Raiva nos Raios de sol – Lido e comentado

Recebi o livro da Não Editora com a indicação de que a coletânea iria me agradar. Em boa parte por ter escrito Fome. Quem brinca com cenas que provocam perturbação deve gostar de histórias desse gênero.

Meio certo.

Fome foi um aborto que saiu como um vômito quente e impossível de conter. Até hoje me sinto perturbado com algumas de suas passagens. Além do que, Fome lida com um futuro pós-apocalíptico fictício, onde toda e qualquer extrapolação se reveste de fingida veracidade. Raiva nos raios de sol fala do agora, do hoje. Isto é obsceno e revoltante.

Então, embora cenários e ambientações que causem choque tenham sido a tônica em uma de minhas obras, isso não significa que todas as obras que explorem situações semelhantes me serão do agrado.

E Raiva nos raios do sol não me agradou.

Essa é, certamente, a maior virtude do livro. O autor Fernando Mantelli acertou em cheio no que queria. Causou-me mais aversão por parágrafo quadrado do que realmente esperava.

Revelar a natureza humana; aquela que a gente sabe estar escondida sob uma tonelada de verniz social. A grande maioria dos contos lida com o revoltante, causa repulsa e indignação. Momentos tão comuns, tão dia-a-dia. Mas tão filhos da puta.

Como não se arrepiar com a cena final do conto Sheila e os ratos, como não se abismar com a ousadia pedofílica em A danação do vampiro, com o desassossego provocado por Os sete mosquitos da insônia e outras ousadias, todas elas inquietantes.

Mas também há contos que cometem pecados que extrapolam a intenção primeira do autor. Contos como O amor de reizinho e Gina, que avançou, indo parar num parágrafo a mais, quando não precisava, Cão branco, que me pareceu inverossímil da primeira à última linha, A fúria que, numa única palavra me fez quase abandonar a leitura desse conto e pular para o seguinte: “Me forneça um pão”. Me dê, me dá, me arruma, me veja. Qualquer coisa. Mas “me forneça, não!

Não foi uma leitura boa. Não terminei o livro achando que vou sentir falta. É o tipo de leitura que atrai, que prende, que não deixa parar até a última página, mas que, ao fim, te faz suspirar de alívio por ter acabado.

Não recomendado aos leitores de sentimentos leves, corações frágeis e aos otimistas na espécie humana, principalmente.

Parabéns ao Fernando Mantelli por saber como ninguém aflorar o horror que existe atrás de cada sorriso e à Não Editora pela publicação de Raiva nos raios de sol.

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9 Respostas to “Raiva nos Raios de sol – Lido e comentado”

  1. Arlequinal » Raiva nos Raios de Sol, Fernando Mantelli – Uma Resenha Says:

    […] preciso responder a uma resenha que li escrita pelo Tibor. Preciso escrever por que discordo dela e creio que o livro merece uma “segunda […]

  2. Fernando Torres Says:

    Tibor,

    Elaborei uma resposta em http://arlequinal.com.br/2009/12/07/raiva-nos-raios-de-sol-fernando-mantelli-uma-resenha/

    Abrax,
    Fernando

  3. Tibor Moricz Says:

    Vi a resposta. Não há discordâncias entre nós. Concordamos em tudo…:)

  4. Fernando Torres Says:

    Tibor, creio que elas são complementares. Eu creio que a discordância é uma questão de linha de leitura. Eu quis ressaltar isso. No final os dois ressaltam as qualidades do livro, um por movimento de repulsa, outro por movimento de atração.

  5. Camila Fernandes Says:

    Conseguiram me deixar com vontade de ler. 🙂

  6. Não Editora » Clipping de 11.05.09 Says:

    […] Resenha | Raiva nos raios de solTibor Moricz, 07.12.09 […]

  7. horaciocorral Says:

    Não entrarei nos méritos literários do livro, apenas queria comentar que achei a capa magnífica e conceitualmente excelente. Tomara que sirva como exemplo para o resto dos capistas.

  8. Luis Guilherme Sobreira Says:

    Tibor,

    Fiquei curioso para ler “Fome”. Embora afirmes lidar na tua obra “com um futuro pós-apocalíptico fictício”, e isso não me agrada, o fato da Não Editora ter te enviado a obra por achar que te identificarias com ela, me instigou a adquirir o teu livro.

    Quanto a “Raiva nos raios de sol” achei-o simplismente fantástico… Nem vou questionar o quanto verrossímel ele pode ser, mas simplesmente a minha identificação com os textos.

    Encontrei uma crônica no site da cultura que faz parte do teu livro. Li-a. Tive certeza: vou comprá-lo!

    Sucesso.

    Lui

    • Tibor Moricz Says:

      Obrigado, Luis. Assim que ler, dê um feedback. Mesmo que para criticar ferozmente o livro.

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