Conto – Olho no olho.

fechadura

A poltrona já não parecia tão confortável. Ele se remexia nela de um lado para outro. Apertava as costas contra o espaldar, afundava na almofada macia, esticava e retraía as pernas, agarrava com força os braços da mobília.

Incomodava-o a porta fechada diante dele. Incomodava-o ainda mais a fechadura. Pequena brecha para outro mundo. Observava-a, angustiado.

Tinha ânsias de se levantar e ir espionar. Mas impedia-o o recato. Que diriam – se soubessem – que andou espionando por fechaduras?

Tentava se distrair olhando para os quadros dependurados e para os finíssimos capilares que corriam pelas paredes, fendendo disfarçadamente a pintura. Naturezas mortas em tons sombrios. Presença discreta de alguma umidade no teto, junto às sancas. Tapete de arraiolo com algumas manchas indefiníveis. Piso de tacos, envelhecidos, muitos empenados favorecendo um tropeção.

Mas era para a fechadura que os olhos se voltavam a todo o momento. Para os segredos que escondiam do outro lado. Para os mistérios, para as fantasias, para as surpresas.

E afundava cada vez mais na poltrona, inquieto. As veias das mãos estavam dilatadas. Imaginava que também estavam assim as do pescoço. A jugular palpitando nervosa. O espírito cada vez mais indomável.

Voltou toda a atenção para os pés. Depois para os joelhos. Depois para a poltrona verde musgo que estremecia sob tanto frenesi de expectativa e ânsia mal controladas.

Não pode mais.

Levantou-se nervoso. Pequenas gotas de suor lhe porejavam a fronte. Inclinou-se devagar, olhar fixo na abertura que até este momento nada mais lhe oferecia à visão que uma semiobscuridade e além dela uma movimentação indefinida. Sinal claro de alguma atividade do outro lado.

Colou um olho na abertura e se sentiu aterrorizado ao se deparar com outro olho arregalado a observá-lo curioso.

Ambos os homens recuaram assustados para suas poltronas verde musgo. Recuperaram a respiração entrecortada pelo choque e logo repararam nos trincos. Metal polido adornando uma porta de madeira de lei com finíssimos entalhes. Abri-la seria tão simples, tão fácil.

O que existiria do outro lado?

E quem?

A ansiedade voltava a perturbá-los.

Anúncios

Tags: ,

6 Respostas to “Conto – Olho no olho.”

  1. Peccatu Says:

    Excelente. Muito boa a reflexão sobre o que separa as pessoas, pelo que interpretei. Obstáculos podem ser tão simples de transpôr, mas também tão intransponíveis quanto essa porta.

    abração

  2. Daril Says:

    Muito bom Tibor! Parabéns!

  3. Bianca Says:

    Tibor, sou aluna do Daniel Moricz e como gosto muito de escrever, ele me recomendou seu blog. Fiquei admirada com seus contos, são surpreendentes e encantadores. Gostaria de poder mandar uns contos meus para você e ver o que você acha. Parabéns por seus contos, sua imaginação e sua intimidade com as palavras.

    • Tibor Moricz Says:

      Obrigado pela visita e pelas palavras elogiosas, Bianca. Fico feliz que tenha gostado de meus contos. Se quiser que eu leia algum trabalho seu, envie para meu email. Contatarei você em breve, ok?

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: