Literatura doutrinária. Sim ou não?

graciliano ramos by willian

Literatura pode ser balcão de protestos e de ensinamentos morais? É dever do escritor usar de sua arte para transmitir ao leitor preceitos que julga importantes? A literatura pode ser condutora de doutrinas? Deve possuir sempre a famosa “moral da história”? Ou a literatura deve existir apenas por e para ela, sem compromissos sociais, nem morais, nem éticos?

Não acredito em nenhuma arte que não tenha algo para transmitir. Mensagens subjacentes podem estar inseridas em histórias maravilhosas, sejam elas positivas ou negativas, histórias de amor ou guerras fratricidas, temáticas utópicas ou distópicas. Graciliano Ramos, Emile Zola e Alexander Soljenitsin eram autores engajados, cujas obras possuíam grande valor literário e doutrinavam na mesma medida, denunciando o que suas épocas tinham de mais sórdido.

Há quem discorde. Aliás, são muitos os que discordam. Alegam que a literatura (assim como as outras artes) não tem outro objetivo senão com o estético e com o belo, e não com o certo.

É certo ignorar o que parece ser certo? Alguém com esse dom maravilhoso pode ignorar a força da pena em benefício único e exclusivo da estética?

Aguardo opiniões.

Anúncios

Tags: , , ,

14 Respostas to “Literatura doutrinária. Sim ou não?”

  1. xerxenesky Says:

    Toda literatura é, no fim das contas, moral e política. Não é como evitar. O melhor é tomar consciência disso. Por outro lado, a literatura engajada já atingiu a exaustão faz muito. Além do mais, é irrelevante, pois dificilmente uma obra literária vai mudar o mundo hoje em dia ou inspirar uma revolução. Só se pode sonhar com mudanças na micropolítica. Sem mencionar que escrever um texto só porque quer transmitir algo e não pela valorização da linguagem, aí é panfleto, não literatura.

  2. xerxenesky Says:

    Digitei um pouco apressado. “Não é como evitar” = “Não HÁ como evitar”.

  3. Cirilo S. Lemos Says:

    Não importa se acham que a literatura — e a Arte em geral — deve focar no belo e deixar o resto pra lá: a ideologia vai aparecer no produto querendo ou não. Não há como escapar de nossas experiências e nossa interpretação do mundo quando se faz qualquer coisa, afinal é nossa única maneira de interagir com a realidade. Então, algo vai vazar e se infiltrar no texto, no quadro, seja onde for, ainda que não possamos detectar o quê. Mas vai. Até neste pequeno comentário.

  4. Antonio Luiz Says:

    É inevitável que alguém expresse as próprias crenças e ideologias quando escreve, esteja consciente disso ou não. Mas antes de alguém tentar escrever de maneira abertamente engajado, é bom ter certeza de dominar o ofício, saber exatamente o que está fazendo e usar a estratégia correta. Se não, é bem provável que acabe prejudicando a causa que quer defender.

  5. Marco Antônio de Araújo Bueno Says:

    Gosto daquela parte da “Lesson” do Barthes em que ele aproxima as idéias de linguagem e fascismo, segundo a concepção de que o fascismo não é proibir de dizer, mas obrigar a isso.Nesse sentido,não há saída. No mais, sou mais o R.Magritte escrevendo sob a pintura de um cachimbo: “Ce n’est pas un pipe”.E acho “certo ignorar tudo que parece”. Especialmente no campo literário, simbólico por excelência.

  6. Saint-Clair Stockler Says:

    Fico extremamente receoso com essa suposta obrigatoriedade da literatura ser “boa”. A literatura não tem que ser moral, ela tem que ser estética. Literatura é Arte, não Ética. “É com boas intenções que se faz literatura ruim” – já dizia o meu amado Gide. Acho perigoso pretender que a literatura eleva os espíritos, torna as pessoas boas. Se não me equivoco, esse engano vem desde os tempos de Aristóteles – e nunca foi corrigido. A literatura não serve para purgar os costumes, ou não deveria servir. Se o escritor escreve com preocupações sociais e as coloca em primeiro plano, acaba produzindo panfletos, não obras de arte. Foi isso o que aconteceu com Jorge Amado em muitas de suas obras. O baiano disse várias vezes que sua preocupação maior era fazer denúncias, não literatura. Que a literatura não tinha a menor importância. Ainda bem que ele era tão genial que acabou safando-se de si mesmo e deixou algumas obras primorosas. Essa preocupação moral com a literatura é também herança, creio, do Humanismo (a idéia de que a humanidade é boa, ou pode se tornar boa; que evoluimos num caminho ascendente, sempre em frente e sempre para melhor). Como já nos apontaram alguns pensadores, o Humanismo é a contraparte secular do Cristianismo e, como este, extremamente perniciosa. Nossa espécie não é “boa” – é predadora. Não almejamos o bem; nossas prioridades, se somos suficientemente honestos para verificar isso, são outras, muito mais mundanas e imediatistas. Mas voltemos à questão principal aqui. Estou mais de acordo com Oscar Wilde: nas Artes, o importante é a Beleza. Aliás, é esse o único valor importante, o único perene. Não digo que não possa haver também denúncia na literatura, ou preocupações sociais. Pode, desde que elas não se sobreponham ao que é de fato importante: a estética. A literatura não deveria ter obrigações para com a realidade e o social. Não lhe deveria ser exigido esse absurdo, porque ele não tem cabimento. Se alguém tem preocupações sociais, que funde uma ONG, que entre para o Green Peace, que vá ser político honesto (uma contradição em termos, eu sei…). Mas, por favor, não gaste o papel de milhões de árvores abatidas para escrever obras panfletárias e cheias de bons sentimentos. O que salva gente do calibre de Graciliano Ramos e Zola (discordo de quem acha que Soljenitsin é um grande escritor; ele é mediano, mas foi muito badalado a certa altura) é que, mesmo com preocupações sociais, eles nunca deixaram de ser artistas talentosíssimos. Suas obras perduram não porque procurem o Bem, porque façam denúncias sociais, mas porque se sustentam artisticamente.

  7. Daril Says:

    Independentemente da discussão “Literatura é apenas arte ou também ética?” certamente ela sempre trará um pouco de cada faceta do autor: artística, ética, moral, vivência (Preferências, gostos, traumas, opiniões, religião, time de futebol, etc.).
    A meu ver, vivemos hoje, pelo menos no Brasil, uma fase bastante contraditória no que diz respeito à “livre-expressão”. Ao mesmo tempo que a constituição nos garante este direito, há leis que, dependendo da interpretação que melhor convier aos nossos críticos, nos impedem de expressar juízo de valor sobre difersos assuntos. Deixamos a ditadura, mas ainda vivemos uma “democracia engessada”. A Carta Magna neste assunto nos “deixa na mão”.
    Tibor você pergunta: “É certo ignorar o que parece ser certo? Alguém com esse dom maravilhoso pode ignorar a força da pena em benefício único e exclusivo da estética?” Defendo veementemente a posição de que NÃO. Nada, nem a arte, pode anular o que somos e a visão de mundo que adquirimos! A não ser, em alguns casos, a própria lei, o que é lamentável.
    Abraço,

  8. Fernando Torres Says:

    Tibor et alli,

    vou tentar ser objetivo.

    A arte como qualquer manifestação humana é um ato político, pois interfere nas relações entre o homem a e sociedade, mesmo que de forma sutil.

    As tentativas, ou a pretenção, de fazer a arte meramente pela manifestação estética do belo, ou seja, a arte pela arte, torna seu objeto esvaziado, e portanto tal manifestação ruim.

    A arte não prescinde necessariamente de um caráter panfletátio (já escrevi sobre isso no Arlequinal), que pode muitas vezes igualmente esvaziar o objeto. Dessa forma, a produção da arte consciente de seu papel e função social enquanto ato político faz com que a estética submetida a tais princípios conduza a uma obra de qualidade. Não é uma formula, mas um preceito.

  9. Rodrigo Novaes de Almeida Says:

    Tibor, você já disse tudo na frase “Não acredito em nenhuma arte que não tenha algo para transmitir.” É isso.

  10. Aguinaldo I. Peres Says:

    Como o Xerxenesky corrigiu “Não HÁ como evitar”…

    Portanto a questão cai em outra discussão: escrever bem ou escrever mediocremente???

    Para mim não existe dúvida de que livros como “Animal Farm” do George Orwel ou “As Viagens de Gulliver” do Jonathan Swift foram escritos com o objetivo de transmitir a opinião dos autores, contudo isso não diminuiu o brilho das obras…

    Felizmente não conheço nenhum livro panfletário e ruim para servir de contraponto… 🙂

  11. Daniel Felismino Says:

    Na minha opinião é impossível. Sempre deixamos um ponto de vista impresso naquilo que escrevemos, sendo esse ponto passível de ser interpretado. No entanto, acho que há uma diferença forte no ato consciente de querer passar uma mensagem, seja ela de denúncia, instigação ou filosófica. É uma opção que o artista faz.

  12. Camila Fernandes Says:

    Da mesma forma que um escritor pode usar sua obra para transmitir valores libertários e elevados, também pode usá-la para exprimir idéias reacionárias, racistas, homofóbicas… E aí? Preconceito X liberdade de opinião?

    Detesto essa coisa de “missão da arte”. Não existe missão da arte, existe missão do indivíduo. Cada um escolhe a sua e como espera cumpri-la. Não acredito que escritores tenham outro dever que não escrever. Tema, abordagem e objetivos, cabe a cada autor decidir os seus.

    • Tibor Moricz Says:

      A liberdade de opinião permite que um autor manifeste seus preconceitos. Podemos aceitá-los, ou não, mas jamais apedrejar esse autor numa demonstração de intolerância inaceitável. Exigimos tolerância com relação às nossas escolhas, devemos conceder essa tolerância na mesma medida. Faço parênteses em casos extremados onde o preconceito desfralda bandeiras capazes de influenciar outros e transformar o que seria uma simples manifestação opinativa num grito de guerra.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: