Ficção de Polpa 3 – Comentários – 1ª parte

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A série Ficção de Polpa se encerra no terceiro volume? Não sei. Mas se continuar, vou querer ler os outros com o mesmo afã com que li estes últimos. O volume três centrou suas histórias no fantástico, alargando bem mais o espectro de gênero compreendido pela FC e Fantasia. Estou agradado? Certamente que sim. No geral os contos foram bastante bons, mostrando que linguagem sofisticada e estilo podem fazer a literatura de gênero, sem rebuscamentos, nem experimentações estilísticas herméticas. Mostraram também que enredo é fundamental para a literatura de gênero, assim como Kyle Reese é fundamental para John Connor.

Literatura de gênero e mainstream são distintos, têm códigos próprios, mas podem melhorar oferecendo um ao outro o que têm de melhor. Forma e enredo são complementares. Ignorar um em benefício do outro é marcar passo, é estancar.

E o leitor não merece isto, merece?

Então vamos parar o que para alguns é mero blá-blá-blá obscuro e comentar os contos:

1- Recuperação – Antonio Xerxenesky

Como reagir quando você descobre que existe outro você comendo a sua namorada? Esse conto me lembrou um episódio de Além da Imaginação, que apresentava um argumento parecido. Dá margem para diversas e angustiantes abordagens. O Xerxenesky deu mais ênfase ao espanto e a indignação do protagonista do que do evidente trauma psicológico que isto lhe causaria. Gostei porque a situação é inquietante demais.

2- O anão – Sergio Napp

Exclusão social e transcendência. Ou, como ferrar aqueles que te ferraram. Um anão se vinga da cidade em que morava por ter sido excluído em virtude de suas deficiências físicas. Um bom conto.

3- Trabalho, chefe e um gole de café – Luciana Thomé

A história da funcionária dedicada que jamais vê seu valor reconhecido. Venho reparando que a Luciana tem um estilo aparentemente definido. Gosta de escrever histórias que provocam muitas mais perguntas do que apresentam respostas. Brincando, escrevi, a lápis, na página do livro: cadê os cogumelos? Deve estar cheio de gente assim pelas empresas, descendo pelas goelas dos patrões. Um bom conto.

4- Carinhas coloridas – Helena Gomes

Esse conto me fez lembrar também de um episódio de Além da Imaginação. O garoto que se recusa a comer legumes e vegetais, contentando-se apenas com hambúrgueres e batatas fritas. Uma caixa de bolinhos com carinhas bonitinhas, todos eles de legumes, os mais variados. Conspiração, condicionamento, magia malévola. Não há como escapar. Você VAI COMER isso! Achei muito bom.

5- Aos pedaços – Rafael Spinelli

Conflitos íntimos de um assassino. Remorso e arrependimento finais. Autodestruição. Um conto bem conduzido, mas a frase que o fecha é muito feia: “assustadora fusão completa”.

6- Sonho de consumo – Ubiratan Peleteiro

Um pedido a uma estrela cadente (era uma estrela? Não era uma estrela? O que era aquilo, afinal? Faltou explicar) e o protagonista dá a uma revista o poder de ser explorada internamente em níveis metafísicos (eu teria dado o poder ao protagonista de explorar quaisquer revistas e jornais, seria bem mais interessante). Até que a história é criativa e vai de encontro a várias aspirações do gênero (… ah, como gostaria de poder “pegar” esse relógio que tá no anúncio…), mas o tema foi subexplorado. Apenas razoável.

7- Fabulosas inconsistências – Felipe Kramer

Espectadora de palestra ouve relatos de encontros com fadas, tendo certeza, por razões pessoais, de ser tudo mentira. Levanta-se, indignada, e vai embora. Eu também quis ir embora, mas quando vi que era um conto curtinho, resolvi ficar até o final. Dispensável.

8- Indiferente à tragédia – Fernando Mantelli

Homem dá carona para mulher morta. Sensação de Déjà-vu. Histórias parecidas pipocam por ai com certa regularidade. Bem conduzida, mas nenhuma novidade.

9- Os melhores amigos – Clarice Kowacs

Cenário pósapocalíptico. Humanidade egressa. Um homem e um cachorro. Um conto bastante perturbador. Final surpreendente. Excelente trabalho.

10- Ursinho de sonho – Renato Arfelli

Menininha apaixonada pelo ursinho de pelúcia cresce apegada ao brinquedo até que os hormônios efervesçam e outras coisas passam a ter mais importância. A menininha, já moça, não cogitava ter o próprio Chucky dentro do quarto. Embora prometa pelo menos uma cena de terror, não passa de um sustinho previsível.

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18 Respostas to “Ficção de Polpa 3 – Comentários – 1ª parte”

  1. Samir Says:

    Oi Tibor,

    Muito legais as tuas observações sobre os livros. Estamos adorando! Mas discordo muito da visão de que existe uma “literatura de gênero” separada de uma literatura “mainstream” que possa ser definida em termos de linguagem ou forma.

    Abração, e aguardando ansiosamente pela segunda parte dos comentários.

    E sim, a coleção Ficção de Polpa continuará, na medida do possível, anualmente.

    S.M.

    • Tibor Moricz Says:

      Oi Samir,

      Recentemente se estabeleceu uma discussão (quase acadêmica) sobre literatura de gênero e mainstream, liderada
      pelo Nelson de Oliveira e sustentada também pelo Roberto de Sousa Causo. Não há como negar que ambas tem
      códigos próprios, embora possamos considerá-las com LITERATURA.
      Em uma a forma é supervalorizada em detrimento do conteúdo, enquanto que na outra se sucede o contrário.
      Defendo uma fusão (não assustadora e completa…rs) entre ambas. Levando ao leitor de gênero histórias mais
      bem contadas, onde o estilo tem tanta importância quanto o conteúdo.
      Foi nesse sentido que me manifestei.

      Abraços,

      • Samir Machado de Machado Says:

        Pois então, mas o que torna um livro de ficção científica ou fantasia como mainstream? Não seria únicamente o grau de exposição midiático, ou o poder econômico de distribuição e marketing de uma grande editora? Quando se diz literatura de gênero, o mais correto não seria dizer, talvez, “liteatura de fandom”? Porquê o gênero, em si, não só é uma idéia abrangente, como a definição dos códigos que definem ele são bastante mutáveis. O gênero muda pra se adequar à uma nova obra que o redefine e vai se tornando mais e mais abrangente.

        Gosto dessa discussão, mas não sei em que pé anda isso, pq não acompanho muito, Meu ponto é que acho limitador pensar literatura de um modo que me parece segregacionista.

      • Tibor Moricz Says:

        Oi Samir,

        Tecnicamente, mainstream se refere mesmo ao que é corrente, aceito, massificado, mas também se tornou usual referir-se a ele com relação à literatura realista em contraposição aos demais gêneros ou correntes literárias.
        Também acho que literatura de fandom pode ser mais exemplificativo, mas também não deixa de ser um termo restritivo.
        As discussões se alargam no meio, numa tentativa de determinar ambas as correntes e localizá-las dentro do cenário literário (mesmo nos EUA, a literatura de fandom, ou de gênero, não é considerada mainstream, embora haja, lá, muito mais aceitação para ela).
        O que se coloca, e com razão, é que quem escreve FC, ou fantasia, não conhece ou não liga para estilo. Se preocupa única e exclusivamente com o conteúdo, atitude que não se vê na literatura realista, muito mais preocupada com a forma.
        Uma bronca recente minha (e que vem trazendo repercussões nas esquinas virtuais) é a de alguns quererem fazer experimentalismos estéticos, absurdamente herméticos, tendo como fulcro a FC. E leitores de FC e Fantasia (em sua grande maioria) querem conteúdo e não hermetismos incompreensíveis.

      • xerxenesky Says:

        Oi, Tibor. Vou na contramão dessa tua bronca aí.
        Leitores do “realismo” (entre aspas gigantes, realismo me parece um gênero exercido por poucos do mainstream, como sei lá, Milton Hatoum, Assis Brasil, enfim, a turma mais “certinha”) pedem tanto conteúdo quanto forma. Do contrário, gente como J.M. Coetzee nunca faria sucesso. E pra mim, para a FC ser interessante, o cuidado formal tem que ser tão grande quanto o conteúdo. Não sou um grande leitor de FC, tenho meus ídolos (K. Dick, p. ex.), mas do que é feito hoje em dia, para me interessar, só gente como, digamos, Thomas Pynchon em Arco-Íris da Gravidade (que muitos nem classificariam como FC).
        Acho que, no final das contas, para uma obra ser boa, “o que é narrado” tem que ser tão relevante quanto “como é narrado”. E experimentalismo é bem-vindo, mesmo quando não há nada mais para inovar. Ou seja, nem só conteúdo, nem só forma. Ou, se me permitem um radicalismo, uma literatura onde conteúdo e forma estejam indissociáveis, onde “o conteúdo esteja na forma”.
        Também não acredito na separação mainstream/FC, exceto no que diz respeito ao público. Mas autores como Gaiman são lidos por ambos.

        De resto, massa os comentários, todos.

      • Tibor Moricz Says:

        Xerxenesky,
        Minha bronca é para quem a forma suplanta em tudo o conteúdo, ignorando-o. Jogos de palavras, estilizações, brincadeiras de linguagem, são legais quando não se pretende “falar” com uma massa de leitores acostumada a conteúdo. O que se consegue, assim, é rejeição.
        (Não nego que o dito: água mole em pedra dura, tanto bate até que fura não possa funcionar também nesse caso, mas é comum que surjam resistências de início)
        Mas nada tenho contra esses exercícios de linguagem. Acho até bonito, demonstra domínio pleno da língua e a capacidade admirável de um artesão. Eu mesmo escrevi Filamentos iridescentes como numa chuva de néon, que é um exercício de estilo, um tour de force, e que foi premiado no primeiro concurso Braulio Tavares de ficção científica.
        Com relação à literatura realista, digo que seus autores se preocupam mais com a forma do que autores de literatura de fandom (como o Samir prefere dizer). E defendo que os autores de gênero (como eu prefiro dizer) aprendam com o lado de lá. Não há nada mais agradável que uma boa história e muito bem contada, como você mesmo frisou em seu comentário.
        Gaiman é a exceção que confirma a regra… rs.

  2. Saint-Clair Stockler Says:

    Pelo teor dos seu comentários, a FP 3 voltou a ter níveis de qualidade elevados, né?

    Parabéns pelos novos comentários…

  3. Lu Thomé Says:

    hehehehehehehehe. Cogumelos passaram a me perseguir. Realidade imita ficção – hehehe

    Obrigada pela avaliação, Tibor! Gostei muito de toda essa tua série de resenhas da coleção Ficção de Polpa. Um retorno precioso!

    Beijos!

  4. Guilherme Says:

    Oi Tibor,

    E se o cara escrever uma história que se passa, por exemplo, em um mundo de fantasia medieval, mas tiver uma escrita bastante estilística e preocupada com a forma?

    É gênero ou mainstream?

    • Tibor Moricz Says:

      É gênero, mas muito bem escrito… 🙂

      • Guilherme Says:

        E se a história tiver todos os elementos de um romance “literário” de verdade? Mérito artístico (ênfase na estética e essas coisas todas), desenvolvimento de personagens, etc…. Mas se passar, digamos, na Inglaterra do Séc. V?

        Digamos que eu esteja falando de “As Crônicas de Arthur”, por exemplo. Embora boa parte da obra do Bernard Cornwell seja declaradamente “de gênero” (pro melhor e pro pior), esse trabalho especificamente pode ser comparado a qualquer trabalho de literatura “de verdade”. Pelo menos na minha opinião… Mas vamos fazer de conta que isso seja verdade, só para a discussão. Ele deve ser considerado de gênero só porque não é contemporâneo?

        Entendo e concordo e aceito a diferença entre mainstream e gênero, até porque, verdade seja dita, grande parte da produção de gênero realmente não tem nenhuma preocupação com a forma. O que me incomoda é rotular algo como “de gênero” só pela, digamos assim, “ambientação” da história. Sei lá. É porque, querendo ou não, há uma conotação depreciativa em gênero.

      • Saint-Clair Stockler Says:

        Oi Guilherme: acho que você está certo e errado ao mesmo tempo.

        Primeiro: a fronteira entre os gêneros não é tão delimitada quanto a gente pretende (o ser humano gosta de ver tudo certinho, compartimentalizado, mas na vida e na teoria da literatura, não é assim…) Portanto, algumas vezes, raras vezes, raríssimas, uma obra pode ser considerada como mainstream e não-mainstream ao mesmo tempo. Um exemplo? O Senhor dos Anéis. Vou voltar a isso.

        Segundo: no exemplo dado, acho que o livro do Cornwell seria, ainda assim, considerado de gênero. Por que? Porque ele, mesmo escrevendo corretamente, mesmo tendo certa preocupação com a forma, está muito mais preocupado com os lances episódios, com a aventura, com contar uma história cheia de eventos. Ele quer entreter e não “fazer literatura”, entende? Bem, essa é a questão interna, inerente à obra. Mas há também uma questão externa. E a questão externa não tem muito a ver com a obra em si, tem a ver com a recepção que ela suscita: os livros do Cornwell não são aceitos pelo Cânone como pertencentes à literatura mainstream. O Cânone é o conjunto de pessoas e pensamentos que, de uma forma ou de outra, ditam as “regras” não-escritas que aceitam ou não uma obra como fazendo parte do mainstream. É formado por professores universitários, críticos, uns tantos quantos escritores, jornalistas, etc. Gente que têm algum poder e influência para “elevar” ou não um autor, uma obra, à posição de literatura “canônica”, digna de ser lida, estudada, comentada, largamente difundida nas universidades, e passando a pertencer, em algum momento, no rol das obras clássicas.

        Você pode me alegar que Tolstoi escreveu Guerra e Paz, um livro cheio de lances, de aventuras, de acontecimentos; que Stendhal escreveu A Cartuxa de Parma, outro livro cheio de acontecimentos, duas obras que, embora tenham preocupação com a forma, não a privilegiam em detrimento do conteúdo, e, mesmo assim, não são considerados autores de ficção de gênero (ao contrário, são dois dos maiores e mais legítimos exemplares da literatura clássica). Então, por que Bernard Cornwell é? Há uma série de razões, estamos aqui pisando em terreno movediço, nem um pouco firme, mas eu arriscaria dizer que o que diferencia os dois primeiros do último é que, entre outras coisas, eles tiveram uma preocupação psicológica e sociológica em suas obras que Cornwell não teve, que nenhuma ficção de gênero tem habitualmente (mas toda exceção tem suas regras). Isso que falo sobre a presença de psicologia e sociologia não tem nada a ver com obras herméticas, difíceis de entender, cheias de termos científicos (até porque Tolstoi e Stendhal são bem de antes da “invenção” da psicologia e da sociologia!). Cornwell quer contar uma aventura e entreter o seu leitor – ponto. Stendhal e Tolstoi também querem, mas essa aventura também vai até ao espírito dos seus heróis, ao íntimo, e quer, de alguma maneira, fazer o leitor refletir mais seriamente, mudar alguma coisa dentro dele.

        Além disso, Tolstoi e Stendhal são escritores mainstream porque o Cânone disse que eles eram, ponto final. E até o momento, não se passou a considerar o Cornwell como sendo um escritor canônico.

        Então, resumindo: não é só o conteúdo e/ou a forma que diz que uma obra é digna de fazer parte do Cânone; não é algo inerente a ela. É o próprio Cânone quem escolhe os seus eleitos, quem diz: “Tu és digno de vir sentar-te à minha direita”, meio como Jeová.

        Veja bem: é raro, mas pode acontecer de um livro ser encarado como “mainstream” e passar, de repente, a ser encarado como ficção de gênero e vice-versa. Um exemplo? A novela A invenção de Morel, do Bioy Casares, foi desde o início tida como uma obra artística perfeitamente canônica, de um dos maiores autores argentinos. Mas de uns tempos pra cá, e cada vez mais, tem gente dizendo que ela é, também, uma obra de ficção científica. O Poe, por exemplo, no início, quando ainda era vivo, andando bêbado pelas ruas da Philadelphia em busca de um trago, era mais um escritor de gênero (não havia ainda essa concepção naquela época, mas era isso o que ele era) e depois da sua morte, e a partir da importância que Baudelaire deu a ele na França, traduzindo seus textos e escrevendo ensaios sobre ele, promovendo seu nome, passou cada vez mais a ser um mestre da Literatura com “L” maiúsculo, respeitado e incontestado, até ser completamente deglutido pelo Cânone.

        Bom, pra fechar, quero dizer que não estou 100% seguro de que as razões acima-expostas sejam todas as razões que há para dar conta desse enigma do por que algumas obras “são” e outras “não”. Escrevi isso sem ir à estante, sem evocar os Mestres e/ou as Teorias. É meio que uma conversa de bar, ao sabor da pena (quer dizer, do teclado). Seria legal se alguém viesse apontar as minhas falhas conceituais, se as houver. Mas me parece que mais ou menos é isso aí.

      • Saint-Clair Stockler Says:

        Pensei num bom exemplo aqui pra mostrar o poder do Cânone: para mim, o romance de ficção científica escrito a quatro mãos pelos portugueses Luis Filipe Silva e João Barreiros, que tem o título de Terrarium, é uma obra tão importante quanto, por exemplo, Os Maias, do Eça de Queiroz. Literariamente, não fica a dever nada a ninguém, muito obrigado. Então por que, se é uma obra tão importante (e de fato é), não é lida, debatida, estudada, divulgada, entre outros locais, nas universidades? Em uma palavra: porque o Cânone ainda não quis. Pode ser que um dia queira, mas o Cânone costuma ser preconceituoso, há certos gêneros que ele não engole bem, a não ser que as obras estejam “travestidas” (A invenção de Morel seria um bom exemplo). Os livros da prêmio Nobel Doris Lessing são louvados e cantados – com a exceção da sua série Canopus em Argos, que, surpresa!, é ficção científica!

      • Guilherme Says:

        Oi Saint-Clair,

        Muito legal tua mensagem! Mas tenho um comentário sobre o seguinte trecho:

        “Ele quer entreter e não “fazer literatura”, entende? Bem, essa é a questão interna (…) A questão externa não tem muito a ver com a obra em si, tem a ver com a recepção que ela suscita: os livros do Cornwell não são aceitos pelo Cânone como pertencentes à literatura mainstream.”

        Aí tu tocou num ponto que eu acho fundamental, que é a questão do entretenimento. Acredito que podemos dizer que literatura “de verdade” está mais preocupada com o lado artístico — com reflexões psicológicas e sociológicas, como tu mesmo disse —, enquanto que livros de gênero estão mais preocupados com entretenimento. OK até aí. Meu problema é que tem gente que inverte a ordem dos fatores: “se gênero = entretenimento, entretenimento = gênero”. Opa, peraí! É possível existir literatura divertida que seja, ao mesmo tempo, literatura “de verdade”! Não é porque um texto é divertido que não pode, também, trazer reflexões, apuro técnico e outras características que definem a “alta literatura”. Claro, sei que tem livros clássicos que são divertidos; não estou dizendo que todos os grandes são chatos (embora alguns sejam, hehehe)… O que estou dizendo é que há certa indisposição com literatura que entretem. A impressão que tenho é que se As Crônicas de Artur (pra manter o exemplo) fossem menos legais, já seriam consideradas mainstream, e seriam mais discutidas no meio acadêmico. É quase como se ser divertido fosse um crime no meio literarário, ou ainda: se é de entretenimento, é do povão, não serve para análises avançadas.

        Quando um livro é de gênero, certos meios lhe tratam automaticamente como uma versão impressa de Zorra Total, independente de qualquer mérito artístico que possa a obra possa ter.

        Vou voltar ao exemplo das Crônicas de Arthur… Mas antes, um comentário: não quero parecer fanboy desse livro, ou do Cornwell. Pelo contrário, sou o primeiro a dizer que a obra dele, no geral, se constitui de livros de aeroporto — ainda que alguns muito bons. Mas essa série especificamente, acredito que seja mais do que isso. E mesmo que não concordem com esse caso específico, a filosofia de minha argumentação se mantém. E aí vai ela.

        No meio de todas as batalhas descritas no três livros da série há, sim, um profundo desenvolvimento de personagens, com uma notável preocupação psico e sociológica. Só que há também batalhas, como acabei de dizer. Um monte delas, inclusive. E descritas de maneira emocionante e legal. E me parece que esses trechos de ação não só não contribuem para que o texto seja considerado uma obra de arte, como efetivamente contribuem para que ele NÃO seja. Como se não pudesse haver uma luta, ou mesmo uma cena de ação, em uma obra séria! Como se ter uma cena de luta, por exemplo, automaticamente transformasse TODA a história em um roteiro de filme de verão de Hollywood, bem fantasioso, inclusive. Como se pessoas reais às vezes não se metessem em conflitos físicos — e como se esses conflitos não pudessem ter repercussões psicológicos tão profundas quanto ser traído pela esposa com o melhor amigo, por exemplo!

        Opa, tenho que parar por aqui por questão de tempo. Sei que basicamente resmunguei, mas espero que tenham entendido um pouco da minha reclamação. Abraços a todos!

  5. Samir Machado de Machado Says:

    A discussão rendeu! ehhehe

  6. Mundo Livro » Blog Archive » Zumbis, robos, monstros e Machados Says:

    […] ler no blog do escritor Tibor Moricz resenhas conto a conto dos três volumes (Volume 1, Volume 2, Volume 3). A primeira coletânea, por sua vez, já está na terceira […]

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