na leitura, sempre na expectativa de descobrir o que essa raça alienígena promete para os humanos, que tipo de evolução traz consigo.

A história nos arrasta das metrópoles para a Amazônia, nos brinda com pirâmides, com revelações que antecedem historicamente os fatos narrados, consegue segurar o pique até as últimas páginas.

O autor peca na construção do antagonista. Misterioso, ficamos sem saber mais sobre ele, quem é, o que o move. O vilão é pouco trabalhado, fica nas sombras (talvez tenha sido bem explorado na obra anterior, mas para quem não a leu, fica a impressão de falha). Poderia ter sido mais aproveitado, o que daria à história mais tensão.

De qualquer forma, uma agradabilíssima leitura (embora tenha abusado um pouco de discursos pacifistas politicamente corretos, o que chegou a soar muitas vezes inocente ou ingênuo, e me fez ponderar se os argumentos do vilão não eram mais razoáveis). Uma obra que deveria ter mais divulgação, ser distribuída além das fronteiras de Salvador (onde mora o autor), lida por mais gente. Seria um bom concorrente ao prêmio Argos recentemente promovido pelo CLFC (Clube de Leitores de Ficção Científica).

Que venham mais obras desse autor.

***

Vós Sois Máquinas – Goulart Gomes

Editora: Obra publicada com recursos do Governo do Estado da Bahia, Secretaria da Fazenda e Secretaria da Cultura
Gênero: Ficção Científica
Formato: 11 cm x 20 cm
Páginas: 148

Valor Comercial x Valor Literário

21/03/2012

Ontem retuitei os seguintes tuites da Madame borboleta (@mmeborboleta):

Madame Borboleta
Você acha que as editoras publicam literatura de qualidade? Te digo: Não. Publicam literatura que vende.

Madame Borboleta
A qualidade literária não tem absolutamente nada a ver com o mercado editorial. Qualidade é o último critério para publicação de uma obra.

Depois fiquei pensando sobre o assunto.

Valor literário e Valor comercial não são características excludentes. Sabemos todos que as editoras vivem de vender livros. Esse é seu negócio. Precisam comercializar muitos livros de Valor comercial para poder publicar alguns livros de Valor literário. O eventual lucro de uns para bancar o eventual prejuízo de outros.

Mas quem disse que um autor preocupado em escrever um bom plot não pode também elaborar a prosa para oferecer ao leitor uma mistura aprazível de qualidades?

Falando em literatura de gênero mais diretamente, atenção à estética e ao estilo não prejudica a fruição de uma boa e emocionante história.  Unir o útil e importante ao agradável e necessário é trabalho difícil mas vital para quem se preocupa com a própria imagem. Com a posteridade. As melhores histórias são aquelas cuja prosa também encanta. São as que sobrevivem na memória dos leitores. Não são descartáveis, não vão para o limbo.

Assim, diferenciar um do outro, separar o comercial do literário só é compreensível a autores que não dominam uma dessas ferramentas. E esses perdem muito. Uma boa história seja lá qual for o argumento, desde que se sustente, ganha peso se  estiver lastreada no esmero com a linguagem.

Não há nada mais terrível que enxergar uma boa ideia atrás de um monte de entulho, misturado em lixo narrativo.

Em que grupo de autores você está? Em que grupo de autores você quer estar?

O voo de Icarus – Lido e comentado

14/09/2011

Autor: Estevan Lutz
Editora: Novo Século (Selo Novos Talentos da Literatura Brasileira)
Páginas: 239
Edição: 2010

***

Num futuro distante, na cidade marítima de Agartha, a vida do jovem Icarus oscila entre dois vícios: a realidade virtual e uma droga alucinógena denominada Nirvana. Para ver-se livre dos efeitos nocivos dos seus vícios, aceita se submeter a um tratamento inovador.

A inoculação de um medicamento chamado Sinaptek, baseado em nanorobôs que atuam no cérebro, promete pôr um fim aos seus problemas. Mas ao ingerir acidentalmente uma dose de Nirvana (proibida para não prejudicar o tratamento a que se submete), o jovem se vê arremessado numa outra realidade muito distante de todas as que já teve oportunidade de conhecer.

Estevan Lutz conta a história de um homem que se vê projetado para fora do próprio corpo, numa espécie de desdobramento ou viagem astral. A premissa é bastante interessante e possibilita um leque de abordagens: a chance de construir cenários fantásticos, de fazer o protagonista viver situações surreais, de criar conflitos sobrenaturais, de amalgamar real e supra-real numa coisa só.

O autor se esforça nesse sentido e consegue obter resultados satisfatórios nas viagens fantásticas de Icarus, embora tenha se limitado demais diante das inúmeras possibilidades a serem exploradas e na complexidade que poderia acrescentar à trama.

O romance prima pela reflexão, sendo quase todo introspectivo. O jovem Icarus vive questionamentos constantes. O tom muitas vezes filosófico arrasta a trama e deixa claro que se o leitor está em busca de ação, vai perder tempo.

Não há pontos de tensão nem conflitos durante quase toda a narrativa. Cria-se uma perseguição ao final da obra, mas ela termina de forma apática, previsível e decepcionante. O protagonista e os coadjuvantes são rasos, não houve uma preocupação maior em construí-los solidamente. A opção exagerada pela reflexão e pela introversão roubou de O voo de Icarus a possibilidade de desdobrar-se a si mesmo.

A construção empolada prejudicou a leitura. A pompa desnecessária (em contraponto à clareza e a objetividade) dificultou a imersão na narrativa e acrescentou uma superficialidade à obra difícil de ignorar.

***

Exemplos:

“Com os punhos cerrados sobre o balcão, quase investi contra Lourdes por meio do emprego de adjetivos antissociais”.
Pag. 177

Isso tudo pra dizer que quase mandou a Lourdes tomar no rabo.

“Minha reação se restringiu a uma emanação criogênica que chegou a paralisar minha estrutura óssea”.
Pag. 191

E isso tudo pra dizer que estava gelado de medo.

Vários outros exemplos se repetem ao longo da narrativa. Deixou a impressão que os personagens da obra são todos sábios eruditos no púlpito.

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A leitura sem nuanças nem emoções mais fortes, aliada a linguagem afetada (tentativa fracassada de eruditismo. Não custa repetir que a melhor prosa é a mais simples, não tentem complicar), derrubou qualquer possibilidade de uma avaliação positiva. Mas em se tratando de primeira obra de autor ainda inexperiente, é aconselhável dar alguns descontos.

Contos de fadas para adultos?

02/08/2011

Contos de fadas narrados de forma original e adulta são a aposta do mercado editorial

Em sintonia com o crescimento da literatura de fantasia no mundo e com os muitos eventos relacionados ao assunto no País, as editoras iniciam a publicação de literatura com um público-alvo que vem sendo esquecido: o adulto. Na ponta dessa tendência, a Tarja Editorial lança o livro Reino das Névoas – contos de fadas para adultos, da escritora paulistana Camila Fernandes, uma das autoras da coleção Necrópole e participante de várias antologias, como a recente A Fantástica Literatura Queer.

Ganhadora de uma bolsa oferecida pelo ProAC – Programa de Ação Cultural da Secretaria de Estado da Cultura, a obra traz 7 histórias no estilo dos contos de fadas em sua forma original: violenta, quando necessário; bela, quando possível; picante, quando ideal.

O livro, de visual ousado, contém ilustrações da própria autora abrindo cada um dos contos do livro, com novas histórias que brincam com elementos clássicos: príncipes e princesas, feiticeiras, maldições, bosques misteriosos, feras falantes. Trata-se de um livro de contos de fadas que não se autocensuram e, ao mesmo tempo, têm o sabor da moderna ficção fantástica.

A apresentação, do escritor Richard Diegues, dá uma noção da obra: “Gosto de contos de fadas. Todos gostam. São histórias que ouvimos de pessoas queridas, desde tenra infância, com finais felizes, sempre nos transmitindo uma moral que devemos aprender e conservar para os futuros adultos em que nos tornaremos. (…) Crescemos com eles em nossa memória. E, então, chegamos à vida adulta e aprendemos que nem tudo neles é realmente factível na vida real. Enfim, começamos a nos perguntar: o que foi escondido pelos escritores que, ao longo dos tempos, foram adaptando, lapidando e moldando essas lendas para torná-las palatáveis? O que nossos pais esconderam sutilmente de nós enquanto os liam na cabeceira de nossas camas? Agora que somos adultos, procuramos por essas respostas. E aqui, neste livro, elas estão em cada linha (…).”

As ilustrações são um diferencial. “Sempre adorei livros ilustrados. Quero oferecer ao leitor o tipo de obra que eu mesma procuro”, explica a autora. Ela ainda destaca o fio condutor do livro: “o despertar para o mundo adulto e para o autoconhecimento, na forma dos vários perigos que os personagens têm de enfrentar para passar de um estágio a outro na vida. Minha proposta é usar a fantasia para falar da realidade”.

Reino das Névoas é uma ótima pedida para relaxar os olhos e a mente, desviando-se um pouco dessa neblina do politicamente correto que vem encobrindo a literatura nacional nos últimos anos.

Reinventar a roda ou não reinventá-la, eis a questão.

05/07/2011

Tem-se falado sempre nesse negócio de “reinventar a roda”. Trata-se de um termo que é sempre trazido à baila quando o assunto é discutir a literatura de gênero nacional em comparação com a estrangeira (mais especificamente a anglo-saxã). Usa-se normalmente quando surgem questões que tentam explicar porque um autor nacional não consegue nenhuma visibilidade lá fora ou porque esse mesmo autor nem deve tentar essa visibilidade.

“Quem vai conseguir ser notado lá fora se o que se faz aqui dentro é a reinvenção da roda?”

Ou seja, traduzindo:

“Se o que se faz aqui dentro é repetir a mesma fórmula consagrada lá fora, sem sequer extrapolá-la em originalidade?”.

Considero o raciocínio válido, mas chamo a atenção para uma coisa: não há absolutamente nada de errado em reinventar a roda, desde que se faça isso com qualidade. Histórias precisam ser boas, pouco importando se os temas abordados não são exatamente originais.

Se fôssemos todos obrigados a escrever com a mais absoluta originalidade, o gênero sequer existiria, ficando restrito a pouquíssimos; esses mesmos também limitados por eventuais arroubos de genialidade, que eclodiriam entre largos intervalos de tempo.

O que mais se faz em todo o mundo, é reinventar a roda. Mesmo os gênios a reinventam exaustivamente.

“Ah, mas então fica mais fácil tentar publicar lá fora, não fica?”

Não, não fica. E vou dizer por quê.

Deem-me uma só razão para um editor americano ou inglês publicar o SEU livro, se eles têm centenas de bons autores LÁ, reinventando a roda como você? Não se iluda achando que a sua história é megaultrasuperblast (talvez até seja). Existem inúmeras histórias megaultrasuperblast lá fora e, claro, vão escolher autores de casa e não estrangeiros cuja cultura destoa tanto da deles.

Só há uma chance: ser um sucesso de vendas aqui. E me refiro a SUCESSO DE VENDAS (com caixa alta mesmo), tendo centenas de milhares de livros vendidos. Um fenômeno. Ou ser muito amigo de alguém influente lá fora (mas isso vou deixar pra lá, não deve nem entrar nas estatísticas). Preferencialmente as duas coisas juntas, óbvio.

Claro que existem as exceções (não… no mercado anglo-saxão não existem exceções – e não vale citar Paulo Coelho), mas são elas que confirmam a regra.

Resumo da Ópera: continue escrevendo as suas histórias. Seja o mais original que puder, mas não se preocupe demasiadamente com isso. Tente escrever bem, bem mesmo, e deixe as discussões teóricas para os acadêmicos. Treine muito, aprenda muito. Esqueça que existe um mundo fora do seu mundo e você vai se descobrir bastante satisfeito com o que faz (e vai ter um monte de leitores aqui, satisfeitos com o que você faz – e alguns nem tanto, mas é assim que funcionam as coisas).

Vai que dá uma sorte e… Bem, não tente objetivamente, mas sempre deixe uma porta aberta para a improbabilidade.

Vai que você se torna uma das exceções, não é mesmo?

Mercado editorial. Big Crunch previsível.

19/01/2011

Quando publiquei meu primeiro livro (Síndrome de Cérbero) não havia, nos meus parcos conhecimentos da época, uma editora (fora a Devir) preocupada em lançamentos de autores brasileiros de gênero. Todas as outras publicavam o gênero esporadicamente, ou disfarçados para não parecerem FC ou de autores consagrados lá fora (ou ambas as coisas juntas).

Pouco a pouco foram surgindo pequenas editoras, provocando uma espécie de Big Bang editorial que vem se expandindo até agora. Acho muito curioso e significativo que surjam a cada dia novos selos, novos editores, novos organizadores. Sinal claro de que essa expansão continua a todo vapor.

Mas será que temos mercado para o boom de publicações que está se verificando?

Enquanto se amplia o mercado editorial, o de leitores continua estagnado. Ora, podemos argumentar que mesmo assim temos leitores suficientes para suprir a demanda e que há nichos suficientes para satisfazer as necessidades das editoras. Mas as editoras de ocasião (e organizadores oportunistas também) pululam, surgindo umas após as outras, num ritmo espantoso. É de se supor que viveremos uma saturação próxima.

Existem autores suficientes para suprir a necessidade de qualidade?

Sim, eles existem.

Por outro lado, é grande a quantidade de coletâneas que vão pipocando aqui e ali. A maioria delas sem uma atuação rigorosa dos seus organizadores, mais preocupados no cumprimento de prazos e na automassagem do ego do que em selecionar trabalhos de primeiro nível (alguns autores acabam se salvando nessas sopas ralas). As autopublicações também não ajudam nesse sentido, trazendo mais porcarias ao mercado que obras surpreendentes (não as condeno, porém. Para alguns não sobra alternativa). Salvam-se (quase sempre) as obras que passam obrigatoriamente pelas mãos de um editor, figura essencial nesse mercado. E é nas mãos de poucos editores competentes, dedicados e comprometidos que veremos o mercado sobreviver.

Acredito que esse Big Bang editorial acabará sofrendo uma estagnação súbita em algum momento de sua expansão e a contração que advirá será inevitável. Sobreviverão apenas as casas editoriais sérias, os organizadores empenhados com qualidade (e não com o oba-oba, próprio do meio) e os autores mais preparados tecnicamente. Os demais ficarão perdidos na areia do tempo, esquecidos.

De qualquer forma, agradeçamos. São os autores ruins que ajudam a destacar os bons. São as editoras de ocasião que ressaltam as sérias e são os organizadores oportunistas que engrandecem o trabalho dos sérios e compromissados.

Confirmando o ditado popular, nosso mercado editorial é uma balança onde pesos e medidas nem sempre estão de acordo. Mas não sei dizer até onde isso é ruim.

De Bar em Bar entrevista Mark Charan Newton.

03/11/2010

Mark Charan Newton nasceu em 1981 e formou-se em Ciências Ambientais. Depois de trabalhar vendendo livros, passou a ocupar funções editoriais em publicações voltadas a filmes e ficção na mídia, e posteriormente Fc e fantasia. Sua primeira publicação numa grande editora foi Nights of Villjamur, pela Tor UK (Pan Macmillan) e Spectra (Random House) nos EUA. A respeito da continuação, City of Ruin, China Miéville disse: "Newton usa muita paixão e comprometimento para mesclar criações vívidas e estranhas com preocupações fortes e reais."Mark atualmente mora e trabalha em Nottingham. Visite seu site: http://www.markcnewton.com

Quando o torvelinho provocado pela mudança de realidade terminou, encontrei-me numa espécie de descampado com mata esparsa e rasteira, além de algumas árvores mais próximas, com ramos distorcidos e nenhuma folhagem. Noite escura e brumosa, fria, ventos súbitos faziam rodopiar uma garoa forte.

Olhei para mim mesmo e me surpreendi. Estava vestindo um longo casaco, calças de brim folgadas e gastas, botas, chapéu e o mais surpreendente: um cinturão com dois revólveres nos coldres.

Levei as mãos em concha para os lábios e soprei ar quente nelas, tentando aquecê-las um pouco. Ao lado, uma estrada barrenta marcada por sulcos profundos que me fizeram pensar em rodas de carroças. Suspirei e fui em frente, me desviando das poças, torcendo para descobrir alguma coisa; talvez uma cidade, talvez um povoado.

Não andei mais que cinquenta metros e então parei surpreso com a visão que se oferecia a mim. Havia uma ravina e, descendo os olhos por ela, apesar da garoa e da bruma, vi o que pareciam ser inúmeras casas. O terreno recoberto por outeiros exibia uma cidade bizarra. Casas de todos os tipos e tamanhos. Prédios com poucos andares… Todos ocupando lugares ora mais altos, ora mais baixos e ziguezagueados por ruas e vielas estreitas que subiam e desciam obedecendo ao terreno acidentado.

Ao final da ravina se erguia um promontório escarpado. Nele se espalhavam cavernas iluminadas, todas elas interligadas por corredores construídos com toras de madeira que formavam um mosaico intrincado de passagens.

Lamparinas, às centenas, nas casas e prédios, nas ruas e vielas. No escarpado também. Espalhadas pelos corredores e pelas cavernas. Todas juntas ofereciam uma iluminação baça, bruxuleante, que se agitava à menor aragem.

Levei as mãos ao rosto para retirar o excesso de água que uma lufada contrária de vento atirou contra mim. Antes de prosseguir vi um garoto. Alguns metros adiante, ao lado do caminho enlameado, olhando para mim com uma expressão vazia. Tentei imaginar quem era e o que fazia ali e, principalmente, se podia me ajudar, mas antes de qualquer coisa ele desapareceu como por encanto, deixando em seu lugar um vazio súbito, logo preenchido pela garoa.

Tentei não me preocupar com isso. Talvez uma visão, talvez um fantasma, talvez uma distorção qualquer de realidade. Voltei a olhar para a ravina e dei de ombros. Se era lá em baixo que Mark Charan Newton estava, então era para lá mesmo que eu iria.

Poças d’água se espalhavam e qualquer tentativa de evitá-las restava infrutífera. Escutei conversas abafadas. Entre várias construções cujos eirados acumulavam barro, vi um Saloom. Diante dele, sob a chuva, duas parelhas de cavalos agitavam as caudas com impaciência.

As ruas eram tão estreitas que para passar pelos cavalos eu teria que ou enxotá-los para o lado, ou passar por baixo deles. As casas de madeira, construídas umas grudadas nas outras, espremidas, fazendo retorcer suas extremidades, rachando a madeira. Janelas e portas fechadas, mas frestas nas paredes exibiam a tênue iluminação interior.

Subi ao eirado do Saloon, bati as botas no chão para me livrar de boa parte da lama e empurrei a porta vai-e-vem, entrando.

Não havia mais que uns doze homens lá dentro. Dois no balcão do bar e os outros sentados diante de mesas, ora jogando cartas, ora bebendo e jogando conversa fiada fora. Viraram-se assim que entrei, calaram-se e olharam para mim, avaliando-me, levemente surpresos. Depois voltaram à rotina, me ignorando.

Aproximei-me do balcão. O barman se aproximou ressabiado e perguntou-me o que queria beber. Enfiei uma das mãos no bolso do casaco e encontrei algumas moedas em meio a um monte de balas. Coloquei uma delas no balcão e pedi um uísque. O barman olhou da moeda para mim e depois para a moeda de novo. Entendi o recado. Juntei outra moeda a primeira e ele então me serviu a bebida. Peguei o copo e me virei para procurar quem em buscava. Mas Mark não estava lá.

Tomei a bebida de um gole só, como fazem os brutos. Soltei fogo pelas ventas, queimando até a alma por causa daquele uísque vagabundo.

— Você sabe onde posso encontrar Mark Charan Newton? – perguntei ao barman.

Pela segunda vez todas as vozes se calaram no saloom. Os homens voltaram-se na minha direção, olhares perplexos e assustados. O barman arregalou os olhos e quase deixou cair o copo que segurava. Depois se afastou, nervoso, para o outro lado do bar. O homem que estava ao meu lado se aproximou e falou comigo entredentes.

— Ninguém procura por ele. Nunca. Ninguém quer vê-lo. Ninguém quer encontrá-lo. Ninguém quer saber dele. Todos o temem. Ele não pode ser encontrado, jamais. Mas encontra quem ele quer e quando quer.

— Há uma entrevista agendada. Preciso encontrá-lo.

Os risos se alargaram no salão. Alguns homens engasgaram na bebida. O barman me lançou um olhar furtivo e sorriu disfarçadamente.

— Uma entrevista com o próprio demônio, é? – perguntou o homem, dando-me um cutucão nas costelas. – Vê-se que você é mesmo um forasteiro. Só um idiota completo sairia por aí procurando ele. Não é homem, entende? Não é uma criatura feita do barro divino. Não se trata de carne e ossos, mas de sombra e angústia. Consegue me entender?

— Acho que não estamos falando da mesma pessoa – eu disse meio confuso com aquela conversa. – Mark Charan Newton é um escritor.

— Hmmm… Para uns é isso, para outros é aquilo. Ele atrai as moscas para a sua teia com artifícios diferentes. Se para você ele é um escritor, tudo bem. Vá, saia e o procure. Mas faça uma boa oração antes e entregue sua alma para Deus. Para que ela não erre o caminho e acabe parando em um lugar amaldiçoado.

O homem se afastou de mim. Os demais voltaram aos seus afazeres.  Vi-me sem alternativas senão sair e ir em busca de quem viera entrevistar. Fosse homem ou fosse qualquer outra coisa. Eu conhecia muito bem o mecanismo de meu relógio quântico e sabia que jamais sairia daquele cenário até que lhe fizesse a última e derradeira pergunta. Já acostumado aos perigos que aqueles encontros provocavam, inflei o peito e mergulhei na noite brumosa de garoa intensa e ventos traiçoeiros.

Chapinhei por algumas vielas. Em alguns trechos eu podia tocar paredes opostas apenas esticando os braços. De repente escorreguei num declive, patinando na lama. Adernei para a esquerda tentando me equilibrar, mas não tive sucesso. Antes de cair sentado numa poça d’água, vi o mesmo menino na soleira de uma porta, encostado a ela, olhando-me com a mesma expressão vazia.

Quando me levantei ele já havia desaparecido. Praguejei a falta de sorte, sentindo parte do traseiro todo molhado. A outra parte fora protegida pelo casaco. O chapéu torto na minha cabeça. Quando fui arrumá-lo, um tiro o fez sair voando, aos rodopios. Soltei uma exclamação de assombro, com o coração aos saltos. Virei-me rápido e o vi.

Um homem parado a cerca de vinte metros. Protegido pela sombra que ele mesmo parecia produzir. Mesmo os candeeiros próximos não tinham força para iluminá-lo.

Agachei-me cautelosamente para apanhar o chapéu, sem tirar o homem de vista. Ele ainda se mantinha armado, apontando o revolver em minha direção. Não podia ser Mark Charan Newton. Ou podia?

— Você está me procurando? – ele perguntou, a voz gutural.

— Você é Mark Charan Newton? – inquiri, enquanto vestia o chapéu.

O homem pareceu refletir por poucos segundos, depois girou a arma na mão e a guardou no coldre num gesto rápido.

— Você tem perguntas e eu um trabalho a fazer. Podemos tentar resolver essas coisas simultaneamente, não?

— Como preferir – respondi, tentando imaginar o que ele queria dizer com um “trabalho a fazer”.

— Então, faça a primeira pergunta… E corra! – a voz dele pareceu soar de todos os lugares e de nenhum ao mesmo tempo já que sumira diante dos meus olhos.

Aparentemente a brincadeira de sumir era prática rotineira naquela cidade. Pigarreei, olhando para todos os lados, principalmente para cima, como se ele estivesse pairando sobre mim. Fiz a primeira pergunta.

— Numa entrevista antiga você disse que o New Weird está morto. Defina essa afirmativa melhor e explique-nos a relação entre seu trabalho e o universo weird uma vez que você reconhece a influência de China Miéville na sua produção.

Esperei para ouvir uma resposta. Mas ouvi apenas o estalar da madeira velha e o vento fazendo balançar as lamparinas. Por alguns segundos. Depois ouvi um disparo. O postigo de uma porta a minha direita fendeu-se, a madeira estilhaçando. Em seguida um segundo disparo roçou de leve o ombro do meu casaco. Um terceiro acertou entre as duas botas e um quarto fez meu chapéu girar na cabeça.

Entendi na hora o que ele quis dizer com “pergunte e corra”.

Disparei pelas ruelas, afundando o pé em poças e montes de lama, virei e revirei ruazinhas, procurando um canto para me esconder. Mas aonde ia, escutava o silvo das balas passando por mim, tão perto que por pouco não me arrancavam a pele. Tratava-se de um jogo e logo vi que ele não havia me atingido ainda porque queria antes se divertir. Num último esforço, lancei-me dentro de uma casa, mergulhando pela janela, destrocando o vidro. Caí rolando e recolhi-me junto à parede, próximo a uma lareira apagada, sem lenha nem achas queimadas. Observei a casa e tive a impressão de que nunca ninguém vivera lá antes.

A voz de Mark retumbou, como se transpirasse pelas paredes.

— O New Weird era – nos círculos editoriais – um movimento de um grupo de autores. Talvez tenha sido usado para definir seus trabalhos como notavelmente diferentes, mas eu acredito que surgiu para representar uma estética que naquela época só vendia para aqueles poucos autores. muitos anos atrás. Quando você menciona New Weird para editores eles preferencialmente não querem adquirir tal manuscrito – os mundos ou tecnologias são muito escandalosas. Editores estão a procura de coisas mais obviamente comerciais e conservadoras. Mas isso não quer dizer que o New Weird teve pouco impacto – Penso que começando a ver uma nova geração de autores que foram influenciados fortemente por Miéville.

Enquanto ele falava, saquei meu revólver e verifiquei o tambor. Não ia me entregar sem luta. Meus bolsos estavam cheios de balas. A única coisa que me preocupava era no que atirar já que não sabia onde ele estava.

— Penso que o que esse movimento ajudou a fazer foi definir um ramo taxonômico mais surreal e sombrio do que é, em linhas gerais, um gênero conservador – ele continuou. Trata-se do prosseguimento de uma linha que se estende de William Hope Hodgson a Meryyn Peake a M. John Harrison a China Miéville. Gosto de pensar que meu trabalho se situa naquele lado do gênero, o que é algo mais óbvio na medida em que mergulho em minhas séries, porque aqueles escritores são os tipos que me interessam mais.

Ele parou de responder ao mesmo tempo em que ouvi passos apressados contornando a casa pelo eirado. Tentei adivinhar mais ou menos a posição do incauto passante e, sem ligar a mínima se se tratava de morador ou de Mark Charan Newton, apontei o revolver para o lugar onde julguei que ele estava e puxei o gatilho, abrindo um buraco de meia polegada na parede. Não ouvi nenhum gemido. Rastejei até a janela e espiei. Nada lá fora senão mau tempo.

Não podia ficar escondido a vida toda, então fui até a porta e a abri de supetão, mantendo-me escondido atrás do batente. Depois de alguns instantes saí, segurando o revólver na altura de meus olhos, ambas as mãos firmes na coronha, apontando-o ora para um lado, ora para outro, pronto para disparar se fosse necessário.

Então vi uma sombra correndo acima dos telhados, saltando parapeitos, fazendo a madeira trepidar perigosamente. Sem pensar muito, apontei o revolver para a direção do vulto e puxei o gatilho. Escutei o ribombar dos passos pesados se distanciando. Tinha errado o tiro. Então me coloquei em perseguição do indivíduo, seguindo os ecos que chegavam até mim. A cada curva mais eu me embrenhava na floresta de casas espremidas umas nas outras, mais eu me sentia perdido e cansado.

Alguns tiros contrários, porém, me colocaram em alerta novamente. Um deles voltou a me arrancar o chapéu, que dessa vez desapareceu em meio à confusão de soleiras. Outro me tirou um pedaço da orelha esquerda. Dei um grito de dor e raiva, me atirando contra uma parede, protegido pela cobertura de uma das muitas varandas que proliferavam.

— Maldito! – gritei, sentindo o sangue escorrer pelo meu pescoço. – Miserável!

— Perguntas! Faça as perguntas – disse-me Mark.

Rilhei os dentes tentando ignorar a forte dor na orelha e tentei me concentrar na entrevista.

Nights of Villjamur é uma fantasia noir e se passa num tempo distante do nosso. Onde você buscou a inspiração para escrevê-lo e quanto tempo gastou nisso? Explique-nos de forma abrangente a filosofia – ou denúncia social – por trás da trilogia – no caso de você usar a literatura como um meio de reflexão política e social contemporânea.

Suspirei engolindo a dor e o desconforto. Muito mais irritado com o relógio quântico que me colocava em situações extremamente perigosas do que com Mark Charan Newton, que vivia uma aventura numa realidade paralela que aparentemente lhe roubara a consciência.

— A gênese verdadeira da série veio da leitura de um escritor britânico de ficção científica pouco conhecido chamado Michael Coney. Seu romance Hello Summer terminou mais ou menos com uma cultura de se refugiar em si mesmo, e pensei: “E se isso foi só o início das coisas?” Isso me inspirou a criar a cidade para onde as pessoas se dirigem, em fuga, em face das extremas condições do tempo…

Escutava a resposta tentando adivinhar de onde vinha. À minha esquerda ou à minha direita. Talvez do outro lado da rua. Ou ainda de um dos telhados. Um estalido mínimo atrás de mim me fez saltar num giro de 180 graus. Arma apontada, dedo no gatilho, tremendo, quase disparando. Felizmente me contive. Era o garoto. Os mesmos olhos inexpressivos, mesma expressão combalida, braços caídos ao lado do corpo, cabeça levemente inclinada para o lado. Lábios suavemente fechados.

— Mas que maldito fedelho… – comecei a protestar, quando ele simplesmente desapareceu diante de mim.

—… Este foi o ponto de partida, mas acima disso quis que isso fosse uma reflexão de nossa própria cultura, embora de maneira muito exagerada. Conforme a série continua fica mais óbvio que estou falando do mundo real. Eu queria escrever uma fantasia que se endereçasse às minorias com justiça (homossexuais conduzindo personagens que não são meros coadjuvantes)…

Um rangido me fez atirar contra o telhado acima de mim. Escutei uma exclamação divertida e passos apressados. Mark estava se deslocando sobre as casas, como um gato. Corri atrás, tentando segui-lo, mas era difícil ultrapassar a infinidade de obstáculos que aquela porcaria de povoado possuía. Ao virar uma esquina súbita, deparei-me com pedaços de madeira e caibros soltos. Tropecei e cai sobre o monturo, espalhando lixo para os lados. Ouvi uma risada não muito distante.

—… Faço isso porque acredito que literatura de fantasia pode ser poderosa – um escritor pode fazer, literalmente, tudo o que desejar. Para ser honesto, não importa o quanto alguma coisa é estranha, sempre fui inspirado por exemplos mundiais reais. O mundo real pode parecer muito estranho quando examinado de perto.

Tive a impressão de sentir certo acento irônico ao fim de sua resposta. Ele tinha razão. Escritores podiam fazer qualquer coisa. Até construir cenários imaginários e neles tentar matar os seus iguais. Mas ele não ia conseguir. Eu era mais esperto do que parecia. Rastejei para fora do entulho e me coloquei sentado contra uma parede. Nem podia esticar as pernas direito sem bater na parede oposta. Observei o tambor do revólver, joguei fora os cartuchos vazios e tirei algumas balas do bolso, completando-o. Respirei fundo procurando o equilíbrio necessário, praticando o “Chi-Kung”. Senti-me logo reequilibrado, com uma consciência do entorno que nenhum humano, pós-humano ou alienígena poderia ter.

Coloquei-me de pé, inteiramente compenetrado. Músculos retesados, dedos firmes na coronha do revólver. Então dei um passo rápido para trás e o disparo efetuado por Mark só acertou um pedaço de madeira solto no chão. Girei o corpo e escapei de um segundo disparo. O terceiro ia direto para a minha testa, mas eu não estava mais lá quando o projétil passou.

— Ora vejam! – exclamou ele com visível admiração. – um oponente à altura, finalmente.

Não me dei ao trabalho de lhe responder, girei o pulso sem mudar minha posição e puxei o gatilho fazendo o projétil passar tão perto de minha orelha sã que pude lhe sentir o calor. A bala transpassou tábuas molhadas e acertou o alvo. Ouvi um grito de dor e surpresa, seguido por um manquitolar apressado, em fuga.

— Seu primeiro romance foi Reef. Antes de publicá-lo, qual era sua atuação dentro do fandom britânico? Você costumava escrever e publicar contos na internet ou em antologias? Quem era, literariamente, Mark Charan Newton ontem e quem será ele amanhã?

Fiz a pergunta retomando o caminho pela via principal que muito pouco se distinguia das vicinais. Minha percepção ia além do físico, perpassando o metafísico. Eu conseguia ouvi-lo respirar. Conseguia ouvir o gotejar de sangue que lhe caia pela perna ferida. Sabia exatamente onde ele estava. Era só uma questão de poucos minutos para eu mesmo lhe responder quem ele seria amanhã: Um cadáver.

— Eu trabalhei como editor para a editora Solaris e antes disso eu trabalhei com venda de livros (Eu cuidava do setor de Fantasia e FC na loja!). Esses trabalhos foram muito divertidos e consegui ir a convenções e conversar com autores que eu admirava muito. Eu era um fã do gênero – um geek – e foi uma época maravilhosa…

As palavras dele eram forçadas, recortadas por ofegos. Estava mais do que ferido. Estava assustado. Muito assustado.

—… Nunca tendi a escrever muitos contos, eu prefiro a amplitude dos romances, assim, eu ia simplesmente para casa após meu trabalho editorial a cada noite e escrevia minhas próprias coisas. Consegui um agente ainda jovem, com 23 anos de idade. Poucos anos antes de tirar a sorte grande.

Saquei o outro revolver e andei com passadas calculadas, mantendo-os firmes nas mãos, como se estivesse prestes a puxar o gatilho. Podia ouvi-lo se distanciar de mim na mesma medida em que eu avançava. Ele arrastava uma das pernas, a esquerda para ser mais preciso, e não conseguia mais percorrer os telhados com a rapidez e a precisão com que o fazia antes. Logo me vi ao lado do Saloon, misteriosamente silencioso. Os cavalos que estavam amarrados à sua frente também não estavam lá. Ignorei Mark por alguns instantes e me desloquei até a porta vai e vem. Dei uma espiada para dentro e não estranhei ao descobrir que não havia mesas, nem bebidas. Nem gente, nem nada que lembrasse que o lugar fora freqüentado nos últimos 10 anos. Tratava-se de uma cidade fantasma, claro. Habitado por espectros. Talvez Mark fosse mais um deles. Não. Claro que não. Espectros não se feriam nem sangravam.

— Uma das brincadeiras mais comuns no Mercado editorial – pelo menos no Brasil –, diz que os editores estão cansados de trilogias e que pedem aos escritores que enterrem qualquer projeto como esse. Sabemos que sempre há um fundo de verdade em qualquer brincadeira. Apesar de ter escrito e conseguido publicar uma, você não acha que existem projetos de trilogias em excesso (herança de Tolkien) e muito pouca qualidade? Não concorda que novos escritores deveriam preocupar-se com projetos menores e só desenvolver os maiores depois de obter a experiência necessária para isso?

Não esperei que ele fosse responder à minha pergunta com rapidez. Achei que ele ia querer manter o silêncio numa tentativa vã de impedir que eu o localizasse pelo som de sua voz. Mas a prática do “Chi-Kung” me permitia perceber o mundo com uma clareza e uma percepção que fugiam a compreensão dos não iniciados. Mas ele me surpreendeu, dando-me a resposta quase imediatamente ao final da pergunta.

— É difícil dizer. Alguns dos mais bem sucedidos livros de fantasia nos EUA e na Inglaterra são series. Steven Erikson é um dos mais populares na Inglaterra e sua serie já chegou ao décimo livro. Mas eu não pensaria que essas séries são ruins. É uma arte muito difícil escrever um determinado número de romances conectados já que tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. tantas coisas para. Algumas histórias, de fato, requerem muitos romances para serem contados. Eu propus uma série com uma proposta diferente em mente: eu queria que cada romance fosse autônomo e a história – até certo posto – auto contida. Penso que consegui isso nos livros dois e três. É um desafio para mim. Não quero sentir como se tivesse lesado meus leitores. Cada romance deverá deixar o leitor satisfeito.

Posicionei-me no meio da rua. Ao fim dela, após subidas e descidas, após outeiros, elevava-se a escarpa. Nela as cavernas, inúmeras, interligadas por corredores e iluminadas por candeeiros cuja luz pouco ou nada significava. Orlando a rua, casas e pequenas construções de um ou dois andares, amontoadas umas nas outras, vergastadas pela chuva que começava a piorar. O vento ululava fazendo vibrar o povoado.

Ergui lentamente ambos os revólveres, apontando-os para um mesmo local, à minha esquerda, cerca de quarenta metros de distância, sobre um telhado inclinado; oculto atrás de um parapeito de madeira velha e rachada. Lá estava Mark, a perna ferida pulsando em ondas de dor.

— Contos, noveletas, grandes romances, séries, são todas – continuou ele, num timbre próximo ao alívio, como se sentisse que a entrevista estava no final – formas artísticas diferentes, e no meu conhecimento, todos os escritores tem preferências diferentes. Não sei o quão bom escritor de contos eu seria, embora eu admire a disciplina da forma. Eu não acho que alguém poderia afirmar que qualquer uma destas formas é melhor do que outra. Existem bons e maus contos, assim como há boas e más trilogias. Escrever muitos contos pode fazê-lo um bom escritor de contos, mas isso não necessariamente o faria um bom romancista, e vice-versa.

Assim que a sua última palavra foi proferida, puxei ambos os gatilhos. As detonações ocorreram simultaneamente e foram encontrar o alvo sem a mínima chance de erro. Ouvi um grunhido, um corpo rolar e logo cair do telhado, de costas na rua enlameada. Estendido, imóvel. Aproximei-me dele, observei-o atentamente. O chapéu a recobrir-lhe o rosto. Após alguns instantes ele se moveu. A cabeça girou, os olhos embaciados me procuraram e ele balbuciou alguma coisa que não entendi. Agachei-me para poder ouvi-lo melhor. Aproximei meu ouvido de sua boca.

— “Chi-Kung” – ele sussurrou. – você se acha esperto, mas esse não é o seu território… É o meu. Morra seu maldito!

Então ouvi um engatilhar. Ergui a cabeça e vi o menino bem diante de mim. Exibia um sorriso cheio de dentes, expressão de demoníaca satisfação. Um revólver nas mãos, apontado diretamente para a minha testa. Mark Charan Newton ainda me agarrou pela garganta, mão preênsil, me esganando com uma força que me deixou atônito.

Corri uma das mãos para o botão do relógio, apertando-o, ao mesmo tempo em que ouvi o disparo. Uma língua de fogo me atingiu arremessando-me para a mais absoluta inconsciência.

Despertei em casa, caído na sala, horas mais tarde. Ainda sou acometido por terríveis enxaquecas. Minha testa tem uma marca circular tênue e enegrecida. Arrepio-me só em pensar que poderia ter me atrasado um segundinho a mais em apertar o botão do relógio. Dessa vez escapei por muito pouco.

“Sense of wonder” e malabarismo estilístico.

16/09/2010

O diálogo abaixo surgiu após um comentário do Saint-Clair na postagem anterior. Exemplifica a maneira como interpreto as narrativas herméticas que pouco ou nada me acrescentam. Não acredito no sense of wonder pelo sense of wonder. Ele não serve como justificativa para si mesmo.

Todos sabem (pelo menos deveriam saber) que escrever fácil é muito difícil. Entendam como fácil uma historia (estamos falando de literatura de gênero) compreensível, com argumento inteligente, boa prosa, gramaticalmente correta, fluida, bem construída, que arrebate o leitor, que o transporte. É isso, afinal, que ele quer ao ler histórias com enredo.

Ah, mas literatura de gênero precisa de enredo, necessariamente? Eu acredito que sim. Senão não seria “de gênero”. Malabarismos linguísticos só são interessantes para uma pequena parcela de “iniciados”.

Tudo bem que o enredo não precisa ser linear. Pode ter uma elaboração que a torne única ou destacada entre as narrativas mais tradicionais. Mas isso ainda não tira dela a obrigação de interagir com o leitor, levando a leitura a uma conclusão satisfatória.

Tibor:

Eles escrevem bem, sim. Mas me incomoda que tentem escrever usando malabarismos estilísticos. Literatura de gênero é, apesar da redundância, literatura de gênero. EXIGE argumento, EXIGE enredo. Ignorar isso é tentar fazer um mix com o malabarismo circense de parte da literatura maisntream. Ambos ficam corrompidos nessa tentativa. Tanto os leitores do realismo vão torcer o nariz pro trabalho, quando os leitores do gênero. O que parte desses autores acaba fazendo é uma narrativa mainstream com pitadas de terminologia científica. Em vez de FC acabam criando um gênero híbrido que não tem a ver com nada. Uma espécie de Quasímodo literário.

Saint-Clair Stockler:

Mas você não acha que pode haver outro caminho pra literatura de gênero? Não desconsiderando o que você falou (com o que concordo inteiramente), não pode haver por aí fora alguém que faça malabarismos estilísticos e, ainda assim, seja escritor de gênero?

Tibor:

Posso aceitar esses malabarismos se eles conseguirem se justificar na trama e não como demonstração da habilidade do autor, num excesso de egocentrismo idiota. Tem gente que exagera, pô.

Saint-Clair Stockler:

Mas acho que empregam essa técnica para criar o sense of wonder nos leitores.

Tibor:

Eles tentam forçar o sense of wonder nos leitores. Há maneiras de conseguir isso sem apelar para malabarismos. E, convenhamos, se só nos malabarismos esse sense of wonder é alcançado por eles, temos aí um grande problema, não acha?

Saint-Clair Stockler:

Mas eu não estou dizendo que TODO escritor de ficção de gênero tem que fazer assim. O normal é fazer como você disse. Mas não podemos admitir algumas exceções?

Tibor:

Claro que as exceções são admissíveis. Só não podem exigir que eu, apesar de admiti-las, ainda tenha que gostar delas. Mas respeito quem, como você, gosta. Existem autores que conseguem atingir o sense of wonder sem apelar para malabarismos e a esses eu respeito muito mais. Leu o conto do Cirilo no Imaginários 3? É um bom exemplo sobre o que estou falando. Conseguir surpreender o leitor com uma história arrebatadora e bem contada é muito mais difícil do que criar cenários bizarros, personagens misteriosos, prosa criptografada e diálogos sem pé nem cabeça (cenários bizarros e personagens estranhos por si só, podem ser ingredientes de ótimas histórias). Tem gente que lê esses malabarismos e tem orgasmos. Eu tenho vontade de rasgar as páginas.

E não, o Saint-Clair ainda não leu o conto citado por mim. Se você também não leu, faça um favor a si mesmo e leia!

Cadê a Relevância? Vocês viram a Relevância por aí?

13/08/2010

Recentemente presenciei um papo sobre a intenção ou pretensão de escrever algo relevante quando tudo nas livrarias é absolutamente irrelevante. Então fiquei pensando nessa tal de “relevância”. Quem é ela? Como se comunica ou como se manifesta?

Contra argumentei que a relevância de uma obra literária é decidida pelo leitor e não pelo autor.

A mim parece extremamente contraproducente procurar por ela, já que a creio como nebulosa, fluídica, sem textura e multifacetada; proporcionando interpretações as mais diversas, de acordo com o observador (ou leitor, no caso).

Preocupar-se com ela na hora de escrever é dar a nós mesmos uma importância maior do que temos de fato (e essa importância está sujeita ao nível de relevância que temos entre nossos iguais). Ou então o autor procura algo que seja relevante para ele e não para um hipotético leitor. Aí posso considerar a procura válida, embora egocêntrica. Nesse caso não se publica o livro. Imprime-se um único e raro exemplar e deixa-se na cabeceira da cama para consultas diárias (até que o próprio conceito ou critério de relevância se altere e aquele único exemplar vá parar na lata de lixo).

Ah, mas se trata do cânone e não do gênero?

Continuo pensando a mesma coisa. Só é relevante aquilo que o receptor considerar assim. Não importa em que gênero. O que consideramos relevante é desconsiderado por outros. O que é relevante hoje pode não ser mais amanhã, pode não ser mais daqui a poucos segundos.

A não ser, claro, que se trate de devaneio filosófico sem nenhum objetivo maior que não exercitar a abstração e a metafísica. Porque querer ser relevante em literatura contemporânea, seja o gênero que for, é dar soco em ponta de faca. Ou então escrever estudos acadêmicos… Aí há relevância… Pelo menos para um pequeno grupo interessado. Para outros o assunto continua extremamente irrelevante.

E estejam certos de uma coisa, tudo o que escrevi até agora nessa postagem é filosofia barata, de porta de botequim.

Desconsiderem-na se procuram aqui alguma relevância.

De Bar em Bar entrevista Libby Ginway.

13/07/2010

M. Elizabeth (Libby) Ginway é professora associada no Departamento de Estudos de Espanhol e Português da Universidade da Flórida. É autora de Ficção Científica Brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro (Bucknell, 2004) lançada em português pela Devir no ano 2005. Nesse mesmo ano, ela organizou o simpósio “Latin America Writes Back” sobre a ficção científica latinoamericana, e atualmente está organizando um livro de ensaios em inglês sobre este tema com J. Andrew Brown. Ela já publicou artigos em Brasil/Brazil, Extrapolation, Femspec, Foundation, Hispania, Revista Iberoamericana, com outro na Luso-Brazilian Review por sair. Em maio, com uma bolsa de aperfeiçoamento, viajou ao Chile para assistir um simpósio da narrativa “weird” na América Latina e, em julho, uma coleção de seus ensaios, Visão Alienígena será lançada pela Devir em São Paulo. Embora a ficção científica brasileira seja sua área principal de pesquisa, ela está ampliando seu campo de atuação para incluir a ficção científica de outros países da América Latina. Ela ofereceu uma aula sobre a ficção científica latinoamericana em inglês, e um ensaio baseado nessa experiência aparecerá em Teaching Science Fiction, organizado por Peter Wright e Andy Sawyer, pela Palgrave McMillan.

Embora o ar parecesse parado, podiam-se ver os revoluteios do pó, erguidos por uma leve aragem que soprava discretamente. O céu de profundo azul, sem nenhuma nuvem, e só muito raramente riscado por jatos a grandíssimas altitudes, era uma abóbada recortada no horizonte por montanhas cinzentas.

Uma estrada, a State Route 375, cujo asfalto parecia vir de lugar nenhum e ir a lugar algum, cortava o deserto numa faixa preta empoeirada. Poucos metros distantes dela, um posto de gasolina que qualquer um juraria abandonado. Duas bombas. Uma loja de conveniência cuja porta envidraçada parecia não ver limpeza há longa data.

Numa das bombas, um Chevy 500 de carroçaria amassada e queimada pelo sol parecia aguardar alguém para abastecê-lo.

Mas todo esse cenário não era desabitado. Dentro da loja de conveniência, dois homens e uma mulher observavam ao redor com espanto e certa perplexidade.

— De onde vem essa voz? – perguntou Libby.

— Esse relógio maluco acrescentou um narrador onisciente à história – respondi, batucando o relógio, irritado.

Libby Ginway franziu o cenho, pegou uma caixa de papelão repleta de quinquilharias e latas de cerveja e virou-se, saindo dali.

— Quando aceitei a entrevista, sabia que testemunharia coisas estranhas. Mas essa…

— Eu mesmo sempre me surpreendo com esse maquinismo. Uma vez alterou minha personalidade, acredita nisso? Quase matei… sim… eu quase matei um entrevistado. Foi horrível.

Libby jogou as traquitanas na carroceria, separando, antes, as cervejas. Colocou-as no assoalho do carro. Sentou-se no banco do motorista e ligou o motor.

— Vai ficar aí fora? – perguntou-me com alguma impaciência.

— E para onde vamos? – quis saber.

— Missão secreta – me disse dando um piscar de olhos.

— Gasolina, não vai precisar?

— Abasteci antes de você chegar.

Quando apareci no cenário o narrador onisciente ainda falava da abóbada celeste e das montanhas cinzentas. Caminhei direto para a loja e a encontrei lá dentro. Ela conversava com o homem que a atendia e tive a nítida impressão de que trocavam informações importantes, de tal forma que estavam próximos e pareciam cochichar um ao outro. Libby vestia uma calça jeans, botas de cano longo, camisa xadrez e um boné. Os cabelos estavam soltos. As mãos moviam-se rapidamente, parecia nervosa. Antes que me aproximasse inteiramente, o homem colocou sobre o balcão a caixa de papelão repleta de trastes que para mim pareciam não ter nenhuma serventia.

Abandonei as breves reminiscências e respirei fundo com a nítida impressão de que ficar no posto seria mais prudente. Mas precisava segui-la.

Sentei-me ao lado dela, bati a porta com força moderada e ela não fechou. Um sinal de Libby me mostrou que tinha que erguê-la um pouco se queria vê-la travada. Na segunda tentativa, ela fechou corretamente.

— Cenário inóspito – eu disse enquanto ela dava marcha a ré e voltava para a auto-estrada.

— Deserto de Nevada – ela respondeu.

— Interessante! Perto de Las Vegas, certo? Opa! Dessa vez essa entrevista terá glamour!

Libby riu-se baixinho, acenando com a cabeça em sinal afirmativo. Tive a impressão de que não era exatamente essa a ideia dela.

O deserto se estendia a perder de vista, entremeado por formações rochosas esparsas, pequenas elevações montanhosas, saguaros e árvores Joshua. A State Route 375, também chamada de “extraterrestrial Highway” pouco movimentada, via um Chevy 500 avançando em boa velocidade. A cidade de Rachel já ficara para trás. A seguir, ininterruptamente, desembocaria na State Rote 318, em Crystal Springs, destino que não seria atingido pelo casal intrépido.

— Não tem como desligar essa porcaria? –perguntou Libby enquanto abria uma lata de cerveja e jogava outra para mim.

— O narrador onisciente disse, e não, não dá pra desligar essa porcaria, que Crystal Springs não será atingida… para onde estamos indo? – inquiri, intrigado.

— Desse jeito, como esse “cara” narrando os acontecimentos, não há missão que possa ser bem sucedida, não acha? Jean-Claude Dunyach está certo… fabricação brasileira. Ou pior, paraguaia.

— O relojoeiro parecia oriental – protestei em voz baixa, incerto se isso servia ou não como argumento. Abri a lata de cerveja e bebi um gole rápido.

Era melhor mudar o assunto e nada mais natural se começasse a entrevista. Quando antes o fizesse, mais rápido sairíamos daquele deserto escaldante.

— Recentemente você tem estendido os seus contatos com a comunidade latino-americana de FC. Soube que voltou recentemente do Chile. O que a atraiu na FC de outros países latinos e que semelhanças mais visíveis você enxerga entre eles e a FC praticada no Brasil?

Libby bebeu de sua cerveja, passou a língua nos lábios colhendo algumas gotas que escaparam e deu uma guinada com o carro para a esquerda, saindo da estrada principal e tomando outra, secundária, em péssimo estado de conservação.

— Este contato evoluiu por etapas, primeiro em congressos e depois por minha realidade acadêmica.  O Centro de Estudos Latinoamericanos tem um orçamento que inclui bolsas para desenvolver aulas novas.  Recebi uma em janeiro 2009 para dar uma aula em inglês sobre FC latinoamericana, utilizando a antologia Cosmos Latinos, organizada por Andrea Bell e Yolanda Molina-Gavilán.  Sendo contos de FC principalmente hispanoamericanos (os únicos representantes brasileiros eram Jerônimo Monteiro, André Carneiro e Braulio Tavares), resolvi suplementá-la com contos brasileiros traduzidos para o inglês, uma série de filmes de FC latinoamericanos e o romance Turing’s Delirium pelo autor boliviano Edmundo Paz-Soldán.

Diminuiu a velocidade acalmando-me, afinal estava a mais de sessenta milhas por hora numa estrada vicinal que não aceitava mais que trinta.

— Alfredo Suppia me ajudou com o cinema brasileiro – continuou –, e convidei mais dois palestrantes da área de FC hispanoamericana, Rachel Haywood Ferreira e J. Andrew Brown. A experiência resultou num artigo que vai aparecer em Teaching Science Fiction, ed. Peter Wright and Andy Sawyer (Palgrave).  Foi assim que comecei a ver traços em comum entre a FC hispanoamericana e a brasileira. Embora superficial, posso começar que a história, as gerações e as divisões são semelhantes.  O primeiro momento corresponderia à Primeira Onda, com a época atômica vista desde a periferia, fantasias de colonização inversa (o colonizado/alienígena vencendo o colonizador), e um pessimismo ou desconfiança a respeito da tecnologia.  Nos anos 70-80 vemos reações à ditadura em metáforas de sexualidade, uma das constantes nas distopias brasileiras e, na produção a partir dos anos 90, mais cyberpunk e a temática de violência, mas com variações regionais ou nacionais.

Depois de duzentos metros ela parou o carro. Bebeu toda a cerveja da lata e a jogou para fora do carro. Olhou para longe, avaliando o caminho e mais detidamente as elevações montanhosas que iam se aproximando.

— No Cone Sul, por exemplo, o ciborgue é o ser torturado – retomou a resposta –, dilacerado. No México, o implantado ciborgue é o operário, vítima das grandes corporações. Pelo que vi no Chile, há ciborgues assassinas e vampiros utilizando a violência como vingança ou exorcismo do passado, e existe também uma vertente New Weird, combinando a representação grotesca do corpo com traços de FC e horror, que talvez tenha aspectos em comum com a nova geração de escritores brasileiros. Aqui nos EUA, onde o espanhol se projeta mais, se pode entender o meu desejo de abranger novas áreas, trabalhar mais com alunos de espanhol e da pós-graduação.

Ela abriu mais uma lata, acelerou e retomou o caminho, mantendo uma velocidade moderada.

— Isto também ajudaria o programa de espanhol, já que não tem um número suficiente de aulas/professores para atender os alunos de forma adequada.  Por isso me candidatei em janeiro deste ano para uma bolsa de “aperfeiçoamento” vamos dizer, com a idéia de viajar ao Chile, melhorar meu espanhol, e, finalmente, dar uma aula sobre a FC latinoamericana em espanhol no futuro.  Outro aspecto desta bolsa era de pesquisar, ou, melhor dizendo, editar uma série de artigos de crítica e teoria da FC latinoamericana com J. Andrew Brown. Dividimos o trabalho, com ele organizando os textos hispanoamericanos e eu os brasileiros.  Assim, teremos um livro de crítica sobre a FC latinoamericana em inglês.  Ele também fazia parte do congresso no Chile, onde o escritor argentino/ americano Mike Wilson organizou o evento na PUC do Chile.

— Terminou? – perguntei ironicamente depois de sua dissertação.

— Essa pergunta, sim.

— A voz onisciente disse que a rodovia em que estávamos chama-se alguma coisa parecida com rodovia extraterrestre. Por que isso?

— Você já ouviu falar da Área 51?

— E quem não ouviu?

Libby não retrucou e isso ficou batendo na minha cabeça. Mas, por pouco tempo. Estávamos no deserto de Nevada, disse ela, anteriormente. A área 51 ficava lá. Caiu a ficha.

— Essa missão que você disse – pigarreei – não tem nada a ver com essa base ultra-secreta, tem?

— Qual a segunda pergunta?

Observei os saguaros e a vegetação arbustiva ressequida. As montanhas estavam próximas, bem próximas. O pó invadia a cabine do carro. A evidente mudança de assunto de Libby me pôs nervoso. Mas lhe fiz a pergunta seguinte.

— Qualitativamente é possível comparar os bons nomes de FC brasileira com autores da FC americana, inglesa, francesa, russa e alemã (países com tradição forte nesse nicho literário)? Nesse aspecto, ou seja, na qualidade literária, é possível afirmar que nossa literatura está historicamente avançando a ponto de acompanhar a qualidade de produção nesses países?

Ela pisou no breque e levou o carro devagar para fora da via. Estacionou uma centena de metros adiante, próxima de uma formação rochosa.

— Já que as idéias se transmitem ou se divulgam rapidamente, não acredito no “atraso” cultural. Existem diferenças de mercado e tradição. Precisa ter ciência para escrever ficção científica? Um país economicamente periférico pode ter conhecimento direto de um gênero que surgiu de países tecnologicamente mais avançados? Na América Latina do século XIX, as elites latinoamericanas aproveitavam o discurso hegemônico da ciência como a linguagem autoritária de conhecimento, auto-conhecimento e legitimização, o que Augusto Emílio Zaluar, entre outros, usava para justificar a idéia de progresso e civilização, uma extensão do projeto colonial.

Ela parou de falar por instantes para abrir a terceira lata de cerveja. Impressionou-me a rapidez com que ela ia secando uma lata após a outra.

— Veja só, em 2008, John Rieder publicou um livro Colonialism and the Emergence of Science Fiction pela Wesleyan UP, discutindo textos do século XIX desconhecidos do gênero, mostrando que as origens da FC estão profundamente ligadas ao discurso colonial.  Vários textos citados por Rieder, não são os clássicos do gênero, muito pelo contrário, são textos desconhecidos, mas mostram uma tendência geral da justificativa de “conquista” ou de “civilização.”  Então existe um mito de melhor qualidade; talvez seja questão de percentagens, mercado, e tradição.

Do lado latinoamericano, o livro de Rachel Haywood Ferreira (The Emergence of Latin American Science Fiction, Wesleyan, forthcoming 2010) confirma que a FC não era um gênero “importado” para escritores do século XIX, só que os textos não eram entre os clássicos nacionais, nem reconhecidos como FC.  Roberto de Sousa Causo também mina as origens do gênero no Brasil, documentando a produção do século XIX até meados do século XX em Ficção científica, Fantasia e Horror no Brasil, 1875-1950 (UFMG, 2003).  Estas pesquisas marcaram o primeiro passo em estudos de escritura marginal, a recuperação histórica—os feministas fizeram o mesmo para consolidar seu campo de estudo.  Quanto à qualidade, acho subjetivo.   Acho que alguns contos de André Carneiro, Rubens Teixeira Scavone, Dinah Silveira de Queiroz são comparáveis a Bradbury, por exemplo.  Acho as diferenças interessantes, como no romance Fuga para parte alguma de Jerônimo Monteiro que tem a vitória das formigas sobre a humanidade, um final tão distinto do filme americano de formigas gigantes Them em que o herói James Arness vence a praga.  A realidade é a mesma: guerra atômica, mas a visão é distinta. Talvez eu possa falar de tendências da FC brasileira contemporânea.  Existem vários escritores que cabem dentro da linha fantástica e literária, outros associados com a fantasia, FC hard ou histórias alternativas.  A maioria escreve em todos os subgêneros.  Existem muitos escritores originais e versáteis que estão sendo cada vez mais reconhecidos.  Estão surgindo novos nomes, com professores/autores escrevendo e incentivando a nova geração.  As revistas online têm crescido. Os subgêneros de fantasia pura, horror, vampiro, cyberpunk, FC escrita por mulheres, oferecem textos para todos os gostos.  Não sei se dá para comparar. Deve-se ler e conhecer o que se faz na Europa e na FC Anglo-americana, para comparar com o que se escreve no Brasil.

Saiu do carro, esticando rapidamente as pernas. Depois se dirigiu à carroceria. Desci também a tempo de vê-la retirar a caixa de quinquilharias e colocá-la no chão, à sua frente. Aproximei-me, curioso e fiquei observando-a enquanto ela a vasculhava. Retirou dois objetos metálicos oblongos. Entregou-me um deles.

— E para que serve isso? – perguntei com curiosidade, enquanto analisava o objeto.

Ela apontou o que tinha nas mãos para a área descampada à nossa frente e apertou o que parecia uma leve concavidade sobre a superfície metálica. Uma onda de choque fez voar pedras, arbustos e um saguaro, arrancando tudo do chão como se um tornado acabasse de passar por ali. Fiquei boquiaberto.

Voltou a se debruçar sobre a caixa, retirou de lá um cinturão que prendeu em seu quadril e mais alguns aparatos. Colocou-os em bolsas próprias no cinto. Embora não pudesse atribuir serventia a eles, já os respeitava até com certa solenidade.

— De onde você arrumou essas coisas fascinantes? Que tecnologia é essa?

— De onde eu vim, existem coisas muito mais impressionantes. Essas aqui são brinquedos de criança.

— De onde você veio, afinal?

Libby não respondeu. Observou a elevação montanhosa mais próxima e fez sinal para que eu a acompanhasse. Seguimos numa escalada branda até o cume, que atingimos em cerca de quinze minutos. Enquanto subia, me perguntava onde estava me metendo e, principalmente, com quem estava me metendo.

Ela se debruçou e fiz o mesmo. Observei o outro lado e vi a base militar a cerca de dois ou três quilômetros de nós. Uma cerca a delimitava não mais que duzentos metros adiante, logo após o sopé da montanha.

— Eis a famosa base Nellis – murmurou Libby.

— Vamos invadi-la? – perguntei num suspiro nervoso. Eu sentia que era exatamente isso que iria acontecer.

— Vamos! – respondeu Libby com entusiasmo.

— Seremos vistos. Com sorte, presos e processados. Com azar, metralhados.

— Não seja tão pessimista.

— Pelo menos me diga o que vamos fazer. Acho que tenho o direito de saber antes de arriscar o meu pescoço.

Libby sorriu, olhou para o céu límpido e depois de alguns segundos, respondeu-me.

— Resgatar um artefato alienígena de suma importância e que está nessa base desde que ela foi construída.

Limitei-me a ficar calado, olhando para ela com perplexidade.

— Uma coisa foi descoberta por um espeleólogo numa gruta em uma dessas montanhas. Militares cercaram a área evitando a aproximação de curiosos e pouco a pouco foram militarizando-a ao ponto de se tornar essa base militar. Até agora não conseguiram descobrir como funciona nem como podem adentrá-la. Eles têm uma visão errônea de sua utilidade.

— Alienígena? – perguntei, enfim.

— Passamos muito tempo esperando a oportunidade de podermos invadi-la e recuperar o que é nosso. Em condições normais seria uma ação fadada ao fracasso, mas esse seu relógio nos deu a resposta. A missão numa realidade paralela teria tudo para ser bem sucedida. E aqui estamos!

— Já faz alguns anos que seu livro foi editado no Brasil. De lá para cá, houve uma reativação da FC Nacional, com novíssimos autores e editoras investindo no gênero. Como eles se encaixam nas teses defendidas pelo livro? – perguntei de socapa, numa tentativa de mudar o assunto e, quem sabe, acelerar o final da entrevista e ir embora dali antes que mais absurdos fossem ditos e cometidos.

Libby retirou um aparelho do cinturão, ajustou alguns controles, escutei um zumbido curto antes de ela colocá-lo de volta ao cinturão. Depois se levantou e acenou para que eu a seguisse na descida da montanha.

— Enlouqueceu! – exclamei, assustado com aquela descida. – Seremos vistos! Estamos à vista de todos. Há vigilância!

— Acalme-se – respondeu-me ela com tranquilidade. – Ninguém está nos vendo. Nem lagartos, nem tarântulas, nem coiotes. Estamos cobertos por um manto eletromagnético que nos confere invisibilidade.

Não tentei entender. Não perguntei como aquele artefato funcionava, nem quem Libby era na verdade. Estava assustado demais para raciocinar com clareza.

— Somos sessenta e oito mil na Terra – disse-me ela, como se antecipasse as minhas dúvidas. – mil quatrocentos e vinte só no Brasil. Trezentos e quinze no Rio de Janeiro, um deles em Pinheiral!

Engasguei.

— Você não está querendo dizer que o Jorge Luis Calife… que ele… que, é? Ele é?

Libby não respondeu, limitando-se a manter um sorriso enigmático nos lábios. Ficou assim, como se se deliciasse com aquelas revelações até que chegamos à cerca. Eletrificada, claro.

— Meu livro está ligado a uma questão histórica e cultural. Como a FC retrata atitudes perante a modernização vistas na interseção dos ícones/subgêneros da FC e os mitos culturais brasileiros — Ela começou a responder enquanto retirava do cinturão uma pequena pistola de solda. Pelo menos era o que me parecia numa avaliação bem superficial. — É claro que com a globalização e a popularidade da Fantasia e de outros subgêneros; Steampunk, Vampiros, New Weird, no Brasil, existe essa idéia de superar limites nacionais; que o mundo da FC é transnacional, como aquela velha questão de cosmopolitanismo versus nacionalismo.  Fico contente com o novo interesse pelo gênero, já que quando comecei minha pesquisa sobre a FC da pós-ditadura por volta de 2000, encontrei um certo desalento após a euforia dos anos 90 e o surgimento do fandom e a Segunda Onda de escritores. Portanto, acho que existem toques ou resquícios de brasilidade ou perspectivas que surgem de uma cultura, e que, para mim, são de maior interesse, embora o autor esteja escrevendo sobre outra cultura ou ambientando o texto em outro país. Por exemplo, (e o exemplo não é dos mais originais, por isso não sou escritora), posso imaginar um autor americano de FC escrevendo sobre a invasão da região amazônica, mas a idéia de Roberto de Sousa Causo ou de Gerson Lodi-Ribeiro de dividir o Brasil ou de aliá-lo com outros países da região e mudar a política, parece-me uma perspectiva latino-americana, uma visão de dentro, ou uma visão pelo menos não hegemônica. Então, acho interessante a combinação de um gênero volúvel, supostamente importada, dentro perspectiva de autores brasileiros.  Li o conto Steampunk de Jacques Barcia Uma vida possível atrás das barricadas (2009), e achei interessante a idéia de uma golem e um autômato quererem ter filhos.  O conto Julgamentos (1993) de Cid Fernández lida com ciborgues que desejam o mesmo. Não vi muitos textos em inglês sobre este tema, o ciborgue representa a crise de papéis de gênero, ou o ser “pós-gênero.” Na FC do Chile e da Argentina, como mencionei antes, o ciborgue muitas vezes representa uma maneira para entender a tortura, enquanto no México o ciborgue representa a crise econômica do mercado do trabalho.  Para mim, isto é fascinante. Meu artigo The Post-human in Third Wave Brazilian Science Fiction, traduzido por César Silva, vai aparecer no Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, que aborda justamente esta questão a antecedentes históricos, FC transnacional, etc. A meu ver, ainda existem traços de brasilidade nesta nova onda, e talvez minha ótica seja esta, então é isso que eu vejo. É claro que existem outras perspectivas, outras aproximações.  Os meus interesses refletem meus valores e minhas preferências, então como pesquisadora de fora, quero ver o que existe de diferente.

Então apontou a estranha pistola para a cerca e disparou um raio azulado de larga abrangência. O que era metal se transformou numa massa amorfa fumegante, escorrida pelo chão. Ouvimos ao longe uma sirene. Avançamos, caminhando lado a lado até que dois jipes militares surgiram, se aproximando rapidamente. Libby me segurou no braço, fazendo sinal para que me mantivesse calado. Os jipes passaram por nós a toda. Eu estava perplexo. Soldados desceram e foram observar o estrago. Gesticulavam e falavam em rádios.  Caímos fora, caminhando com cautela, tentando não fazer barulho, nem levantar pó.

Aproximamos-nos de instalações. Grandes galpões ladeavam nosso caminho. Veículos militarem e de passeio estacionados. Uma pista de pouso e decolagem com duas grandes aeronaves estava à nossa direita, não mais que cem metros de distância. Foi pura ilusão acreditar que entraríamos ali sem nenhum problema. Logo surgiram soldados. Fomos obrigados a nos refugiar atrás de galões, ladeando paredes, fazendo de tudo para não ficar no caminho nem das pessoas nem dos veículos. Não podiam nos ver, mas podiam se chocar conosco. Isso não seria uma boa ideia.

— Do outro lado há uma montanha e nela uma gruta. Ela mergulha centenas de metros de profundidade na rocha. Uma câmara interna abriga o artefato que te falei. Está alocado atrás de portas praticamente inexpugnáveis, protegido por sistemas de segurança de última geração e guardado por soldados treinados e fortemente armados.

— E vamos resgatá-lo? – perguntei com evidente perplexidade.

— Sim. Não é excitante?

— E como pensa passar pelos obstáculos? Espremendo-se em paredes até lá? – minha preocupação maior era com o narrador onisciente. Estava apavorado pensando que ele poderia surgir de repente, no meio da ação, denunciando nossas posições.

Libby sorriu vitoriosa e sacou o objeto metálico oblongo. Engoli em seco diante das perspectivas. Ela me puxou pelo braço, apontou para o caminho que deveríamos tomar e apertou o botão. Foi um festival de soldados, latas, pedregulhos e jipes sendo jogados para os lados, numa lufada violenta. Incitou-me a correr e foi o que fiz. Tirei o meu objeto, segurei-o na mão enquanto corríamos e fui apertando o botão de quando em vez, me divertindo em ver as coisas e as pessoas voando. Logo ouvimos tiros, mas esses eram dados sem direção. Não sabiam em quem nem para onde disparar. Logo escapamos da área central, metemo-nos em trilhas mais estreitas, entre armazéns, e vimos, então, a famosa montanha diante de nós.

Uma rampa guarnecida por cercas de arame farpado. Guarita de entrada onde dois soldados estavam postados. Cancela eletrônica. Nada que não pudéssemos derreter ou “assoprar” para os lados. A entrada permitia que veículos leves fossem por ela. Uma grande comporta de aço, aparentemente automática, franqueava a entrada à gruta. Não duvidava encontrar lá dentro uma espécie de cidade subterrânea. Libby evitou a entrada principal. Aproximou-se de uma lateral e disparou a sua pistola de raios na cerca. Enquanto ela escorria pelo chão, corremos para a o início da rampa. Como esperávamos, os dois soldados saíram de seus postos, apontavam as armas para a área logo após o buraco e disparavam rajadas a esmo, tentando atingir alguma coisa que não podiam ver. Passamos sob a cancela sem riscos maiores e corremos rampa acima.

Foi uma entrada silenciosa.

Nada além de uma espécie de antecâmara antecipando uma parede larga central com elevadores. Havia corredores laterais, amplos e com teto bastante alto, mas Libby não deu a eles nenhuma atenção.

— Está pensando em apertar o botão e descer calmamente? – perguntei não sem algum sarcasmo.

— Claro que não – respondeu-me ela. – não são simples botões que fazem movimentar esses elevadores. É necessário digitar um código alfanumérico no painel frontal e permitir escaneamento de retina. Não temos tempo para tudo isso.

Catou no cinturão um badulaque e, enquanto a grande comporta de aço ia se fechando às nossas costas, acionada externamente, girou nele um dispositivo e uma luz esmaecida, amarelada, iluminou a porta de um dos elevadores. O metal pareceu ondular. Libby aproximou a mão e a tocou mostrando-me como parecia estar liquefeito.

— O efeito dura alguns minutos – disse ela. – Saltaremos para dentro. Do outro lado há um fosso. A queda deve ser de aproximadamente oitocentos metros. Como os elevadores se movem por força eletromagnética, infelizmente conflitam com meu dispositivo. Enquanto descemos, ficaremos visíveis. Creio que lá embaixo, já no solo, idem.

— Saltaremos? – perguntei perplexo. – No vazio? Vamos nos esborrachar!

Libby catou uma caixinha de dentro do cinturão. Girou uma pequena manivela – tão prosaica que duvidei que pudesse ser artefato alienígena –, apertou um botão e o devolveu novamente ao cinturão. Agarrou-me num abraço apertado e jogou-se contra a porta do elevador, arrastando-me com ela. Nós a atravessamos como se estivéssemos atravessando uma parede de água.

E caímos. Caímos vertiginosamente. Só não tão rápido quanto eu poderia supor. Dava-me a impressão de estarmos contidos por cordas ou redes invisíveis. Descíamos o vão livre, profundamente escuro, sem nada enxergar, numa velocidade tão moderada que deu à Libby tempo de procurar uma lanterna cujo facho era poderoso e, com ela, iluminar o que parecia ser o final daquele mergulho.

— Há mais uma pergunta? – perguntou-me Libby. Eu estava atônito demais para me lembrar da entrevista.

— Sim – respondi.

— Faça-a, então. Mas prometa-me que não apertará o botão do relógio enquanto o artefato a que vim buscar não estiver já em meu poder.

— Prometo – respondi, assustado com esse compromisso. — Está previsto para este ano o lançamento de um novo livro seu no Brasil, pela Devir. Fale-me deste seu novo trabalho de não ficção.

Visão alienígena brinca com a idéia da minha condição de estrangeira e do tema do estranhamento, isto é, ver o Brasil pela ótica da FC.  Oferece um panorama de meus artigos desde os anos 80 até a atualidade. Quando escrevia minha tese de doutorado, trabalhava principalmente os gêneros da distopia e do conto fantástico como reações à política da ditadura.  Depois, quando cabia desenvolver mais este trabalho inicial, comecei a pesquisar a FC a partir da década dos 90.  O novo livro reúne uns 12 artigos ou ensaios. O primeiro artigo é de maior extensão e resume o método utilizado no meu livro, aproveitando outros exemplos que não tive tempo, espaço ou conhecimento para incluir no livro de 2005. Tem um pouco de tudo—organizei os ensaios por categoria: Icones da FC: robôs, ciborgues e a cidade, subgêneros da FC: histórias alternativas, FC hard ou fantasia, Ditadura e FC: o conto fantástico e a distopia, e Escritoras da FCB.  Quatro artigos são inéditos. Então, no conjunto da obra, toco na obra dos seguintes autores, Levy Meneses, Guido Wilmar Sassi, Dinah Silveira de Queiroz, Rubens Teixeira Scavone, Jorge Luiz Calife, Braulio Tavares, Gerson Lodi-Ribeiro, Ivanir Calado, Henrique Flory, Cid Fernández, Daniel Fresnot, Marien Calixte, José dos Santos Fernandes, Octávio Aragão, Fábio Fernandes, Adriana Simon, Simone Saueressig, Júlio Emílio Braz, Marcia Kupstas, Martha Argel, Helena Gomes, Luiz Roberto Mee, Orlando Paes Filho, Mariana Albuquerque, Michelle Klautau, Finisia Fideli, Carlos Orsi, Roberto de Sousa Causo, André Carneiro, Murilo Rubião, José J. Veiga, entre outros. O novo artigo sobre o pós-humano que vai aparecer no Anuário inclui referências a textos de Felipe Tazzo, Cristina Lasaitis, Octávio Aragão e Goulart Gomes. Um artigo que vai aparecer no mês que vem pela Luso-Brazilian Review é sobre os seres “transgender” na FC &FB desde Machado de Assis até o presente.  Acho que o meu próximo livro vai lidar mais com textos da nova geração, sobretudo na minha análise sobre cibogues e clones.  Para ver o que meu colega Andrew Brown anda pesquisando, veja o índice do livro que lançou.  Ele mexe mais com autores hispanoamericanos slipstream: http://us.macmillan.com/cyborgsinlatinamerica.  Andrew me disse que no livro dele a América Latina não inclui o Brasil, então recomendou que eu continuasse com o tema.  Quanto aos escritores da nova geração, o artigo publicado a quatro mãos com Causo sobre a história da FCB saiu na mais recente edição da revista Extrapolation 51.1 (2010) 13-39.  Lá falamos da Terceira Onda, Gaming, Horror, Fantasia, the New Weird, Graphic novel.   Algumas novas tendências e autores estão lá. Terminamos o artigo em 2008 e só está saindo agora!

Então pousamos sem traumas sobre o teto do elevador que estava no subsolo. Libby desativou o aparelhinho de antigravidade e voltou a utilizar o fazedor de paredes liquefeitas. Caímos dentro do elevador, de pé, embora eu tenha quase sentado o traseiro no chão numa escorregada. Ela empunhou o objeto oblongo e avisou-me que a ação começaria agora.

— Procure, assim que sairmos daqui, um lugar para se esconder. Lembre-se, você prometeu não apertar o botão do seu relógio. E não se preocupe comigo. O que vim buscar é um transporte interdimensional. Livro-me com ele dessa realidade alterada e volto para nossa própria realidade. Pena que só dá pra um.

Assim que a porta do elevador se transformou em água ela apertou o botão do objeto. Uma onda de choque violenta irrompeu dentro do recinto ao mesmo tempo em que nós nos lançávamos para fora. Havia uma câmara ampla, teto tão alto que seria necessário um helicóptero para alcançá-lo. Fomos disparando à medida que avançávamos. Surpreendia-me o amplo espectro de atuação daquela diminuta arma. Homens se elevavam no ar, indo cair muitos metros adiante, atordoados. Balas eram rechaçadas pelas ondas de choque. Corri para detrás de alguns caixotes enquanto Libby avançava de encontro a… fiquei pasmo. Dois pratos cinza chumbo emborcados um contra o outro. Diâmetro de aproximadamente quarenta metros. Um disco voador! Era isso mesmo, um disco voador!

Ela continuava disparando. Ao se aproximar da nave, uma rampa que durante anos não fora descoberta nem acessada, desceu suavemente. Ela entrou e desapareceu lá dentro, não sem antes fazer o sinal de OK na minha direção. Continuei pasmo, olhando aquela maravilha, sem me dar conta dos perigos que ainda corria.

A nave interdimensional começou a vibrar suavemente, emitindo luzes que pareciam brotar de sua superfície. Todos os soldados que estavam próximos se afastaram, incertos do que deveriam fazer. Observavam, apenas, assombrados, aquela nave finalmente, após tantos anos, tornar-se operacional. Mas os que imaginavam que nada poderia ocorrer por estar ela encerrada numa câmara subterrânea, certamente jamais se perguntaram como teria ido parar ali. A nave elevou-se no ar um bom par de metros, girou sobre seu próprio eixo algumas vezes e, então, num estalo, desapareceu. Estavam tão embasbacados que não se deram conta de outro intruso oculto atrás de caixas de madeira, a poucos metros de onde se encontravam.

O que eu mais temia aconteceu. Praguejei contra o narrador onisciente que fez duas dezenas de soldados armados e furiosos voltarem-se na minha direção. Teriam continuado ignorantes de minha presença não fosse essa interferência inesperada e idiota. Mas fui mais rápido que as balas que fizeram explodir os caixotes. Apertei o botão do relógio e voltei para casa.

Colaboraram nessa entrevista Delfin, Marcello Branco e Jorge Luis Calife.


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