De bar em Bar entrevista Gerson Lodi-Ribeiro.

Era uma rua de calçamento rústico. Paralelepípedos ou qualquer coisa parecida. Calçadas a orlavam e nelas canteiros com arbustos e árvores diversas. Prédios colados uns nos outros, formando uma dentadura desigual.

Afastei-me do meio da rua para dar passagem a um veículo estranho, movido por engrenagens e correias. Um motor a combustão fazia girar rodas estreitas, como as de uma bicicleta. Fumaça negra escapava de um cano de escapamento elevado, apontado para cima. Dirigindo o bólido que passou por mim não mais rápido do que um homem em passo acelerado estava um menino. Ou alguém que se parecia muito com um.

Pouco a pouco comecei a ver mais gente. Iam surgindo como se viessem de dentro de uma bruma intensa. Pipocavam aqui e ali, caminhando, conversando, em grupos ou solitários. Mais veículos surgiram, formando um tráfego intenso e moroso.

Mantive-me na calçada. Atento a lenta e constante urbanização. Veículos maiores e menores, com três rodas, com quatro rodas, com mais rodas. Escapamentos para cima ou para baixo. Fumaça negra ou vapor. Meninos vestindo coletes, cartolas, calças riscas de giz, camisas brancas e imaculadas. Muitos deles exibiam relógios em suas algibeiras.

Só quando vi melhor um deles foi que, para meu espanto, observei que não eram crianças. Eram liliputianos. Anões. Pintores de rodapé.

Homens reduzidos proporcionalmente. Velhos e jovens. E mulheres também. Pareciam-se com bonecos, mas não eram. Se por um lado me mostrava surpreso com o cenário, eles, por outro, pareciam não me reparar. Passavam por mim como se pessoas do meu tamanho não lhes fossem estranhas. Desviavam-se para não se chocar comigo e sequer me lançavam um olhar mais atento.

Procurei meu relógio quântico, observei alguns ponteiros ainda girando enlouquecidos, quando deveriam estar parados. Levei-o ao ouvido, tentando auscultar-lhe o tique-taque, mas só pude ouvir o giro acelerado de suas minúsculas engrenagens. Quando abaixei o braço, vi, para minha mais absoluta perplexidade, todo o cenário ir se transformando. Os prédios que orlavam a rua de ambos os lados foram dando lugar a altas paredes, acinzentadas, com gigantescas letras apontando peremptórios: PROIBIDO PENSAR – PROIBIDO IMAGINAR – PROIBIDO QUERER

Quedei-me sem fôlego, olhos escancarados. Havia pessoas; elas ainda liliputianas, mas, cabisbaixas, passavam por mim com um medo vivo de me encarar.

Para além das grandes paredes erguiam-se fabulosas construções, blocos alternados, entremeados por torres ainda mais altas de onde se podia distinguir flâmulas vermelhas agitadas pelos ventos. Poucos veículos, esses movidos por pedais, uns poucos por vapor, passavam tremelicantes pela rua cheia de buracos, como se suas partes, todas elas, estivessem prestes a se desmanchar.

Perguntei-me, enfim, por onde andava o Gerson. Em qual dos dois cenários estaria perdido. Amaldiçoei o relógio mais uma vez, centenas de vezes se somada às anteriores. Olhei para ele para constatar que os ponteiros ainda giravam acelerados.

Antes de todo o cenário começar a tremeluzir indicando uma transformação próxima, assisti a uma parada militar onde mísseis de metal reluzente, com prosaicos pavios – como se fossem rojões – eram carregados por caminhões pesados. Onde soldados com semblantes sombrios passavam batendo os coturnos no chão, numa sincronia perfeita. Armas às costas. Fuzis embainhados com suas baionetas. Tanques movidos a qualquer coisa fumarenta – assim como os caminhões – iam destroçando mais ainda o calçamento já bastante castigado da rua.

Parou ao meu lado um menino. Esse, um menino de verdade, embora – e obviamente – menor ainda que os adultos daquela cidade. Apontou-me o que parecia ser uma catapulta de brinquedo e, soltando um elástico distendido, fê-lo descrever uma parábola, lançando um chumaço de papel amassado em minha cara.

Então o cenário todo se transformou, novamente.

Vi-me diante de uma imensa planície. Entardecer suave, com o Sol próximo de se deitar no horizonte. Mesmo assim, boa visibilidade. O terreno exibia recortes que indicavam ação humana em sua planificação. Quilômetros quadrados de uma planura perturbadora.

O solo tremia. Agitava-se como se um gigante de proporções descomunais estivesse se aproximando. Foi quando vi uma imensa, colossal estrutura sendo trazida de longe.

Estava boquiaberto, sentindo as batidas agitadas do meu coração, quando alguém parou ao meu lado. Virei-me devagar. Era o Gerson.

— Fascinante – disse ele, olhando para o colosso que se aproximava lentamente.

— Fascinante e assustador – emendou, sem tirar os olhos da estrutura.

Engoli em seco, sentindo um travo amargo na garganta. Estava abismado, como não poderia deixar de ser. Em nenhuma das vezes anteriores o relógio havia me conduzido para realidades alteradas diferentes numa mesma entrevista. Olhei melhor para o Gerson, disposto a dizer-lhe o que me ia pelo coração, quando vi, atônito, que ele estava amarrado.

Mãos para trás, firmemente presas uma na outra. Nas pernas uma corrente longa que ia para trás e estava segura… – me virei para descobrir –… pelas mãos fortes de um soldado sombrio. E ao lado desse soldado, outros igualmente sombrios. Todos fortemente armados. E atrás deles, os caminhões e os mísseis. E atrás deles, os tanques ainda fumegando.

— Mas o que… – comecei sem poder terminar. Um dos soldados se adiantou, pegou-me os braços e puxou-os com certa violência para trás, prendendo também as minhas mãos.

— Estamos prestes a assistir uma experiência científica incrível – e o Gerson achegou-se, diminuindo o tom da voz – e antecipadamente fracassada.

Eu o escutei, mas não lhe dei atenção. A estrutura que já estava próxima o suficiente para ser identificada mostrou a cara. Soltei o ar num ofego. Arregalei os olhos.

Era uma catapulta. Enorme. Ultra-mega-super-gigante. Pelo menos oitocentos metros de comprimento. Largura que podia alcançar cerca de quatrocentos metros se considerarmos um arco que o encimava. Rodas tão largas, tão altas, que alcançariam facilmente o topo de um prédio de doze andares.

— Uma catapulta antiquada que utiliza a tensão para o arremesso. Uma besta gigante. Grande, porém. Muuuito grande – explicou Gerson em tom levemente professoral. Parecia estar mais fascinado que assustado com tudo aquilo.

— E o que pretendem? Porque estamos presos?

— Observei em vezes anteriores que as entrevistas só encontravam fim quando a última pergunta era feita e respondida, certo?

Acenei com a cabeça, confirmando.

— Então acho melhor começarmos.

Tentei me desvencilhar dos fatos presentes, do tremor do chão, do uivo intenso provocado pelas rodas que, ao girar, raspavam em outras partes, numa fricção ensurdecedora. Tentei me lembrar da primeira pergunta.

— Qual é a experiência que vão tentar? – perguntei, preocupado.

— A primeira pergunta, Tibor. A primeira pergunta.

— Tá, pera… Gerson, trace um paralelo entre os mercados editoriais da época em que você trabalhava com a Ano-Luz e hoje. Fale também sobre o aparente – nem tão aparente, mas flagrante – boom de publicações. O surgimento de novos autores acrescentou em qualidade ou ainda é cedo para avaliar isso?

Ele ergueu a cabeça, apontando o queixo para a primeira roda que passava por nós. Seus olhos buscaram o topo daquela coisa imensa.

— No fim da década de 1990 e no início desta, a Ano-Luz era a única editora especializada em literatura fantástica no Brasil e em Portugal.  Hoje em dia há meia dúzia de editoras brasileiras especializadas em FC&F e outras tantas portuguesas. O número de publicações deve ter, sei lá, multiplicado por dez ou quinze… Atualmente é impossível ler tudo o que os autores brasileiros e portugueses desses gêneros estão publicando. Como era de se esperar, num cenário tão propício, surgiram novos autores. Alguns desses contribuíram para elevar a qualidade da literatura fantástica lusófona nos dois lados do Atlântico.

Abaixei a cabeça fechando os olhos e tentando ignorar o tonitruar do engenho que ia dominando a planície.

— Publicações recentes – e próximas – abordando cenários Steampunk parecem demonstrar uma clara tendência a esse subgênero. Você acha que isso é permanente ou efêmero? Considera a busca por esses cenários uma espécie de contracultura da cibercultura como aventado recentemente por Fábio Fernandes?

Sentimos um puxar vigoroso nas correntes. Quase caímos. A catapulta parou de rodar, finalmente, e quedou-se, imóvel, diante de nós. Os soldados nos rodearam, dando-nos empurrões. Fomos obrigados a ir em frente. Seguindo em direção ao engenho. Algumas gotas de suor começaram a escorrer em minha fronte.

— Qual é a experiência, Gerson.

— Você está vendo o Sol?

— Sim. Prestes a desaparecer no horizonte.

— Então, do lado oposto irá surgir, logo, a Lua Cheia.

— E… – instei o homem.

— Querem ir ao espaço, Tibor. Querem ir à Lua!

Parei por uma fração de segundos até ser forçosamente convidado a continuar.

— Uma viagem à Lua… Uma viagem a Lua… – continuaria me repetindo se o Gerson não me cortasse.

— Muitos imaginaram uma viagem dessas conduzida por um balaço, como o Barão de Münchhausen, ou Júlio Verne, no imenso canhão perpetrado na obra Da Terra à Lua. Mas catapultas… Bem, catapultas são ideias muito, muito atuais. Mas as eletromagnéticas, não as mecânicas.

Paramos diante de uma caixa de madeira presa a um novelo de cordas esticadas que iam até lá em cima, tão alto que não pude alcançar o final. Mais acima estava a concha, a concavidade final da extensa vara metálica da catapulta. Entramos como devíamos fazer após gentil convite dos soldados e nos vimos sendo içados num rangido assustador.

— E, deixe-me adivinhar, somos os astronautas, certo? – perguntei cheio de receios.

— Isso mesmo. É o que faz a experiência tão fascinante.

— Faz?

— Estar dentro do balaço que será lançado pela catapulta é incrível.

— Mas seremos esmagados pela imensa aceleração do lançamento.

— Bem, não sei. Não tenho dados para um calculo mais apurado. É possível, mas também pode não acontecer. De qualquer forma vamos nos amassar um pouco.

— Se não na subida, vamos com certeza na descida – afirmei.

— Em algum lugar para lá da borda do planeta – disse Gerson.

— Borda do planeta?

— Eles creem.

Observei discretamente os soldados à nossa volta. Seus semblantes continuavam sombrios. Eram de estatura normal. Só os civis eram pequenos, pequeníssimos. Como se para evidenciar, sem nenhuma sombra de dúvida, quem eram os grandes, os poderosos, naquele lugar.

— A pergunta – eu o lembrei.

— Ah – exclamou o Gerson – Acho que, mais do que uma tendência, a coincidência de se ter duas antologias de ficção curta versando sobre Steampunk num intervalo de cerca de um ano se deve ao fato dessas duas antologias não terem conseguido ser uma só… Parece-me que é o cyberpunk que exerce esse papel de contracultura da cibercultura. O Steampunk está mais para história alternativa em que um ou mais avanços científicos ou tecnológicos se deram mais rápido na linha histórica alternativa proposta do que na nossa linha histórica.

— Historia alternativa é considerada FC por muitos e desconsiderada por outros tantos. Você acha que especular um passado alternativo é a mesma coisa que especular um futuro possível?

O elevador parou, balançando assustadoramente ao sabor do vento naquelas alturas. Diante de nós uma plataforma que antecedia a concha. Dentro dela uma bola grande de metal repousava placidamente. Na plataforma, cientistas nanicos corriam de um lado a outro, agitando réguas, exibindo compassos, posicionando esquadros em folhas largas de papel, fazendo cálculos. O Sol já havia se posto no horizonte. Seu brilho e o da Lua que logo se ergueria do outro lado, rivalizavam. Fomos forçados a sair. Os cientistas nos rodearam, tatearam-nos nervosos e agitados. Alguns apontaram a grande bola metálica e pareciam ansiosos que fôssemos para lá.

Olhamo-nos com olhares assustados. A grande experiência para o Gerson estava prestes a se tornar na mais terrível viagem de todas as que já tínhamos empreendido. Tanto eu em minhas viagens quânticas, quanto ele em qualquer uma que já tivesse feito.

— É verdade. Há muita gente boa que considera a história alternativa um subgênero da ficção científica. O motivo principal dessa “confusão” advém do fato de que muitos escritores de FC também escrevem H.A. Para além disso, o conjunto-interseção entre esses dois gêneros da literatura fantástica não é nulo, muito pelo contrário: todos já lemos e já assistimos enredos de viajantes retrotemporais dispostos a mudar o passado e, portanto, a história presente e futura – Aliás, Síndrome de Cérbero é um bom exemplo nacional desse tipo de trama.

Nossas roupas foram puxadas. Os tecidos experimentados. Um dos cientistas pediu a um soldado que o erguesse e, assim que ele o fez, aproximou-se de nós e passou a nos olhar os dentes e a erguer nossas pálpebras, nos analisando os olhos.

— Há ocasiões em que considero a H.A. um subgênero da FC, — continuou Gerson, assim que foi deixado de lado — mas essas ocasiões vêm se tornando cada vez mais raras. Até porque a H.A. possui uma vertente não ficcional robusta que antecede em muito o próprio advento da FC. Claro que ambas — FC e H.A. — constituem subgêneros da literatura fantástica ou, se preferirmos, literatura especulativa.

O cientista carregado foi colocado gentilmente no chão e, após alguns segundos de confabulação onde trocou impressões com mais outros quatro cientistas, voltou-se em nossa direção com um sorriso radiante nos lábios e disse, triunfante:

— Brrandelgost Plentur brrtilbur!

Gerson franziu o cenho, moveu a cabeça de um lado ao outro tentando entender o que havia sido dito, mas logo deu de ombros.

— Então, voltando à segunda parte da pergunta, ambos os subgêneros especulam: a FC — em geral, mas não sempre — sobre o futuro e a H.A. — em geral, mas não sempre — sobre um passado alternativo. São especulações de cunhos diferentes. Pelo menos em sua vertente hard, a FC demanda certo rigor quanto as explicações científicas – até vale um pouquinho de technobabble, mas cumpre disfarçar bem a coisa.

Nossas pernas foram soltas das correntes, assim como nossas mãos desamarradas. Deram-nos uma beberagem estranha e multicor para beber. Deram tapinhas em nossas batatas das pernas, ofereceram algo parecido com pão. O líquido era suave, de sabor penetrante. A última alimentação dos condenados.

Bebemos e comemos até com alguma satisfação. Os efeitos da bebida logo se fizeram sentir.

— Curiosamente, a H.A. — reiniciou o Gerson, soltando um sorriso franco e aberto, abrindo os braços como se quisesse me abraçar — também possui suas vertentes mais rigorosas e menos rigorosas —que os anglo-saxões apelidam “AH-lite”—. A H.A. hard, por assim dizer, demanda certa plausibilidade histórica.

Eu abri os meus também. Estávamos leves e confiantes.

— Não adianta imaginar que, se vencesse a Batalha de Waterloo, Napoleão proporia três décadas de paz na Europa, porque esse simplesmente não seria Napoleão. Da mesma forma, não adianta imaginar que, se sobrevivesse ao massacre de Canudos, Antônio Conselheiro se transformaria numa figura afável e serena, porque isto não soa em absoluto plausível e, para aqueles que agora talvez pensem em recrutar que a vida real às vezes também se mostra implausível, uma pequena pérola de oficina literária: “A vida real pode se dar ao luxo de ser implausível, a ficção não”.

Fomos conduzidos a uma prancha que ligava a plataforma onde estávamos, à bola metálica. Abriram uma porta nela por onde entramos. Simples. Miolo oco onde duas poltronas de tamanho normal – e afirmo isso certo de que meu tamanho e o do Gerson são normais, portanto duas poltronas de nosso tamanho – estavam atarraxadas firmemente no piso de ferro. Puseram-nos sentados neles e nos prenderam com cintas e correias. Amarraram-nos firmemente, para que não saíssemos quicando lá dentro depois do lançamento.

Riamos como duas bestas. Sob efeito hipnótico da bebida alucinógena que nos serviram.

— Ano passado você teve lançado Taikodon e Xochiquetzal. Podemos esperar mais novidades para esse ano ou para o ano que vem? Pode nos dar uma colher de chá do que está por vir?

A pergunta foi feita entre assovios e estalar de línguas. O Gerson tentava bater os pés no chão e chacoalhava a cabeça de um lado a outro fazendo beicinho e dando risadas alegres.

— Bem, o que eu espero que aconteça — sem garantias aos eventuais fãs incautos:  A Draco deverá lançar ainda este ano meu romance de FC erótica hard e hardcore (não necessariamente nesta ordem) A Guardiã da Memória, ambientada no mesmo universo Crônicas de Ahapooka, das noveletas A Filha do Predador e A Predadora e o Renato, que publiquei há tempos sob o pseudônimo de Daniel Alvarez.

Fomos deixados lá dentro, sozinhos. Fecharam a porta e a única noção que passamos a ter de distância e dimensão vinha de uma pequena janela, um recorte na parte frontal do petardo metálico. Do lado de fora, um lampião emitia uma luz tênue. Próximo dela um cientista exibia pequenos cartazes, que ia jogando fora, um a um, a cada segundo. Era a contagem regressiva deles.

— A protagonista é a mesma daquela primeira noveleta, só que agora adulta e, portanto, teoricamente menos inocente.

Nesse momento o Gerson tentou fazer um movimento simbolizando ato sexual com as mãos, mas as correias o impediram. Mas não impediram as risadas que explodiram depois.

— É mais um enredo meu – retomou o fôlego – em que boa parte da ação se passa a bordo de um navio. No âmbito da H.A., também pela Draco, publicaremos uma antologia na temática Steampunk, a Vaporpunk!, que organizei junto com o autor de FC português Luís Filipe Silva. Uma antologia de noveletas Steampunk lato sensu e não stricto sensu, com cinco trabalhos de autores brasileiros e três de autores portugueses.

O liliputiano do lado de fora ficou sem cartazes e parecia aparvalhado, sem saber o que fazer. Gesticulava com alguém além de nossa visão, demonstrando visível desagrado.

— Trabalhos maduros para todos os gostos. Acredito que os leitores vão gostar. Também tenho quatro romances escritos dentro do universo ficcional Taikodom, mas em princípio, por questão de estratégia comercial, infelizmente, esses livros não deverão sair em 2010.

Acabara a entrevista e me dei conta do mais terrível. Mesmo mergulhado em risadas e estertores, vi que meus braços estavam presos nos braços das poltronas. Como iria apertar o botão do relógio? De repente, calei. Mesmo embebedado, mesmo embriagado como um porco, senti o terror me dominar. Olhei para o Gerson e ele pareceu entender minha aflição. Suspirou prendendo as risadas e olhou para meu braço. Nossas poltronas estavam bastante próximas. Quase coladas. Talvez se ele esticasse o dedo. Talvez se eu tentasse ajudar, deslocando o pulso um pouquinho para o lado.

A catapulta foi acionada. O cientista pequenino que agitava os cartazes foi engolido pela violenta impulsão da longa vara metálica. Ela completou a parábola em menos de dois segundos. A bola em que estávamos ganhou altura de forma surpreendente e numa velocidade estonteante. Amassamos-nos nas poltronas. Nossos rostos se transformaram numa pasta disforme, contorcidas pela imensa pressão.

Mas estávamos ainda lúcidos e conscientes e o dedinho mindinho do Gerson atingiu o botão.

Se o balaço alcançou a Lua ou caiu do outro lado da borda do planeta nunca vamos descobrir. Mas a experiência foi mesmo fascinante, tirando os perigos evidentes e o nariz torto que ainda não me voltou ao normal. Até agora o Gerson me manda e-mails perguntando se pode voltar àquele lugar e o que é preciso para que isso aconteça. Tenho para mim que ele está mais interessado na beberagem que nos serviram do que em outra viagem maluca, lançados por uma catapulta gigante.

Anúncios

4 Respostas to “De bar em Bar entrevista Gerson Lodi-Ribeiro.”

  1. Tweets that mention De bar em Bar entrevista Gerson Lodi-Ribeiro. « -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by tmoricz. tmoricz said: Talento de Gerson Lodi é catapultado no De Bar em Bar. Leiam! http://wp.me/pAp8d-vP […]

  2. Saint-Clair Stockler Says:

    Um dos melhores escritores de ficção de gênero que temos. Sou fã desse cara!

  3. Brontops Says:

    Não sei se os leitores perceberam, mas há uma notícia do Tibor no twitter:

    “conectando rapidamente em um notebook emprestado. Fui internado em 13 de naio com embolia pulmonar. Ainda no Hospital. Sumiço explicado. ”

    Deve ser coisa brava, até agora… Força aí cara.

    Um abraço

  4. Daniel Says:

    Oi Tibor, outra entrevista muito boa. Precisamos ter uma sequência para explicar onde foi parar o balaço…hehe… Abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: