O Romance desperta de seu sono secular

Tomo emprestado parte da postagem de Sérgio Rodrigues em seu ótimo Todoprosa, para ilustrar melhor uma discussão que vem tomando parte já há algum tempo, por aí (e por aqui), sobre alta literatura e literatura de gênero.

Escrito por Lev Grossman, crítico literário da revista “Time” e extraído do “Wall Street Journal” (texto completo, aqui), demonstra uma espécie de hibridização entre as literaturas, fazendo surgir romances mais voltados ao público que ao escritor:

Vejam Cormac McCarthy, que por anos parecia ser o mais velho modernista vivo em cativeiro, mas que inaugurou sua fase madura com um romance sobre um serial killer e o seguiu com uma obra de ficção científica apocalíptica. Vejam Thomas Pynchon – em “Inherent vice”, ele trocou suas pesadas acrobacias verbais de sempre pela estrutura mais manejável de um romance de detetive hard boiled.

Esse é o futuro da ficção. O romance está finalmente despertando de um cochilo de pedra de cem anos. As velhas hierarquias de gosto estão desmoronando. Os gêneros se hibridizam. A balança do poder está deixando de pender para o escritor e voltando para o leitor, e pactos com o gosto do público vão sendo feitos por toda parte. O lirismo está em declínio, enquanto o suspense, o humor e o ritmo se livram de seus estigmas e assumem o lugar de tecnologias literárias centrais do século 21.

De objeto de arte solene e hermético, o romance vai desabrochando em algo mais aberto e casual: uma literatura do prazer. Os críticos terão que acompanhar a mudança. Essa nova linhagem de romances é resistente à interpretação, mas não da forma como a escola modernista era. São livros que exigem um novo conjunto de ferramentas e a crença básica de que trama e inteligência literária não são mutuamente excludentes.

Segue mais ou menos o raciocício de Bráulio Tavares num comentário recente neste blogue:

Eu diria como o famoso Conselheiro Acácio: “Esta é a minha opinião, e dela eu compartilho”. Existe gente que é meio daltônica para História e só enxerga Estilo (p. ex., os editores do mainstream). E o vice-versa disso se encontra muito na FC. São duas tribos de sacis, os sacis-de-perna-esquerda e os sacis-de-perna-direita. A verdadeira literatura se faz com as duas pernas. (A metáfora redundou numa coisa meio surrealista, mas dá pra sacar o que quero dizer).

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2 Respostas to “O Romance desperta de seu sono secular”

  1. Eric Novello Says:

    Tava outro dia fazendo um exercício gostoso de inventar novos nomes de gêneros. Hehe. Dá até para pensar num gênero para alguns comentários, que só se importam em ser do contra, independente do assunto.
    Abss!

  2. Saint-Clair Stockler Says:

    “As velhas hierarquias de gosto estão desmoronando”

    A frase mais importante desse texto. Porque, ao final das contas, o Cânone, o que é ou não considerado “mainstream“, o é muito menos por rigorosas leis científicas do que por gosto, por preferências. “Por que Stendhal pode ser considerado canônico e Bernard Cornwell não?” poderíamos perguntar ao Cânone e, entre uma das respostas possíveis, ele poderia nos retrucar: “Porque eu quero!”, tal e qual uma criança mimada que tem a bola nas mãos.

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