Temos ou não temos leitores – Parte IV

Vimos discutindo todas as faixas possíveis onde os leitores potenciais de literatura de gênero, predominantemente de FC, estariam. E como nossa literatura se relaciona com eles, levando em consideração aspectos práticos de mercado, seja na distribuição, seja na divulgação e tratamento editorial. Existem leitores e eles estão por aí, devendo ser caçados no laço, se necessário, e utilizando das armas que dispomos.

Mas surgiu um novo aspecto de abordagem. Íamos nos esquecendo de comentar a interação com a multimídia, transformando uma obra literária num conjunto muito mais amplo de peças, todas elas interligadas, atuando separadamente em mercados diferenciados, com o objetivo de alavancar vendas, transformando um livro num Bestseller, ancorado no sucesso de suas peças irmãs.

Mas esse é um cenário ainda nebuloso no Brasil. Fica difícil imaginarmos uma ação dessa natureza num país com evidentes problemas financeiros, onde a cultura sofre com a falta de investimentos e só pode “acontecer” se financiada pela iniciativa privada.

Segundo Gerson-Lodi Ribeiro, consultor técnico da Hoplon Infotainment e que ajudou a criar e desenvolver o game Taikodon, o sucesso de uma obra literária impulsionada por um amplo esforço multimídia é uma verdade que pode ser constatada, ainda, apenas no exterior. No Brasil as coisas caminham mais devagar.

Tanto o jogo quanto os livros da coleção Taikodom foram lançados há pouco mais de um ano. Mesmo sem acesso aos números das vendas da Devir, eu diria que ainda é cedo demais para se afirmar alguma coisa. Dentro de uns dois ou três anos, saberei responder se a verdade anglo-saxã também se aplica ao Brasil”.

Jorge Luis Calife também se manifestou a esse respeito:

“A FC hoje em dia é um gênero multimídia, os autores estrangeiros ficam famosos porque seus livros são adaptados para outras mídias como cinema e games. Enquanto a FC brasileira ficar restrita só à literatura ela vai continuar invisível. É difícil mudar esse quadro. No início do ano escrevi o roteiro para um game, o Gravidade Zero, baseado no meu último romance. Ele tem fases de combate como o Halo 3 da Microsoft e fases de exploração como o Rama da Sierra. Mostrei o roteiro para vários game designers e todos disseram que é impossível produzir um jogo assim no Brasil; que custaria milhões de dólares. Mas todos reconhecem que renderia de três a quatro vezes mais que um filme. Os livros de vampiros do André Vianco também dariam ótimos games para PC ou console. Mas não há como expandir a FC e a Fantasia brasileira para outras mídias por falta de recursos. Assim, num país de cultura audiovisual, como é o caso do Brasil, a nossa literatura fantástica vai continuar invisível, no gueto, enquanto não puder se expandir para outras mídias”.

Podemos constatar um aumento razoável de books trailers produzidos pelos próprios autores como um esforço de divulgação, mas não vemos mais nada, além disso. Não temos como amplificar nossos esforços, senão pelos recursos oferecidos pela internet, que são parcos diante da necessidade que temos de explorar novas mídias.

Seria fantástico, sem dúvida, se pudéssemos ver obras como Padrões de Contato, Hegemonia, os vampiros do André Vianco, A mão que cria, sendo exibidos nos cinemas ou jogados por adolescentes ávidos. Seria um evento grandioso e comparável apenas aos que ocorrem em países do primeiro mundo.

Mas, sem recursos, ficamos limitados ao boca a boca, mesmo que virtual, em fóruns de discussão, comunidades de grupos e redes sociais.

E os leitores? Disparando pela campina. Limpem e municiem as suas armas, ajeitem a mira e que se regozije o de melhor pontaria. Só cuidado com as balas perdidas. Acabam acertando um ao outro, nem sempre sem querer.

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2 Respostas to “Temos ou não temos leitores – Parte IV”

  1. jjjorge luiz calife Says:

    Eu já vi games feitos na Rússia que não ficam nada a dever aos similares japoneses e americanos. Serão feitos com dinheiro da máfia russa? Aqui dava para fazer um game fantástico com um décimo da grana que rola no mensalão de Brasília mas infelizmente ninguém do governo tentou me subornar.

  2. jjjorge luiz calife Says:

    Quero acrescentar também que pra mim a FC sempre foi multimídia. Eu comecei a ler FC com oito anos de idade, quando me empolguei com os quadrinhos do Flash Gordon que saiam no jornal O Globo. Na época o Flash era desenhado pelo Dan Barry e o escritor Harry Harrison fornecia os argumentos para as aventuras. Na adolescencia passei dos quadrinhos para os livros com Clifford Simak, Arthur Clarke, Larry Niven e Poul Anderson. Na mesma época eu também acompanhava as série de TV, Túnel do Tempo, Jornada nas Estrelas, Quinta Dimensão. Quando surgiram os games o primeiro que joguei foi Ringworld – A vingança do Patriarca baseado na série Ringworld do Larry Niven. Aqui no Brasil nem quadrinhos a gente pode fazer, os melhores desenhistas de quadrinhos do Brasil estão nos EUA, trabalhando na DC e na Marvel pra fugir da miséria que os editores brasileiros pagavam pra eles. Mas continuo achando que quando a FC fica só na literatura ela pega só o fundo do tacho do universo de leitores. Me pergunto se eu não teria me apaixonado pelo genero se não fosse o Flash Gordon. Até hoje tenho aquela HQ, a Fortaleza Flutuante.

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