Salto quântico. Que bicho é esse?

Essa expressão foi utilizada duas vezes, recentemente. Uma aqui no blog, na caixa de comentários, por Guilherme Kujawski (Temos ou não temos leitores – 28/01/10) e mais recentemente em seu próprio espaço (http://tinyurl.com/y9qntol), comentando uma recusa que recebeu numa coletânea organizada por Marcelo Branco.

Mas o que é que podemos entender desse “salto quântico” relacionado à nossa literatura de gênero?

Uma interpretação poderia se basear no aspecto de qualidade narrativa. Outra, no aspecto de inovação do argumento.

Se considerarmos que esse salto ainda não ocorreu, como poderíamos identificá-lo no momento exato de seu surgimento? Não é suficiente argumentarmos que uma ou outra recusa (ou uma ou outra obra de qualidade inferior) signifiquem nossa presença numa espécie de idade das trevas literária.

Se por um lado temos obras fracas, por outro temos obras muito boas. Não creio que todos os autores, para poderem se aproximar do Olimpo, tenham que escrever obras inovadoras, mais próximas do que se produz em países anglo-saxões.

Precisam, antes disso, escrever obras bem tramadas, bem construídas, bem narradas, com cuidado especial no estilo, com prosa rica e fluente.

Nesse sentido, citarei Roberto de Sousa Causo, Gerson-Lodi Ribeiro, Fábio Fernandes, Carlos Orsi Martinho, Braulio Tavares, André Carneiro, Jorge Luis Calife e outros que podem muito bem sustentar o bastão desse hipotético “salto quântico”, cada um em seu tempo, considerando que alguns são escritores que fazem parte de gerações anteriores, embora produzam normalmente até hoje.

Então esse “salto quântico” não se deu até agora?

Eu diria que se ele existe, já ocorreu há tempos e vem ocorrendo espasmodicamente. O “salto quântico” não é um evento mensurável num universo de obras coletivas. Ele é só identificável na particularidade, no individual. Um ou outro autor, no momento em que vence a barreira imposta pela mediocridade literária, dá seu “salto quântico”. Assim, esse curioso evento conviveria em nossa realidade desde a primeira obra de gênero produzida, desde a primeira onda de autores e vem pipocando aqui e ali, de acordo com lançamentos que justifiquem a teoria de sua existência.

Um autor que dá o salto hoje poderá regredir amanhã. Nem nome, nem presumido talento livra o escritor da queda se não houver rigor constante, autocrítica permanente, equilíbrio e humildade para entender que estamos sujeitos às exigências de mercado, sejam elas objetivas ou subjetivas. De outra forma, o “cálice sagrado” tão procurado se parte em fragmentos quânticos entre nossas mãos.

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14 Respostas to “Salto quântico. Que bicho é esse?”

  1. Anderson Santos Says:

    So achei engracado colocar lado a lado alguns autores tao dispares:

    Fabio com certeza eh um grande experimentador, saltador nato

    Carlos Orsi, capaz de verdadeiras facanhas com seus contos bem escritos, tambem salta, pula e faz acrobacia

    Gerson, que produziu delicias como Outros Brasis e chatices inominaveis como Taikodom – um bom candidato ao salto (principalmente o salto 15, o preferido da Carla Cristina)

    Braulio Tavares, imaginativo, tambem um saltador em distancia,

    Andre Carneiro, que ja de seus pulinhos, mas hoje esta sossegado

    Mas achei meio esquisito incluir nesta lista:

    Causo, uma das pessoas mais obtusas que tive o desprazer de conhecer – alem do ego tao grande que ate parece argentino. Talvez nao chegasse a ser o pior texto do FCdoB, mas ja que ele gosta de inflar tudo que faz, inflarei isto tambem.

    Calife, que cria bons textos, mas cuja producao parece ser um constante “Angela Duncan ataca novamente”, nao sei se salta tanto (e olha que gosto de varios livros dele)

    E para mim faltaram na lista:

    Cristhie: ainda nao ganha no salto em altura, mas ta aprendendo (e depressa)

    Tibor: A modestia eh uma merda, pode se incluir tambem. Dificil ganhar um concurso de “escritor mais simpatico de Fantasia e FC do Brasil” – provavelmente ficaria em ante-penultimo lugar, mas temos fome de coisas novas.

    • Tibor Moricz Says:

      Esqueci-me da Chris, Anderson. Ela é uma ótima escritora. Mas, para ser bastante sincero, eu e ela ainda precisamos provar a que viemos. Nossos próximos lançamentos construirão uma imagem nossa mais sólida.

      • Anderson Santos Says:

        Reconhecimento, no teu caso e da Cris, vem com o tempo e trabalho.

        Obviamente voces ainda tem muito que produzir (pelo o que, eu leitor faminto, agradeco), mas acredito que mostraram que teem consistencia.

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Corrijam-me se eu estiver errado, mas não estamos aqui querendo medir o tamanho da pica do Causo ou o suposto ego hipertrofiado dele (o Bráulio e o André Carneiro, só pra citar dois exemplos, também têm egos gigantescos e você os elogiou). Bom, certamente o Tibor não pensou nesses detalhes ao escrever este texto, tenho certeza. Para incluí-lo, levou em consideração que o Causo é um dos autores que mais produzem FC e Fantasia em nosso país, e um dos que mais promovem os gêneros. Ele não acerta sempre, mas quem de nós acerta? O importante é que ele é criativo, escreve bem, sabe fazer uns contos danados de bons e tem romances muito interessantes.

      Em tempo: não é a primeira vez que me sinto impelido a defender o Causo em público, mas é que os ataques que fazem a ele nunca levam em conta a parte “literária” da sua biografia. Sempre tem a ver com os socos que ele trocou com fulano, ou as intrigas que dizem que ele fez envolvendo sicrano e beltrana, etc. O que para mim, enquanto leitor, não interessa nem um pouco. Céline detestava judeus, mas isso não me impede de ler Voyage au bout de la nuit e achar o cara um ESCRITOR MUITO FODA. Se ele detestava judeus não sei nem me interessa (embora eu ache uma idiotice tremenda: judeus não prestam exatamente na mesma medida em que qualquer outro povo também não presta, incluindo nós brasileiros). Não é a primeira vez que defendo publicamente o Causo, mas, conhecendo o ser humano como conheço, vou repetir o que sempre repito: o Causo não tá me comendo, não me faz/fez favor nenhum nem me dá privilégios, somos apenas “bons conhecidos”, não tenho nenhum livro na Devir aguardando aprovação, nem acho que vá ter no futuro… Enfim: a defesa que faço dele é, até aonde vai a minha autoanálise, desinteressada e não visa lucro algum, financeiro ou não.

      • Anderson Santos Says:

        O que se discute eh a capacidade dos autores de produzir de modo nao perene, e que mudem a cena de F&FC no Brasil.

        Os autores que elogiei, sob o meu ponto de vista, sao capazes disto.

        Os autores que detonei, sob o meu ponto de vista, nao.

        Aquele-que-nao-deve-ser-nomeado nao galgou este apelido aleatoriamente, mas trabalhou duro para isto. Intrigas, tocaias, dissimulacao fazem parte do seu roteiro de vida. Pode ate ser um autor proficuo, mas mediocre – sob o meu ponto de vista.

        Se por outro lado voce gosta dos textos que ele produz – parabens, tem mais que apoia-lo. Sermos genuinos eh das poucas atitudes que dependem exclusivamente de cada um.

        Mas espero que a nova leva de autores consiga conquistar por meio da qualidade de seus textos E TAMBEM pelo carater que demonstram.

  2. Artur Says:

    Tá, eu concordo. Mas eu escrevo e não sou lido. O que acontece, também, é q não há editores ou veículos tão abertos para que enviemos nossas peças.

    Não quero transformar o “Salto Quântico” em um correr atrás prá chegar na frente.
    Mas, por exemplo, o fato de haver nomes conhecidos em coletâneas de FC não indica qualidade literária ou capacidade especulativa – vide Del Fuego em Futuro Presente, dispensável. Essa é minha opinião.

    Abraços

  3. Ricardo França Says:

    Sem entrar no mérito da estranha definição de que FC é “aquilo que o autor (ou o editor) diz que é” me pareceu que a postura do Kujawski tem mais a ver com uma identificação geral de todos os elementos envolvidos na produção literária de HQ com um “ground level” de qualidade que ainda não quer ou se possa superar. E, portanto, “saltos” individuais não seriam o suficiente.

    O fato de se citar “saltos quânticos” só mostra a intenção de se colocar o conceito subjacente de que não exista ou possa ser possível uma melhora gradual e só através de uma mudança abrupta de atitude é que se franquearia o passe para o empíreo da qualidade total. No meu ponto de vista ele não só está errado em princípio como ele mesmo acaba por perceber que a recusa recebida foi o fato que desencadeou o comentário, piorando a isenção da análise quando se vê que nela se embute uma demonstração de que só o que se faz intencionalmente seguindo cânones acadêmicos ou pela emulação de referências atualíssimas e obscuríssimas é que pode aspirar a ter alguma validade maior.

    Se isso fosse realmente um fator determinante eu poderia invocar similarmente que o fato da grande maioria dos escritores de FC seriam desconhecedores dos mais básicos fundamentos de muitos dos princípios científicos empregados seria um impedimento de ordem inescapável para a real produção de FC de qualidade, o que, convenhamos, já é levar um pouco longe demais o argumento.

    Além de sua pragmática e bem (d)escrita postura, Tibor, podemos admitir aqui ainda que sempre vão existir descompassos entre as propostas de trabalho e intenções verbalizadas por parte de quem encomenda qualquer produto e seus executores. Talvez se o foco do público-alvo e a forma de atingí-lo sempre estivessem claros desde o início tantos atritos desnecessários poderiam ser evitados.

    Apesar de ter gostado do estilo do conto (ainda não o terninei) e até me achar de estilo similar (em obscuridade) obviamente se estava longe do pretendido praquela proposta mas sempre poderão existir outras. Pra falar a verdade acharia interessante questionarmos também se é mais interessante termos mais coletâneas homogêneas ou heterogênas, tematicamente focadas ou livres (ou se estas são mais efetivas que livros mono-autorais) e o que daria mais certo do ponto de vista dos editores.

    • Tibor Moricz Says:

      Ricardo, regras claras e específicas ajudam a resolver questões antes que elas surjam e possam criar dificuldades na organização de uma coletânea. Mas por mais objetivas que essas regras sejam, por mais claras e explicativas, temos que considerar que existem situações onde a subjetividade faz a diferença e um conto que inicialmente atenda ao pedido original possa ser recusado. Nunca teremos uma situação onde objetividade e subjetividade estarão equilibrados, sem causar rupturas nas regras originais.

  4. Roberto de Sousa Causo Says:

    Agradeço pela parte que me toca, Tibor e Saint-Clair. Acho que ser o bicho-papão da FC brasileira pelo menos ajuda certos grupos a fortacelerem a sua coesão — ou nisso também estou inflando o que faço? 🙂 Não é um papel que eu aprecie, porém.

    Talvez não seja o mérito da questão do bom artigo do Tibor, mas antologias temáticas freqüentemente são projetos muito específicos, que rejeitam histórias não por sua falta de qualidade ou por um suposto conservadorismo do organizador, mas por não se enquadrarem no pretendido para esses projetos.

    A ficção científica brasileira certamente precisa de outras vias para veicular histórias que fujam dessas limitações e dêem espaço ao experimental, ao texto mais intelectualizado ou a projetos elitistas — embora eu mesmo não aprecie o elitismo ou o vanguardismo. (Outros apreciam, e como público eles também precisam ser atendidos.)

    Se tal veículo existisse, teríamos mais chance de apreciar o que essas posturas podem fazer, preferivelmente ao lado de outras que também merecem espaço e que nem sempre vemos por aí: a história de aventura desenvolvida com solidez literária, a ficção científica realmente hard, a fantasia com uma qualidade realmente mítica, o horror que vai além da superfície.

  5. Kuja Says:

    Olá,

    Permitam-me um esclarecimento sobre a expressão “salto quântico”. Acho que Ricardo França resvalou no ponto ao dizer: “a postura do Kujawski tem mais a ver com uma identificação geral de todos os elementos envolvidos na produção literária de HQ” (eu só trocaria HQ por FC; será que foi um “faux pas” dele?). Tem mais a ver com a maturidade do Mercado como um todo. Eu não tenho autoridade para falar desse mercado, do qual eu pouco entendo. Não me considero um escritor de FC “stritu senso”; sou apenas um sintoma (como eu mencionei em outras ocasiões). Aparentemente, sou uma pedra no sapato de fundamentalistas-fetichistas da FC nacional. Mas me considero mais um ensaísta, daí a recusa de Marcello Branco. Na verdade, a culpa da recusa foi mais minha do que dele, pois ele elencou exatamente quais “topos” ele esperaria dos participantes da coletânea, a saber:

    1. Eleição e campanha eleitoral no futuro (manipulações, marketing);
    2. Eleições, processos decisórios, novas tecnologias;
    3. Novas formas de escolha e participação política; ampliação do conceito de sufrágio universal;
    4. Especulação sobre regimes políticos: democracia, ditadura, totalitarismo, sultanismo;
    5. Relações entre o público e o privado: corrupção, clientelismo, corporativismo, republicanismo;
    6. Utopias ou distopias (novas formas de organização política ou social);
    7. Geopolítica (integração ou conflitos regionais; Amazônia; descobertas energéticas ou tecnológicas);
    8. Alianças ou novas formas de poder hegemônico no mundo;
    9. História alternativa;
    10. Guerra no futuro ou no passado (aqui de um ponto de vista novo ou inusitado);
    11. Política em termos de relações interplanetárias ou interestelares (terráqueos com terráqueos ou terráqueos com extraterrestres);
    12. Sátira política. Um ponto de vista bem humorado sobre algum aspecto da política no futuro.

    O conto ofertado – um “riff” em cima da novela Vistarmada, um texto que considero fraco, mas com potencial – tratou mais do aspecto moral/ético da política do futuro. Ou seja, minha abordagem não estava elencada na lista de “topos” do editor.

    Enfim, eu acho que reagi exageradamente. Talvez mais por ter perdido tempo na confecção de um texto que seria recusado do por qualquer outra coisa.

    A questão mais importante foi levantada por Causo: aparentemente todos têm espaço para publicar qualquer coisa hoje em dia (tem até gente que paga para ser publicado). Mas será que autores com pendão ensaístico o têm? Será que os herméticos o têm?

    Guilherme Kujawski

  6. Kuja Says:

    ops… stricto sensu, quis dizer…

  7. Alvaro Says:

    O tal do salto quantico pressupõe um crescimento em qualidade repentino. Para que isso ocorra, mantendo a metáfora da física, é preciso que ocorra um a massa crítica. De quê? De autores, textos e de leitores. De autores, parece que já temos.

  8. Ricardo França Says:

    Hahaha. É, resvalei mesmo, Mr. G.K., tens razão. Minha única explicação pro meu r-ato falho é que talvez já tenha visto há muito discussões similares entre a grei daqueles que lidam com arte sequencial (nominho chique pras Histórias em Quadrinhos). Era FC mesmo que queria dizer/escrever, em suma.

    De qualquer forma acredito que temos muitas frentes potenciais ainda por abrir, como disse o Causo. A conclusão que cheguei com o tempo é que a tendência panelística do brasileiro em geral é um dos grandes impedimentos na geração da massa crítica para se produzir qualquer coisa de qualidade em grupo neste país. Parece até contraditório isso mas enquanto se rejeitam as colaborações com o ostensivamente divergente sempre se perderão grandes oportunidades de fertilização cruzada (que podem sempre criar ou ajudar a descobrir caminhos interessantes). Quanto mais intencionalmente setorizada for a produção menor será o quantitativo de consumo que poderia oxigenar o mercado.

    E nunca este estará maduro sem alguns mecanismos de realimentação e de controle consciente mas supra-individuais que permitam que considerações maiores que o gosto pessoal desentravem a conexão entre o que se quer consumir e o que se quer produzir.

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