De Bar em Bar ENTREVISTA Erick Santos

O pó em suspensão era abundante. O chão tremia como se terremotos sucedâneos se abatessem. Gritos ferozes retumbavam; guinchos, uivos, bramidos. Árvores arrancadas pelas raízes voavam para todos os lados. Rochas maciças rolavam, chocavam-se, partiam-se em milhares de fragmentos. Mesmo assim pude ouvir o canto do Manon, como se tudo aquilo, a desgraça e o terror, não fossem mais que momentâneos. Como se na singeleza de seu canto pudessem evanescer os infortúnios que se abatiam sobre solo nipônico.

Escondi-me num vão entre rochedos. Distante da contenda, mas perigosamente próximo dado a gigantesca estatura dos monstros que se enfrentavam.

— Godzilla – murmurei admirado. – Megalon – completei com não menos admiração. Olhei para o relógio quântico, verifiquei as horas e vi que estava atrasado. Não estaria se tivesse me posicionado mais perto do bar. Precisava correr e o fiz. Contornei monturos, rastejei por baixo de escombros, sempre com a impressão de que, em pouco tempo, os monstros cairiam sobre mim. Foi quando adentrei numa ravina, que vi o bar. Estava a uns cento e cinquenta metros de distância.

Corri feito um doido. Abri a porta, esbaforido, e entrei fechando-a atrás de mim.

Silêncio. Nada, a não ser o marulhar pacífico de um aquário onde carpas nadavam tranquilamente. Erick Santos, editor da Editora Draco, estava sentado diante do balcão. Comia sashimi e sorria, ora para mim, ora para a japonesinha de kimono multicolorido que o atendia tão solícita.

Aproximei-me devagar. O coração ainda aos saltos. Na garganta o gosto do pó.

— Demorou – comentou Erick, expressão radiante, cabelos em desalinho, roupa empoeirada, dando um gole parcimonioso no conteúdo de uma pequena vasilha. – Está servido?

— Você viu o que está acontecendo lá fora? – perguntei, ainda sem fôlego.

— Passei por eles há coisa de meia hora. Tive vontade de pedir autógrafos, mas fiquei na dúvida se havia gente dentro das fantasias ou se eram reais mesmo.

— Melhor não facilitar – respondi, sentando-me ao seu lado. Apontei a vasilha e inquiri sobre o conteúdo.

— Saquê. Essa pequena vasilha se chama ochokos e a maior, que a japonesinha está segurando chama-se tokkuri.

Ela me serviu. Virei o conteúdo inteiro na boca. Senti minhas faces se avermelharem e minha garganta se transformar numa fornalha. Observei rapidamente a decoração. As paredes eram ornadas com quadros de paisagens, a maioria exibindo o monte Fuji, cerejeiras e lagoas com carpas. Não era um bar muito grande. Sua área se estendia por duas dezenas de metros, subdividida por biombos de papel de arroz, quase transparentes de tão diáfanas. Dentro desses reservados havia mesas e cadeiras à moda ocidental.

Na minha frente o sushiman filetava salmão.

— Você é um bom conhecedor da cultura japonesa, não é? – perguntei.

— Estudei japonês por 10 anos, formalmente. Até hoje leio e estudo esporadicamente, pra ler mangás e jogar videogames. No site gamedreamz.com cheguei a fazer resenhas de games japoneses. Conheço bastante do cotidiano, se é que alguém pode conhecer uma cultura através de sua produção pop. No mínimo, sei o que idealizam e buscam. A narrativa japonesa, desde o cinema e teatro kabuki até os mangás e games, é uma área pela qual me interesso muito, assim como o costume de segmentação extrema dos produtos deles. Sou apaixonado pelo Japão, mas não tive oportunidade de visitá-lo ainda.

— Então cenários como esses, com monstros e heróis japoneses não lhe são absolutamente estranhos. Mesmo os anteriores ao seu tempo – continuei.

— Conheci todos quando era adolescente, dos 15 aos 18, quando fiz parte de um grupo de divulgação japonesa, o Hero Magazine. Fizemos mostras de vídeo até no MIS de SP, interagimos com outros grupos de fãs da época e escrevi meus primeiros artigos jornalísticos na revista Heróis do Futuro e futuramente um para a Folhinha de São Paulo. O grande negócio da época era o Saint Seiya, Os Cavaleiros do Zodíaco, responsáveis por reviver o interesse da mídia mainstream nos animes. Os seriados live-action sempre fizeram parte da saudosa Rede Manchete. Depois a TV Bandeirantes e até a TV Globo entraram nessa. Hoje em dia a televisão por assinatura dá muitas opções, as editoras de mangás são uma realidade sólida, um mercado que por muito tempo viveu da ação de fanzines e pirataria editorial. O público que tem hoje 15 anos tem muitas opções, incluindo a rede — algo inconcebível pra mim na época –, que não dá pra pensar que isso tudo era tão diferente há 15 anos. As coisas se transformaram rápido demais.

— É mesmo – concordei sem pensar muito. Já estava na terceira vasilha ou ochokos de saquê e o que era fogo líquido ia se transformando devagarzinho num delicioso tranquilizador. Nem as imagens terríveis do embate entre Godzilla e Megalon me assustavam mais. Elas pareciam flashes distantes, de um episódio antiquíssimo, adormecido nas brumas do tempo.

— Como e onde essas influências o transformaram de artista ou editor de mangás eróticos – aliás, fale um pouco sobre isso – em editor de livros, mais especificamente em literatura de gênero?

Erick engoliu com calma o sashimi, bebeu mais um gole de saquê e, limpando a boca com um guardanapo, virou-se para mim a tempo de ver a porta de frente do bar sendo aberta violentamente e entrarem por ela sete homens convulsionados, empunhando katanas e gritando como se perseguissem alguém – ou fossem perseguidos.

— Toshiro Mifune! – exclamou Erick, vendo-os desaparecer pelos fundos do bar.

— Akira Kurosawa, Os sete samurais – murmurei. Olhei para o relógio e pensei se não estava acontecendo mais alguma discrepância quântica, a exemplo do que ocorrera durante a entrevista com o Xerxenesky. Não me surpreenderia se Spectreman irrompesse também ali, derrubando algumas mesas. Eu havia programado uma entrevista calma e sossegada num bar oriental. Não previra lutas entre colossos do cinema catástrofe japonês, nem aparições perigosas de homens enlouquecidos brandindo espadas.

Olhei para Erick e ele estava eufórico. Sem dúvida se divertia muito com tudo.

— Cara, essa entrevista está sendo demais! – e, então, centrando a atenção no assunto discutido, continuou. – Fui artista de mangás eróticos, a publicação foi mais autoral que editorial. Como artista, fiz muitos contatos e amigos na internet – inclusive, da minha atuação no Samaco Hentai, veio o convite para ser ilustrador do gamedreamz.com. Mas foi de um sonho de publicar as coisas em que acreditava e amava que surgiu a Editora Draco. Gosto muito de quadrinhos, dos adultos aos infantis, e os lia muito mais que literatura propriamente dita. Porém, mesmo no cinema, games e quadrinhos, fantasia e ficção científica sempre me atraíram. A minha experiência em uma editora – trabalho na Editora Globo –, com uma equipe de pessoas competentes e apaixonadas, deu-me a dimensão do que é o mercado; como se fazem livros e o que significa a palavra “editar”. Hoje me considero mais editor que artista, pois admito que trabalho melhor junto aos talentosos e aos criativos para construir produtos, do que sozinho.

— Consegue imaginar a Editora Draco no futuro?

— Ah, imagino uma editora presente por todo o Brasil, com os maiores autores de literatura de gênero encabeçando esse sonho. Vejo fantásticos álbuns em quadrinhos e livros que possam estar na mão de todos os tipos de leitores, não apenas dos aficionados. Vejo a literatura de gênero nacional fazendo as pessoas se emocionar e esperarem ansiosas pelos próximos volumes de séries de sucesso. Mas divulgando e lançando constantemente novos autores, que não dependerão mais de autopublicação para ter edições de respeito e uma chance com os leitores.

— Pode adiantar alguma coisa sobre os projetos da editora para os próximos meses? – Fiz a pergunta com um pouco de pressa. Até aquele momento o bar não parecia sofrer as consequências da luta titânica que acontecia do lado de fora. Mas um tremor constante e cada vez mais intenso me punha de sobreaviso.

— Temos cinco romances de autores nacionais, iniciantes e veteranos. Temos também a Imaginários 3 e 4, com contos muito bons, também com grandes e novos autores. Além da Coleção Imaginários, temos três coletâneas temáticas em andamento – Vaporpunk e Brinquedos Mortais entre elas -, além de outras duas coletâneas, mas essas autorais.

— Ao que parece, bastante trabalho num esforço admirável para formar catálogo e construir imagem. Erick, a entrevista está pronta. Não tenho mais nada para perguntar. Acho melhor irmos embora.

— Ah, mas ainda não acabei meu sashimi. E o saquê está delicioso. Oras, chegamos ainda há pouco! – protestou, dando uma olhada de relance na japonesinha que bamboleava o bumbum naquele kimono tão sensual e colorido.

Os ochokos já chacoalhavam sobre o balcão. Um sushi escorregou para fora do prato e caiu aos nossos pés. O Sushiman largou facas e saiu correndo. Sugeri fazer o mesmo, mas Erick estava fascinado demais para me ouvir. A atenção dele se concentrava todinha no teto do bar, que em instantes foi arrancado. Acima de nós, ameaçador, estava Godzilla. Abriu a bocarra imensa e, além do mau hálito terrível, despejou um jorro de vômito nuclear, destruindo tudo.

Por sorte eu apertei o botão do relógio instantezinhos antes disso.

Anúncios

Tags: , , , , , ,

5 Respostas to “De Bar em Bar ENTREVISTA Erick Santos”

  1. Ana Lúcia Merege Says:

    Nem preciso dizer o quanto desejo que a visão do Erick se realize: uma editora presente em todo o Brasil, com os autores consagrados do gênero e constantes oportunidades para novos nomes!

  2. uberVU - social comments Says:

    Social comments and analytics for this post…

    This post was mentioned on Twitter by tmoricz: De Bar em Bar ENTREVISTA Erick Santos: http://wp.me/pAp8d-k9

  3. Cirilo S. Lemos Says:

    Legal que o sonho do Erick seja a realização não apenas dele, mas de um monte de pessoas.

  4. Giseli Says:

    Gostei desse bar que mostra encenações com katanas. Não sabia não que realizavam shows com espadas. Depois me diz onde diabos fica?

  5. Giseli Says:

    Putz, só caiu agora a ficha de que foi no sentido figurado a exibição das katanas. Desculpe minhas perguntas ingênuas ^^ Vai ver, sou Sheldon sem saber =P
    Também admiro muito a cultura japonesa, gostei de relembrar algumas das coisas dos anos 80 e 90! Curti! 😉

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: