Desrespeito com receita e bula.

Sexta-feira passada (dia 20 de novembro), minha mãe tinha hora marcada com um gastroenterologista, onde faria, também, uma endoscopia digestiva. Pediram a ela que chegasse à clínica com pelo menos trinta minutos de antecedência e que fizesse um jejum de 12 horas (procedimento padrão). Ela tem 75 anos, estava nervosa (detesta médicos e exames), mas fortes dores de estômago que a perseguem há mais 30 dias forçaram-na a aceitar a consulta e o exame.

Pois bem. A consulta estava marcada para as 9h30. Ela chegou à clínica as 9h00. Eram 10h45 e nada de a chamarem para o exame.

Ela é bastante cordata quando a situação exige, mas nem um pouco tranquila quando abusam da paciência dela.

Levantou-se, disse poucas e boas e foi embora. E era paciente particular. Pagaria 350 reais pelo exame (Imagino os coitados que estão nas mãos da saúde pública).

Alguém aí lhe tira a razão?

Muitas vezes fui abandonado em recepções de consultórios médicos, aguardando consultas que demoraram a acontecer. O recorde foi de duas horas e quinze minutos.

Pior que isso é escutar das pessoas que “É assim mesmo”, “É comum”, “esperar faz parte”.

Será que nos falta amor próprio?

Se mais vezes protestássemos, reclamássemos peremptoriamente, abandonando o consultório, trocando de médico, mais esses doutores em medicina (mas não em consideração) se preocupariam em nos dar o respeito que merecemos.

Ou porque são médicos, todo poderosos, se acham no direito de nos fazer esperar?

Ah, quer saber? Vão tomar no olho do cu.

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16 Respostas to “Desrespeito com receita e bula.”

  1. Cirilo S. Lemos Says:

    Acredite, Tibor, duas horas ainda é pouco comparado ao tempo que eu espero no SUS aqui do Rio. Já esperei quase seis horas e no final não fui atendido (acordando 3:30 da manhã). Já fiquei com meu filho até 4:00 da manhã esperando pediatra, porque o bom doutor estava dormindo — e ainda veio resmungando. É demais, de fato.

    • Tibor Moricz Says:

      O SUS é o fim da picada. Nesse paisinho de merda, saúde pública é a maior piada que existe.

  2. Saint-Clair Stockler Says:

    Outra coisa que me tira do sério são os médicos-super-Flashes: em 30 segundos te ouvem, examinam (quando examinam) e preenchem uma receita. Minha mãe já foi atendida por um ortopedista muito famoso aqui no Rio (que possui uma clínica particular na minha rua) em menos de 40 segundos. E isso porque estava com problemas seríssimos! É por essas e outras que mais e mais pessoas preferem se consultar com o Dr. Google. Não apóio isso, claro, mas também acho que às vezes o Dr. Google é mais capaz que esses médicos novos que tem por aí, um verdadeiro bando de sabe-nadas. Você pergunta: “Mas, afinal, o que eu tenho, doutor?” E a resposta é: “Uma virose”. Quando não sabem diagnosticar – e isso é mais comum do que imaginamos – lá vem a palavrinha mágica e salvadora: virose.

  3. Cirilo S. Lemos Says:

    Temos que começar a perguntar a eles qual é o vírus.

  4. Antonio Luiz Says:

    Neste sábado, 21 de novembro, eu desisti de uma consulta no Centro Oftalmológico S. Paulo (Rua Ibijaú, Moema) depois de esperar até as 11:40 pela consulta marcada às 10:45. Consulta pelo plano de saúde, nada barato – foi a terceira e última vez que consultei lá e das outras três vezes aconteceu mais ou menos a mesma coisa. O esquema é absolutamente estúpido: a doutora marca consultas de 30 em 30 minutos, sabendo que suas consultas em média demoram mais que isso e que os atrasos vão se acumular.

    Mas muito pior foi o que aconteceu no Hospital Sírio-Libanês, onde fui atendido com a informação de que pagaria R$ 8.500 por uma cirurgia a mais (por usar uma tecnologia mais avançada que a usual) e encaminhariam o resto das despesas, normais, ao plano de saúde (Sul-América) para pagar. O hospital depois não encaminhou despesa alguma, dizendo que foi um “mal entendido” e tive de pagar o custo integral, mais de R$ 37 mil. Depois o médico me disse que o hospital havia se desentendido com o plano – e eu fui quem pagou o pato. Ainda estou brigando com o plano para ver se consigo ao menos um reembolso parcial.

    • Tibor Moricz Says:

      Procure um advogado, Antonio.

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Com 37 mil eu comprava um par de olhos novos. Verdes como os do Brad Pitt 🙂

      Pensando melhor: violetas como os da Elizabeth Taylor…

      Pensando melhor ainda: compraria um par de cada.

      rsrsrsrs

      P.s. a sério: fui funcionário da Sul América por longos 7 anos. Com relação aos seus segurados e ao que ela faz com eles só tenho uma coisa a dizer: horror, horror…

  5. Sacha A.Ramos Says:

    (já escrevi isto mas parece que o comentário não passou; se sim, por favor apague este Tibor)

    Cá em Portugal acontece o mesmo tal qual. Vocês apanharam esse vírus connosco, pelos vistos. 😦
    Não creio que haja cura excepto a de cada médico por si mesmo se tornar mais humano e lembrar-se que os seus doentes também o são. Educação cívica e moral, em suma.
    Refilar e bater com a porta, duvido que seja eficaz, há sempre mais doentes na fila… sem alternativa, excepto esperar e desesperar…
    B&A

    • Tibor Moricz Says:

      Será que se trata de um problema planetário, não relegado apenas ao Brasil e a Portugal? :O
      Temo que sim.

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Sacha: nós pegamos muitos vícios com os tugas (estão em nossos genes). Mas eu gosto da maioria deles 😉 Por exemplo, um dos meus preferidos: doces realmente doces. Os franceses ficam horrorizados quando provam nossos doces. Exclamam: “Meu Deus, mas como isto está doce!” e a minha vontade é a de responder: “Claro, senão se chamaria ‘salgado’!” Detesto os doces franceses porque sinto a maior falta do açúcar…

  6. Flávio Medeiros Says:

    Antes de mais nada, é preciso salientar que uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Mas a questão vem muito a calhar, já que, pelo que percebo, neste espaço democrático o choro é livre.
    Acontece que, como muitos sabem, sou médico. Acabo de sair de uma jornada de 9 horas de trabalho, e passei automaticamente para um plantão de 12h em pronto-socorro. Não qualquer pronto-socorro, mas o MAIOR de Minas Gerais, centro de referência para quase todo o estado. Acabamos de realizar uma das inúmeras assembléias, já que estamos em greve. Sim, vejam que absurdo, nós, os semi-deuses, estamos em greve! Essa greve já tem quase um ano, e não é noticiada pela mídia, já que a irmã de nosso governador mantém a imprensa calada a mão de ferro. A assembléia, por mais incrível que seja, tratou hoje sobre como manter a greve com chances de ganhar alguma coisa sem prejudicar a população. É o que estamos fazendo há um ano: atendendo a todas as emergências, mas sem preencher a papelada que possibilita ao hospital receber seus honorários. Apesar da represália crescente da polícia e dos bombeiros, que nos trazem muitos casos em suas ambulâncias que deveriam estar sendo dirigidos a unidades que têm outro perfil, e que querem forçar a entrada para se desvencilharem do pacote, estamos tentando fazer crescer nossa divulgação do movimento a conta-gotas, enquanto as manchetes (que formam a opinião pública) nos tratam com adjetivos generalizados mais ou menos como alguns que li aqui, já que a imprensa é formadora de opinião: mercenários! Desumanos! Soberbos! Afinal (segundo eles) o salário desse hospital é o maior de Minas, e teve aumento recente de 40%! O que estamos reivindicando? Mais ou menos o seguinte: que o abono que nos pagam (o tal “aumento”), seja incorporado ao salário, para que não tenhamos o risco de que seja suspenso a qualquer momento; que parem de contratar residentes e estagiários para fazer trabalho de profissional capacitado, já que o profissional capacitado está cada vez mais abandonando o navio, por más condições de trabalho e mau salário; que pare de faltar antibiótico, fio de sutura e medicamento de uso diário do ambulatório para que possamos fazer uma medicina digna e decente. Vejam só que ousadia a nossa, aspirar a isso!
    Quando sair do plantão, às 7 da manhã, inicio meu consultório particular às 9h. Vou me esforçar bastante para manter o humor, já que, como vimos, o profissional não pode se dar ao luxo desses momentos de fraqueza. Mas aí me dirão: mas como assim??? Você está nessa porque quer! Por que não sai fora, ou diminui o ritmo??? O problema, mes amis, é que desde que fomos expulsos do Olimpo passamos a ter que comer, vestir e sustentar família. Hoje todo mundo tem um plano de saúde, seja empresarial ou individual. Paciente particular (aquele que acha um absurdo o médico cobrar R$150,00 por uma consulta, mas paga algo semelhante ao bombeiro que conserta a pia de sua casa, fora o preço da torneira nova) é um artigo cada vez mais raro. E plano de saúde não gosta de pagar médico, assim como não gosta de pagar ao paciente, como na cirurgia do Antonio. Assim como glosaram sua cirurgia, diariamente glosam nossas consultas, que já recebemos (quando recebemos!) com um ou dois meses de atraso, no valor aproximado entre 15 e 30 reais por cabeça. Infelizmente, as leis trabalhistas não nos permitem glosar os impostos, os custos de um consultório/clínica ou os salários de nossos empregados (secretárias, boys, analistas de sistemas, etc). Daí que a agenda vive cheia, e sinceramente, tem dia em que flui bem. Em outros os atrasos se acumulam sim, isso é fato. Porque muitas vezes tem aquele paciente mais idoso, mais complicado, ou de diagnóstico mais difícil, que te demanda mais tempo e atenção. O mesmo tempo e atenção que você gostaria de dar ao próximo paciente, aquele que entrará atrasado, caso seja necessário. E também perdemos muito tempo explicando e desmentindo informações exdrúxulas que antes eram ministradas pelo Dr. Fantástico (sim, aquele da Globo aos domingos), e que agora foram assumidas pelo Dr. Google. Isso – so sorry – demanda tempo, tempo este durante o qual o profissional não está tirando um cochilo, mas gastando com alguém tão (ou mais) necessitado quanto o que está de fora exercitando bravamente a arte da paciência.
    Os atrasos são piores, realmente, no sistema público. Porque está sucateado; falido; abarrotado de demanda e pobre de oferta de profissionais competentes, aqueles gatos pingados que acabam pagando o pato. E essa é a razão de nossa greve anônima, que vai continuar.
    Como eu já disse no início, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Em toda profissão há os bons e maus profissionais. na minha também, e me envergonho desses, porque vejo (como devem imaginar) que falam de mim como falam deles, tudo farinha do mesmo saco. Mas quero sugerir que reflitam, e tomem cuidado com as generalizações, apesar dos infortúnios pessoais. Porque nós, médicos, já estamos, Tibor, e faz muito tempo mesmo, tomando no olho do cu.

    • Tibor Moricz Says:

      Flávio, podem existir inúmeros motivos que justifiquem (ou tentem justificar) as demoras que ocorrem (via de regra) nos consultórios médicos. Mas jamais, em tempo algum, em todas as vezes que fui abandonado na recepção, ouvi um médico se desculpar. Dizer que sente muito pela demora. Agem como se nada houvesse acontecido, como se a demora fosse praxe à qual devemos nos submeter calados. Se ao menos reconhecessem o problema e se desculpassem (com sinceridade), eu, pelo menos, tentaria entendê-los melhor.

  7. Cirilo S. Lemos Says:

    Os médicos têm direito de reivindicar seus direitos. Nada mais justo. Mas quando você vê seu filho queimando de febre, vomitando, tremendo e dependendo de você para conseguir ajuda, não dá para pensar em 40% disso ou 25% daquilo, ou se o médico está cansado, ou se está em greve. É a vida do seu filho. Médicos dormindo no plantão, com gente sofrendo esperando por ele? Não dá. Existem pais que sustentam uma família imensa e acabam morrendo na porta de posto de saúde (isso aconteceu aqui perto de casa). Como ficam as oito crianças que agora não tem perspectiva? Será que vai consolar alguma delas saber que os médicos presentes no posto não ajudaram seu papai porque estavam brigando com o município? Como disse o Flávio, existem bons e maus profissionais. Tem gente boa claro. Mas não há como negar que o SUS é uma bela porcaria.

  8. Rogerio Says:

    tem toda razão de ficar indignado o cidadão. A maioria dos médicos são uns prepotentes; mas isso está mudando porque já foi o tempo em que o paciente entrava no consultório respeitando demais o médico. O médico é um empregado do paciente, que no particular, quer no público (no seter público são nossos impostos que ajudam a pagar o salário dos médicos). Vamos cobrar mais dos médicos, eles são pagos, e bem pagos, para atender bem o paciente. Gostei do texto, já passei por isso também. Só que agora quando entro no consultório o médico tem que baixar a bola, afinal tou pagando pela consulta.

  9. Ricardo França Says:

    Flávio, my dear, você é de uma geração na qual se valorizava mais a qualidade do resultado em detrimento dos valores do mercenarismo. O problema é que o modelo centralizado de atendimento não fecha com os valores de hoje. O modelo de greve que você colocou é um dos mais adequados p/ chamar a atenção, mas qualquer greve de serviços essenciais sempre será vista com um olho torto.

    O problema de se comparar as profissões é que se colocarmos o foco na relação cliente-servidor a eficácia deve sempre ser o critério. P.ex. não importa que falte água na cidade, os bombeiros têm é que se virar para atender a principal expectativa que é de debelar os efeitos das catástrofes. Dando outro exemplo, eu como funcionário público não posso negar que a imagem que a população tem de nós é muitas vezes justificada, mesmo que no meu setor (que é mais técnico) se tenha tanto apreço por fazer um serviço bem feito e que se cumpra a expectativa do cliente como em qualquer empresa privada (com a vantagem de não existir a equação tempo-lucro na jogada).

    Se o povo tem relutado em dar um valor justo por um serviço, provavelmente é porque este no geral não está cumprindo seu objetivo, quer seja do encanador amador que seja contratado para consertar uma pia e piore o vazamento como o do médico que é consultado para resolver o problema de um incômodo fisiológico (ou seja, a doença em si) mas que no ponto de vista do paciente não tenha havido realmente nenhuma melhora real. Paga-se até por visitas só p/ orçamento mas sempre aí está embutida a expectativa de no final o problema ser resolvido (e acho que no caso de uma consulta o espírito é o mesmo) .

    Digo isto porque tristemente o que mais se vê ultimamente é uma formação cada vez mais deficiente dos próprios médicos, os quais vem se tornando em meras máquinas de intrepretar exames semi-automáticos e aplicadores de estudos e produtos questionáveis por parte dos nada isentos laboratórios farmacêuticos, em vez de terem o seu foco primeiro na atenção para com o paciente e suas questões mais urgentes (que é o que parece ser ainda teu norte).

    Neste sentido não faz muita diferença do ponto de vista do interessado (que não é o hospital, nem o médico, nem os bombeiros, mas sim o paciente) em ser atendido por um residente, um estagiário, um enfermeiro, ou até por um funcionário de limpeza mais atencioso, pois em última análise não interessa pro paciente/cliente o tempo de dedicação e investimento para se atingir a proficiência num ofício, nem se as condições para tal são ou não adequadas, e sim que se cumpra o papel esperado, que no caso é o de miminizar o sofrimento.

    De qualquer forma já está mais do que na hora de se rever esta estrutura corporativa de planos de saúde e laboratórios cujo foco principal passa longe dos valores humanos, e que os futuros médicos consigam usar as vantagens da tecnologia p/ aumentar o tempo dedicado à compreensão das formas mais eficazes e rápidas de curar.

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