Conto – Gárgulas

gargula-em-paris

Gárgulas são enfeites, disseram-me. Ostentam sua figura nos parapeitos, continuaram a dizer. Sob sol e chuva, ao sabor do tempo. Sempre lá, distantes dos olhares alheios dos passantes. Mas há em todas nós uma vontade soberana que pode vencer a pétrea imobilidade. Um ânimo que foi originalmente acrescido pelas mãos do escultor. Depois moldado e exacerbado sob os temporais. Em cada relâmpago, uma fagulha de vida.

Meus olhos antes mortiços, agora se tornam rubicundos. Esforço-me a níveis quase intoleráveis na tentativa de mover um único dedo de minha pata. Sinto estremecer as costas rígidas. A língua dardeja timidamente. Há um afã explosivo que me move os pensamentos. Não serei como as outras. Não permanecerei exposta pela eternidade, estátua concretada, sem vontade própria.

Ahhh… Suspiro trêmulo e gigante de emoção. Exulto em discordar daquelas que negaram esta possibilidade. Olho-as de esguelha, todas elas, estanques em suas posições seculares. Atônitas a perceberem minha recente mobilidade, mesmo que ainda frágil e insegura. Quase gritam para que não me exceda, para que mantenha a mesma disposição de sempre, recurvada sobre a borda do edifício, ameaçadora.

Mas ignoro-as. Estalo o pescoço, sentindo músculos ganharem vida. Minha boca crepita ligeiramente, deixando cair pequenos pedriscos, esses substituídos por carne tépida. Estou quase lá, a me mover em definitivo. A primeira de todas, fazendo história.

Ha-ha… Rio para que me ouçam. Ha-ha-ha… Continuo exultante de emoção. Ha-ha-haaaaaaaaaa…

Despedaço-me em múltiplos fragmentos no calçamento, deixando perplexos os passantes que se afastam assustados. Um fio de sangue escorre de minha boca incólume junto à cabeça, apesar do turbilhão da queda e do choque violento contra o solo.

Antes de perder em definitivo minhas capacidades de percepção há pouco adquiridas, percebo, lá no alto, risadas de escárnio.

Tolas, penso amargurada, tolas e acomodadas.

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5 Respostas to “Conto – Gárgulas”

  1. Saint-Clair Stockler Says:

    Gosto bastante desse conto! Parabéns!

  2. Camila Fernandes Says:

    Vou lembrar disso da próxima vez em que vir estátuas despedaçadas. 😉

  3. Eric Novello Says:

    Tô num clima de gárgulas. O Informante do Ícaro que aparecerá daqui a pouco no livro é um gárgula. Mas coitado, ele não vai cair de cabeça 🙂 Abss!

  4. Caso pessoal. Autocrítica e ineditismo. « Says:

    […] Gárgulas – É só outro blogue […]

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