Gênero e mainstream. A mediocridade está no ar.

literatura

A velha discussão. Mas sempre presente.

Ambas dialogam com o leitor se utilizando de códigos próprios. Uma especula, a outra procura pontos de vista inusitados para um mesmo evento do cotidiano. Uma se preocupa com o enredo, com a história, a outra valoriza o estilo, a estrutura, a forma.

São tão diferentes quanto o pardal e o beija-flor, embora ambas tenham bicos, penas, cloacas e voem.

Acredito que a literatura de gênero deve se aproximar da mainstream no que concerne à forma. Deve evoluir. Deve melhorar em estilo, deve tentar unir um pouco do que há de melhor nas duas vertentes.

Mas gênero será sempre gênero, e mainstream sempre mainstream.

Misturar ambas desde que sem exercícios de estilo inapropriados ao público que se destinam, e sem lirismos despropositados, é sinal de evolução. Integrar para melhorar. Pode a literatura de gênero prescindir da forma? De jeito nenhum. Ela até sobrevive sem (já que se apóia no enredo) , mas a exige como qualquer literatura boa. E pensar diferente é relegar o gênero a uma posição de inferioridade inadmissível.

Pode ser romantismo de minha parte, mas enxergo o escritor como alguém que tem uma missão. E a principal delas é evoluir. Boa parte dos escritores (E candidatos a) de gênero contemporâneos está satisfeita em ser medíocre. Não lhes importa melhorar, aprender e apreender, estudar estilos. Basta-lhes escrever, contar a história que lhes apetece contar, mesmo que a forma seja sofrível.

Vejo isso como um desperdício de talento (se é que há algum em parte deles). Nesse sentido, o bom mainstream tem muito a nos ensinar.

Nenhuma boa história é lá essas coisas se não for bem contada.

De preferência, muito bem contada.

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11 Respostas to “Gênero e mainstream. A mediocridade está no ar.”

  1. horaciocorral Says:

    Tibor, conheço muitos autores e poucos escritores ‘de gênero’. Autor é aquele que cria e ampara as possíveis falhas da obra com a “vista única” que a sua criação apresenta; escritor é aquele que não só cria mas que se preocupa com o ato e a arte de escrever. Por experiência, posso afirmar, que o problema da maioria dos autores brasileiros de gênero é que não querem se tornar escritores, querem continuar sendo apenas autores, desejam ser Saramago, tendo a arte de escrever como um mero hobby. Quem escreve, como André Vianco, por profissão, tem que encarar a tarefa todo dia e escrever todo dia. É uma profissão. André Vianco com suas falhas narrativas e suas grandes aventuras, seus defeitos e virtudes, é cada vez mais, um escritor. O problema, resumindo, é que ninguém quer seguir a carreira de escritor: porque é difícil. Todo mundo quer flertar, mas ninguém quer um relacionamento sério.

    • Tibor Moricz Says:

      Autor ou escritor. Ambos tem obrigações na escrita. Nenhum deles está isento de evoluir. E se não o faz, por mera deliberação, não merece ser chamado nem disso, nem daquilo.

  2. Ana Lúcia Merege Says:

    Falo de coração… Eu escrevo desde que me entendo por gente e acho que é importante não apenas contar uma boa história, mas contá-la bem. Posso escrever fantasia medieval, com tudo a que o gênero tem direito; posso escrever majoritariamente para jovens, mas, garanto, estou trabalhando para escrever com qualidade.

    • Tibor Moricz Says:

      E é isso que acho importante, Ana. Escrever e escrever buscando sempre evoluir. Eu mesmo tenho um longo caminho pela frente, embora reconheça minha evolução. Falo de mediocridade, sendo, de certa forma, um medíocre. Mas um medíocre que se esforça em melhorar, diferente de um monte de medíocres que estão felizes na própria mediocridade (e vituperam contra mim por aí, enfatizando isso ainda mais).

  3. Davi M Gonzales Says:

    Sim Tibor, acredito que o melhor da literatura esteja no equilíbrio entre enredo e forma.

    “Nenhuma boa história é lá essas coisas se não for bem contada”

    Observando o outro lado da moeda, eu diria que também é muito irritante ler algo denominado “conto”, com dez ou quinze páginas, enaltecendo e descrevendo as folhas que caem de uma árvore, em frente da casa do autor, em uma nublada tarde de outono… E creia, a gente vê muito disso por aí.

  4. Cirilo S. Lemos Says:

    Bom, Tibor, é mais ou menos isso aí que estou tentando dizer lá na comunidade. Ter um bom enredo não significa que se deve escrever de forma burocrática, se for possível algo melhor. Na minha opinião, você é um dos autores que buscam aliar os dois lados da moeda, pelo que vejo nos contos que leio. Isso é um elemento importante para dar mais crédito à FE brasileira, mostrar que também é Literatura.

  5. Mila Says:

    “Integrar para melhorar.” Acho que nunca concordei tanto contigo, Tibor. Sempre achei essa separação entre gêneros uma coisa bastante limitadora e mesquinha com a criatividade de quem escreve. Meu lema para muita coisa hoje é: para que dividir se a gente pode multiplicar?

    Aproveita e passa no meu blog.

    😉

  6. Saint-Clair Stockler Says:

    Tibor, seu texto reverbera pelo Twitter: alguém, comentando-o, disse que é muita cara-de-pau da sua parte falar de mediocridade, sendo vc medíocre…

    rsrsrs

    #prontofalei

    • Tibor Moricz Says:

      E sou mesmo, Saint. Mas um medíocre que tenta não ser. Quem fala de mim é um medíocre que está feliz em ser.

  7. Cirilo S. Lemos Says:

    Fome não tem nada de medíocre!

  8. Guilherme Says:

    O problema da maior parte da atual geração de autores de gênero é que eles *nem sabem* que existe mainstream ou estilo ou forma. Não procuram estudar teoria literária nenhuma. É como se eu pegasse uma câmera, filmasse meu cachorro fazendo estripulias e chamasse de “filme”, considerando que não tenho nenhum conhecimento de cinema. São imagens gravadas, não um filme. Assim como muito texto curto por aí não passa de palavras escritas, e não pode ser realmente chamado de conto.

    Não é porque tu tem as ferramentas físicas para se comunicar em determinada mídia — e no caso da literatura, papel e caneta já servem — que tu tem o conhecimento para se comunicar nessa mídia. O problema do pessoal é que eles sequer sabem que existe um conhecimento a ser adquirido.

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