De Bar em Bar entrevista: Adriano Fromer Piazzi

Havia selecionado o local fazia algum tempo. Dentre tantas opções na cidade, preferi uma bastante isolada, embora não isolada demais. O terreno baldio era amplo e, mesmo entulhado de lixo, tinha a amplitude necessária para aquele que seria meu primeiro contato numa realidade alterada.

Saí do carro e vagueei por ali, observando a redondeza que já conhecia de outros passeios pelo mesmo local. Prédios decadentes, casas depauperadas, pessoas tristes, cães magros. Uma região limítrofe, esquecida pela sociedade, abandonada à própria sorte.

Encostei-me ao veículo, esfreguei as mãos e olhei para o relógio. Peça de colecionador. Caixa com quatro centímetros de diâmetro, coroa móvel, ponteiros luminosos e números romanos. Seis botões laterais. Mais que um mostrador de horas… Muito mais.

Faltava pouco para escurecer. Tempo ainda para preparar o terreno. Esta seria uma ótima noite. Uma excelente noite. Sorri satisfeito, olhei para o relógio cujos ponteiros brilhavam numa cor ambarina e apertei um dos botões laterais.

— Faça-se vida! – disse num sussurro.

E a vida se fez.

——–

A mesa girava lentamente, conduzida por uma plataforma circular móvel. Ao meu redor outras tantas e quantas giravam também, ora no sentido horário, ora no anti-horário. Algumas permaneciam paradas. Eram controladas por um comando manual localizado na própria mesa. Traquitana interessante. O ambiente era bombardeado por música techno, sem, contudo, ser tão alta a ponto de atrapalhar uma conversa.

Apertei um botão e a mesa parou. De frente para a parede envidraçada do bar. De frente para a rua desolada. Para a decadência que habitava suas esquinas. Em tempo de ver um Peugeot 307, preto, estacionar diante dele. O único carro além do meu a enfeitar a rua esburacada. Era o homem. Na hora marcada.

Adriano desceu e coçou a cabeça. Parecia perplexo. E não era para menos. Avançou alguns passos, depois retrocedeu. Estava indeciso. Mas o endereço era este mesmo. Girou duas vezes em torno de si, observando a região e, acometido por uma certeza momentânea, acelerou o passo e entrou no bar, quase trombando com uma morena de cabelos compridos e calças justas que passava por ali.

Nossos olhares se cruzaram segundos depois. Os meus refletiam o néon do imenso luminoso que vomitava o nome do bar para o mundo, lá fora; os dele exibiam confusão e estranheza.

Não precisei fazer nenhum sinal. Ele se aproximou, cumprimentou-me com um sorriso e se sentou.

— Não sabia que aqui… Essa região… Não foi nesse terreno que… Esse bar… Nunca ouvi falar dele. Conheço a cidade. Mas isto aqui… Não foi? Nesse terreno mesmo, não é?

— A implosão? – perguntei.

— Isso! Um prédio condenado pela Defesa Civil. Despejo com ordem judicial, quebra-quebra… Teve até uma morte… Bala perdida. Não é isso?

— Foi.

— Quando mesmo?

— Quatro meses.

Adriano olhou ao redor, pasmo.

— E já construíram isto… Caralho! Tanta gente aqui dentro… Onde estão os carros desta gente toda? Lá fora só o meu e mais um…

Fiz sinal a um garçom que parecia aturdido em meio a várias mesas girantes. Ele veio em nossa direção. Sorriu um sorriso cansado e nos estendeu o cardápio. Nem eu nem Adriano o aceitamos. Pedi um chope e ele um Martini seco. Enquanto aguardávamos nossos pedidos, mergulhamos num hiato constrangedor, eu sem saber o que dizer, ele sem saber o que fazer.

— Uma entrevista diferente, essa – ele quebrou o gelo.

— É mesmo. Estava cansado de ver as velhas fórmulas. Nenhuma originalidade. Resolvi fazer diferente. Essa vai ser mais animada – respondi. E completei: – Com direito a fogos de artifício.

— Fogos de artifício? Como assim?

— Festejos. Comemorações. A Aleph pretende publicar autores brasileiros em 2011. Mas era pra ser em 2010. O que deu errado?

— A entrevista começou?

— Opa!

— Publicamos autores nacionais em 2009 – respondeu Adriano, se remexendo inquieto na cadeira. – Nazarethe Fonseca com a saga de Alma e Sangue

—Minha pergunta se refere a outro contexto, além do que, esse é um caso especial – interrompi. – Uma decisão tomada no intuito de ir na onda de literatura de vampiros que começou em grande estilo com Stephenie Meyer.

— Sim. Mas é autora nacional, de qualquer jeito. Além dela publicamos Susana Alexandria e Salvador Nogueira com o Almanaque Jornada nas Estrelas. E outros na área de Turismo…

— Estou falando de Ficção Científica.

— Difícil, cara. Esse é um gênero difícil. O mercado ainda não está preparado. Investir num nome novo sem garantias de retorno é uma aposta arriscada que a Aleph ainda não pode fazer. Mesmo que a obra seja muito boa, entende?

Nossas bebidas chegaram. Adriano bebeu um gole do Martini, de olho no bambolear sensual de uma garota loura que passou por nós. Os dedos tateando o botão de controle de rotação da mesa. Apertou-o levemente e começamos a girar em sentido horário. Ele deu um sorriso divertido e observou com mais atenção outras mesas girantes.

— Isso me faz sentir como se estivesse num parque de diversões, girando dentro de uma xícara de chá do Chapeleiro Maluco. Que ideia mais doida.

Achou a ideia menos estranha quando viu que a mesa se posicionou lentamente de forma a deixá-lo de frente para a loura que havia passado. Ele de novo apertou o botão, interrompendo o movimento.

— A Aleph está acompanhando o trabalho das outras editoras com autores nacionais, aprendendo com elas, assistindo sucessos e insucessos para só depois, experiente, se arriscar?

Ele deixou de olhar a loura e me fitou com uma expressão curiosa.

— A Aleph é hoje umas das principais editoras no país e está contribuindo para a sedimentação desse mercado. Basta ver a quantidade de títulos do gênero que foram publicados nos últimos 4 anos. Para um mercado que adentrou o século 21 com praticamente todos os grandes clássicos esgotados, acho que o nosso papel tem sido importantíssimo.

— Autores nacionais… – lembrei, bebericando o chope. Um pouco mais à frente, um garçom penava para servir algumas bebidas, correndo atrás de uma mesa que parecia mais agitada que as demais.

— Tá, é interessante e necessário observar o que se passa nesse cenário de publicações nacionais, mas ainda assim é difícil guiar a Aleph pelos números das outras editoras, pois cada uma enfrenta realidades e momentos históricos diferentes. Se o Fome tivesse sido lançado pela Aleph, teria vendido um pouco mais. Se Alma e Sangue tivesse sido lançado pela Record, idem. Mas acho que todas essas editoras têm um papel importante, sim, para essa sedimentação, com destaque para a Tarja, que faz um trabalho muito bem feito e corajoso. Cara, no mais, o André Vianco da Ficção Científica nacional pode estar na imensa pilha de originais da editora. Só o tempo dirá.

Pousei o copo de chope sobre a mesa, ergui o braço e olhei o relógio. Os ponteiros estavam parados. Estanques em posições previamente estabelecidas. Um mostrador numérico girava incessante, numa contagem regressiva ininterrupta.

— Você tem medo de altura? – perguntei, enquanto pressionava levemente um dos botões laterais do relógio. Adriano fez primeiro uma expressão confusa, depois aterrorizada. Estávamos repentinamente no topo de um rochedo escarpado. Um platô estreito onde nossa mesa era açoitada por ventos fortes. Abaixo do rochedo, o vazio. Nenhum vislumbre de terra firme.

— Mas o que é isso? – balbuciou ele, as mãos agarradas à borda da mesa. Corpo inclinado para frente procurando apoio, olhos arregalados. Os copos ainda intactos, embora os ventos os fustigassem com certa violência.

“Para conciliar religião e ciência, basta entendermos que o materialismo não é uma verdade absoluta. A matéria é parte da existência e não a existência em si…” – eu disse isso olhando para ele com calma, apesar da situação espantosa em que nos encontrávamos. A mesa tremia apoiada, sabe-se lá como, na rocha. Nossas cadeiras rangendo sob nossos corpos que pareciam ter ganhado peso extra. O chope ameaçando transbordar. – lembra-se dessa afirmação? Posso crer que Deus está inserido nessa resposta? Adriano Fromer Piazzi é um homem religioso no sentido de devotar sua crença num deus? De fazer orações?

— Lou-cu-ra!! Que porra é essa? – Adriano gritava sem necessidade. Apesar do turbilhonamento provocado pelo vendaval, eu podia ouvi-lo muito bem.

— Isso é uma demonstração de que a matéria é uma verdade bastante consistente e, eu diria, verdadeira na medida em que preserva nossas vidas. Mas posso dispensá-la, se preferir – disse, erguendo o pulso e fazendo menção de apertar outro botão no relógio.

— Não! Eu respondo! Amit Goswami. Homem formidável. Seu livro O Universo Autoconsciente me fez entender as limitações do materialismo. Ele é um gênio. Gosto do nome que ele dá para Deus: Consciência Quântica. A palavra “Deus” ainda traz uma carga religiosa que depende muito de fé incondicional, que acho que não precisa existir. Não sou devoto de nenhum deus, não faço orações.

— Nem na iminência de uma queda abrupta e mortal? – minha pergunta foi seguida de um apertar no botão do relógio. O penhasco, a mesa, as cadeiras, o chope e o Martini seco desapareceram. Ficamos apenas nós dois, suspensos no ar por uma fração infinitesimal de tempo até que despencamos na direção do vazio. Braços e pernas estendidos e agitados tentando agarrar o nada. Durante a queda pude ouvir um lamento tormentoso, um chamado, um gemido: “Deus..”.

— A humanidade pode viver sem a expectativa de um salvador? – inquiri.

Não nos víamos. Estávamos mergulhados num vazio tão intenso, num negrume tão assustador, que não era possível discernir nada senão nossas próprias vozes. Não éramos corpos. Apenas mentes.

— Estamos mortos? Estou morto? Isso é a morte?

— Digamos que esta é a sua consciência quântica. Você é o nada. O nada é você.

— Salvador? Para quê um Salvador? Sua existência exige, por consequência, a existência de um punidor. Um e outro serão a mesma entidade? Valis?

— Philip K. Dick… Já que você nos trouxe esse autor…

No instante seguinte estávamos de volta ao bar. Os copos, a mesa e Adriano agarrado a ela, corpo ainda inclinado, a fronte porejada de suor, os olhos esgazeados. Prendia-se com tanta força que suas veias pareciam querer explodir. Bebi um gole generoso do chope, estalei a língua e continuei.

— Recentemente discutimos em meu blog a questão de liberdade de expressão e patrulhamento ideológico. Se Philip K. Dick tivesse escrito O homem do castelo alto sob o ponto de vista do agressor, com suas razões e justificativas, por mais doentias que fossem, você acharia válida a publicação do livro?

— Que relógio é esse em seu pulso? – Adriano perguntou enquanto se soltava aos poucos da mesa, tentando relaxar sem muito sucesso. Bebeu o Martini de um gole só.

— Codificador e decodificador quântico. Um brinquedinho caro e raro. Além de mostrar as horas, ajuda e brincar com a realidade.

— Isso é Ficção Científica…

— E não é Ficção Científica tudo o que nos rodeia? Esse copo é um conjunto de átomos, esse momento que vivemos é ilusão…

— Qual o nome desse bar? Olhei para o painel luminoso quando cheguei, mas não lembro…

—Quanta. Quanta Bar.

—Ele não existe de verdade, existe? Quero dizer… Este lugar não poderia existir. Nunca ouvi falar. E conheço bares. Quanta Bar? Esse seu relógio fez tudo isso? Ilusão, você disse? Mas estas pessoas… São tão reais… O Martini. A música… Loucura. Que droga de entrevista é essa? Que droga de manipulação é essa?

— Você publicaria? – insisti.

— Ah, depende de como o livro estiver escrito. Ele pode justificar o ponto de vista do agressor como um exercício de tese, sendo irônico ou deixando claro que é uma obra de arte. Se o Dick fosse nazista e fizesse apologia, então seria complicado publicar. Não sou maniqueísta e acho que o ponto de vista da história depende de quem a está estudando.  Vamos publicar um livro muito polêmico no ano que vem, trata-se de O acordo de transferênciaa dramática história do pacto entre a palestina judaica e o terceiro Reich do autor Edwin Black, o mesmo de IBM e o Holocausto.

Adriano parecia exausto. Pegou minha tulipa de chope e bebeu o conteúdo, ávido. Experimentou a cerveja, quase gargarejou.

— Isto é cerveja. – ele disse. – E o Martini que bebi antes era Martini! Conheço bem o sabor… Não há engano. Não há truque. Esse seu relógio é uma farsa. Não posso explicar o resto. Alucinação, só pode ser.

— A Aleph é uma editora com raízes judaicas, não é mesmo? Não é paradoxal que publiquem esse livro?

— Com dinheiro constroem qualquer coisa em pouco tempo. Este bar, por exemplo. Construíram em tempo recorde. Mas a região… Que lugar estranho para um bar desse tipo, não é mesmo? Os nazistas, cara, os nazistas são do Mal, entende? Mas a história está aí pra ser contada. Não importa se o bandido tem o mesmo sangue que você. Pede mais um chope. Pra mim também. Pede dois. Essa porra de mesa não vai parar de girar? – então apertou o botão e a mesa, que estava parada, começa a se movimentar.

— Posso supor, então, que os dois volumes de Mein Kampf, obra escrita por Adolf Hitler, jamais seriam publicados pela Aleph, estou correto?

— Cara, você tá surtando. De jeito nenhum. Isso sim é panfletarismo. Apologia descarada. Chama a loura gostosa. Cadê ela? E os chopes, você pediu? Cara, esse bar é muito louco.

— Acho que está na hora de irmos embora, Adriano. A entrevista está concluída.

— Agora que a noite está começando? Vai apertar botões nesse relógio paraguaio? – e riu da própria piada.

Seus olhos continuavam esgazeados, sinal de que as alterações de realidade começavam a provocar reações inesperadas nele.

— Acho que vou ficar por aqui. Estas bebidas deixam a gente louco. Quero experimentar outras. E dar uns amassos na loura. E na morena. Em todas. Sem penhascos nem momentos aterrorizantes de não-existência.

Então ele tombou a cabeça, encostando a testa sobre a mesa. Permaneceu assim por alguns segundos. Depois se ergueu lentamente e olhou para mim.

— Aperta a porra desse botão e põe um fim nessa loucura, por favor!

Fiz o que ele pediu.

——–

Adriano arrumou os papéis sobre a mesa, pegou suas coisas e saiu, dirigindo-se para o elevador. Desceu sorumbático até o primeiro subsolo onde estava estacionado o carro. Foi até ele, sentou-se pesadamente no banco do motorista e suspirou. Tinha certeza de ter marcado um encontro num bar de São Paulo, mas esquecera-se de qual e esquecera-se com quem. Estava certo de que daria uma das maiores mancadas da vida, mas agradecia de certa forma. Estava cansado e queria, mais do que tudo, ir para casa. Ligou o motor, manobrou e dirigiu devagar. Assomou ao nível da rua no mesmo instante em que fogos começaram a pipocar. Observou as chuvas douradas e as explosões e elas o remeteram para uma conversa, ou momento, ou situação que não soube precisar. Suspirou mais uma vez, franziu o cenho e acelerou, misturando-se ao trânsito.

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5 Respostas to “De Bar em Bar entrevista: Adriano Fromer Piazzi”

  1. Cirilo S. Lemos Says:

    Eu tinha um relógio como esse, mas acabou a bateria e eu não quis pagar 8 pratas por outra.

  2. Cirilo S. Lemos Says:

    A propósito: foi uma entrevista deveras diferente. Tanto que eu nem sei se acabou ou tem mais…

  3. Horacio Corral Says:

    O formato com um toque ficcional da entrevista sem dúvida é interessante mas fiquei com pena do Adriano com toda esse martelar na cabeça dele de publicar Ficção Científica Nacional.

    • Tibor Moricz Says:

      Na verdade não houve um “martelar” na cabeça dele, Horacio. Apenas toquei num assunto iniciado numa conversa
      que tivemos na ocasião do lançamento do livro da Nazarethe Fonseca em São Paulo e abordado inicialmente por ele mesmo. Havia uma previsão de publicação de autores nacionais para 2010 (Ficção Científica e outros gêneros, mas autores essencialmente desconhecidos) e essa previsão furou, sendo protelada para 2011.

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