Do blogue para o papel, sem escalas.

Maquina de escrever portátil

Lembro-me quando amontoava escritos em minhas gavetas. Passava quase todas as horas disponíveis do dia e parte da noite escrevendo numa máquina de escrever portátil. Foram centenas de contos. Todos eles perdidos em muitas mudanças, vencidos pela umidade. Iam se desfazendo, os grampos enferrujando e fazendo marcas no papel.

Eu os olhava e me orgulhava da produção constante. Tinha todas as histórias de cor, podia contá-las, uma a uma, para qualquer um que quisesse ouvir só um pouquinho das maravilhas que me passavam pela cabeça.

Mas era tudo papel. E papel se perde. O tempo trata de destruir documentos, principalmente quando não nos esforçamos devidamente para mantê-los.

Hoje as coisas mudaram. Mantenho arquivos de documentos em diversos espaços virtuais, fora o pendrive. Não acumulo mais papel. Nem eu nem mais ninguém.

Hoje também está fácil exibir o que escrevemos. Basta postar numa revista virtual, num blogue literário, num blogue ou site pessoal. E não há coisa que mais abunde que blogues e sites dessa natureza. Para todos os gostos. E todos os blogueiros resolveram que tem muito que contar. E contam tudo o que lhes passa pela cabeça. Inundam suas páginas virtuais com detalhes comezinhos de suas vidas, de suas aspirações, de seus desejos mais secretos (que, paradoxalmente, deixam de se secretos).

Muitos, nesse afã de escrever, decidiram: somos escritores.

Assim, surgem da noite para o dia, todos os dias, milhares de “novos escritores”. Desfilando textos de todas as espécies, escritos em bom português ou não. Bem escritos ou mal escritos. Apenas escritos. E a eles isso parece bom. E dizem que é bom. E pedem aos amigos que visitem o blogue e comentem. Pedem que elogiem, porque elogio é tudo o que procuram. Querem que o mundo veja o que eles já descobriram há tempos: que são escritores. E talentosos. E escreverão histórias que revolucionarão a literatura mundial. Todos eles. Um revolucionário por segundo, revolucionando o universo.

Houve tempo em que olhava para meus escritos e me perguntava o que faria com eles. Relia-os, reescrevia-os e voltava a guardá-los.

Hoje a virtualidade aceita tudo, engole tudo, guarda tudo. Com a vantagem de permitir que outras centenas ou milhares de pessoas compartilhem os escritos. Não há o conformismo de se saber não-lido. Eu era, em tempos idos, um não-lido. A família não contava. Os pouquíssimos amigos de fato, não contavam.

Há escritores de blogue, escritores de Twitter (mestres da síncope e da apócope), escritores de todos os tipos. Banalizou-se a figura do escritor, embora o ser-escritor ainda exija um currículo que englobe mais que publicações virtuais.

Aí é que entra o aval da celulose. Ainda precisamos retornar ao papel apesar de todo o aparato científico. E essa massa ignara de “escritores de blogue” vai, pouco a pouco, procurando, famélica, uma antologia ou coletânea para figurar. Uma forma de validar seus esforços virtuais, dando-lhes forma, o preto no branco, nas páginas de uma coletânea.

É aí que tombam os fracos. É daí que surgem os fortes. E é daí que sobrevivem muitas das editoras e dos organizadores de coletâneas e antologias por atacado, que vampirizam os incautos “autores” (parafraseando a Ana Cristina Rodrigues).

Trata-se de um mercado imenso, formado por jovens ansiosos em se tornar escritores de fato e não apenas de direito, por um direito discutível que a virtualidade lhes concede. Porque acreditam que o livro impresso lhes garante reconhecimento. Que a partir do momento em que o tiverem em mãos, a preço de ouro, serão vistos e respeitados.

Ocorre uma desvalorização de talento sem precedentes. Encaramos um autor novo com desconfiança. Não há mais o lastro que o mercado fechadíssimo oferecia antes aos poucos que conseguiam conquistá-lo. Porque antigamente a conquista de espaço era decidida pelo talento, pela capacidade e pela força inata que o escritor (esse de fato e de direito) possuía (muitas vezes o QI também ajudava como ajuda agora). Não havia editoras por demanda, nem antologias por baciada para, pagando, ter um escrito imortalizado em papel impresso.

Não critico todos os blogues nem todos os blogueiros. Se por um lado esse fenômeno fez surgir “escritores” à mão cheia, por outro fez também com que muitos deitassem de lado sua timidez e passassem a se comunicar com o mundo de uma forma indireta, mas também válida. A comunicação evolui, precisamos evoluir com ela.

Porém, aqueles que anseiam por reconhecimento público se esfregam uns nos outros como salmões que sobem a correnteza para a desova. Esses escritores de blogue buscam as editoras de coletâneas inscientes de que o que os aguarda – a quase todos – ao fim da jornada (ou até antes dela), é o definhar literário.

*Adendo referente ao artigo publicado em 09 de setembro de 2009 (Um esparrame de coletâneas. Nelas se alimentam os rodapés): A Editora Saída de Emergência (Pulp Ficcion à Portuguesa) a Editora Terracota e a Tarja Editorial não são editoras de coletâneas e antologias pagas. Atuam em seus mercados como casas publicadoras tradicionais. Por outro lado, esqueci-me de citar a All Print Editora como uma das que elaboram coletâneas pagas. Fica a correção.

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12 Respostas to “Do blogue para o papel, sem escalas.”

  1. Alexandre Heredia Says:

    Tá a fim mesmo de botar lenha nessa fogueira, hein, Tibor?

    Podexá que já estou aqui com meu galão de gasolina a postos.

    Bombeiro é para os fracos.

    Abração,
    Alexandre Heredia

  2. Saint-Clair Stockler Says:

    Koan zen: “Num ambiente onde todos são escritores, ninguém é escritor”

  3. Ivo Heinz Says:

    Pois é Tibor, escrever num Blog ou qualquer outra coisa na internet é fáicl, gasta-se só o tempo de digitar, dar uns cliques no mouse e voilá…. está “publicado”.

    E, como é na internet, está gratuitamente disponível para quem quiser.

    Já livro impresso não, custa dinheiro; acho que este é o teste pro escritor, saber se (comercialmente falando) é viável, se as pessoas vão gastar seu dinheiro com ele.

    Aí, meu amigo, é a pura e simples seleção natural.

  4. Herbert Pereira Says:

    Olá, Tibor! Só uma pergunta: o que você faz para elevar a nossa cultura no Brasil? Criticar algumas editoras e escritores foi o melhor caminho que encontrou para tentar aparecer no mercado literário? Seria interessante você se concentrar em seus próprios trabalhos, quem sabe assim seria um autor de destaque.

  5. Rogério Callys Says:

    Meu caro, Tibor. Pena é uma palavra muito pesada, porém eu digo, que triste ver um autor como você se alimentando de insultos. Isso só vem a calhar a sua falta de afinidade com escritores que não sejam DA sua prória panela. Comprei o seu livro “FOME – Onde restar vida, haverá fome”, e sinto muito em lhe dizer que as folhas caíram todas antes mesmo de finalizar a leitura. O que você tem a me dizer sobre isso? Acho que você deveria estar mais preocupado com a qualidade do seu trabalho em vez de ficar alfinetando o suado trabalho dos outros. Tenho acompanhado trabalho de antologias de alguns amigos meus, e sei o quanto é difícil. Organize você uma antologia com contos de graça e fique dias e horas selecionando textos e revisando cada detalhe escrito, dando o máximo de si e de seu tempo, e depois me diga qual é sensação de fazer um trabalho árduo de graça.

    • Tibor Moricz Says:

      Oi Rogério,
      Desde quando relatar o que acontece no mercado (todos sabem, todos veem) se trata de insulto? É simples constatação de fatos. Com relação ao Fome, não reclame com o autor e sim com a editora. Ligue lá que eles trocarão seu livro sem nenhum ônus para você.
      Eu organizo antologias “de graça” (no sentido de não cobrar nada dos autores, diferente de muitos outros). Aguarde alguns dias e ficará sabendo com mais detalhes.

  6. Afonso L. Pereira Says:

    Olha, Tibor, eu não vou discordar do que você escreveu aqui neste post, apesar de considerar algumas passagens um tanto “indigestas”, principalmente para aqueles que são mantenedores de blogues, mesmo considerando o fato de você não criticar a todos, como bem deixou enfatizar, mas faço uma ressalva! A internet é um veículo de comunicação extramente democrático. Tem coisa boa e tem coisa ruim! E, assim como a televisão, você pode assistir aos canais que quiser. Cabe a cada um de nós sintonizar e voltar a acessar aqueles que estejam dentro dos limites de qualidade que você espera.

    Quando você fala que houve uma banalização dos escritores, porque todos arrogam para si tal título, não vou discordar, mas é preciso ponderar, também, que a proliferação de blogues e sites literários, este fenômeno bem constatado por você, tem mais ajudado do que tem atrapalhado os excelentes escritores que estão surgindo. Certo? Porque quando o cara é bom, você já o disse, ele vai, mais cedo ou mais tarde, aparecer como o escritor real de fato e de direito.

    Pode ser que eu esteja equivocado, mas acredito que uma parte considerável do reconhecimento que muitos escritores novos e talentosos que estão despontando, e até mesmo os que já estão na estrada há muito tempo sem o devido reconhecimento, talvez você, Tibor, devem dar crédito a este “fenômeno” dos blogues, bons e ruins, em termos literários. E costuma se afirmar que tem muito mais coisa ruim do que boa por aí e isto é um fato, mas não há como negar que eles alavacam a carreira dos novos escritores que nunca tiveram propaganda gratuita tão generosa.

    Se é ruim come eles! Muito mais ruim, em termos de visibilidade para os verdadeiros talentos, sem eles!

    • Tibor Moricz Says:

      Os blogs e sites literários tem o condão de tanto fazer surgir autores novos e talentosos, como expor aqueles que não tem a menor chance no mercado. É uma ferramenta eficaz nesse sentido. Uma peneira necessária e fundamental. O que eu abordo é sobre a onda de “autores” (gigantesca parte sem o menor pendão para o negócio) que tenta migrar do virtual pro papel, não lhe restando alternativa senão pagar para isso. Têm o direito? Claro que sim. Mas me incomodam aqueles que lucram em cima das esperanças de terceiros. Mais fácil é ler o material e dizer: Não tem qualidade suficiente. Leia mais, estude mais, prepare-se mais, escreva muuuuito e depois volte a nos procurar. Essa consciência eles não têm, porque precisam vender espaço.

  7. Arthur Veiga Says:

    Eu concordo, mas não posso deixar de alfinetar: publique um romance, que tal?

  8. Cassionei Petry Says:

    Estou gostando muito dos seus últimos textos, relatando os fatos, como você mesmo disse, pois quem não está por dentro desse mercado editorial “alternativo’ fica pensando se vale a pena mandar trabalhos para as editoras. Quanto a publicar em blog, é aquela velha história: pode ter bons, médios, ruins, péssimos escritores, assim como em papel. Não dá para se dizer que ser publicado em livro é um aval para ser um bom escritor, nem nas grandes editoras. O pior mesmo são os escritores, que eu conheço aqui na minha cidade por exemplo, que não publicam em nenhum meio seus textos. O texto só existe se tiver leitores, caso contrário é um monte de letras uma do lado da outra dizendo nada. Belo trabalho você está fazendo no blog. Abraço.

  9. Daniel Folador Rossi Says:

    Legal o artigo, Tibor, expõe questões interessantes. Só acrescento que, com o gradual avanço tecnológico e a inclusão digital, acredito que o espaço virtual seja melhor utilizado. Mas até lá, concordo: escrever não é só juntar idéias num espaço, virtual ou não. É uma arte, e com tal, exige esforço, talento e habilidade na execução. Tem muito blogueiro por aí que nao sabe.

    PS: muito engraçado o povo dirigindo insultos/desafios pessoais.

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