Gênero X Mainstream

graal1 A cartuxa de parma

Na postagem de Ficção de Polpa 3 – Comentários – 1ª parte, surgiu um assunto na caixa de comentários que acabou se alargando, tomando forma e ganhando matéria própria.

A discussão sobre literatura de gênero e mainstream, sobre como se classificam, como são compreendidas e, decerto, como se entrechocam nas opiniões nem sempre convergentes dos comentaristas.

Saint-Clair Stockler acabou fazendo um comentário extremamente valioso sobre o assunto e achei que valeria a pena trazê-lo, melhor estruturado, para a página principal desse blogue, dando a todos a oportunidade de lê-lo e discuti-lo a vontade, como se estivéssemos, todos, numa aprazível mesa de bar.

Saint-Clair

“A fronteira entre os gêneros não é tão delimitada quanto a gente pretende (o ser humano gosta de ver tudo certinho, compartimentalizado, mas na vida e na teoria da literatura, não é assim…) Portanto, algumas vezes, raras vezes, raríssimas, uma obra pode ser considerada como mainstream e não-mainstream ao mesmo tempo. Um exemplo? O Senhor dos Anéis. Vou voltar a isso.

No exemplo dado, acho que o livro do Cornwell seria, ainda assim, considerado de gênero. Por quê? Porque ele, mesmo escrevendo corretamente, mesmo tendo certa preocupação com a forma, está muito mais preocupado com os lances episódicos, com a aventura, com contar uma história cheia de eventos. Ele quer entreter e não “fazer literatura”. Essa é a questão interna, inerente à obra. Mas há também uma questão externa. E a questão externa não tem muito a ver com a obra em si, tem a ver com a recepção que ela suscita: os livros do Cornwell não são aceitos pelo Cânone como pertencentes à literatura mainstream. O Cânone é o conjunto de pessoas e pensamentos que, de uma forma ou de outra, ditam as “regras” não-escritas que aceitam ou não uma obra como fazendo parte do mainstream. É formado por professores universitários, críticos, uns tantos quantos escritores, jornalistas, etc. Gente que têm algum poder e influência para “elevar” ou não um autor, uma obra, à posição de literatura “canônica”, digna de ser lida, estudada, comentada, largamente difundida nas universidades, e passando a pertencer, em algum momento, do rol das obras clássicas.

Podem alegar que Tolstoi escreveu Guerra e Paz, um livro cheio de lances, de aventuras, de acontecimentos; que Stendhal escreveu A Cartuxa de Parma, outro livro cheio de acontecimentos, duas obras que, embora tenham preocupação com a forma, não a privilegiam em detrimento do conteúdo, e, mesmo assim, não são considerados autores de ficção de gênero (ao contrário, são dois dos maiores e mais legítimos exemplares da literatura clássica). Então, por que Bernard Cornwell é? Há uma série de razões, estamos aqui pisando em terreno movediço, mas arriscaria dizer que o que diferencia os dois primeiros do último é que, entre outras coisas, eles tiveram uma preocupação psicológica e sociológica em suas obras que Cornwell não teve, que nenhuma ficção de gênero tem habitualmente (mas toda exceção tem suas regras). Isso que falo sobre a presença de psicologia e sociologia não tem nada a ver com obras herméticas, difíceis de entender, cheias de termos científicos (até porque Tolstoi e Stendhal são bem de antes da “invenção” da psicologia e da sociologia!). Cornwell quer contar uma aventura e entreter o leitor – ponto. Stendhal e Tolstoi também querem, mas essa aventura também vai até ao espírito dos seus heróis, ao íntimo, e quer, de alguma maneira, fazer o leitor refletir mais seriamente, mudar alguma coisa dentro dele.

Além disso, Tolstoi e Stendhal são escritores mainstream porque o Cânone disse que eles eram, ponto final. E até o momento, não se passou a considerar o Cornwell como sendo um escritor canônico.

Então, resumindo: não é só o conteúdo e/ou a forma que diz que uma obra é digna de fazer parte do Cânone; não é algo inerente a ela. É o próprio Cânone quem escolhe os seus eleitos, quem diz: “Tu és digno de vir sentar-te à minha direita”, meio como Jeová.

Veja bem: é raro, mas pode acontecer de um livro ser encarado como mainstream e passar, de repente, a ser encarado como ficção de gênero e vice-versa. Um exemplo? A novela A invenção de Morel, do Bioy Casares, foi desde o início tida como uma obra artística perfeitamente canônica, de um dos maiores autores argentinos. Mas de uns tempos pra cá, e cada vez mais, tem gente dizendo que ela é, também, uma obra de ficção científica. O Poe, por exemplo, no início, quando ainda era vivo, andando bêbado pelas ruas da Filadélfia em busca de um trago, era mais um escritor de gênero (não havia ainda essa concepção naquela época, mas era isso o que ele era) e depois da sua morte, e a partir da importância que Baudelaire deu a ele na França, traduzindo seus textos e escrevendo ensaios sobre ele, promovendo seu nome, passou cada vez mais a ser um mestre da Literatura com “L” maiúsculo, respeitado e incontestado, até ser completamente deglutido pelo Cânone.

Quero dizer que não estou 100% seguro de que as razões acima-expostas sejam todas as razões que há para dar conta desse enigma do por que algumas obras “são” e outras “não”. Escrevi isso sem ir à estante, sem evocar os Mestres e/ou as Teorias. É meio que uma conversa de bar, ao sabor da pena (quer dizer, do teclado). Seria legal se alguém viesse apontar as minhas falhas conceituais, se as houver. Mas me parece que mais ou menos é isso aí.”

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8 Respostas to “Gênero X Mainstream”

  1. Eric Novello Says:

    O importante é cada um escrever (BEM) o que gosta. Os livreiros arrumarem um jeito de mostrar isso ao público (esquema Amazon pra mim é o melhor) e os teóricos brincarem de etiquetar. Acho que essa discussão tá ganhando força agora pq o povo do gueto decidiu que a grama do vizinho é mais verde. Que lá tudo floresce mais o ano inteiro, tudo que se planta colhe… quando não é verdade. As cobras que aqui rastejam também rastejam do lado de lá. Abss!

  2. Fernando Torres Says:

    A Epistemologia da literatura só será proveitosa enquanto estudo, para ressaltar pontos importantes. Na produção costuma ser um engodo.

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Penso o exato oposto seu, Fernando: acho que o que você chama de “Epistemologia da literatura” vai dotar os escritores que dela venham a se interessar de ferramentas, técnicas, “truques” (sim: como em todo ofício, o de escrever não prescinde dessa parte importantíssima que são os truques do ofício) que hão de melhorar as suas próprias obras. Claro está, se não for exageradamente utilizada. Mas talvez seja a isso que você esteja se referindo, certo? Aos escritores que escrevem tendo ao lado algum livro de teoria da literatura aberto…

      Aliás, já vi o Bernardo Carvalho ser acusado disso: de escrever para agradar a Academia. Rsrsrsrs.

  3. By Silvy Says:

    “O Texto Literário distingue-se, nomeadamente, pelo facto de transformar a realidade, servindo-se dela como modelo para a arquitectar mundos “fantásticos”, que só existem textualmente e que se estabelecem através da metáfora, da caricatura, da alegoria e pela verosimelhança. Residindo aqui a ficcionalidade patente no Texto Literário. Este é o elemento que mais o diferença do Texto Não Literário, que tem por finalidade transmitir uma informação objectiva e autêntica da realidade. Para isso, o Texto Não Literário vai combinar as palavras, numa sucessão coerente, sem que estas sejam independentes, mas apenas sejam úteis na comunicação. O Texto Literário, evidencia também coerência no facto do texto registar uma estrutura própria e não simplesmente um conjunto desorganizado de frases mas em oposição ao Texto Não Literário vai enaltecer a palavra e os recursos estilísticos. Há uma selecção rigorosa das palavras, de modo a organizarem uma estrutura que realce os diversos significados das palavras, transcendendo a sua significação. São estas características que fazem do Texto Literário uma entidade pluri-isotópica, na medida em que é constituída por diferentes níveis de expressão, que têm entre si uma relação de interdependência, e ainda pela intertextualidade que este convoca, constituindo um todo estrutural e distanciando-se assim do discurso cientifico. Com o mesmo objectivo, Roman Jakobson vai mencionar a literatura como a expressão da função estética da linguagem, que vai ao encontro precisamente a esta selecção das palavras. Jakobson vai falar ainda do encadeamento de seis factores indispensáveis na conversação; a mensagem é enviada pelo emissor ao receptor, através do mesmo canal, aplicando o mesmo código e reconhecendo ambos um contexto comum. Neste esquema comunicacional, Jakobson vai diferenciar seis funções da linguagem verbal: expressiva, conotativa, referencial, fática, metalinguística e poética. A função poética é a função dominante da obra e da linguagem literária, embora outras funções estejam dependentes dela. Nesta função, o fundamental é a palavra, na sua própria definição, e que vai ser mencionada, com um discurso atraente e original, adquirido através do método de selecção das palavras. Da conformidade entre a combinação e a selecção, vai resultar a Literariedade, isto é, o conjunto de propriedades que caracterizam a linguagem literária. Portanto, quanto maior for a selecção, e a combinação, mais literário é o texto. A concepção de Literariedade surgiu da vontade de definir a linguagem literária como autónoma, com funções distintas das iminentes ao Texto Não Literário. Surgiu ainda com o intuito da literatura se afirmar como ciência, pois até ao século XIX, as artes não eram consideradas ciências. O formalismo russo procurou, assim, determinar as propriedades exclusivas do Texto Literário, como resposta a esta necessidade de comprovar a autonomia estético-discursiva e a funcionalidade própria do Texto Literário. Paralelamente à teoria de Jakobson, que indica os factores formais como sinais da particularidade da linguagem literária, vão aparecer outras teorias, tal como a de Tynianov, que nomeia condições externas ao texto, de origem histórica e social, isto é, o contexto, como fontes importantes na explicação da linguagem literária. Pode depreender-se então, que o Texto Literário tem um conjunto de características específicas que o distinguem do Texto Não Literário, a Literariedade, características essas que dependem da estrutura formal e do contexto, e que condensam numa transformação do real.”

    Abs.

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Eita caralho! rsrsrsrs

      Bom, vamos lá:

      Primeiro, gostaria de saber a fonte. Seria, por acaso, Teoria da Literatura, do Vitor Manuel de Aguiar e Silva? Se não for o texto de um português, é uma tradução portuguesa (elementar, meu caro Watson!) de algum autor muito bom.

      Não sei qual propósito moveu a mão que postou o fragmento acima, mas há um detalhe a ser observado. O texto – seja lá de quem for – estipula algumas diferenças entre “textos literários” e “textos não-literários”. Ora, tanto o romance de Stendhal quanto o de Cornwell são, ambos, textos literários. Então, aqui, trata-se não de saber a diferença entre um texto artístico e outro informativo, mas de tentar achar o porquê de às vezes – aliás, muitas vezes – um texto artístico ser considerado adequado a fazer parte do Cânone e outro não.

  4. By Silvy Says:

    A parte de “textos não-literários” não tem relevância no trecho citado, e sim o conceito de literariedade, que vai definir a “função poética” (“função dominante da obra e da linguagem literária”) em um texto (literário). Só quis ajudar…

    Abs.

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Foi uma boa ajuda, obrigado.

      Mas a questão da “literariedade” é, pra mim, um conceito muito difuso e muito incerto. A literariedade de um texto não pode ser medida objetivamente, é “impressionista”. Concordo que a literariedade existe, mas acho que até hoje não se descobriu como empregá-la. Até porque, como já nos mostrou Terry Eagleton, uma obra literária pode deixar de sê-la ou uma que não era literária passar a ser encarada como…

  5. Fernando Torres Says:

    Saint-Clair, o que chamei de Epistemologia é a tendencia de de classificar a literatura em gêneros estanques. O estudo disso pode revelar muita coisa interessante, inclusive ajudando a refletir sobre técnicas e truques a serem utilizados.

    Porém, escrever pensando em “regras” para se encaixar em determinada categoria (fantasia, Sci-fi, mainstream…) como mero exercício da forma é o que chamo de engodo. Fantástico ou não fantástico, é tudo literatura. Como eu sempre disse, literatura é boa ou ruim, legal ou maçante. Alguns critérios são mais subjetivos que outros, mas não vejo categorias muito diversas dessas.

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