Conto – Filamentos iridescentes como numa chuva de néon

Escrevi esse conto para participar do primeiro Prêmio Braulio Tavares 2007 promovido pela comunidade de Ficção Científica do Orkut. Não tinha grandes espectativas já que era um exercício de estilo e não acreditava que fosse agradar. Mas, para minha imensa surpresa, fui o vencedor com até larga vantagem sobre o segundo colocado.  Quem já leu, tem a oportunidade de ler novamente. Quem não leu, aproveite agora.

Filamentos iridescentes como numa chuva de néon

O cogumelo se formou lá longe, afastando a noite com uma radiação brilhante e maravilhosa. Apoiei a caixa no parapeito da janela, coloquei a mão na manivela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Meus lábios se entreabriram respirando o ar morno. Poucas janelas com luzes, madrugada avançada. O bafo quente chegou segundos antes da onda de choque. Minhas bochechas se retraíram e dei um ligeiro toque, um movimento circular sutil na manivela. A onda de choque bateu com vigor, arrastou pedras e vidros e depois retornou uma centena de metros. Furiosa, brigando com o tempo. Milésimos de segundo. Bateu de novo. Voltou. Bateu mais uma vez e retornou até que o cogumelo se retraísse sobre si mesmo, voltando ao momento crucial de sua detonação. A caixa e a manivela, obedientes, acatando minhas ordens. Um segundo a mais e… Lá estava ele de novo. O clarão ofuscante seguido pelo cogumelo. Noite se transformando em dia. Cidade adormecida, inerte, distante da destruição. A onda de choque se aproximando. Ao longe via telhados sendo arrastados… O pó da morte transformando matéria em energia. Apoiei a caixa no parapeito da janela, coloquei a mão na manivela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Madrugada avançada. A onda de choque bateu com vigor. Minha mão moveu-se um milímetro. Meu corpo voltou à posição inicial e a onda de choque retornou centenas de metros. Lá vinha ela arrancando postes. Ia e vinha ao meu sabor. Destruição e reconstrução intercaladas. Cabeças vazias, mergulhadas no sono. Casais notívagos perdidos entre beijos. Boêmios encantados com o fulgor da morte, sem saber que o fulgor era de morte. Guardas-noturnos embalados em cochilos rápidos, aspirando a radiação, sorvendo a morte que os sorvia num repente. E o cogumelo se retraiu numa bolha cada vez menor até nada mais restar senão o obus que bate no chão, vindo de uma queda astronômica. O cogumelo se formou lá longe, afastando a noite com uma radiação brilhante e maravilhosa. Apoiei a caixa no parapeito da janela, coloquei a mão na manivela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Restaurantes fechados, boates na faxina, prostitutas cansadas. Cães e gatos na labuta noturna da caça. Antenas de televisão captando o vazio. Chiados de interferência. A onda de choque, avassaladora, carregando em seu bojo tudo o que encontra pelo caminho. Corpos, carros, tijolos… Voando tresloucados. Violência terrível. E a caixa apoiada na janela. Minha mão na manivela, brincando de Deus, que vai e volta no tempo como se ele não existisse. A bomba, a explosão… Fogo de artifício que espoca lá longe, anunciando uma nova era. A caixa e a manivela. Vai e vem, cogumelo que cresce e retrai. Onda de choque que arrasa e retorna, recolocando tudo em seu devido lugar. Uma brincadeira curiosa. Não há gritos nem lamúrias. Se ainda fosse de dia… Seria possível me embevecer com a perplexidade. Alimentar-me com o terror. Mas era madrugada avançada. Pena. Apoiei a caixa no parapeito da janela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Afastei a mão da manivela e aguardei. Aquela era uma madrugada calma e sossegada. Ao longe a onda de choque fazendo erguer as saias da cidade. Impudente, violando sua sacra e duvidosa condição de virgem. Fragmentos do que era a civilização flutuavam numa gigantesca nuvem de detritos. Minhas bochechas se retraíram, meu corpo foi violentamente arremessado para trás, o prédio arrancado de suas fundações… A mão bem longe da manivela. Cansara da brincadeira. Aquela era uma noite recheada de estrelas… E de filamentos iridescentes como numa chuva de néon.

Anúncios

Tags: , , ,

Uma resposta to “Conto – Filamentos iridescentes como numa chuva de néon”

  1. Caso pessoal. Autocrítica e ineditismo. « Says:

    […] Filamentos iridescentes como numa chuva de neon – Orkut – 1º Concurso de Contos Braulio Tavares 2008. […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: