De Bar em Bar entrevista: André Vianco

Aridez.

Era um lugar longe de tudo e perto de nada.  Caminhei pelo deserto um par de horas, xingando o maldito relógio por mais essa discrepância. Embora não tivesse planejado antecipadamente o local da entrevista – aprendera, afinal, que não adiantava –, esperava, ao menos, que ela ocorresse nalgum lugar público, perto da civilização. Bastavam-me os sustos sofridos na última entrevista.

Vi ao longe uma construção que ia lentamente assomando. Uma placa de néon, grande e envelhecida, ainda apagada àquela hora, indicava, para quem soubesse ler, o nome Tiny Tits. Achei o nome estranho e logo ponderei que estava diante de um inferninho. Que outro lugar exibiria tão impudentemente um nome como esse?

Arrastei os pés pela terra batida e poeirenta. Vi carros e motos estacionados diante do Tiny. Aproximei-me, ansioso por uma cerveja ou qualquer coisa refrescante. Identifiquei uma porção de Harley Davidsons, alguns furgões, dois Volkswagens e um Chevrolet Cabriolet em espantoso bom estado de conservação.

Subi as escadas que levavam ao alpendre. À minha frente uma porta balcão com duas folhas, grande o suficiente para a entrada de um mamute. Ninguém tomando conta dela. Empurrei-a e ela abriu com suavidade. Deixei-a se fechar às minhas costas e aguardei alguns segundos até que meus olhos se acostumassem com a obscuridade. Logo identifiquei algumas dezenas de mesas, um palco à frente, um bar lateral, garçonetes e muita gente reunida, grupos de amigos e casais, sentados, bebendo e jogando conversa fora.

Me senti aliviado. Antes de me acomodar procurei pelo Vianco, mas não o encontrei. Uma garçonete se aproximou rebolando os quadris e lhe pedi uma cerveja, gelada de preferência. Ela se afastou levando meu olhar grudado na sua bunda.

Embora estivesse um calor causticante no exterior, lá dentro estava bastante fresco. E tinha fumaça de cigarro. E risadas e gritos divertidos de pessoas bêbadas. E garçonetes bastante sensuais vestindo roupas exíguas .

A cerveja chegou ao mesmo tempo em que vi a porta de entrada se abrir e o Vianco aparecer, recortado pela luz externa, como um vulto ensombrado, vestindo uma capa negra, longa, quase a lhe cobrir os pés. Olhou para dentro depois que a porta se fechou, lentamente se acostumando a pouca claridade e logo me identificou. Caminhou até mim e se sentou pesadamente.

— Chegou agora ou estava caminhando a esmo faz tempo? – perguntei, lembrando-me ainda do episódio anterior.

— Cheguei agorinha mesmo. Apareci lá fora. Que loucura! Uma entrevista aqui seria o último lugar em que iria pensar.

— Eu idem. Já nem penso mais onde vou entrevistar alguém. Deixo a cargo do meu assistente quântico. Só acrescento as informações necessárias. Bebe?

Não esperei pela resposta. Acenei para a garçonete e fiz-lhe sinal para trazer mais uma cerveja. Vianco agradeceu, esfregou as mãos uma na outra, afastou a capa de lado e se ajeitou melhor na cadeira.

— Aposto que daqui a pouco aparece uma mulher sensualíssima dançando naquele palco. Isso aqui é realidade alterada, mas nada que interfira na nossa realidade efetiva, né?

— Como assim?

— Quero dizer, se a gente se machuca aqui, o machucado não se transfere para a realidade… hmmm… Real… A que a gente vive mesmo… Transfere?

— Pergunte ao último entrevistado – respondi com um sorriso.

Senti uma ponta de preocupação no semblante do Vianco. Ele franziu o cenho, pegou meu copo de cerveja e bebeu um bom gole, limpando depois a boca com as costas da mão.

— É que… Bem, esse lugar me deixa preocupado. Se for uma brincadeira, tudo bem. Se for tipo realidade virtual, a gente conectado lá e vivendo uma fantasia aqui… Bacana. Mas se… Bem… Se for minimamente perigoso…

— Quando te convidei, disse que era perigoso, não disse?

— É, mas achei que era força de expressão. Bolas. É só uma entrevista, não é?

— E o que poderia te preocupar tanto num inferninho de nome Tiny Tits?

Tiny Tits? Que Tiny Tits?

— O nome da baiúca. Dessa pocilga.

— É Titty Twister. É o que li lá fora. Titty Twister e não Tiny Tits.

— Seja o que for. Que diferença faz?

Vianco ficou olhando para mim. No olhar uma espécie de perplexidade.

— Não sabe mesmo que lugar é esse, né?

— E deveria?

— Já ouviu falar de Quentin Tarantino?

— Não estamos aqui para falar de cinema. Antes de publicar seu primeiro romance, tinha em mente construir um “império” vampírico?

A garçonete chegou com a cerveja dele. Ele serviu-se, deu um gole suave, bochechou a cerveja na boca e engoliu com um estalido de língua. Olhou para mim e depois para todo o bar, circundando todo o ambiente com cuidado e atenção. Meneou a cabeça.

— Não mesmo. Eu queria escrever, contar minhas histórias e publicar. Escrevi o primeiro livro, de contos, aos 15 anos e não tinha nada de vampiro, mas o fantástico já estava lá.  Fui então até uma editora na Rua Itapeva, eu morava na Bela Vista naquela época, e recebi um orçamento inalcançável para um pivete metido a escritor. O que eu sempre tive foi uma fascinação pelo sombrio e os vampiros dividiam espaço igual entre as criaturas desse panteão assombrado.

Bebeu mais um gole da cerveja, esse mais generoso.

— Depois de escrever O senhor da chuva, pauleira levada por anjos e demônios, botei na cabeça que queria trabalhar um livro com vampiros, mas que teria que ser diferente do que fazia sucesso aqui na época, que era Anne Rice. Daí que em meados de 99 imaginei a história dos vampiros portugueses do Rio D´Ouro e ela se desdobrou em continuações que arrebanharam uma legião de fãs. Das centenas de milhares de livros vendidos, acho que os de vampiros representam mais de 70% desse número.

Um quarteto de cordas começou a dedilhar instrumentos ao lado do palco. Vianco franziu o cenho de novo, pigarreou e olhou para mim, visivelmente preocupado.

— Não sabe mesmo o que é o Titty Twister?

— Segundo você, o nome desse bar. Mas eu li claramente Tiny Tits. Li, sim.

— Quantas perguntas são?

— Mais três.

— Manda bala. Vamos correr com isso.

— Entre elogios e críticas, como você encara o seu trabalho?

— Cara, tenho um orgulho danado dos meus livrinhos. Os elogios estimulam, são bem-vindos, as críticas, quando fazem sentido,  escuto, mas não perco muito tempo nem com um nem com outro. Me preocupo mesmo é em contar histórias e mais histórias e estou sendo muito bem sucedido nisso. Sempre quis contar aventuras que agarrassem os leitores pela orelha, fisgando pelo improvável, pelo mistério. Estou evoluindo como escritor, a cada livro a gente aprende, muda um pouco, experimenta outro tanto.

Os Mariachis intensificaram os acordes e um mestre de cerimônias subiu ao palco para anunciar a nova atração. Vianco se calou por alguns instantes enquanto as cortinas iam sendo abertas. Atraente era o mínimo a dizer. Gostosa era o justo. Biquine exíguo e uma capa vermelha. Morena. Passos lúbricos, labaredas explodindo de piras. Um píton se enrodilhando em seu pescoço. A plateia ficou calada, atenta, hipnotizada pela performance que ia se iniciando.

— A música é After Dark… e… ela é Salma… – começou Vianco.

— Hayek – Terminei, engolindo em seco.

— Então, sabe onde estamos? – perguntou Vianco num fio de voz.

— Mas eu li Tiny Tits

— Vamos embora – o tom era urgente.

— Não dá. Antes da entrevista acabada, não dá.

— Hoje são doze livros publicados – continuou Vianco, tentando acelerar, mas engasgando e pigarreando –, tenho mais dois escritos e pelo menos mais um chegará às livrarias ainda esse ano. Outra coisa muito positiva é ver que meus livros ajudaram a sinalizar para muitas editoras que terror e fantasia brasileira vendem bem, sim.

Parou mais uma vez. A dançarina avançava sobre uma mesa, com um grupo de pessoas sentadas à sua volta. Iniciava uma dança ritmada e luxuriante. Tentava cativar um freguês.

— Tarantino! – exclamou Vianco, se erguendo de um salto.

— Quem? – perguntei atarantado, erguendo-me também.

— Naquela mesa… Cara! Incrível! Cara!

— A entrevista, Vianco – apelei, voltando a me sentar.

— Muitas daquelas que nem liam os originais de brasileiros se aventurando em fantasia e terror para adultos, passaram a dar uma olhadela ao menos. Não tenho como não ter orgulho disso – ele completou, sentando-se, agitado.

— Entre os autores nacionais “especializados” na literatura de vampiros, quais os que você mais admira e lê?

— São eles… Cara, estamos no filme.

— Já reparei. E pelo que me consta, logo coisas estranhas começam a acontecer.

— Pois é. Incrível, né?

— Tenho outro adjetivo para isso.

— Eu gosto muito do texto do Kizzy e da Giulia Moon, “O diário da sibila rubra” é uma coisa primorosa, o Kizzy tem um domínio muito maduro da poética, tem um lirismo real, trabalhado, que não fica piegas e a história é, ainda por cima, boa.

Alguém gritou que o jantar estava servido. Cadeiras foram arrastadas, gritos histéricos. Alguns gorgolejos. Mesas viraram. Começava o caos e a transformação da bela em fera. Satánico Pandemonium. Estávamos na extremidade do salão, bastante próximos da entrada. Mas ela estava orlada por dois fortes minotauros dentuços. Guardavam-na para garantir que de lá ninguém escaparia. Um tiro, dois tiros, três tiros. Miolos voaram. Um dente com pelo menos oito centímetros caiu próximo do meu pé.

Ainda estávamos sentados. Em choque.

Só nos erguemos quando um corpo sem cabeça caiu sobre nossa mesa, derramando a cerveja. O corpo ainda se mexia, em espasmos. Arrastamos-nos pelo chão. O Vianco tropeçando no longo casaco que o atrapalhava.

— Já a Giulia fez um trabalho muito criativo no Kaori, seu livro mais recente. Vale muito a pena ler esses dois – completou enquanto nos espremíamos num canto do salão, sem mais para onde ir.

— Stephenie Meyer trouxe mais visibilidade para você, como trouxe para os demais, ou você já está consolidado no mercado?

Vianco ia responder, mas alguém ou alguma coisa caiu diante de nós, em pé, num baque surdo. Olhamos para cima e vimos um sorriso. Cheio de dentes. Olhos esbugalhados, mãos em garras poderosas, orelhas pontudas. Ia nos agarrar, mas parou de chofre. Olhou pro Vianco e recuou um passo, assustado.

— Vianco – disse numa voz cavernosa.

— Apesar de ter uma base de leitores consolidada, a dona Stephenie e seu vampiro emo trouxeram um bocado de visibilidade, sim – Vianco ignorava a atitude inusitada do vampiro à nossa frente – E foi muito bom. Os livros com tema de vampiros venderam muito mais no ano passado. Notei que com o boom promovido pela série Crepúsculo houve aumento do volume de leitores mais jovens, e mais meninas entrando em contato por e-mail, twitter essas coisas – completou.

O vampirão deblaterava dentro do salão, agitando os braços. A luta se encerrou. Todos olharam para nosso lado. Levantamos-nos. Eu, confuso. O Vianco sorrindo. Demorou alguns segundos para me dar conta de que tínhamos sido os responsáveis pelo fim do combate. Humanos abaixaram ainda receosos as armas que portavam. Os vampiros vinham se aproximando, devagar, olhando com certa fascinação para o Vianco.

Ao fundo ouvimos um cara reclamar.

— Ah, não! Esses vampiros bem filhos da puta merecem morrer. Que merda!

Ameacei apertar o botão, mas o Vianco me impediu.

— Se liga, agora que vou começar a dar autógrafos? Aproveite. Não é todo dia que a gente toma um drinque no inferno – sorriu mais ainda, com caninos salientes, olhos rutilantes, um instante antes de saltar sobre o meu pescoço.

Mas apertei o botão uma fração de segundo antes disso.

Ponderei demoradamente se devia ou não publicar essa entrevista. Mas acabei chegando à conclusão de que revelar que o Vianco é um vampiro só vai ajudar a alavancar ainda mais as vendas dele. De qualquer forma, se o encontrarem por aí, mantenham os pescoços distantes. Relógio quântico com botão salvador só eu tenho, e mais ninguém.

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14 Respostas to “De Bar em Bar entrevista: André Vianco”

  1. Andriolli Costa Says:

    É… diferente. Mas não posso dizer que gosto.

  2. Parreira Says:

    Tô gostando cada vez mais das tuas entrevistas. E foi interessante saber um pouco da história do Vianco. A maioria dos leitores deve achar que ele apareceu e pronto, já pronto, mas ignora o quanto o sujeito teve que gramar. Não sou fã, li apenas um livro, mas é bom mostrar o quanto a estrada é comprida.

    E a dona Salma, hein!, PQP!!!

    • Tibor Moricz Says:

      Um drink no inferno é um dos meus filmes prediletos. Salma Hayek perambulou pelos meus sonhos durante um bom tempo depois dessa dança erótica…rs

  3. Parreira Says:

    Os vampiros, definitivamente, não fazem parte do meu ‘cardápio’ literário. Mas vou ver o filme por causa dela. ah!, testosterona…

  4. Artur Lins Says:

    Peguei a referência ao Tarantino na hora. Achei legal a paráfrase do nome, mas depois veio a bela surpresa. Bela entrevista. Tem que publicar isso tudo, pô!
    Abraços!

  5. Jose roberto Says:

    Excelente entrevista.. sempre uma surpresa.

  6. Tayná Coelho Says:

    A entrevista ficou um primor! Adorei a forma de contá-la.
    Sou fã do Vianco faz algum tempo, já li os doze livros, mas meu favorito ainda é Os Sete. Essa história dos 7 vampiros portugueses prende a gente do início ao fim. Tive o prazer de vê-lo ano passado na Bienal do Rio e assistir à conversa no Café Literário, onde ele contou um pouco da história do início da carreira.
    Espero ver ainda muitos livros do Vianco por aí e, espero também, que o sucesso dele incentive a outros escritores de terror nacional.
    Um beijo pro Vianco e outro pra você, Tibor.

  7. George von Landgruber Says:

    Babação de ovo do caramba, tem gente que escreve muito melhor que ele e ninguém fala nada.

    • Tibor Moricz Says:

      George, as entrevistas do De Bar em Bar não tem como critério serem elitistas. André Vianco é uma referência nacional, um dos autores mais bem vendidos no gênero em que escreve, possui muitos fãs. Não está em discussão se a sua literatura é boa ou não, e sim a sua importância dentro do nosso cenário literário como autor popular. Mas não fique apoquentado. Outras entrevistas serão feitas e com autores que, julgo, você considerará à altura dos seus elogios. Volte sempre!

    • Rafael Torres Says:

      Pelo que já vi dos comentários do cidadão acima, em outras postagens aqui na internet, curiosamente, parece que sua única intenção é fazer críticas destrutivas, pra derrubar o trabalho dos outros. Como, aliás, é de hábito dos medíocres. Resta saber se a criatura tem algum talento pra alguma coisa. Duvido. Vi mesmo um comentário ridículo num blog que adoro, uma das coisas mais bem escritas que já vi, o Contos e Folhetins, onde ele critica os textos da autora de uma maneira muito infeliz, sem sequer ter lido os mesmos textos. A Maya é uma escritora sensacional, um grande talento e que será um enorme sucesso, com toda certeza. E agora mete a marreta num referência nacional no g6enero. Um babaca esse palhaço. Isso é que é.

  8. Albarus Andreos Says:

    É o primeiro texto seu, ficcional (em parte), que leio, Tibor, e confesso que comecei meio que ressabiado com tantos clichês e descrições óbvias, mas aí a releitura do Tarantino veio de chofre. A história do Vianco já conheço de cabo a rabo; não foi novidade para mim, e acho que ele já está se tornando meio que uma figura folclórica e testemunho de uma realidade que muitos torcem por ser o início de um processo, a luz de uma mudança de paradigma, mas no fundo só invejam mesmo, por ver que a realidade parece ter se dobrado só para ele. Talvez tudo continue impermeável, no final das contas. Vianco, me parece, é uma daquelas figuras que tem que aparecer no Fantástico contando sua história, como a mulher onde cresceu um chifre de verdade na testa, ou o “homem da cobra” que come vidros e não morre, ou o pedreiro que levou quarenta e oito facadas e sobreviveu… Um fenômeno, um “ponto fora da reta”. Um exemplo a ser seguido, mas inalcançável. Assim diz o pessimismo, como um grande lutador de sumô de duzentos quilos sentado sobre a cabeça do otimismo, lutador, sim, mas peso-pena. Já sua paródia é ótima! Parabéns por mostrar como os clichês podem ser tão bem usados pelo autor em benefício próprio, uma ferramenta a mais que muitos escritores deveriam tomar consciência. Lerei a outra entrevista agora. Espero mais surpresas!

  9. Camila Evelyn Says:

    adorei

  10. Muca Says:

    Cara, excelente!

    Muito bem contado, muito bem escrito, muito bem bolado.

    obs. Quanto ao babaca que disse ser babação de ovo, provavelmente preferiria ver algum autor americano ao invés do Vianco… não importa quem fosse, desde que não seja brasileiro.

    Fico puto com gente que acha ser as coisas de fora sempre melhores que as nossas.

    Abraços.

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