Conto – Não foi sua imaginação.

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Joguei o papel amassado dentro do cesto. Era mais um na montanha de textos mal concebidos. Larguei o lápis sobre a mesa, respirei fundo e coloquei as mãos sobre o rosto soltando o ar num grunhido insatisfeito. Há horas que tentava escrever umas poucas linhas sobre minha última experiência; um pouco mais que um vislumbre. Talvez por isso tão difícil de escrever. Como relatar um acontecimento que não vimos de fato, ou que pensamos não ter visto? Dizer que “sentimos” não parece satisfazer. Não. Não dá para dizer que foi “uma sensação”. É necessário dar firme embasamento. Fazer ver que se trata de um fato e não de suposição.

Arregalei os olhos fitando a nova folha de papel que, vazia, dava ares de zombaria. Peguei o lápis, molhei a ponta e coloquei-a no início da primeira linha. É. Quer dizer, acho que é. Eu estava… Andando. Caminhando pela rua quando ouvi um barulho. Uma espécie de estalido. Um “Crack” indistinto. Uma onomatopéia mais próxima de um galho arrebentando. Tirei o lápis do papel, voltei a molhar a ponta. Observei as poucas linhas com a impressão de que ia amassar tudo de novo. De quantas folhas precisaria? Procurei o relógio sobre a cômoda. Os dígitos piscavam um 23h30.

Ainda havia tempo. Mas não sei se papel suficiente. Fiz correr o bloco, tentando adivinhar quantas folhas restavam. Talvez umas doze. Todas pautadas, só frente. Olhei de novo a primeira linha. “… Ouvi um barulho…”. Isso, aí me virei. Afinal foi um susto. Quem não se assustaria ao ouvir uma coisa parecida numa madrugada abafada, rua vazia?

Engoli em seco. Estava com sede. Minha mente me conduziu até a cozinha. Abri a geladeira e bebi água direto da garrafa. Ô maldita preguiça. A sede que fosse ao inferno. Eu tinha que escrever. Precisava escrever. Um maldito folhetim, uma historinha sem eira nem beira, utilizada para cobrir calhaus nos recônditos d’um jornaleco de quinta categoria.

Mas a história era real. Nada de falso ou inventado. Aconteceu de verdade. Eu estava lá, bêbado, molhado até os tornozelos com conhaque de gengibre, roupas em completo desalinho, rodopiando minha existência pela calçada, tropeçando nos próprios pés, vasculhando a memória, o passado, o infinito, vasculhando a merda dos bolsos, atrás das chaves de casa que só mais tarde fui descobrir, estavam debaixo do carpete com as palavras tão idiotas: “Bem vindo”. Acordei com elas estampadas na cara. O sisal esburacando minha pele hirsuta. Que gilete que nada. Ali nem uma foice daria jeito.

Então estava andando. Que horas eram? Qualquer coisa entre a uma e as quatro da matina. As pernas trançando. Paredes encardidas e pichadas à volta; latas, papéis, preservativos usados, toda sorte de imundices jogadas ao chão, uma babel de sujeira, referências vindas dos quatro cantos do planeta, nacionais e importadas, prova incontestável da globalização.

Aí deu o estalo. Uma onomatopéia grotesca e assustadora. Eu estava bêbado, estava sim. O suficiente para reagir ao barulho com pouca agilidade. Meu cérebro processou e decodificou, traduziu em imagem o que só veria segundos depois. Mas como meu cérebro, embotado pelo álcool de péssima qualidade, estava errado… Não havia no mundo nem fora dele qualquer semiótica que bastasse para a interpretação.

Girei nos calcanhares da forma que pude, balancei sem equilíbrio para frente e para trás, procurei com as mãos um ponto qualquer de apoio – que não encontrei – e olhei para frente… Para aquilo.

Molhei os lábios, afastei a ponta do lápis do papel e sorri com certa satisfação. Voltei a ler o escrito nas poucas linhas e senti um ligeiro arrepio. A cabeça ainda doía. Sentia o estômago embrulhado, as pernas vacilantes formigavam, as danadas. Pensei na água dentro da geladeira e soltei um arroto malcheiroso. Franzi o cenho e esfreguei os lábios com a mão livre. Estava precisando descansar. Talvez dormir uns dois dias inteiros.

Quem em sã consciência não dirá que estive sob a influência maléfica do álcool? Ah, a maldita, dirão. Entupiu-se com aquela droga e depois ficou a ver coisas fantásticas para as quais a razão despreza explicações. Ébrio, fica a rir da credulidade dos leitores eventuais.

É… Quem não dirá?

Mas vi, vi sim senhor. Virei-me e ele estava lá. Parado por entre uma espécie de… Vórtice? Acho que sim. Um vórtice de matéria amorfa. Rodopiando como fiapos translúcidos do mais tênue tecido. Não, tecido não. Que coisa era aquela que girava em circunvoluções cada vez mais brandas até desaparecer? Algodão doce. Ou qualquer coisa parecida. Ectoplasma? Talvez.

Mas era homem. Ou coisa. Ou ambos.

Olhava para mim com uma espécie de curiosidade que se assemelhava à minha própria, descontando o baticumbum do meu coração. Rosto encovado, ensombreado, olhos grandes, pupilas dilatadas, boca rasgada num sorriso desconcertante, lábios finos e dentes pontiagudos e encurvados. Uma capa preta forrada de vermelho como dos filmes antigos sobre nosferatu.

Eu disse que foi rápido, quase um vislumbre, não foi?

Pois é.

Apareceu e desapareceu depois de segundos. “Crack”, fez novamente. Uma fumacinha de ectoplasma (?) voltou a rodopiar. Dessa vez mais rápido e também mais breve. No chão, próximo da aparição, um pequeno cartão balançava movido pelo rápido deslocamento de ar.

Claro que foi difícil. Meus pés pareciam pregados ao chão. Minha boca aberta deixava escapar um fio de baba altamente explosiva, meu coração ainda batia desordenado, meus olhos ficavam querendo dizer que tudo fora imaginação. Claro, só imaginação, sua besta. Você não viu nada, Está vendo agora? Não tem ninguém nem nada na sua frente! Foi um vapt-vupt ilusório, um detalhe folhetinesco só pra te dar subsídio para escrever tuas besteiras no dia seguinte. Incapacidade dos neurônios de processar o óbvio, movidos, é claro, pelos litros de álcool que ingeriu, desatino, loucura, fascinação pelo fantástico, desapego pela lógica e pelo raciocínio… Acorda seu animal irracional!

Movi os pés, arrastando-os pela calçada até o lugar onde o cartão repousava. Ignorei meus olhos e suas tentativas de me desacreditar. Abaixei, inclinando o corpo para frente, adernando perigosamente a estibordo, lancei âncora em águas rasas e estiquei o braço com dedos trêmulos.

Era um cartão de visita.

Virei e revirei. Uma linha no centro. Caslon Open Face corpo… Corpo… 12, acho. Guardei-o no bolso. Endireitei o corpo com enorme dificuldade, respirei fundo e girei nos calcanhares mais uma vez. Não dei quatro passadas até descarregar os torresminhos e as azeitonas que, buliçosos, se recusavam a ficar em meu estômago.

Depois foi a história do capacho e tal.

Larguei o lápis. Revisei o texto. Ia ter que reescrever com mais acuidade. Mas estava lá. Era isto mesmo. Não sabia o título. Tinha que dar um, não é mesmo? Pensei e pensei. Enfiei a mão no bolso, tateei até encontrar o cartão, o coloquei na mesa, diante de mim, ao lado do bloco. Fiquei olhando o que estava escrito. Parecia uma brincadeira de mal gosto, mas era isso mesmo: “NÃO FOI SUA IMAGINAÇÃO”. Resmunguei um “tão de sacanagem comigo” e concordei que por falta de coisa melhor, de idéia mais concreta, de referência mais plausível, isso ia servir.

E chega de conhaque por um bom tempo.

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Uma resposta to “Conto – Não foi sua imaginação.”

  1. para babası Says:

    mucas grasias

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