Eis que, de repente, me vi olhando para um caralho gigante.

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Sei que estou sendo repetitivo dando destaque para a primeira linha da noveleta do Orsi, mas tenho que admitir que este é, provavelmente, o melhor começo que já tive oportunidade de ler nos últimos tempos.

O que o olho vê é um trabalho publicado pela Scarium numa série que parece estar se iniciando, de novelas e noveletas de autores nacionais (quiçá também de fora, se der chance).

Escrito por Carlos Orsi Martinho, narra a aventura de um estudante brasileiro numa realidade alternativa onde os Estados Unidos e o oriente trocam papeis, não só ideológicos mas também culturais.

Tenho para mim que o Orsi é, sem dúvida, o melhor escritor contemporâneo de ficção científica brasileira. Bate tranquilamente outros nomes conhecidos e consegue (pelo menos comigo) a façanha de agradar 100% com suas histórias. É comum lê-las e terminá-las com uma sensação de perda, de fim prematuro, que só grandes e competentes autores são capazes de provocar num leitor.

Não foi diferente com este O que o olho vê. De ritmo ágil, se torna quase impossível abandonar a leitura. Mergulhamos (literalmente, diria um oftalmologista) na narrativa para sair dela sem fôlego. O estudante brasileiro se torna ferramenta nas mãos de agentes e entra de cabeça numa trama complexa que envolve a busca e reprogramação da matriz de um vírus dentro do olho de um paciente hospitalizado.

Lembra vagamente Viagem Fantástica, de Isaac Asimov.

Gostei muito, como não poderia deixar de ser. Mas teria feito ligeiramente diferente. Houve uma grande oportunidade de dar ao personagem principal um pouquinho mais de profundidade. Eu teria transformado a noveleta numa novela de fato com a exploração do imenso trauma psicológico que tal empreendimento provocaria no protagonista (como essa idéia é excelente, eu provavelmente a teria transformado num romance, se tivesse a competência que o Orsi tem para narrativas desse gênero).

A criação de djinns com a função de, entre outras tantas, inibir as emoções do protagonista, livra o Orsi desse tratamento mais aprofundado e transforma o personagem num Will Smith de fundo de olho (com todas as virtudes e os defeitos decorrentes disso).

Mas aí já é extrapolação e interferência minha.

O que o olho vê é uma excelente noveleta e torço para que outras tão boas assim sejam publicadas pela Scarium. Só reclamo da encadernação meia boca e da capa que nada tem a ver com a história contada.

De resto… do caralho!

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8 Respostas to “Eis que, de repente, me vi olhando para um caralho gigante.”

  1. Saint-Clair Stockler Says:

    Não chego ao ponto de afirmar que o Carlos Orsi é o melhor escritor de FC brasileiro da atualidade (posto que seria, creio, do Bráulio Tavares se o Bráulio Tavares não fosse tão dispersivo, isto é, não atirasse em todas as direções literárias, mainstream e não-mainstream), mas ele é, sim senhores, um dos melhores.

    Recentemente li o Tempos de fúrias e gostei muito: o cara tem criatividade, fôlego e ritmo. Mais do que 97,89% dos autores tupiniquins de gênero têm, lamento dizer…

    • Tibor Moricz Says:

      Saint, eu também daria ao Braulio esse posto se ele escrevesse mais FC.

      • Saint-Clair Stockler Says:

        O Bráulio Tavares é um dos únicos dois ou três (não há mais do que isso) autores brasileiros que não está abaixo de escritores americanos e/ou ingleses de FC. Ele fica ombro a ombro com eles e, em certos momentos, chega mesmo a estar acima da maioria deles.

  2. Saint-Clair Stockler Says:

    Correção: o título do livro do Orsi é Tempos de fúria, no singular.

  3. Pedro Americo Says:

    Esperava o quê por R$ 6,00 (Reais) + correios incluso encadernação de ouro? Tenha paciência! Achei muito boa a publicação, Carlos é maravilhoso e a iniciativa é ótima para popularizar a FC. Eu Encomendei logo 10 exemplares para distribuir aqui no Distrito Federal.

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Sorry, mas acho que preço baixo não é desculpa pra fazer uma capa/encadernação ruins. Então aumenta o preço em 2 reais e faz um produto melhor, com uma encadernação mais resistente. Se bem que tenho duas Scarium aqui e elas estão intactas…

  4. Retrospectiva Crítica – Romances (1) « Ficção Científica e Afins Says:

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  5. O que o olho vê (Carlos Orsi) « Guia de Literatura Fantástica Brasileira Says:

    […] no Mensagens do Hiperespaço Resenha de Tibor Moricz Resenha de Romeu Martins no […]

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