Conto – O que vi na água.

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Só depois de abrir a boca e começar a falar, Alina sentada à minha frente, começar a dizer, enquanto ela contempla com olhar distante, como se não estivesse ali, a unha do pé, ao mesmo tempo em que baixo, muito baixo, vai cantando uma canção qualquer, quase inaudível, mas presente no espaço entre nós dois e, sentada na poltrona, puxa de repente uma perna, acaricia com mão lenta a perna puxada junto de si, enquanto seu olhar contempla talvez o dedão do pé esquerdo, ou não, talvez o olhar de Alina esteja voltado para dentro, para as vastidões de seu espaço interior, imensas planícies, lagos profundos, vales perdidos na sombra de um dia sem sol, cavernas úmidas onde a escuridão faz seu ninho, ao mesmo tempo em que canta para si, baixo, muito baixo, uma canção de ninar, sim, voltada para as vastidões de seu íntimo, a cabeça completamente pousada no espaldar da poltrona alta, quase ao mesmo tempo em que abro a boca e começo a falar, sem saber se Alina está prestando atenção em mim, em minhas palavras, ela que canta baixinho uma canção tênue, meneando devagar a cabeça bem-feita, recostada no espaldar macio da velha poltrona com o meu cheiro e o cheiro de Alina misturados, sim, quase simultaneamente ao início das minhas palavras que flutuam entre nós dois, no espaço vazio onde partículas de poeira mantêm-se suspensas, iluminadas pelo sol de fim de tarde que vara a persiana à direita de onde Alina senta-se enquanto canta a canção minúscula, quase no mesmo instante em que minhas palavras quebram o silêncio entre nós, trazendo-a de volta das vastidões desertas onde caminhava solitária, sim, quase simultaneamente, é que me dou conta de que jamais, para o nosso próprio bem, em nenhuma hipótese, poderei contar para Alina o que vi na água.

Saint-Clair Stockler

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4 Respostas to “Conto – O que vi na água.”

  1. Jorge Says:

    Mais um conto excelente do Saint-Clair !! Precisamos de mais produção sua, viu seu moço ? 🙂

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Oi Jorge. Brigadão pelo elogio! Tenho um livro de contos pronto (Dias estranhos). Se alguma editora se interessasse…

      POR FAVOR, DONAS EDITORAS, ME VEJAM!!!!!!

      🙂

  2. Glaucia Says:

    A cacofonia foi de propósito? “Ali na sentada à minha frente” ficou engraçado 🙂

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Caldas Aulete: “Cacofonia: ‘Modo de falar ou de combinar sons, geralmente da fala, com efeito desagradável. Conjunto de sons desagradáveis'”. Glaucia, onde está a cacofonia em “Alina sentada à minha frente”, por favor?

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