Está lá em cima, só esperando as novidades.

“Ela se sentou, ajeitou-se na poltrona e logo em seguida se virou para a mesinha lateral. Buscou nela o maço de cigarros, tirou dele um e o colocou cuidadosamente numa piteira. Riscou o isqueiro duas vezes até conseguir acendê-lo. Deus duas tragadas firmes, soprou a fumaça e só então relaxou, enquanto buscava com o controle remoto um programa decente para assistir na televisão.”

Minha mãe realizava esse ritual dezenas de vezes todos os dias. Além desse, tinha outros, todos seguindo um ritmo metódico, ensaiado ao longo dos anos. Para ela a vida vinha sendo um cronograma preestabelecido, respeitado nos mínimos detalhes. Sabíamos cada passo dado e em que hora do dia ocorreria. Sabíamos do que gostava, do que não gostava. Sabíamos de sua personalidade forte  e da teimosia que muitas vezes nos punham constrangidos (irritados). Sabíamos que, apesar de toda uma meticulosidade rotineiramente obedecida, ela ansiava por novidades que a tirassem, súbito, da mesmice de seu dia-a-dia.

Sempre que possível eu vinha com essas novidades. Mesmo que, muitas vezes, nem tão importantes assim.

Foi ela que me apresentou a magia dos livros. Era culta. Inteligente. Perspicaz. Falava cinco línguas (embora duas delas andassem enferrujadas por falta de uso). Refugiada de guerra, tinha histórias incríveis e as contava repetidas vezes, sempre que instada a isso. Conhecia os clássicos de cor. Citava Proust, Voltaire, Tagore e Shakespeare com uma propriedade surpreendente.

Mas era na ficção científica que havia encontrado seu mais importante reduto literário. E na policial, não posso esquecer. Fã incondicional de Perry Mason, Agatha Christie e Rex Stout.

Leitora compulsiva, me apresentou Isaac Asimov, Arthur Clarke e Ray Bradbury quando eu ainda só pensava em jogar bola no campinho e atirar pedras em vidraças de casas abandonadas.

Mas ela foi muito além da literatura. Me instruiu para a vida. Me educou (separada de meu pai desde que eu tinha 4 anos), burilou meu caráter, modelou minha índole. Transformou-me num bom homem, de bom coração; ingênuo, até.

Foi ela que me viu dar os primeiros passos literários. Minha leitora beta por excelência (mas nunca a única), incentivadora constante. Era maravilhoso ver seu rosto se iluminar cada vez que lhe trazia alguma novidade nessa área. Eu ia à sua casa, nos sentávamos lado a lado e conversávamos por longo período sobre o assunto, que a interessava demais.

De repente, não tenho para onde ir, nem com quem conversar. Não tenho mais para quem apresentar textos novos cuja leitura exija um parecer húngaro de extrema erudição. Formou-se um vazio que, creio, jamais será preenchido.

Minha mãe morreu. Na ânsia por novidades, recebeu uma que jamais esperara. Uma que a prostrou de forma terrível.

Não suportou a cirurgia a que foi submetida. Aguentou cinco dias sedada na UTI, mas seu corpo frágil, combalido pela doença, não resistiu. Sofreu falência múltipla de órgãos e faleceu dia 03 de maio, às 10h05, aos 78 anos.

É tão estranha essa sensação.

De qualquer forma vim lutando para proporcionar-lhe alegrias. Continuarei assim porque sou espiritualista e creio na vida após a morte (ou na vida após a vida). Ela está lá, ainda me assistindo. Ainda torcendo por mim, me incentivando ardorosamente. Ainda esperando por novidades.

Fique tranquila, mãe. Eu as continuarei enviando. E serão as melhores que já ouviu.”

— O De Bar em Bar não será publicado nesta semana. A entrevista com Gerson Lodi-Ribeiro será protelada para a quinta-feira próxima —

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35 Respostas to “Está lá em cima, só esperando as novidades.”

  1. Saint-Clair Stockler Says:

    Minha perda foi menor do que a sua, amigo, mas ainda assim lamento não ter tido a chance de conhecer uma leitora que gostava dos meus contos.

    Se houver vida após a vida, como você disse, torço para que a esta hora esteja ela lá na Biblioteca Celestial, enchendo o saco das bibliotecárias 😉

    Um beijão e conta comigo!

  2. TS Bovaris Says:

    Triste.

  3. Albarus Andreos Says:

    Meus pêsames, Igor. “O tempo é o pai do homem”. A mãe, bem… que Deus a tenha e te console. Deus é pai, e o tempo te cosolará. O tempo é remédio para tudo.

  4. Simone Saueressig Says:

    Querido Tibor:

    Gostaria de estar aí presente e te dar um abraço. Palavras nunca são tão preciosas quanto um bom, forte e real abraço.

  5. Tweets that mention Está lá em cima, só esperando as novidades. « -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Vera Pereira and AntonioLuiz MCCosta, tmoricz. tmoricz said: Está lá em cima, só esperando as novidades.: http://wp.me/pAp8d-vb […]

  6. afonso Says:

    Olha, Tibor, num momento triste como este, é complicado para nós, amigos e admiradores do mundo virtual, levar a você apenas palavras, sem poder lhe lamentar pessoalmente a perda de um ente tão importante para qualquer pessoa, mas não há outro jeito. Quem já passou por isso sabe da dureza que é e, não se engane, este vazio fica aí, sim, e nos próximos dias a tendência é aumentar, mas o tempo ajuda bastante, embora, tenho certeza, a sua mãe irá ainda tomar muito dos seus pensamentos, mesmo depois de anos. Sinto muito! Como disse o Saint-Clair Stockler, também espero que ela esteja num lugar que lhe seja do gosto e de lá fique monitorando o filho escritor.

  7. Daniel Moricz Says:

    Tibor… sinto muito não ter estado presente (mais uma vez) nesse período. Nada justifica minha ausência…
    Mas de qualquer forma, orei muito este período todo e continuo orando.
    Acredito que deve mesmo continuar trazendo as novidades, pois creio que ela estará sempre as acompanhando.
    A morte não mais é do que uma despedida passageira. Acreditemos em sua presença constante.
    Que ela e todos nós estejamos com Deus.
    Grande abraço!

  8. Jorge Says:

    Tibor,
    lamento muito a sua perda, embora sendo apenas um mero “colega” seu do mundo virtual.

    Leve adiante a sua obra, que é uma maneira de você manter vivo o gosto pela literatura que sua mãe te passou.

    Realizar sua obra é um modo de levantar um pequeno altar em honra a memória de quem te trouxe aqui e de certa forma, dar um arremate
    e significado a existência de quem te nutriu.

    Abraços

  9. Daril Says:

    Meus sentimentos Tibor! Certamente esta é uma das maiores perdas, senão a maior, que um ser humano pode ter! Força!
    Um abraço,

  10. Daniel Says:

    Meus sentimentos, Tibor. Não há muito o que dizer nessas horas, eu sei bem como isso é doloroso. Oro para que você e sua família sejam confortados nesse momento tão difícil.

    Abraço.

  11. Claudia Zippin Ferri Says:

    Que coisa comovente ver um filho falando da própria mãe com tanto orgulho.
    Mas… para quem teve uma mãe tão especial, fica a certeza de um futuro reencontro, em lugar tão especial e tão fantástico, que nem os escritores de ficção e fantasia poderiam imaginar.
    Abraços

  12. Hugo Vera Says:

    Sua mãe esteve em minhas orações… E assim continua, pois desejo que a passagem dela desta vida para a “vida verdadeira” tenha sido tranquila.

    Para aqueles que acreditam que nada acaba, ao contrário, que tudo sempre continua, só nos resta em momentos como esse a saudade e a esperança de um reencontro, quando assim nos for permitido.

    Força, amigo! Estamos contigo!

  13. Cris Lasaitis Says:

    Meus sentimentos, Tibor.

  14. Helena Says:

    Sinto muito, Tibor, de verdade. Só quem tem uma mãe forte e presente sabe como ela deve fazer falta. Tomara que esta bilbioteca celestial exista.

    abraço e força,

    Helena

  15. Ataíde Says:

    Belo texto, Tibor. Ela devia ser mesmo especial. Meus pêsames.

  16. Marcelo Augusto Galvão Says:

    Meus pêsames, Tibor.
    Forte abraço.

  17. Fatima Romani Says:

    Tibor,
    Quando lembro da morte de minha mãe e do que ela significou e significa até hoje pra mim e, depois de ler seu relato, só posso dizer que ambos tivemos mães maravilhosas, que nos conduziram a mundos que nos fizeram o que somos agora…
    Cresci no meio da arte, da música, dos livros (a casa parecia uma biblioteca…)
    Se você é espiritualista o consolo virá disso, da certeza da continuidade da vida.
    Sua mãe estará sempre com você, pode ter certeza.
    A ligação entre os dois nunca será rompida.

  18. Parreira Says:

    Lamento muito, Tibor. Ainda há pouco perdi também o meu pai, com os mesmos 78 anos. Faz uma falta danada, mas a presença deles nunca nos abandona. Apenas muda de forma.

  19. marcelo tonidandel Says:

    Meus sentimentos, Tibor. Agora sua Mãe sabe que a capa mais legal que tive a felicidade de fazer foi o “Fome”.
    Por falar em “Fome”, vc lembra de um post seu dizendo que esse seu livro estava sendo dado como brinde?
    Uma historinha. No fim da década de 60, nos Estados Unidos, uma marca de toca-discos promoveu uma ação: na compra do aparelho, grátis, um LP.
    Sabe qual? “The Velvet Underground and Nico”. O resto não é lenda.
    Um grande abraço
    Marcelo

  20. Flávio Medeiros Says:

    Grande Tibor, meus sinceros sentimentos. Um abraço!

  21. Ricardo França Says:

    Tibor, enquanto a voz dela ressoar no teu espaço interior você a fará presente neste rico universo. Sinta essa mudança como uma presença ainda mais constante nas coisas importantes pra ti. Certamente é uma das formas como nos perpetuamos um pouco mais – pela sincronia com os que nos amam e apreciam.

    E se achar apropriado sempre pode colocar algumas das melhores tiradas dela que você considere útil tanto como enriquecimento (que certamente seria o caso) pros teus textos como para as conversas virtuais e reais dos que te lêem/ouvem.

    Concretize o que ela melhor plasmou em você. Não tem homenagem melhor.

  22. Tibor Moricz Says:

    Queria agradecer a todos que me deixaram aqui as suas condolências, a todos os que me enviaram e-mails de apoio e a todos os que não fizeram nem uma coisa, nem outra, mas se sensibilizaram com minha perda. Muito obrigado a todos. Muito, mesmo!

  23. Peter Balint Says:

    Caro Tibor,
    A homenagem que você faz para sua mãe é justa e fiel aos fatos da vida que ela dedicou a família que são os filhos tão queridos e amados como ela dizia. A minha convivência maior com a minha tia e madrinha foi numa época dos meus 8 a 14 anos, durante as férias em Solemar na casa alugada e depois na pensão de teus avos Vali e Zoltan, todos os anos passávamos dois três meses na maior boa vida, tenho muitas boas recordações desta época e um fato entre outros que ficou marcado para sempre. Com os meus doze anos e a procura de aventura sem ninguém saber, até porque não teria permissão, embarquei no trem que ia para Itanhaem, fui passear e curtir a vida inconseqüentemente e conhecer o mundo, mas só tinha volta as 7 da noite, cheguei em Solemar as 9 horas, obviamente a cidade toda estava a minha procura ( na época a cidade se resumia a trinta quarenta casas) quando adentrei na casa, todos estavam estressados e após a explicação, como um pai preocupado e nervoso veio me dar uns corretivos( tinha um braço bem pesado), nesta hora que Móci entrou na minha frente e não permitiu que as conseqüências fossem doloridas, argumentando com meu pai que conversaria comigo e assim foi, sentamos na varanda e ela muito serena e tom de voz baixa (como sempre) passou a me explicar as consequencias da minha irresponsabilidade. Durante mais de uma hora ela ponderou e martelou na minha mente de que eu devia ser responsável pelos meus atos e que devia satisfação aos que me cercavam, não por submissão mas por precaução, isto para mim foi uma lição de vida, desde então e a vida toda, sempre fui cumpridor deste conceito. Caro Tibor, eu sei que o texto é longo para a ocasião, mas gostaria que você soubesse que você pode e deve se orgulhar de sua querida Mãe e que ela continue cuidando de vocês. Abraço e muita força.

  24. Irene Says:

    Ficou na lembrança as ligações dela “Oi, tudo bem? Posso falar com o Tibor? Eu passava para voce e dizia: Esta voce tem que atender.
    Pela foto, era como imaginava mesmo. Sábia, semblante sereno.
    Só o tempo nos ajuda a superar esta perda.

  25. Giseli Says:

    Meus sentimentos, Tibor =/ Força aí!

  26. Mustafá A. Kanso Says:

    Meus sentimentos, Tibor. Seu texto traduz com clareza e sensibilidade, mesmo para os mais ferrenhos materialistas, a verdade incontestável que pessoas especiais jamais morrem. Elas permanecem vivas em nossas mais preciosas recordações. Seu exemplo se propaga para o futuro no caminhar reto das gerações. Um abraço.

  27. Marcel Breton Says:

    Tibor, confesso ter ficado realmente emocionado com o seu relato, porque aconteceu o mesmo a minha mãe há pouco mais de um ano. E, de certa forma, eram parecidas as duas, no amor pelas letras.
    Onde estiver, ela certamente tem muito orgulho de ter feito de você “um bom homem, de bom coração; ingênuo, até.”
    Um grande abraço e meus sentimentos.

  28. Giulia Moon Says:

    Fique bem, Tibor.

    Abraço carinhoso
    Giulia

  29. ROSE KOPP Says:

    Tibor, lamento muito pela sua mãe!
    Das poucas vezes que a enconteri ela sempre foi muito simpática e gentil. Foi graças a ela que nos reencontramos depois de tantos anos. Ela sentiu a sinceridade da minha amizade.
    Também estou muito triste, pois dia 05.05.2010 também perdi minha querida avó Odete (mãe da minha mãe) lembra dela?
    Pois é, minha vozinha faleceu com 91 anos deixando muitas saudades.
    Como não podemos nos encontrar, sinta-se abraçado.
    Também acredito na vida após a morte, você sabe disso!
    Tenho certeza que ela adorou a sua homenagem!

    • Tibor Moricz Says:

      Um grande abraço para você também, Rose. Claro que me lembro da sua avó. Dividir tristezas.. . isso fortalece a amizade. Beijão!

  30. Marta Marinho Says:

    Oi, Tibor!
    Fiquei triste. Lembro dela, assim como o Peter, das vezes que ficavamos na pensão em Solemar. Eu era pequena, com 6 anos ou menos, geralmente, após o almoço, quando meu pai e minha mãe queriam cochilar e eu e a Mônica estavamos cheias de energia, sua mãe nos chamava e deixava nós ficassemos na casa dela brincando com os gatos, nos dava chocolate, bolachas, balas… Era uma delícia!! Vou guardar, com muito carinho esta imagem, “Móci, a tia que me tirava da tortura de dormir a tarde, nas férias e ainda me enchia de guloseimas!”
    Outra imagem inesquecível, que vc descreveu tão bem, ela com a piteira, sentada na poltrona procurando por um bom programa na TV. Ela realmente era metódica, este ritual já existia quando eu tinha meus 6 anos…
    Fique bem! Tenho certeza que ela está em bom lugar olhando por você e os seus.
    Um forte abraço!
    Martinha,

  31. Roberto de Sousa Causo Says:

    Meus pêsames, Tibor. Perdi meus pais recentemente, e faço uma boa idéia de como você está se sentido. Você tem minha solidariedade.

  32. andrevianco Says:

    Força ai, amigão.

    Mães teimosas são assim mesmo, não querem mudar, não querem mudar, mas quando mudam!

    Abraços.

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