Baudelaire no Cassino do Chacrinha.

Charles_Baudelaire Chacrinha_

Qual a diferença entre Baudelaire e o Chacrinha? Ah, muitos dirão que as diferenças são gigantescas, que de tão profundas, um e outro não se vêem, não se dão a conhecer. Outros darão risinhos divertidos imaginando que há nesta pergunta alguma pegadinha.

Mas não. Não há pegadinha nenhuma.

Tanto o poeta quanto o comunicador foram mestres do entretenimento.

— Ah? Como é? Baudelaire era um entertainer? Você está gozando da minha cara! Jamais que aquele poeta maravilhoso teria sido um entretenedor! – Você me dirá, entre risos e expressões de incredulidade, ainda achando que estou a promover algum chiste.

Pois é. Se Baudelaire vivo fosse, com certeza admitiria. Principalmente ele, boêmio, de uma ironia ímpar, bom vivant e prematuramente falecido.

Pois entreter é dar aos leitores, ou telespectadores, ou ouvintes, ou admiradores (ou, ou, ou…) o prazer da nossa arte. O prazer que qualquer arte bem executada – e até por vezes mal, tem gosto pra tudo – provoca nas pessoas.

Entreter é para poucos. Os que não conseguem, por se esconderem atrás de hermetismos obscuros e inextricáveis (mesmo esses têm meia dúzia que os agrada com rapapés hipócritas), esses olham para o lado de lá, onde platéias aplaudem entusiasticamente seus ídolos e os maldizem. Fecham o semblante para qualquer coisa que desmistifique a arte que elaboram ou a arte que vêem elaborar.

Quem afirmar categoricamente que não pode se entreter com Camus, ou Joyce, ou Tagore, ou Machado de Assis, deve estar morrendo de alguma doença degenerativa do cérebro.

Se se lê com prazer, com alegria e satisfação, então se entretém. Seja um autor canônico, seja um autor popular. Ambas as formas atendem pelo nome de Literatura (Concordo que listas de compras, bulas de remédio e placas de “compra-se ouro”, entre outras, não se enquadram nessa categoria). E ambas entretém na exata medida do que oferecem, se considerando que a uma se admite um entretenimento mais elevado ou intelectualizado e ao outro um entretenimento mais superficial, mais descompromissado; respeitando-se, sempre, os gêneros a que pertencem.

Fala-se muito nas fronteiras que delimitam gêneros; fala-se que a literatura canônica não é a mesma de entretenimento, mas se ignora que para entreter basta agradar. Quem não se agrada com uma leitura, não se entretém com ela. Só nesse caso posso conceber a idéia de uma literatura “não-entretenedora”. E só nesse.

Portanto, literatura é entretenimento? Para mim, Sim. Absolutamente, sim. Por excelência, sim.

Claro, poderíamos, todos, perguntar ao pó, se o pó pudesse nos responder. Como não há essa possibilidade, só nos resta imitar o Velho Guerreiro: “Alô, Alô, Baudelaaaire…Você quer bacalhau?”

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2 Respostas to “Baudelaire no Cassino do Chacrinha.”

  1. VANDA AMORIM Says:

    Parabéns pelo trabalho. Aproveito para apresentar minha obra, CROCODILO SONHADOR, romance editado em 2009 pela EDITORA GLOBO. Espero contar com o apoio deste reconhecido blog. Abraço, Vanda Amorim (vandaamorim@uol.com.br)

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