Liberdade de expressão de um lado, patrulhamento ideológico do outro.

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– Devemos nos calar quando não concordamos com alguma coisa só porque patrulheiros ideológicos rondam pelas sombras, cacetes nas mãos, ansiosos por distribuir porradas?

– Devemos, em razão desse patrulhamento, abrir mão da liberdade de expressão?

– Devemos suprimir nossas crenças, passando a praticá-las em segredo, em guetos, nos excluindo da sociedade antes que outros nos obriguem a isso?

– Escritores devem se abster de criar personagens que firam o “politicamente correto” (E que não sejam punidos nessas histórias para “dar o exemplo”)?

Desenvolver protagonistas que sejam detestados pelos leitores, exibindo preconceitos inadmissíveis em nossos tempos e fazê-los se dar bem, sem punições, é não só direito adquirido, como recurso eficaz para polemizar a obra e dar-lhe visibilidade.

Reprimir o trabalho livre do escritor é uma forma de ditadura. Isso sim, inaceitável.

Faz alguma diferença se o preconceito do personagem é, em parte, preconceito do autor? Se está lá, imiscuído, nas linhas ou nas entrelinhas, sussurrando o que o autor tem a dizer sobre o que pensa? Não. Devemos analisar a obra e não quem a fez ou que motivos o levaram a fazer.

A liberdade de expressão garante ao autor o direito de manifestar suas opiniões na voz de seus personagens. Desde que isso não se transforme em panfletarismo e que a obra não perca seu valor, é um expediente válido.

Quaisquer disposições em contrário traduzem-se em miopia intelectual dos detratores.

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23 Respostas to “Liberdade de expressão de um lado, patrulhamento ideológico do outro.”

  1. xxnsk Says:

    Olha, Tibor, não sei se vejo tanto disso assim. Pelo menos no mundo da lit brasileira mainstream, quase todos os personagens ferem o politicamente correto. De João Gilberto Noll a Marcelo Mirisola, sem mencionar Reinaldo Moraes, imoralidade dos personagens e ausência de julgamento moral por parte do narrador é quase uma norma, não uma ruptura.

    • Tibor Moricz Says:

      Postei esse artigo porque me questionaram justamente sobre isso, Antonio. E esse questionamento me pareceu um patrulhamento descabido. Sabe aquela coisa de: “Ah, mas você não vai escrever isso ou aquilo, desse ou daquele jeito, né? Isso é errado, é preconceito, é assim e assado…”.

  2. Saint-Clair Stockler Says:

    Não há uma contradição (ou um paradoxo, ou uma inconsistẽncia) entre este post e aquele que fala sobre o escritor ter de “passar algo” ao seu leitor (supostamente, algo de “positivo”, de “bom”, de “proveitoso”)?

    Só para ficar num exemplo velho conhecido dos leitores deste blog: imaginemos um escritor pedófilo. Será que seria aceitável que ele escrevesse, uma editora publicasse e nós lêssemos uma obra sua que defendesse abertamente a pedofilia? Que “mensagem positiva” ele estaria passando, que valor, que bem, que bom?

    Será que liberdade demais não é algo prejudicial para o bem da “coletividade”? Se levarmos a liberdade individual às últimas consequências, teríamos de defender a publicação de obras nazistas; teríamos de permitir a necrofilia, a zoofilia (que é aceita em alguns países nórdicos, desde que praticada em privado) e por aí vai. A questão aqui é que há um “limite” e esse limite não é imposto individualmente, mas por uma ou mais coletividades humanas em um determinado momento da História. Há cerca de 200 anos, mais ou menos, não havia nada de mais em um adulto fazer sexo com uma criança (em determinadas regiões do planeta, meninas de 10, 12 anos casavam-se com homens adultos, bem mais velhos, com a aprovação de sua família). Hoje em dia, isso seria taxado de pedofilia. O que mudou? A mentalidade coletiva, única soberana nesses assuntos (inclusive, passando por cima das individualidades, mesmo da genial individualidade de um escritor ou outro artista qualquer).

    • Tibor Moricz Says:

      Saint, você fala de livros nazistas. Vamos nos remeter a PKD e a seu livro O homem do castelo alto. Nele o ponto de vista é do oprimido, mas se tivesse sido escrito do ponto de vista do opressor, com todas as suas “razões” e “justificativas”, seria então uma abominação, o livro?

      • Saint-Clair Stockler Says:

        De acordo com a mentalidade-padrão da nossa coletividade atual, sim, uma abominação.

      • Tibor Moricz Says:

        E assim, de acordo com a mentalidade-padrão da nossa coletividade atual, esse seria um livro passível de NÃO publicação
        por ferir conceitos morais e éticos contemporâneos?

      • Saint-Clair Stockler Says:

        Exatamente. É assim que as coisas funcionam. Mas note que os valores da mentalidade-padrão mudam (lentamente). Há 50 anos os negros tinham que andar no fundo dos ônibus, porque não eram considerados iguais aos brancos (estou falando dos EUA). Há 100 anos as mulheres não podiam votar, porque não eram consideradas aptas e capazes para isso. Hoje, tudo mudou. A mentalidade-padrão passou a aceitar como “correto” que negros são iguais a brancos e que mulheres têm os mesmos direitos, deveres e capacidades dos homens.

        Um outro exemplo de mudança na mentalidade-padrão que estamos observando atualmente, que transforma-se rapidamente diante de nossos olhos: os direitos dos homossexuais. Em muitos países já é aceitável que dois homens ou duas mulheres possam se “casar” (uso o ver entre aspas porque não é exatamente um casamento, mas é algo similar). Daqui a mais uns 20, 40 ou 60 anos isso vai ser praticamente padrão em todos os países civilizados. As pessoas vão dizer: “Puxa, na época dos nossos avós duas pessoas do mesmo sexo não podiam se casar. Dá pra acreditar nisso?! Como eram de mentalidade atrasada naquela época!” rsrsrsrsrs

  3. Antonio Luiz Says:

    Discordo, Tibor. Acho que a liberdade de expressão vale tanto para o escritor quanto para os leitores e críticos. Dar uma opinião negativa sobre uma obra e mesmo considerá-la perniciosa, seja do ponto de vista ético, seja do ético, não é reprimir, pelo menos enquanto não se propõe proibir a publicação ou a venda do livro.

    Se um livro me parecer xenófobo, racista ou homofóbico, apontarei isso numa eventual crítica ou resenha. Se o autor se aborrecer, azar dele. É parte da minha liberdade de expressão.

    • Tibor Moricz Says:

      Concordo com o direito das pessoas de criticarem essa ou aquela obra. O direito de livre expressão está de ambos os lados. Mas você há de concordar que existem críticas que tentam levantar bandeiras e provocar rejeição pública tanto à obra, quando ao autor (principalmente criticas que julgam obras pelo retrospecto do autor, não levando em consideração o que ele escreve ou faz, mas sim o que ele pensa e diz).

      • Saint-Clair Stockler Says:

        Pode ser uma surpresa pra muita gente, Tibor, mas uma parte significativa das críticas não é isenta…

      • Antonio Luiz Says:

        Depende. A contextualização – que inclui o que o autor pensa, diz e faz fora do livro – pode ser necessária para esclarecer ambiguidades sobre o que o livro realmente quer dizer. Se alguém duvida de que a mensagem de Tolkien em “O Senhor dos Anéis” é católica e conservadora, nada melhor do que verificar o que o próprio Tolkien dizia a respeito.

        Isso é diferente de, digamos, condenar toda a literatura de Ezra Pound porque o autor era fascista. O que não impede um crítico de encontrar algo de fascista neste ou naquele poema.

      • Tibor Moricz Says:

        Mas aí temos um trabalho crítico fundamentado na razão e não em mero preconceito.

      • Antonio Luiz Says:

        Depende do contexto, Tibor. Por exemplo, em um ambiente carregado de conflitos, onde existe a possibilidade de genocídios e crimes raciais reais, poderia se justificar proibir a publicação de um romance que prega o ódio racial ou o extermínio de uma raça, que em outro contexto poderia ser uma ficção inofensiva. Assim como alguns países se proíbe o Mein Kampf de Hitler, bem como obras que neguem o Holocausto, assim como no Brasil se tiram do ar comunidades racistas, nazistas e homofóbicas no Orkut e a França exigiu e conseguiu do Yahoo! que retirasse textos antissemitas.

        Um exemplo concreto é “The Turner Diaries”, um romance de ficção científica de William Pierce, publicada em 1978 nos EUA, que descreve e prega o extermínio futuro (a história se passa em 2100) dos judeus e de todas as raças não-brancas do planeta. O livro foi proibido na França, Canadá e Alemanha, pelo menos e acho a proibição defensável. Talvez daqui a cem anos esse livro seja inofensivo, mas hoje isso é discutível.

  4. Antonio Luiz Says:

    Errata: onde se lê “seja do ponto de vista ético, seja do ético,”, leia-se “seja do ponto de vista ético, seja do estético,”

  5. Tibor Moricz Says:

    Mas aqui você apresenta obras panfletárias. Essas eu mesmo condeno. Me refiro a obras de indiscutível valor literário, onde questões consideradas “proibidas” hoje, são apresentadas sem preocupações éticas ou morais.

    • Antonio Luiz Says:

      Tibor, respondi à sua questão anterior: “Vamos nos remeter a PKD e a seu livro O homem do castelo alto. Nele o ponto de vista é do oprimido, mas se tivesse sido escrito do ponto de vista do opressor, com todas as suas “razões” e “justificativas”, seria então uma abominação, o livro?”.

      “The Turner Diaries” é um romance de ficção e é o que existe de mais próximo de um “Homem do Castelo Alto” escrito do ponto de vista do opressor. E então? É uma abominação, ou não é?

      • Tibor Moricz Says:

        Também não li “The turner Diaries”, (existe para download em português, se não me engano) mas me parece que seja excessivamente panfletário. De qualquer forma, tenho para mim que uma obra pode ser editada contendo o ponto de vista do opressor e do oprimido desde que esses pontos de vista sejam literários e restritos aos protagonistas dentro da trama. Não vejo porque proibir um livro só porque foi escrito levando em conta o ponto de vista do agressor, mesmo considerando que suas razões sejam doentias. Assim, se PKD tivesse escrito O homem do castelo alto sob a ótica nazista, o livro deveria ser perfeitamente editado. Que cada leitor faça uma leitura isenta de preconceitos, mesmo não concordando com as razões expostas, sejam elas quais forem.

    • Antonio Luiz Says:

      Não sei se “The Turner Diaries” tem valor literário ou não. Nunca o li. Mas digamos que fosse muito bem escrito, literariamente uma obra-prima. Isso o justificaria?

  6. Daniel Folador Rossi Says:

    É complicado. É perigoso professar (ou fazer o personagem professar) uma idéia imoral que pode influenciar o leitor, mesmo que a obra tenha valor literário e não seja panfletária. Depende do tema tratado. Um protagonista assassino que se dá bem pode influenciar certas pessoas, mas para a grande coletividade já está definido que matar é imoral. Agora, o mesmo não se pode dizer do racismo. O tema ainda é bastante presente, o preconceito ainda existe. Um livro assim teria força entre os racistas, mesmo que não fosse sua intenção, podendo incentivá-los.

  7. Erick Sama Says:

    O que me parece perigoso é que ainda precisemos de um auxílio das autoridades diretas ou indiretas para termos um pensamento livre de influências ruins. Isso só quer dizer que o que falta ser ensinado é discernimento, senão não teríamos razão para temer obras racistas, homofóbicas etc.

  8. Manoel Amaral Says:

    Tirei muito proveito da discussão dos escritores.
    Só acrescento uma coisa: Se o escritor for escrever pensando em agradar ( ou influenciar) ou não ao leitor, acaba não escrevendo nada.

    Manoel

  9. Dino Alves Says:

    Acredito que o assunto seja tão contraditório quanto a alma humana.
    Quem lembra do caso “SKOKIE”? E do nazista Frank Collin?

    Erick Sama, parabéns!

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