Que tal um Fome?

Fome - Capa 3DDaqui a dois meses meu livro Fome, publicado pela Tarja Editorial, fará um ano de publicação. Desde que foi ao mercado, em novembro de 2008, venho recebendo vários feedbacks, os mais variados. Sem dúvida não é um livro para se gostar fácil. Ou se gosta, ou se odeia. Mas ambas essas emoções eram previstas quando escrevi esse conjunto de contos ambientados num cenário pósapocalíptico. Tanto o gostar quanto o não gostar, ou odiar, faziam parte dos meus planos. Ninguém poderá dizer que Fome é literatura ruim. Apenas poderão combatê-lo enquanto um conjunto de idéias; poderão discutir o argumento, a trama, a crueza, a frieza, a violência, a ausência de quaisquer traços morais ou éticos. Nesse sentido, Fome vem cumprindo com seu papel de maneira exemplar.

Alguns comentários recebidos:

• Lixo! • Perturbador • Imoral • Uma porcaria • Coisa do demônio • Como pôde? • Fascinante • Assustador • Comecei a ler, mas não vou terminar • Senti nojo • Tenho filhos! • Maneiro, cara!

Se você leu, talvez se identifique com um ou outro destes comentário. Se não leu, convido-o a fazê-lo. E depois me diga o que achou. Comente aqui neste blogue. Xingue ou elogie. Sua opinião é importante.

Trechos:

“Arranquei os trapos que a cobriam. Ela recuou o que pôde, espremendo-se contra a parede. Dois pequenos montículos se sobressaiam onde um dia ela (se continuasse viva) teria peitos. A vulva mostrava pequenos e sedosos pelinhos que iam cobrindo a região. Agarrei-a pelas pernas e a arrastei para o meio do esconderijo, sobre folhas de papelão. Virei-a para ver suas nádegas. Brancas e exíguas. Espalmei-as. Apertei-as. Bati nelas. Avermelharam até parecer fogo.”

“Com olhares nervosos cortou os membros, separando-os do tronco. Abriu a barriga e retirou dele algumas vísceras. Mais ossos que carne. Afastou os urubus com acenos enérgicos, ajuntou as peças e começou a carregá-las para dentro do prédio.”

“Quisera que as letras impressas nas folhas surgissem uma a uma em sua pele, saltando como brotoejas. Ele então as poderia ler. Palavras novas surgindo, formações aleatórias, sentenças surpreendentes. Poderia ele se tornar num autor esofágico, epidérmico. Contemplaria o corpo nu diante de um pedaço de vidro e admiraria a metamorfose.”

“Os olhos se esgazearam e o brilho do metal refulgiu um segundo antes do golpe. Foi rápido, quase um instante. A cabeça tombou para frente e uma luz vermelha alaranjada surgiu fantasmagórica, lançando-o na estupefação da súbita descoberta da vida após a morte.”

“Girou nos calcanhares. Firmou o pé exatamente na marca. Olhou para frente e para o lado. Sobre o papelão havia um pedaço de carne. Nem seca ao sol, nem salgada. Quase fresca. Até seria, se não cheirasse mal.”

“Retirou ambas as mãos do meio das pernas e as cheirou. Ainda estava trêmula. Molhada, mas não muito. Lambeu a umidade entre os dedos como quem procura retirar a última gota de água de um copo vazio. Estava com fome e sede. De comida e de homem. De ambos.”

“— Seu deus morreu antes de todos nós! – insistiu a voz lá na frente. – O Paraíso foi invadido por diversas matilhas. Mataram todos os animais, beberam e comeram toda a comida, estupraram e devoraram todas as mulheres…

— Deus foi flagrado fodendo um menino sob uma laje. Enfiava nele o cajado tão profundamente que o sangue espirrava! Depois o devorou, mastigando a carne ainda viva e pulsante!”

“As pernas tremiam ligeiramente. Muito mais pelo esforço da caminhada ininterrupta do que pela doença que lhe devorava a carne. Cada bolha estourada levava consigo uma parte de nervos e músculos liquefeitos.”

“O menino, quieto, exibia a sua nudez conspurcada sem nenhuma vergonha. Olhos semicerrados. Respiração ausente. Tocou no seu peito. Procurou pelo batimento cardíaco. Procurou pelo hálito, pelo bafo quente e juvenil, mas não o encontrou.”

“Ao fim da oração, desferiu poderoso golpe. A faca penetrou na pouca carne, rasgou e partiu ossos, penetrou na terra, fincando-se nela. O capturado não gemeu. Não sibilou. Não proferiu nenhum som. Seus olhos embaciados acompanharam a descida da faca, arregalaram-se de leve durante o golpe mortal, depois pareceram sorrir.”

“Deu-se o pandemônio. Gritos terríveis antecederam um ataque maciço desferido por ambas as partes. Dezenas de homens se engalfinharam transformando a pequena clareira num palco de carnificina. Lâminas cortavam o ar, disparos eram efetuados, paus e pedras voavam em todas as direções. Agarravam-se, mordiam-se, unhavam-se.”

“E então todos pararam de comer e beber. Alguns regurgitaram o excesso de sangue, cuspiram a carne que se lhes entalava na garganta. Levantaram-se, atônitos e maravilhados. Alguns feridos e cambaleantes. Moribundos puseram-se de pé ao som das trombetas. Ossos partidos, fraturas expostas… E mesmo assim se puseram de pé.”

Fome está aí, na Tarja Livros. Baratinho. O Richard Diegues vai ficar contente com sua visita (eu também…rs).

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3 Respostas to “Que tal um Fome?”

  1. DAVI M GONZALES Says:

    Sempre achei muito controversa essa questão literária. Alguns gostam de charme estilístico; outros acham que precisam aprender algo com o que lêem; existem aqueles que querem se sentir tocados, provocados em suas emoções; tem também aqueles para quem a literatura é puro entretenimento. O que dizer então? Para que eu não largue o livro pelos cantos, ele precisa cumprir apenas duas condições: despertar o interesse e ter uma boa história para contar. Vê-se que sou pouco exigente. Li o livro do Tibor que cumpriu primorosamente essas condições. Certamente ele é um exímio narrador – claro e que pontua com as doses necessárias de suspense. O livro choca. Poe, Álvares de Azevedo e outros ditos “Escritores Malditos” também contaram com a devoção aos padrões morais para provocar um efeito no leitor. Para melhorar o livro? Não sei. Opinando apenas como leitor, pois não sou crítico, talvez fosse interessante variar ou graduar um pouco mais as passagens “malditas” com vistas a que o “efeito” não seja diminuído pela sua repetição. Publicar os contos separadamente poderia trazer também um bom efeito. No mais, gostei muito do livro e recomendo. Abrçs.

  2. Viviane Yamabuchi Says:

    Eu gostei bastante! Minha mãe começou a ler mas se recusou a terminar… rsrsrs. As pessoas se chocam quando lêem sobre violência, brutalidade, imoralidade. Mas vemos isso todos os dias nos noticiários. Repetidas vezes. Como se o ser humano não fosse um bárbaro. Háh! Hoje, o que me choca é ver um ato solidário, um carinho, uma palavra sincera de gratidão. Isso porque ultimamente tem sido raro flagrar momentos como estes.
    Gosto de histórias onde vemos pessoas diferentes tomando rumos diversos dentro de uma mesma situação. Diverti-me bastante com o seu livro. Parabéns! Fica me devendo um autógrafo.
    Vou pegar seu feed sobre meu conto do Paradigmas 3 e colar no meu blog. Posso?
    Abraços,
    vivi

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