Procura-se ORIGINALIDADE viva ou morta. Recompensa-se bem.

Self ilumination

O que mais se escuta e lê dentro e fora do fandom é sobre esse negócio de originalidade. Querer escrever um romance, um conto, uma novela, buscando uma fórmula ainda não utilizada de enredo, um cenário novo. Só para constar: a originalidade precisa vir atrelada à criatividade, senão fica sem sentido, sem força.

Mas o que é mesmo a originalidade?

É criar a sua própria mitologia, sem empréstimos escancarados de outros autores. Porque criar uma mitologia inteiramente nova, que jamais tenha sido explorada por alguém, algum dia, nem nos mínimos detalhes, é quase impossível.

Não vou declarar a impossibilidade disso ou daquilo, porque da mesma forma que se defende, em teoria, a existência infinita de universos alternativos e paralelos, também se pode defender que sempre haverá uma mitologia a ser descoberta e desenvolvida.

Mas a busca dessa originalidade é amarga e potencialmente enlouquecedora.

Para se abarcar tudo o que foi criado literariamente na história da humanidade, nós precisamos considerar não só o que foi devidamente publicado, mas também o que foi mantido nas gavetas. E mesmo o que foi publicado é de uma imensidade tão esdrúxula que ninguém no mundo pode afirmar que sabe mais que um pequeníssimo punhado disso tudo.

Não estou falando dos livros que ganharam dimensões extras, devido as suas qualidades intrínsecas. Refiro-me também aos milhares, senão milhões de livros que foram publicados para cair imediatamente no ostracismo, levando seus autores para um brilhante anonimato.

Se há num deles um universo parecido com o que você pretende criar, não há mais originalidade de sua parte (Poderão argumentar que estando o referido livro no ostracismo e seu autor no anonimato, o universo criado ali “não existe” teoricamente, podendo então ser apropriado sem muitos pruridos).

A busca por essa originalidade malfadada pode tornar escritores talentosos em personagens de suas próprias histórias, tornando-os pessoas obsessivas e neuróticas.

Receita? Escrever. Sem muitas preocupações quanto a essa questão sobre originalidade. Escrever histórias diferentes, variar os universos para não cansar o seu leitor. Procurar, claro, não copiar o universo dos outros. O que para muitos é fanfic, para mim é plágio. Demonstra dificuldade em criar universos próprios. Assim, é mais fácil se apropriar dos que já são consagrados.

Escrever dedicadamente, tentando construir um mundo seu, com personagens seus, com ideias suas, com erros só seus. Eu disse recentemente ao Saint-Clair que escrever é muito mais que juntar palavras, que formar sentenças, que construir cenários. Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si.

A originalidade virá a seu tempo. Ou não virá. Tanto faz.

O importante é agradar a si próprio e aos seus leitores. O que eles querem ler é uma boa história e bem contada. Quando conseguir fazer isso, terá então tudo o que precisa. Sem a babaquice de buscar a iluminação, ou auto-iluminação, essa coisa meio metafísica, meio tântrica.

O resto, então, passará a ser acessório.

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12 Respostas to “Procura-se ORIGINALIDADE viva ou morta. Recompensa-se bem.”

  1. Cirilo S. Lemos Says:

    Já me disseram que originalidade consiste em esconder bem sua referência.

  2. Noga Sklar Says:

    “Escrever é amar, acima de tudo. E entregar-se a um projeto de corpo e alma, sem maiores preocupações senão em dar o melhor de si.”, gostei da frase e a citei no meu blog. Abraço.

  3. Vianco Says:

    Olha, esse lance de originalidade vira uma prisão para alguns, uma camisa de força para outros. Vale a pena ser original? Claro que vale! Quem lê sabe que não tem trem mais gostoso que abrir um livro e escrachar aquele sorrisão na cara lá pela segunda, terceira página e dizer: Olha que diferente! – Um livro, uma ideia, um conto original é gostoso demais. E nem estou falando em literatura de gênero. É desejável e razoável buscar por textos, ideias, premissas, enredos, personagens originais, iluminando isso como uma lanterna, um caminho, uma busca comum de quem escreve diariamente, não sendo arrastado como mariposas ao redor de um farol, que giram e giram sem sair do lugar e morrem consumidas pela luz que tanta perseguiam. As ideias orginais (ou nem tanto) viram eventualmente, trate bem delas, como disse o Tibor, com paixão, com amor, e ela vai te ajudar a contá-la. Mas é imperativo que se conte sua paixão, ou ela morre, na sua cachola, e desce a sua sepultura sem ninguém dar nem bola. Tá certo que tá aqui um autor de histórias de vampiros, vc até pensa, que originalidade há nisso? Tenho lá meus encantos, e busco, sim, o sabor do original… como um prazer, não como um fardo. O resumo é, para ser original é preciso escrever, exercitar a paixão, estar pronto como um soldado treinado para quando a boa doce Dona Inspiração contemplá-lo com algo inestimável. Só os preparados não terão medo.

  4. Horacio Corral Says:

    A procura pela originalidade matou mais livros de literatura fantástica no Brasil do que qualquer comentário crítico de um Antonio Luiz, uma Ana Cristina Rodrigues ou um Roberto Causo.

    A preocupação tem que ser com aprender a se expressar, isso é o ponto fraco de todos os autores iniciantes, eu entre eles. Aprender a contar uma história é o essencial. Como se faz isso? A Lygia Fagundes Telles disse como a um escritor amigo, Alexandre Heredia, ela disse: o único jeito é – ler, ler, ler, ler, ler, ler, escrever, escrever, escrever, escrever, escrever, escrever, ler, ler, ler, ler, ler, etc.

    A originalidade é filha de muito estudo e pesquisa, muito estudo… Vale lembrar que Tolkien era um professor universitário de filologia e línguas antigas, então, ele colocou em sua obra a pesquisa, idéias e conceitos, que lhe foram comuns durante a vida toda. O Robin Cook era médico e escreve thriller que envolvem medicina, John Grisham, advogado, e por aí vai. Não vale a pena tentar escrever sobre o que não se sabe como armaduras medievais e batalhas épicas do século V. Escrevam sobre o que sabem, transportem, re-pensem, detalhem a partir das suas vidas e das suas experiências. Tudo é útil se bem usado e bem expresso-contado.

    • Antonio Luis Nascimento Gomes Says:

      Também concordo com você. Você sintetizou exatamente a avalanche de conceitos que pairam sobre o meu universo mental, sem detrimento do ponto de partida de todo escritor, que é o anseio por leitura, leitura, o que para muitos conduz a uma trama embasada em muita criatividade.

  5. Ataide Says:

    Alguém já disse que todas as histórias já foram escritas. Será que só nos resta a reciclagem?

  6. Osíris Reis Says:

    Concordo com Vianco: a originalidade é gostosa!

    Ou seria criatividade?

    Não sei se a grande questão é ler, ler, ler, ralar, ralar, ralar… Presencio, nos meus processos e de autores amigos, casos de criatividade e originalidade sem grande esforço, de uma maneira tão lúdica que até… parece brincadeira.

    Eu acho que, talvez, o ralar seja mais no imaginário que no conhecimento. Talvez seja mais questão de fantasiar, viajar na maionese, de imaginar a mesma história várias e várias vezes, melhorando-a a cada vez que a assistimos mentalmente que… tentar se afastar ou se inspirar no que os outros escreveram.

    Sei lá… Elocubração minha. Impressões.

  7. Horacio Corral Says:

    Osíris, me desculpa, sem faltar o respeito mas eu ainda confio mais na Lygia Fagundes Telles, e o que ela diz é, em outras palavras, adquiram conhecimento, conheçam o mundo e depois expressem a sua relação e a sua visão com ele, faziam isso repetidas vezes até sair do jeito que você e quem te lê possam ver o mundo da mesma maneira ou da maneira que você, escritor, quer que o leitor veja.

    Não esqueça ser escritor é uma carreira como qualquer outra, muito trabalho, muitas horas de trabalho, frustração e por aí, isso sem falar em salário que é algo bem complicado…. rs

  8. Ana Lúcia Merege Says:

    Eu teria que reproduzir palavra a palavra o comentário do Vianco e o primeiro do Horácio para dizer o quanto concordo com eles.

    Essa questão de “originalidade a todo custo” provavelmente já estragou muitos livros, pois, preocupado em não parecer um plagiador (ou, para usar um termo mais leve, alguém a fazer “mais do mesmo”, o autor deixou de escrever com o coração, de contar a história que realmente imaginou e da qual se sentia parte, para se lançar a uma experimentação calculada apenas com o intelecto. Ou pior: com o cálculo do que ele achava que iria agradar aos outros, fossem os críticos, fossem os editores.

    É verdade que simplesmente copiar um outro universo não é legal, mas a fantasia tem referências, e além disso quando escrevemos usamos a nossa bagagem como leitores e a nossa bagagem afetiva. Não vale a pena escondê-las: é melhor assumir e dentro disso escrever com gosto e paixão. Com a prática constante da leitura e da escrita vai surgindo o estilo – e aí de repente você está escrevendo sobre vampiros como o Vianco, ou sobre magos, elfos e saltimbancos como eu, mas está contando uma história sua, que tem a sua cara e a sua voz. Eu acho honestamente que é isso que importa.

  9. rosane chonchol Says:

    pensei que estava falando com Noga, desculpe/ não aceite o comentario

    Tibor, seu texto é muito originalKKKKKKKKKKKKKKKKKKK adorei

  10. Antonio Luis Nascimento Gomes Says:

    O espelho reflete certo porque não pensa, logo, pensar é essencialmente errar.

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