Vai um ebó, aí?

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“Tostines é fresquinho por que vende mais ou vende mais por que é fresquinho?”

A pergunta pode ser transportada para o mercado editorial.

“Livros vendem mais por que são melhor distribuídos ou são melhor distribuídos por que vendem mais?”

Sabemos todos (ou quase todos) que as livrarias não compram (nem recebem em consignação) livros de autores desconhecidos, livros de editoras novas cujo catálogo é ainda pequeno e livros cujas temáticas lhes sejam do desagrado.

Assim, realizar uma distribuição efetiva, só mesmo para as editoras maiores, cujos catálogos reúnem obras suficientes (e devidamente distribuídas) para agregar valor à unidade. As vezes, mesmo assim, as coisas são suadas, com um grande sacrifício que nem sempre resulta em vendas.

Porque além da distribuição existe outra coisa chamada exposição.

Muito bom espalhar o livro por dezenas de livrarias. Mas uma rápida visita em cada uma delas determinará para a maioria dos estoicos editores que os mesmos estão espremidos nas prateleiras. Longe da azáfama próxima das gôndolas de best-sellers e dos nomes famosos que se não vendem tanto, ao menos chamam a atenção.

(vou ignorar de mentirinha que as livrarias não cobram por essa exposição, exigindo das editoras uma quantia “x” em dinheiro para o livro ficar ali, pertinho da multidão)

Nas prateleiras não têm visualização. Sem visualização não há impacto (desde que haja algum impacto para oferecer), sem impacto não se cria o desejo. Sem desejo não se pega o livro nas mãos, não se lê as orelhas nem a quarta capa, o livro só será comprado por alguém que for à livraria atrás dele especificamente.

Assim, voltamos à ciranda maluca. Sem resultado comercial (e isso só se pode calcular fazendo a bendita distribuição) as livrarias não querem. Se as livrarias não querem, não há como obter resultado comercial.

Existe solução? Creio que sim. Dizem que um ebó cheio de farofa, azeite de dendê, uma galinha preta degolada, ossos descarnados, seis velas pretas e seis vermelhas acesas numa meia noite de céu claro e esquina sombreada dão jeito.

Já estou preparando o meu. Vocês que cuidem dos seus.

E o Tranca-Ruas que vá se danar.

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11 Respostas to “Vai um ebó, aí?”

  1. Saint-Clair Stockler Says:

    Isso me lembra uma das canções do novíssimo CD da Bethânia (Encantería):

    Linha do Caboclo:

    Já chegou a hora
    Quem lá no mato mora
    É que vai agora
    Se apresentar
    No chão do terreiro
    A flecha do Seu Flecheiro
    Foi que primeiro
    Zuniu no ar

    Vi Seu Aimoré
    Seu Coral, vi Seu Guiné,
    Ví Seu Jaguaré,
    Seu Araranguá,
    Tupaíba eu vi,
    Seu Tupã, vi Seu Tupi,
    Seu Tupiraci,
    Seu Tupinambá.

    Vi Seu Pedra-Preta se anunciar,
    Seu Rompe-Mato,
    Seu Sete-Flechas,
    Vi Seu Ventania me assoviar
    Seu Vence-Demandas eu vi dançar
    Benzeu meu patuá.

    Vi Seu Pena-Branca rodopiar,
    Seu Mata-Virgem,
    Seu Sete-Estrelas,
    Vi Seu Vira-Mundo me abençoar
    Vi toda a falange do Jurema
    Dentro do meu gongá.

    Seu Ubirajara
    Trouxe Seu Jupiara
    E Seu Tupiara
    Pra confirmar
    Linha de Caboclo,
    Diz Seu Arranca-Toco,
    Um é irmão do outro
    Quem vem lá.

    Com berloque e joia
    Vi Seu Arariboia
    Com Seu Jiboia
    Beirando o mar,
    Com cocar, borduna,
    Chegou Seu Grajaúna,
    Que Baraúna
    Mandou chamar.

    Vi Seu Pedra-Branca se aproximar,
    Seu Folha-Verde,
    Seu Serra-Negra,
    Seu Sete-Pedreiras eu vi rolar
    Seu Cachoeirinha ouvi cantar
    Seu Gira-Sol girar.

    Vi Seu Boiadeiro me cavalgar,
    Seu Treme-Terra,
    Seu Tira-Teima,
    Seu Ogum-das-Matas me alumiar
    Vi toda a nação se manifestar
    Dentro do meu gongá.

    (Ao final da canção Bethânia grita algo que me parece ser “Chez toi!” – “Na sua casa!”, em francês, mas as letras na internet não trazem isso; êta povinho pobre que só sabe inglês… Escuta duas palavras em francês e é incapaz de entender… ¬¬)

    • Tibor Moricz Says:

      Cadê o tranca-Ruas nessa canção? rs

      • Saint-Clair Stockler Says:

        Foi ele quem ditou a letra da canção pra Bethânia, hahahahaha.

        (Quer apostar como vai ter gente dizendo – não aqui, claro, que o povo que frequenta seu blog é civilizado – que a Bethânia fez pacto com o Diabo e que, ao gritar “Chez toi!” no final, ela tá convidando Ele pra entrar na casa de quem ouve a canção? hahahahahahahaha)

  2. horaciocorral Says:

    Desmistificando…

    1 – Livrarias pegam livros de autores novos e editoras pequenas, sim, é só saber conversar e mostrar as vantagens. É simples na realidade.

    2 – Livrarias cobram para poder livros e/ou produtos na vitrine ou destaque mas também existe a estratégia para vender mais que eventualmente levo tal ou qual livro para a vitrine que por vezes é temática, 2a guerra, gls, etc.

    3 – Um livro de corpo normal se perde por completo em uma prateleira qualquer, se o vendedor não sabe que ele esta lá, difícilmente irá vender. Por isso a Cosac Naify vende mesmo sendo cara, seus livros possuem formatos, materiais e tamanhos diferentes, coisa que dificulta guardá-los com o resto dos livros e que força, as vezes, colocá-los em uma exposição.

    Sobre a solução. Existem uma, sim. Trabalho, trabalho, trabalho, trabalho da equipe comercial das editoras. Isso resolve, macumba apenas auxilia no processo… rs

    • Tibor Moricz Says:

      Esse “saber conversar e mostrar as vantagens” é que falta em 99,99% de nossos novos editores. Deixar nas mãos de uma distribuidora (sem participar ativamente de todo o processo de distribuição) também atrapalha, em termos. O contato precisa ser bem pessoal, individualizado, [editor X livraria]. Processo parecido feito pelo Vianco, que era editor de seus próprios livros.

      • horaciocorral Says:

        O Vianco e o Cláudio Villa são duas referências ótimas para autores iniciantes, por quê? Eles saíram por aí apresentando seus livros.

        Eu sei dos dois casos por via interna na Liv. Cultura: Vianco há alguns anos apareceu com o livro em mãos e conversou, e convenceu, um dos compradores da loja do Shopping Villa-Lobos, a mesma história se repetiu com o Cláudio Villa depois na loja do Shopping Market Place.

        Não é o nome, é a disposição e a força de vontade que vai colocar o seu livro na prateleira.

        Agora, vender, vender muito, depende da habilidade comercial do pessoal da editora.

      • André Vianco Says:

        Na real, o caso com a Cultura do Villa Lobos foi um tanto mais surreal. Eu vendia Os sete de forma independente ainda há alguns meses. Quando inaugurou aquela livraria eu fui até lá oferecer. Não precisei convencer ninguém porque já havia uma encomenda na loja. Até disse que poderia ser um engano, mas não era, o comprador descreveu meu livro. kkkkk. Por isso que brinco que meu “Os sete” é um livro mágico. Parece, mas não fiz ebó. Suei a camisa e fui de loja em loja, livreiro a livreiro. Deu certo porque a capa era muito boa e o assunto chamou a atençao.

  3. Cirilo S. Lemos Says:

    Cada vez mais eu acho que meus textos serão apenas para mim…

  4. Flávio Medeiros Says:

    Vivi uma boa experiência com o Quintessência. Apenas UMA das maiores livrarias de BH não aceitou o livro em consignação. Na maior megastore que havia na época, onde fiz a noite de autógrafos, meu livro ficou na vitrine por algumas semanas e na ilha por muitas semanas. Em outra filial da mesma livraria, meu livro voltou tempos depois à ilha em uma montagem que vendia “autores mineiros”, sem que eu tivesse interferido nisso. Concordo, isso tudo foi efeito do ótimo relacionamento que consegui formar com o o livreiro. Já nas livrarias onde nem me conheciam, os caras me recebiam com reservas, mas aceitavam o livro quando o folheavam e conferiam a qualidade da edição. Ou seja, não é só gente que precisa ser apresentável para batalhar emprego, livro também.

    • Tibor Moricz Says:

      Legal isso, Flávio. Mas, na verdade, me refiro a distribuição efetiva e profissional, onde não 50 livros, mas 500 ou 600 são adquiridos em consignação por mais de uma rede. Essa distribuição artesanal, feita pelo próprio autor em andanças pelas livrarias da cidade é limitada dentro desse ponto de vista. A informação de que autores desconhecidos e editoras com catálogos exíguos não conseguem distribuir convenientemente é real e não mito. É um problema que as editoras vivem de fato. E não só as pequenas, como também as maiores, como a Aleph que até agora reluta em publicar autores nacionais por essa razão além de outras. Citar casos como o seu com Quintessência, ou como os do Villa ou do Vianco é interessante a nível local, numa distribuição periférica, mas quando tentamos visualizar um contexto maior, estadual no mínimo, descobrimos que o buraco é mais em baixo.
      Claro que trabalhos artesanais como o seu podem, com o passar do tempo, num trabalho de formiguinha, resultar em vendas expressivas. Primeiro numa livraria, depois em outra e outra até que a rede “descubra” o livro e assim sucessivamente com as demais livrarias. Mas esse é um trabalho a longo prazo que as Editoras não estão dispostas a fazer. Existe um investimento grande que precisa de retorno para valer a pena.

  5. joão sebastião bach Says:

    O melhor exemplo do que uma distribuição bem feita pode faazer por um livro, considero o que a Graal fez com O Alquimista de Paulo Coelho, lançado anteriormente por outra editora e que passou despercebido do ponto de vista de vendas.

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