Yes, nós temos leitores!

A grande quantidade de títulos de ficção científica que vêm sendo publicada não significa outra coisa, embora, para muitos, a larga escala de publicações possa encalhar na curva do rio.

Para mim, só encalha o livro que for ruim ou que não receber um atendimento editorial digno, incluindo aí uma distribuição eficiente. Claro está que “não encalhar” não significa se tornar um Best seller. Para o autor nacional de FC (ou de fora dele) vender um milhar de exemplares (ou até menos) já é resultado digno de festa com fogos de artifício.

Contatei alguns editores conhecidos procurando deles o conhecimento que só os moradores do Olimpo possuem, para tentar elucidar essa dúvida que vem sendo destrinchada em artigos sequenciais neste blog (Temos ou não temos leitores – Partes I, II, III e IV) e que pretende terminar neste último (se é que esse assunto encontrará fim um dia).

Adriano Fromer Piazzi, editor da Aleph foi, até agora, o único a se manifestar, espero que os demais saiam de seu silêncio e nos deem uma pitada de sua sabedoria:

“Em linhas gerais existe público leitor, sim, e ele está aumentando, ainda que a passos lentos.  Percebe-se um interesse bem maior pela literatura de FC, tanto por parte dos leitores, quanto por parte das livrarias. Hoje, é possível ver livros de FC da Aleph bem expostos em várias das grandes redes. E o melhor, sem nenhum evento específico para estimular essa exposição (como um filme, uma data comemorativa, uma moda literária). O que temos que ter em mente é que o comportamento de vendas de um livro de FC está sujeito às mesmas regras de mercado de um livro de outro tipo de literatura.

Acho que uma das grandes mudanças foi a Aleph, juntamente com outras editoras, começar a publicar FC. E provar, via esforço de divulgação, que é possível vender esse tipo de literatura, ainda que as vendas estejam muito aquém de outros gêneros.

Na minha percepção, o começo do milênio foi marcado pela valorização  da cultura geek. E FC está diretamente ligada a isso. Ou seja, hoje quem lê FC é cool, “antenado”. Já vi gente se sentir “culpada” por nunca ter lido nenhum livro de FC. Isso mostra que o gênero está sendo valorizado.

Por outro lado, a abertura para autor novo nacional é sempre muito complicada. Seja autor de FC ou não. Mas isso depende muito também do investimento, esforço e poder de negociação da editora.

Acho que hoje, talvez, pelo histórico da Aleph na área, alguns livreiros dessem o crédito e apostassem em algum autor nacional que publicássemos. Mas aí, se o cara não vende, fica difícil dar credibilidade ao próximo autor.

Mas claro, faz TODA a diferença se o lançamento que apresentamos é do Philip Dick, e não do Felipe Pinto.”

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8 Respostas to “Yes, nós temos leitores!”

  1. Cirilo S. Lemos Says:

    Bom, aparentemente temos leitores. Mas para os gringos.

  2. Tibor Moricz Says:

    Temos leitores de gênero, Cirilo. Estão aí, comprando os livros da Aleph (e os da Devir, creio). Não são refratários à FC. O que ainda existe é refração das editoras em relação aos autores nacionais.

  3. Antonio Luiz M. C. Costa Says:

    Pitada de sabedoria? Acho o Piazzi está fazendo papel de tolo preconceituoso. Ao mesmo tempo que diz que “Philip Dick” vende e “Felipe Pinto” não (ô obsessão…), a maranhense Nazarethe Fonseca, a única brasileira entre os autores de ficção que publica, é também a mais vendida. Mais que Asimov, Dick, Gibson e Burgess, para não falar do sem-noção do Neal Stephenson. A editora até mandou um press-release para os meios de comunicação dizendo que ela está entre os “mais vendidos” da Saraiva (na verdade, está em 38º, mas ainda assim ganha de qualquer dos gringos da Aleph).

    É muita vontade de cuspir no prato em que está comendo. Ou de mijar na própria sopa, como se diz em certos países da Europa oriental.

    • JotaFF Says:

      Acredito que simlesmente falar da Nazarethe Fonseca é tirar do contexto o que ele esta dizendo. Será que a Nazarethe seria a mais vendida da Aleph se ela não escrevesse sobre vampiros?
      Querer criticar o que ele disse apenas com base nesse argumento que voce apresentou parece-me mais um exercício de retórica do que realmente contra argumentar.

  4. Antonio Luiz M. C. Costa Says:

    A Nazarethe Fonseca também vende mais que Kim Newman (Anno Dracula, também da Aleph), que escreve sobre vampiros.

    Retórica é comparar Philip Dick com um inexistente Felipe Pinto. É querer justificar-se com o próprio preconceito, sem nenhuma prova real.

  5. Adriano Fromer Piazzi Says:

    Antônio, não acho que fui preconceituoso. Apenas apresentei uma constatação da realidade, por mais triste que ela seja para todos nós.
    Quando fiz o trocadilho infame, mas irresistível, quis simplesmente dizer que “autor gringo e, principalmente, o autor gringo conhecido, tem maior receptividade por parte dos livreiros e dos leitores do que o autor nacional desconhecido”. É que o Tibor cortou as perguntas, colocou o texto como se eu tivesse escrito tudo por iniciativa própria. Ele me mandava as perguntas, e eu as respondia por email. Copio aqui a pergunta do Tibor que motivou esta minha resposta.

    – Você acha que a abertura é geral ou mais enfática para a literatura estrangeira? Se a Aleph fosse distribuir, hoje, um livro de FC de autor nacional teria a mesma “facilidade”?

    Em nenhum momento eu disse que “autor nacional vende menos” (daí a comparação da Nazarethe com qualquer outro livro da Aleph perde o sentido). Simplesmente respondi ao Tibor dizendo que não teria a mesma facilidade de colocar um livro de autor nacional desconhecido de ficção científica nas livrarias.

    Mas isso é baseado na minha experiência pessoal como editor. Pode ser que outro editor tenha uma percepção diferente (e, do fundo do coração, torço diariamente para que eu esteja MUITO enganado)

    E a situação é mais triste ainda quando percebemos que este preconceito parte do leitor.

    Se a Nazarethe me permitir, eu até posso copiar alguns trechos de e-mails que ela recebe de leitoras dizendo que não gostam de autores brasileiros, acham muito chatos, mas que se surpreenderam e gostaram muito do livro dela.

    Triste, desanimador, ignorante, mas real!

    Bom, isso aqui dá um debate longo, mas acho que está feita parte da minha defesa.

  6. Adriano Fromer Piazzi Says:

    Antonio, peço também para tentar ser um pouco menos agressivo nos comentários. Estou aberto a debates, aceito que minhas opiniões sejam contestadas, numa boa, mas talvez seja um pouco desnessessário se referir a mim como um “tolo”. Isso desestimula um pouco minha participação neste tipo de discussão. Como o Tibor constatou, eu fui o único editor que respondi ao seu e-mail, e gostaria de continuar expondo minhas opiniões, mas eu espero ser um pouco mais respeitado, mesmo quando contestado.
    Se puder atender ao meu pedido, agradeço muito.

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