Metafísica da especulação – Diálogos II

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Ele:

— Agir dessa maneira vai prejudicar você.

Eu:

— Prejudicar por quê?

Ele:

— Você diz coisas que não deveria dizer.

Eu:

— Digo o que penso.

Ele:

— Não pense.

Eu:

— Devo agir como os outros? Sorrisos pela frente, maledicências pelas costas?

Ele:

— Apenas considere o que falei.

A nave Enterprise se desloca pelo universo utilizando motores de dobra, capazes de impulsioná-la a velocidades FTL. Impressionante como certos conceitos também.

“Não aceite balas de estranhos” é um conselho que vale para todos. Nem balas, nem pistolas faser.

Manifestar-se com franqueza se tornou um comportamento de risco. Um faser nas mãos de um inapto. Uma corda que lentamente vai sendo esticada, pronta para pendurar o sujeito pelo pescoço. Enforcado pela ousadia de falar o que pensa.

Seguir a manada, cego e burro, essa é a regra de ouro que deve ser obedecida.

Mas a manada desaparece no horizonte, deixando, apenas, o rastro de suas fezes como prova tácita de sua presença .

Vá com Deus.

O resto é especulação. Quase sempre metafísica.

Motores warp me levam para onde ninguém jamais esteve. Nem búfalos, nem tolos.

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3 Respostas to “Metafísica da especulação – Diálogos II”

  1. Saint-Clair Stockler Says:

    O problema é que “ele” – seja lá quem for – está bastante certo. É assim que o meio funciona. Conheço muitos escritores, muitos mesmo (mais do que gostaria, cheguei a essa conclusão recentemente), a maioria do mainstream, alguns conhecidíssimos, premiados, etc. & tal, e posso dizer: é exatamente assim que a coisa funciona.

    Uma história que me contaram. Ela já é conhecida, mas não com tantos detalhes. Clarice Lispector ligou um dia para o seu Editor pedindo uma grana emprestada. Estou falando de CLARICE LISPECTOR, não de qualquer berda-merda. O Editor a atendeu de má vontade. Ouviu as demandas dela. Ao final, disse: “Mas, Clarice, seus livros não vendem!” Clarice argumentou ainda um pouco mais. Finalmente, agastado, ele acede: “Então tá, Clarice. Aguarde que amanhã mando o boy levar o cheque”. E decretou: “Escreva sobre sexo, aí sim talvez você consiga vender alguma coisa”. Clarice até que atendeu ao conselho, mas do jeito dela, e nos saiu um dos seus livros mais geniais: A via crucis do corpo.

    Agora fico eu aqui pensando: se um editor tratava Clarice Lispector como uma “escritora de livros encalhados”, o que nós temos a reclamar? Certamente, muito. Mas ainda assim é assim que as coisas funcionam no mercado editorial brasileiro (e, suspeito, mundial), com algumas exceções.

    O meio literário é um meio cheio de pavões. Um meio cheio de serpentes. Um meio cheio de sanguessugas. É o lugar por excelência das “ligações perigosas”, cheio de traições, fofocas, maledicências, mentiras habilmente usadas como cartas num jogo de vida ou morte. É o lugar que conheço que mais reúne vaidosos por metro quadrado. E as regras do jogo são essas: o editor vai explorar o autor até o seu limite. Uma vez vi um escritor reclamando que ele era como um garçom: ganhava só seus 10%, mais nada. E é a pura verdade. Um escritor “comum” têm a mesma importância de um garçom e é remunerado como um: ganha 10% e tem o direito de ficar de boca calada.

    Por isso que acho – que me perdoem as editoras, inclusive as que me publicaram e publicarão – que um autor inteligente, antenado com o século XXI, devia pensar em alternativas. Por exemplo: montar um site e vender seus próprios livros, diretamente, ao público ledor. Aqui no Brasil nós temos um escritor excelente que se chama Ricardo Kelmer e é assim que ele faz. Dá trabalho, mas acho que ele está muito mais satisfeito do que se estivesse ganhando seus “10% de garçom”. Vamos parar de enriquecer o Luiz Schwarcz, o Paulo Rocco, e o resto todo deles! Ao menos, os editores das grandes casas editoriais.

    O dia em que conseguirem inventar um programa de computador que imite razoavelmente bem um escritor, adeus escritores de carne e osso! Os editores, me parece, guardam o maior desprezo pelos autores, que são contabilizados na coluna dos “gastos”, não dos “lucros”. Escritor custa dinheiro, despesa (os “10% do garçom”). Tenho certeza de que a maioria dos editores adoraria ter o programa Escritor 2.0, no qual inseriria alguns parâmetros (estilo, enredo, quantidade de personagens, gênero) pra fazer um romance best-seller!

    Quero deixar claro que não concordo com o seu interlocutor, mas acho que ele está cheio de uma sabedoria prática e não-idealista que demonstra uma notável percepção do que é o meio editorial como um todo. Não vivemos no melhor dos mundos possíveis, temos que entender isso. Nenhum jovem autor conseguirá se manter por muito tempo no mercado se não fizer algumas (às vezes, muitas) concessões – e esta é a verdade cruel.

  2. Cirilo S. Lemos Says:

    Isso é tão triste, ST-C…

  3. Erick Sama Says:

    Ainda acho que esse meio não é mais ou menos vaidoso que nenhum outro. Pelo menos não dentro da minha experiência. O agravante é se tratar de obra intelectual, o que leva as pessoas a defender seus lados mais secretos com unhas e dentes. E tentar derrubar quem o critica é mais fácil que crescer, não é mesmo? Questionável, mas é a atitude mais comum.

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