Areia nos dentes – Lido e comentado

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Este livro já me causou inquietação logo no título. Como não deixar de se incomodar com a terrível sensação que a areia provoca nos dentes? Quem não os teve estalando na boca, não sabe o que digo.

Iniciei a leitura com as mais elevadas expectativas e não me arrependi.

A trama narra um conflito obscuro, alimentado por segredos de porão, entre duas famílias, os Capuleto e os Monteq… Não, peraí, não são essas famílias, não. Ah, os Marlowe e os Ramirez. Isso (Chega de Tequila, homem!). Quem conta é Juan Ramirez, descendente hipotético e testemunha auricular dos fatos.

Ambas as famílias se odeiam por motivos não revelados e se confrontam, guiados por várias mãos, revelando ser este romance um manifesto ao politeísmo.

Epa, politeísmo? Calma, vou explicar.

Há um trecho onde Deus é imaginado num cartaz de procura-se, vivo ou morto. Na figura do perseguido (inexistente), a imagem de Xerxenesky ficaria bem, que, nesse caso, seria o Deus maior. O leitor também se deparará com camadas narrativas onde se confunde a pessoa do narrador. Ora se trata de Juan Ramirez (Deus menor), o mexicano que conta a história de seus antepassados, ora se trata do próprio Xerxenesky (há um Deus acima dele? creio que sim) que é citado num momento como o autor que cria o autor (e também em diversos momentos narrativos onde fica evidente sua intrusão (ou de Juan Ramirez?), trazendo terminologias e situações futuras que jamais viriam das bocas dos personagens do livro).

Proposital? Claro que sim. Há um primor narrativo que não dá margem para outra dedução.  Várias mãos remam esse barco metalingüístico, sem que o ritmo seja quebrado.

Só um detalhe: em determinado momento, no solilóquio interior do xerife Thornton, ele usa a palavra “quilômetro”, quando deveria dizer “milha”.

Areia nos Dentes é um excelente entretenimento e traz, ainda, de brinde, um ataque de zumbis à nem tão pacata cidade de Mavrak. No bom estilo terror classe B, com mortos-vivos se arrastando pelas ruas, mordendo, arrancando pedaços, matando e transformando outros em iguais.

Uma vingança tão desproporcional que, por pouco, quase mais nada resta da cidade senão fragmentos ensangüentados. E os grandes segredos de porão misturados a eles.

Recomendadíssimo.

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21 Respostas to “Areia nos dentes – Lido e comentado”

  1. Marcos Messer Says:

    Com o perdão da intromissão, achei sua análise superificial. O livro é bom em seu conjunto, mas precisaria de mais ressalvas além do “quilômetro” citado acima. Tais ressalvas não desqualificariam o livro, que é muito bem desenvolvido, como obra a não ser recomendada. Você escreve bem, mas talvez precise um pouco mais de coragem em suas críticas, diminuir o uso da palavra “excelente” e outras afins, por exemplo. Uma crítica bem estruturada convida mais à leitura do que um mero elogio disperso. Obrigado pela atenção e um abraço. Vou continuar voltando a seu blog. E acho sim “Areia nos Dentes” um livro recomendável, embora Xerxenesky fique devendo um pouco de densidade narrativa ao leitor.

    • Tibor Moricz Says:

      Marcos, meus comentários são feitos enquanto leitor. Análises mais aprofundadas exigiriam que eu me qualificasse como um crítico literário, coisa que não pretendo ser. Sim, há textos ruins demais e a esses fica difícil não tecer críticas mais firmes. Não é o caso do ótimo (veja, não usei o “excelente”) Areia nos dentes que me divertiu durante a leitura. Sou pouco exigente, como pode ver, basta que me divirta e o livro já é de bom pra melhor. Fico contente que você apareça por aqui e espero que se manifeste mais vezes, nem que pra meter o pau em mim… rs.

      • Marcos Messer Says:

        Na minha opinião, o leitor deve ser mais exigente do que um crítico literário. Literatura não é entretenimento. Ligue-se a TV, se o caso é entretenimento.

      • Tibor Moricz Says:

        Marcos, nossos conceitos sobre literatura são diametralmente opostos. Lamento que você pense assim, lamento de verdade. Sei que mentalidades herméticas como a sua estão em extinção, e isso me dá certo alívio.

      • Marcos Messer Says:

        Pergunte a Rimbaud, a Verlaine e a Baudelaire se literatura é entretenimento. Ou pergunte ao pó.

        Abaixo à política de boa vizinhança na “literatura”. Talvez alguém ganhe alguma coisa com esse tipo de comportamente, mas nunca a arte ou algo que se aproxime dela.

        (publica, se és honesto)

      • Tibor Moricz Says:

        Você é médium, Marcos? Faz psicografias? Deve ser. Tanta bobagem não pode ter vinda da sua cabeça. Deve ter um encosto atrapalhando as suas idéias.

      • Marcos Messer Says:

        Nossa, achei que você fosse minimamente inteligente, já que pretende escrever sobre literatura e afins. As respostas evasivas que você me dirige e sua falta de elegância demonstram justamente o contrário. Decepcionante, embora eu não esperasse muito mesmo de alguém que analisa tão superficialmente um livro.

        Obrigado pela atenção.

      • Tibor Moricz Says:

        Hahahahahaha!! Você é um pândego, Marcos. Apareça mais vezes para que possa rir de você. Não faz idéia de quanto isso alegra o meu dia, me dá ânimo. Venha, vez ou outra, desfilar o seu beletrismo por aqui. Será sempre muito bem vindo. :)))

      • Marcos Messer Says:

        Ok.

        Eu sou um pândego, e o senhor um cinquentão ingênuo e desrespeitoso com alguém desconhece completamente. Lamento a sua posição de alguém que não sabe ganhar com um diálogo e se acha autosuficiente o bastante para sair ofendendo os outros gratuitamente. Cresça, que ainda dá tempo.

      • Marcos Messer Says:

        Não achei que meu “conceito sobre literatura” fosse assim transparente, que saltasse num comentário isolado. Comportamento “hermético” é acusar assim, conhecendo apenas uma manifestação de determinado sujeito. Honestidade intelectual: esta surge como uma única exigência num debate que se pretenda, no mínimo, maduro.

    • H. M. Alves Says:

      Literatura não é entretenimento? a literatura acadêmica não, claro. mas a literatura de ficção (princialmente alguma que tenha ZUMBIS) é sim entretenimento, conceitos filosóficos e grandes metáforas não são necessárias para fazer um livro bom em demasia o deixa CHATO ou LENTO, eu pelo menos me divirto lendo Bernard Cornwell, George R. R. Martin o que não quer dizer que eu não saiba fazer uma análise sobre Borges ou Woolf, eu posso ler só ara me divertir e isto é entretenimento (à não ser que o seu dicionário seja diferente do meu Marco Messer)

  2. Saint-Clair Stockler Says:

    Linda a capa. Alguém tem o telefone do peão pra me passar, por acaso? rsrsrs.

    Estou cheio de curiosidade pra ler esse livro 🙂

  3. Tibor Moricz Says:

    Saint, pelo perfil e pela estrutura física do “peão” fotografado, arriscaria dizer que se trata de uma criança. Para de bobagens e vá fazer algo de útil…rs

  4. Camila Fernandes Says:

    Er, também acho que o peão é menor de idade…

    Tibor, bacana a sua resenha! Só acho que poderia ter sido um pouco mais clara com relação ao andamento da história em si. Só consegui compreender que há duas famílias inimigas e um ataque de zumbis. Compreendo que você ressaltou os pontos do livro que mais o atraíram como leitor; talvez a trama em si não tenha sido um deles. De todo modo, parece um ótimo livro e o autor com certeza acertou no título, intrigante e incômodo. Interessou-me mais especificamente pelas intromissões do autor na trama. Gosto quando o narrador maior tem o atrevimento de acenar para o leitor dentro na obra sem, no entanto, tornar-se o centro da ação. Tudo na dose certa. Algo como o que Machado de Assis fazia. 🙂

    • Tibor Moricz Says:

      Você tocou numa coisa interessante, Camila. A trama. De fato, ela não tem grandes novidades. Não provoca maiores arrebatamentos. Mas o tratamento consegue fazer você “esquecer” isso durante a leitura. Ainda assim, recomendadíssimo.

  5. Ivo Heinz Says:

    Bom, parafraseando o Tibor EU também não sou crítico literário e não pretendo ser.

    Sempre posto pequenas resenhas e comentários, principalmente na Comunidade de Ficção-Científica do Orkut.

    Meus comentários sempre vão começar e terminar com o mote: se gostei ou não, e porquê. Não tenho paciência / tempo (e nem know-how) para discorrer longamente sobre a obra; o andamento da narrativa, as sacadas do autor e como ele amarra toda a história são os quesitos que eu presto atenção.

    Como sempre falo: já gastei meu dinheiro comprando o livro, se ainda estou gastando meu pouco tempo livre, tem de valer a pena.

    Sim, já abandonei livros na metade, estes eu quase nem comento, pra não perder mais tempo; porém ultimamente tenho dado sorte, ou só lido filés 😉

  6. Ivo Heinz Says:

    O Marcos escreveu “Literatura não é entretenimento”.

    Discordo frontalmente, mas respeito sua opinião, democracia é isso aí !!

  7. Marcos Messer Says:

    Eu sou um pândego, e o senhor um cinquentão ingênuo e desrespeitoso com alguém desconhece completamente. Lamento a sua posição de alguém que não sabe ganhar com um diálogo e se acha autosuficiente o bastante para sair ofendendo os outros gratuitamente. Cresça, que ainda dá tempo.

  8. Tibor Moricz Says:

    Opa! O Messer tá colado na telinha, só esperando, arfante, as minhas respostas indelicadas. Isso aí, Messer, gosto dessa preferência disfarçada de indignação. Obrigado!

    • detonoporqueignoro Says:

      e o senhor se diz escritor. raduan nassar hoje cria galinhas, e é dos escritores um dos melhores. do galinheiro saem ovos, ao menos. da cabeça de um publicitário, nem bolas.

  9. Samir Says:

    Não entendo como literatura possa NÃO ser entretenimento. Por um acaso alguém continua lendo um livro por outro motivo que não o prazer da leitura que o livro bom proporciona?

    Parafraseando Michael Chabon, nossa noção do que é “entretenimento” foi tão contaminada por livros ruins, filmes imbecilizados e programas de TV com linguagem voltada para debilóides, que “entretenimento” tornou-se quase um palavrão. Pra ficar no exemplo mais óbvio e rasteiro, Shakespeare era considerado teatro popular à sua época.

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