Licença poética para pecar.

Montagem livros1

“… entrei no quarto com o coração desvairado e vi a menina adormecida, nua e desamparada na enorme cama de aluguel, tal e como a sua mãe a havia parido. Jazia meio de lado, de cara para a porta, iluminada pelo lustre com uma luz intensa que não perdoava detalhe algum. Sentei-me para contemplá-la à beira da cama com um feitiço dos cinco sentidos. Era morena e morna. Tinha sido submetida a um regime de higiene e embelezamento que não descuidou nem os pelos incipientes de seu púbis.”

Memória de minhas putas tristes – Gabriel Garcia Marques

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.”

Lolita – Vladimir Nabokov

“Agachei-me diante dela e voltei a tocá-la. Ela não esboçou nenhuma reação. Corri meus dedos pelas suas ancas estreitas. Acariciei suas coxas magras. Tateei suas costas que exibiam as costelas de maneira impudente.

Eu a queria. E naquele momento.

Arranquei os trapos que a cobriam. Ela recuou o que pôde, espremendo-se contra a parede. Dois pequenos montículos se sobressaíam onde um dia ela (se continuasse viva) teria peitos. A vulva mostrava pequenos e sedosos pelinhos que iam cobrindo a região. Agarrei-a pelas pernas e a arrastei para o meio do esconderijo, sobre folhas de papelão. Virei-a para ver suas nádegas. Brancas e exíguas. Espalmei-as. Apertei-as. Bati nelas. Avermelharam até parecer fogo.”

Fome – Tibor Moricz

Radicais afirmam: Crime. Pedofilia. Desvio. Insanidade. Desregramento. Doença.

Liberais contrapõem: Lirismo. Poesia. Paixão. Enlevo. Ficção.

E a ficção vence, sempre vence. Porque ela nunca estará agrilhoada nos convencionalismos sociais. Ela se expande para além da limitação imposta pelo medo.

No Imaginário, o que é real se transforma em mito. Num faz de conta inofensivo. Nela existem camadas de entendimento, formas de interpretação que permitem ignorar o fato pela ficção.

Nos livros, o amor entre adultos e menores de idade ou a tentativa desse amor, passa despercebida, confundida dentro de toda uma estrutura narrativa, amalgamada em cenários e ambientações que, de certa forma, dão uma espécie de licença poética para pecar.

Lembro-me de uma passagem específica do filme Léon – O profissional (1994 – Luc Besson), onde Matilda (Natalie Portman, então com 13 anos de idade), inquirida sobre o “pai” na portaria do prédio onde morava temporariamente com Léon (Jean Reno), respondeu que o homem com quem estava era o seu amante e não o seu pai (ele na verdade a abrigava e não tinham nenhuma relação licenciosa).

Inegável a carga de erotismo e lubricidade que a cena provocou, mesmo que não fosse essa a intenção primeira. Matilda fez a declaração com uma sensualidade infantil bastante convincente.

A exploração desse tema no cinema e na literatura não é ocasional e esporádica. Temos ainda A casa das belas adormecidas (Yasunari Kawabata), Golpe de misericórdia (Marguerite Yourcenar), O imoralista (André Gide) entre outros. Essas obras vão na contramão do que se prega e alardeia atualmente em nosso cotidiano.

Ninguém protesta. Nem denuncia as obras à polícia. Nem faz piquetes e quebra-quebra para que queimem todos os livros e todas as películas que insinuam esse amor profano e inaceitável (não falta muito para isso).

Existem mundos, na literatura e no cinema, bastante ligados ao nosso. Parelhos. Lado a lado, embora separados por um abismo que não nos permite ir de um lado a outro senão pela força da imaginação.

E essa imaginação ganha poderes inauditos do lado de lá do abismo. De tal forma que as pessoas do lado de cá a ignoram na mesma medida em que mergulham nela, vivendo realidades impossíveis de conceber aqui, e com garantia de impunidade.

A ficção é boa e é má. Boa quando nos arrebata ou quando nos ajuda a evoluir (ou como pessoas – sem panfletarismos -, ou como leitores). Má quando nos vicia.

Mas não há vício na boa literatura, a não ser para os fracos e já predispostos.

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4 Respostas to “Licença poética para pecar.”

  1. Rai Says:

    Lolita anda pela cabeceira da minha cama esses últimos dias.
    Por coincidência, o trecho que mais me chamou atenção foi justamente esse, o primeiro, até havia colocado no meu blog.

  2. Rogers Silva Says:

    gostei da passagem abaixo: ‘A ficção é boa e é má. Boa quando nos arrebata ou quando nos ajuda a evoluir (ou como pessoas – sem panfletarismos -, ou como leitores). Má quando nos vicia.

    Mas não há vício na boa literatura, a não ser para o fracos e já predispostos.’

    concordo totalmente.
    abraços.

    • Tibor Moricz Says:

      Legal…:)… Obrigado.
      Seu comentário me ajudou a detectar um erro no texto. Já corrigido.

  3. Saint-Clair Stockler Says:

    Não acho que a ficção seja boa ou má, num sentido moral do termo. Não acho que ela deva ter algo a ver com Moral, Ética e quetais. O único valor importante que a literatura (as artes em geral) deve ter é ser bem ou mal feita – portanto, o único valor digno de importância é o estético, como já nos havia alertado o querido Oscar Wilde – ele também meio pedófilo, porque adorava os cavalariços de londres, os empregadinhos de estalagens, embora seu grande erro tenha sido se envolver com o lolito aristocrata, o Bosie maldito que acabou lançando-o numa decadência que culminou com sua morte horrível (do Oscar, não do Bosie). O resto é prova do quão atrasado somos como espécie, em pleno século XXI, achando que a literatura tem de falar do bem.

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