Melhores do Ano?

É visível que a ótima iniciativa da Ana Cristina Rodrigues está tomando um rumo não muito surpreendente. Existe uma patota organizada que vota animadamente em obras reconhecidas como medíocres, numa espécie de Síndrome de Estocolmo, apaixonados que demonstram ser pelos captores que os fizeram pagar por um amontoado de papel sem quase valor nenhum.

Coletâneas, Romances e Novelas efetivamente excelentes estão vendo obras fragilíssimas lhes passar à frente, como se tivessem sobre a cabeça um caminhão de melancias a despencar ladeira abaixo.

E organizadores cujos objetivos não são outros se não colher moedas, serão premiados como “personalidades do ano”.

É uma inversão de valores inconcebível.

Postei há pouco no Twitter uma sugestão para o próximo evento, ano que vem. Parece-me boa e evitaria o terror que estamos assistindo agora.

A formação de uma “academia”. Autores, jornalistas e formadores de opinião reconhecidamente criteriosos que seriam pré-avaliadores das obras concorrentes ao prêmio. As editoras interessadas em participar enviariam a cada um deles os livros que julgassem adequados. Mesmo os on-demand. Isso talvez os estimulasse a organizar coletâneas melhores. Os avaliadores escolheriam os melhores livros de acordo com critérios pré-estabelecidos e as indicações iriam para a mão dos organizadores que os contabilizariam e dariam início ao voto popular. Isso certamente reduziria a possibilidade de distorções a níveis infinitesimais.

E não precisa prêmio nenhum senão a satisfação de se saber o melhor do ano, seja em que categoria for. Ou um trofeuzinho, daqueles pequeninos, pra colocar sobre a estante ou ao lado do micro.

Enquanto isso, acompanho assombrado o festival de insanidades de vai corroendo essa excelente iniciativa.

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16 Respostas to “Melhores do Ano?”

  1. pz04-t3-2009 Says:

    Publiquei em uma antologia paga. Estou arrependido.
    Pensei que seria uma coisa, e foi outra. A divulgação é zero e a qualidade do livro, relativamente baixa.
    Só digo uma coisa: nunca mais.
    E não vou votar em minha antologia, e muito menos na editora.
    A partir de agora, é se esforçar e melhorar para entrar em antologias que realmente valham a pena.

  2. Leonardo T. Says:

    Bem vindos à vida! É por essas e outras que procuro por autores que vendem o livro per si, e não vendem “Considerado o melhor do ano”, “Autor Revelação”… os bons não precisam disso e o sabem!

  3. Marcello Branco Says:

    Sua sugestão é sensata, Tibor. Fui organizador dos prêmios Nova, Tapiraí e Argos e em alguns dos anos, a eleição era realizada em dois turnos. No segundo turno um jurado de especialistas escolhia o melhor em cada categoria a partir da lista dos mais votados no primeiro turno popular. Nem sempre dava certo, mas filtrava um pouco as votações em bloco e as ajudas dos amigos a obras medíocres.

    • talkativebookworm Says:

      A minha proposta era outra, Marcello. Deixar mesmo na mão de leitores a decisão.

      O problema é que não são leitores ali. São fãs e amigos.

  4. ojovemeditor Says:

    “As editoras interessadas em participar enviariam a cada um deles os livros que julgassem adequados. Mesmo os on-demand. Isso talvez os estimulasse a organizar coletâneas melhores”.

    Acho que esse é o melhor caminho. N as editores *devem* participar ativamente desse processo enviando seu material para análise de críticos de uma “academia”, não deixar tudo nas mãos dos fãs.

    • talkativebookworm Says:

      Ah, sim. Agora, será que as editoras estariam interessadas em fazer isso?

      Afinal, seriam livros não vendidos.

      • Tibor Moricz Says:

        Nada que não possamos descobrir numa rápida consulta a elas 🙂
        De qualquer forma, o envio de três ou quatro livros de cada romance ou novela ou coletânea ou antologia poderia ser debitado no montante de divulgação. Basta que o concurso seja entendido como sério e bem organizado. Prêmios assim, se divulgados, sempre podem resultar em vendas para os premiados.

  5. Artur Lins Says:

    Boa sugestão, Tibor. Não que a Razão esteja sempre com os formadores de opinião e possíveis “membros da Academia”, mas, para algo que se pretenda sério, há de se ter um começo sério, organizado. Creio que a Ana pretenda isso, mas, como vc apontou, corre o perigo da premiação se tornar um Frankenstein e sair do controle do criador.

    • talkativebookworm Says:

      Artur, não sei em relação a você, maseu costumo fazer as coisas a sério. Principalmente as que deram trabalho e que sei que vão dar dor de cabeça.

  6. Alvaro Says:

    O jeito e ir limando as arestas. A Ana deve estar atenta a tudo que está acontecendo e, certamente, roendo as unhas. Mas ela não deve desistir seja qual for o resultado, fechando o premio com uma avaliação crítica, onde aponte erros e acertos. E talvez, alguns de nós que estamos vendo o que está acontecendo, se junte a ela e a ajude a criar uma nova edição do prêmio.

    • talkativebookworm Says:

      Alvaro, uma das coisas que eu posso garantir é que ano que vem não tem outro. Pelo menos não organizado por mim.

      Aliás, esse prêmio me fez um grande favor, que foi desistir do fandom. Ele vai ser a minha ultima ação em prol do ‘coletivo de escritores de Ficção Especulativa’.

      Cansei de ser a tonta que faz as coisas para ser criticada, desrespeitada, boicotada e etc.

      E nem estou falando do Tibor ou de qualquer outro aqui presente.

      Porém, como sou chata, esse eu vou levar até o fim e ainda tentar algo pra salvá-lo.

  7. Ataide Says:

    Acho somos mais uma vítima dessa tal “democracia” da internet. Lembram daquela campanha pra colocar o cristo redentor entre as maravilhas do mundo? É parecido. Os pêmios e listas resultantes dessas votações livres pela internet nunca vão ter o mesmo prestígio dos resultados, mesmo polêmicos, da velhas votações fachadas.

    • talkativebookworm Says:

      “Ninguém pretende que a democracia seja perfeita ou sem defeito. Tem-se dito que a democracia é a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que têm sido experimentadas de tempos em tempos”

  8. Helena Says:

    Eu acho que o prêmio tem o grande mérito de divulgar a literatura fantástica mas dificilmente será com os melhores, até porque nem concursos fechados são assim, tudo depende da afinidade e amizade de cada julgador com as obras. E existem, é claro, as torcidas por amigos e antologias das quais participamos

    Mas penso que devemos apoiar a Ana porque poucos se dispoem a sacudir o marasmo da literatura fantástica no Brasil como ela tem feito. Os defeitos irão sendo melhorados com o tempo.

  9. Albarus Andreos Says:

    Gostaria de convidar os colegas acima para criticarem mais contos que vêem na internet. Ajam como voluntários, como se tivessem ajudando uma instituição (e estão, a literatura fantástica!). Se não faço nada mais efetivo, pelo menos procuro entrar em sites de contos e, caso encontre algum que mereça algum comentário para melhorar, não deixo de fazê-lo. É claro que não dá para deixar um comentário em tudo que é conto que assola a net (pela ineficácia que seriam as sugestões a quem não quer ajuda ou por ser virtualmente impossível dar sugestões de melhoria em textos muito ruins, que precisariam é de um professor de português, e não de um revisor de estilo ou crítico de gênero).

    Há contos que são bons e que mereceriam apenas uns toques a mais de técnica para atingir certo grau de excelência. Aos que julgo excelentes, deixo no máximo quatro ou cinco linhas de puxa-saquismo, quando muito, mas os que não são tão bons, mas que tem méritos, deixo comentários que, às vezes, são até maiores que o próprio conto. Às vezes vejo comentários em contos que são uma lástima, puro arroz de festa. Dá para ver que quando isso ocorre é evidente a cortesia vazia que se resume no elogio em si. Um comentário crítico, bem embasado e intencionado é tão válido como uma aula grátis de composição criativa. Quem o recebe usará a crítica como ferramenta de melhoria contínua do próprio texto. A opinião séria de alguém que lê seu texto é muito importante, coisa que a formação de escritor exige e que a leitura apenas de livros de composição criativa não pode oferecer. Nunca recebi uma reclamação por ter me disposto a criticar alguém, pela postura que assumo ao fazê-lo. Nunca elogio somente, mas teço comentários que espero úteis aos que os recebem, sejam positivos ou negativos. É minha sugestão para os que querem cooperar em melhorar a literatura fantástica nacional. Uma sugestão de resultados mais concretos do que ficar só reclamando.

  10. Afonso Luiz Pereira Says:

    Este ano deve valer para Ana Cristina Rodrigues como experiência para os anos seguintes, isto se ela não se decepcionar com as críticas e reclamações. O voto é popular e, como de costume nestes eventos, há um pouco de corporativismo entre amigos. E corporativismo existe até na entrega do Oscar, o que se dirá por aqui. Acredito que a Ana, dentro da proposta lançada não terá muito o que fazer. Agora, não há dúvidas que um grupo de reconhecido valor dentro da Literatura Fantástica, contemplando a presença de resenhistas, editores, escritores e pessoas representantes de todas as categorias envolvidas, em voto nominal, como ocorre no popular, iria minimizar bastante possíveis discrepâncias. Nas votações das melhores escolas de samba o votante tem nome e endereço. É assim que tem quer ser! Mas diante do fato já em andamento, vamos apoiar e ver no que vai dar.

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