Temos ou não temos leitores – Parte III

Não, o assunto ainda não se esgotou. Falamos de quantidade de publicações versus leitores, falamos de rótulos versus leitores e agora falaremos de qualidade versus leitores.

Nesse sentido, é bastante coerente nos perguntarmos se literatura bem feita, preocupada com a forma e com o rigor estilístico vende mais do que aquela cuja preocupação maior é só contar uma história.

Para mim, escrever direito e escrever bem são duas coisas distintas. Os que escrevem direito conseguem se fazer entender, mesmo na indecisão estrutural de seus textos. Os que escrevem bem, o fazem com cuidado técnico, atenção ao estilo, narrativa fluida e bem construída.

Não se vê escritores bons com frequência, mas os “direitos” transbordam.

A eles não está reservada a sorte de vender bem?

Claro que está. Qualidade literária pode determinar o feedback da mídia e dos leitores especializados, sejam formadores de opinião ou não. Mas qualidade não é fundamental para definir o resultado das vendas. Estamos cheios de exemplos de autores cujas obras alcançam o status de Best seller, sem, contudo, exibirem qualidade narrativa suficiente para atrair a atenção de leitores mais exigentes.

Escrever bem é importante, claro. Que escritor quer ser medíocre a vida inteira (Está certo, tem escritores que se esforçam nisso incansavelmente)? Mas desde quando não ser o melhor privará um assassino do vernáculo de atingir um nicho de mercado e tirar a sorte grande?

Então, argumentos relacionando qualidade literária com vendas, são incoerentes. Antes frisemos a necessidade de distribuição, de marketing, de um competente trabalho editorial. Leitores exigentes querem ler coisas boas. Boas histórias e bem escritas, mas o mercado está forrado de leitores não muito exigentes, e são eles que dão números finais às curvas ascendentes (ou descendentes) de vendas.

Senão veríamos Dan Brown, Stephen King e Nora Roberts sendo discutidos em rodas intelectualizadas e disputando palmo a palmo o Nobel de Literatura.

Isso não significa, nem quero que pensem, que estou incentivando que escrevam mal. Só saliento que escrever bem ou mal nada tem a ver com se dar bem ou não nas prateleiras.

Por fim, chego à conclusão que precisamos focar os leitores que estão além do fandom, que não devemos lhes escancarar o gênero (para não afugentá-los logo de cara), e tanto faz se você escreve bem ou só escreve direito (se escreve mal, então não tem jeito). 90% desses leitores não são exigentes. Eles não querem se enrodilhar em artifícios da linguagem, nem se espantar diante da sua fluência ou rigor narrativo. Eles querem se divertir. Querem fugir da realidade um pouco que seja a cada dia.

Zibia Gaspareto vende muito, muito bem. Mas escreve muito, mas muito mal. Entenderam a relação? Ninguém entende, mas é assim que muitos autores vão se virando.

E, ah, sim, aqueles na base do “pouco estou ligando se vendo ou não, o importante é publicar”, estão no gênero errado. O Mainstream é no final do corredor, a segunda porta à esquerda.

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18 Respostas to “Temos ou não temos leitores – Parte III”

  1. Samir Says:

    Bem, tecnicamente, Zíbia Gasparetto não escreve, é o tal espírito”Lucius” que escreve por intermédio dela… infelizmente, ela não dá sorte, e nunca baixa nela nenhum espírito que tenha passado por uma oficina de criação literária.

  2. Antonio Luiz Says:

    “Qualidade não é fundamental para definir o resultado das vendas” – verdade, até certo ponto.

    “Antes frisemos a necessidade de distribuição, de marketing, de um competente trabalho editorial” – sinto muito, mas é bobagem. Se fosse assim, todo livro de grande editora seria automaticamente best-seller. É o potencial como best-seller que gera um investimento especial em distribuição e marketing.

    Criar um best-seller não é questão de “escrever bem”, mas também não é de ser um bom publicitário. É de acertar no tema ou enfoque que uma fatia importante do público quer muito ler, seja bem ou mal escrito. Quando se é dependente de álcool e se está em crise de abstinência, não faz muita diferença se é Romanée-Conti ou Sangue de Boi de Jundiaí: bebe-se o que tiver no boteco.

    • Tibor Moricz Says:

      Quando digo que devemos frisar a necessidade de distribuição efetiva, marketing e competente trabalho editorial não estou dizendo que só isso é suficiente para transformar um lançamento num best seller. Logo adiante falo sobre acertar o nicho e se dar bem nas prateleiras, o que só confirma minhas palavras.
      De qualquer forma, escrever BEM não é sinônimo de vender BEM. Existem “n” variáveis.

    • Tibor Moricz Says:

      Ia me esquecendo. No dia em que distribuição, marketing e bom trabalho editorial forem bobagens, paro de escrever. E provavelmente muitas editoras deixarão de existir, desestimuladas. E o mercado literário encontrará finalmente o seu melancólico fim.

  3. Temos ou não temos leitores | diggs | design gráfico Says:

    […] Temos ou não temos leitores – Parte III Compartilhe! […]

  4. Antonio Luiz Says:

    No dia em que distribuição, marketing e bom trabalho editorial determinarem o sucesso ou fracasso da literatura, quem para de escrever sou eu 😉

  5. Antonio Luiz Says:

    Sem chance. A literatura existia muito antes que publicidade, marketing e produção editorial fossem profissões. E na URSS, onde não havia praticamente nada disso, a censura podia ser um problema, mas a falta de leitores, nunca…

    Não digo que o rabo não possa ter sua utilidade para o cachorro (embora muitos passem bem sem ele). Apenas que não abana o cachorro.

    Assim como há livros que vendem muito bem apesar de serem literariamente ruins, há best-sellers mal traduzidos (qualquer um da Record ou da Ediouro), com capas horríveis (romances espíritas em geral), mal revisados (Paulo Coelho), que tiveram apenas publicidade rotineira etc.

    E, por outro lado, há livros que receberam um investimento exagerado em publicidade e marketing, foram razoavelmente bem editados e não tiveram o sucesso esperado. Como os de Orlando Paes Filho, cujos editores superestimaram absurdamente o tamanho de seu público-alvo.

    • Tibor Moricz Says:

      O trinômio “Distribuição/Marteting/Produção editorial” pode não ser determinante no sucesso de um livro, mas ninguém pode, em sã consciência, dizer que não é importante. Relegá-lo a um patamar inferior é a mesma coisa que achar que literatura sobrevive por ela mesma. Livro é um produto e precisa ser considerado dessa maneira. Há livros/produtos bons e livros/produtos ruins. Abrir mão das ferramentas de marketing (distribuição e produção editorial) num lançamento é certamente meio caminho andado para lançar o livro ao ostracismo. Pode ser diferente em países onde existe uma cultura da leitura, ou para importados cujos autores tem alguma repercussão. Mas se falamos de autores nacionais, não basta que sejam bons. Precisam aparecer. E sem distribuição e capas eficientes, serão lidos apenas pela família e alguns amigos.

  6. Anderson Santos Says:

    Fico pensando no seguinte: faz alguns dias um tal de Ivan tem postado na comunidade de FC do orkut um link para um livro dele, um tal de “entrevista com os deuses”.

    O livro eh absurdamente mal escrito, com construcoes que remontam a 5a. serie, se tanto.

    Mesmo assim, o site do livro tem depoimentos do tipo “maravilhoso”, “eh justamente o que eu estava procurando”.

    Que droga, tem gente que engole qualquer coisa !

    • JotaFF Says:

      “Mesmo assim, o site do livro tem depoimentos do tipo “maravilhoso”, “eh justamente o que eu estava procurando”.

      Que droga, tem gente que engole qualquer coisa !”

      Esse é o ponto crucial. Sucesso não é sinônimo de qualidade. Temos trocentos exemplos em várias mídias disso.

      Uma obra de qualidade pode ou não fazer sucesso. Depende de vários fatores como o Tibor disse e o Antonio tb.

      Uma obra de qualidade pode conseguir se inserir na vontade do povo e se tornar um sucesso. da mesma forma que uma obra de péssima qualidade também consegue.

      Acho que o escritor tem que fazer uma escolha. Quero fazer sucesso comercial ou sucesso acadêmico? (claro levando em consideração que o escritor seja realmente bom para conseguir escolher =] )

      M uito boa essa discussão. =]

      Abraços

      • Tibor Moricz Says:

        Querer fazer sucesso acadêmico com literatura mainstream é concebível, mas não consigo imaginar um escritor de FC pensando dessa maneira. Literatura de gênero jamais foi reconhecida pela academia. Quem sabe um dia… e pra isso existem os especuladores da FC.

  7. jjjorge luiz calife Says:

    AAcho muito interessantes esses comentários, mas tem uma coisa que nninguém aborda. A FC hoje em dia é um genero multimídia, os autores eestrangeiros ficam famosos porque seus livros são adaptados para ooutras mídias como cinema e games. Enquanto a FC brasileira ficar rrestrita só a literatura ela vai continuar invisível. E é difícil mudar esse qquadro. No início do ano eu escrevi o roteiro para um game, o Gravidade ZZero, baseado no meu último romance. Ele tem fases de combate como o o Halo 3 da Microsoft e fases de exploração como o Rama da Sierra. mostrei o roteiro para vários game desgners e todos disseram que é impossível produzir um jogo assim no Brasil, que custaria milhões de dólares. Mas todos reconhecem que um jogo assim renderia de três a quatro vezes mais que um filme. Os livros de vampiros do Andre Vianco também dariam ótimos games para PC ou console. Mas não há como expandir a FC e a fantasia brasileiras para outras mídias por falta de recursos. De minha parte eu já tenho um roteiro pronto e guardado se alguma empresa se interessar. É o primeiro jogo de combate em gravidade zero. Algo que não existe atualmente, que eu saiba. E o dia que ua obra de FC de um autor nacional virar filme ou game, o livro vai ser best-seller. Uma coisa puxa a outra.

    • Tibor Moricz Says:

      Temos um exemplo bastante atual a esse respeito, Calife. O game Taikodon, criado pela Hoplon Infontaiment. Mas não tenho conhecimento do resultado de vendas dos livros baseados no game para concordar ou discordar de seu argumento.
      De qualquer forma, transformar qualquer livro de FC em game com certza daria a ele uma visibilidade extraordinária (se o game for um sucesso, claro).

  8. jjjorge luiz calife Says:

    Num país de cultura audiovisisual, como é o caso do Brasil, a nossa literatura fantastica vai continuar invisível, no gueto, enquanto não puder se expandir para outras mídias. Eu me lembro que há coisa de uns dez anos eu precisei comprar um exemplar do Senhor dos Anéis do Tolkien, saí procurando pelas livrarias e ninguém tinha ouvido falar. Afinal achei uma edição portuguesa num sebo, a única em todo o Rio de Janeiro. Um ano depois saiu o primeiro filme da trilogia do Peter Jackson e o Senhor dos Anéis estava na vitrine de todas as livrarias, tinha virado best-seller por conta do filme. Eu me pergunto se o Dan Brown ou essa Stephanie Meyer seriam conhecidos no Brasil se não fossem os filmes. Larry Niven, um dos melhores autores americanos de FC é praticamente desconhecido no Brasil porque seus livros nunca viraram filmes (Viraram games, mas na época do PC 486 quando os jogos não ainda um público amplo como hoje). Nossa geração ainda não tem condições de dar este salto para a multimídia, mas talvez a geração que vier depois da nova tenha, com o progresso da tecnologia. Vai chegar a época em que qualquer um poderia criar um game em 3D no seu PC, em casa, em produção independente. E aí ficaremos visíveis

    • Tibor Moricz Says:

      Se não me engano, Calife, o livro do Dan Brown, O código da Vinci, foi lançado bem antes do filme. Fez sucesso independentemente da película. O mesmo para Crepúsculo de Stephanie Meyer. Se eu estiver enganado, por favor me corrijam.

  9. jjjorge luiz calife Says:

    EEu só ouvi falar neles depois dos filmes, e olha que eu tenho uma coluna de livros no jornal. Desculpem mas esse teclado tá horrível, comendo palavras e repetindo letras. Vou trocar de teclado, assim não dá.

    • Tibor Moricz Says:

      Não perdeu nada em não ouvir sobre eles antes dos filmes…rs
      Mas para que um livro de FC seja um best-seller baseado num Game, é necessário que esse Game seja também um sucesso. Senão não acontece nada. Reunir esforços em outras mídias é muito importante (embora difícil). Mas ainda existe um mecanismo desconhecido que rege os bem sucedidos dos mal. E só quando o dominarmos completamente poderemos fazer especulações mais fundamentadas.

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