Tapa de amor não dói.

leitor

Você está ansioso. Bate furiosamente no teclado, digitando as últimas linhas do seu maravilhoso romance, ou trilogia, ou pentalogia. Aquele que revolucionará a literatura brasileira de todos os gêneros. Aquele que será aplaudido de pé pelos leitores mais exigentes. É com um urro de alegria que você digita “FIM”. Suspira emocionado. Sente as lágrimas assomarem, mas se controla. Precisa ler tudo de novo, do começo. Precisa estar certo de que não deixou nenhum fio solto. De que está tudo como você tem certeza que escreveu. Não iria bobear, não é mesmo?

Após horas de leitura fragmentada (afinal não precisa ler atentamente cada palavra, foi você que escreveu) e alguns errinhos bobos, risíveis, próprios de gênios, porque gênios são mesmo distraídos, você permite que a lágrima teimosa lhe escorra pela fronte.

Sua obra prima, crème de la crème está pronta. Agora só falta imprimir e encadernar. Mandar para as editoras e assistir de camarote a briga entre elas pela obra do novo fenômeno editorial. Depois é ganhar o mundo. Ficar famoso. Abrir as portas para rios de dinheiro. Entrevistas na TV, nos Jornais, nas Rádios. Você sendo citado a torto e a direito. O orgulho dos pais, dos amigos, alvo da inveja dos concorrentes, todos eles inferiores ao seu talento irrepreensível.

Certo?

Errado.

Provavelmente seu romance de estréia é uma bela porcaria que não resistirá a primeira leitura crítica. Sem estilo nenhum, repleto de erros gramaticais (que você, na sua leitura fragmentada, não viu nem tinha competência para identificar), ambientação e cenários ruins, personagens rasos, diálogos bobos e desnecessários, prolixo ao extremo… um verdadeiro desastre.

É o fim do mundo? Ainda não. Mas você está na beirinha do despenhadeiro, prestes a despencar, e vai, se não fizer algo rápido.

Esse algo rápido se chama “leitor beta”. Aquele cara,  sem nenhum vínculo de amizade com você – isso é importante -, que manja do babado e está louco pra te esfregar na cara a sua incompetência. É justamente ele que vai te salvar a vida.

Depois do esculacho geral, você vai pegar esse romance, jogar no lixo – literal ou figurativamente falando –  e escrever outro. Esse melhor. Mas ainda não o ideal. Outro esculacho – porrada atrás de porrada – e mais um romance. Na décima-quarta tentativa o leitor beta – um santo esse homem – esboça um sorriso.

As coisas estão melhorando pra você? Não. Nunca vão melhorar, por mais e melhor que escreva.

Hoje fui esculachado. É uma droga. Mas faz um bem…

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5 Respostas to “Tapa de amor não dói.”

  1. Horacio Corral Says:

    Não acredito em Deus ou Deuses mas rezo para que todos os autores e escritores te ouçam, te leiam e te levem a sério, mortalmente sério – digo, porque nesse momento a literatura de gênero vai tomar o rumo certo mesmo que seja para Mordor/Averno/Inferno/insira-aqui-a-sua-variação-do-castigo-eterno.

  2. xerxenesky Says:

    Regra universal do “fail better”.
    Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better.

  3. Noga Sklar Says:

    beleza. vou perder o medo (e a culpa) de esculachar.

  4. Delfin Says:

    Não existe o leitor perfeito. Isso é o legal de escrever: sempre vai ter quem ache o pelo no ovo 🙂

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