De Bar em Bar entrevista Kim Newman.

Saí de casa e dei uma volta ansiosa pelo quarteirão. Estava prestes a realizar minha primeira entrevista internacional; natural que roesse as unhas, preocupado com alguma coisa que pudesse dar errado.

Analisei o relógio que levava no pulso um bom par de vezes. Procurei por sinais de possíveis discrepâncias, mas… Era bobagem e eu sabia disso. O relógio, desde que resolvera influenciar diretamente nos resultados das entrevistas, mostrava-se sempre perfeito. Não havia nada nos ponteiros ou nas engrenagens aparentes, tanto as minúsculas quanto as maiores, que pudesse evidenciar qualquer mau funcionamento. Bem, é certo que também não sou especialista no assunto. Não tenho competência para apresentar laudos técnicos.

Trata-se de um relógio quântico provavelmente único no mundo – embora desconfie de outros dois, cujos proprietários ainda desconheço – e presenteado por um antiqüíssimo relojoeiro cuja oficina nunca está no mesmo lugar, seja no tempo, seja no espaço.

O relógio quântico cria realidades alteradas ou alternativas. Não deveria criar mais do que um cenário dinâmico e surpreendente. Não deveria influir diretamente na saúde física e mental do entrevistado e do entrevistador. Não deveria. Mas seu mecanismo criou realidades alternativas contundentes, onde figurantes se transformam em protagonistas e a vida está sempre por um fio.

Embora não estivesse tão quente, eu transpirava. Meu dedo indicador alisando o botão maior do relógio – um entre outros quatro –, incerto em apertá-lo. As muitas entrevistas nacionais já haviam me colocado em situações estranhas, bizarras e perigosíssimas. O que poderia esperar de uma entrevista internacional? Com sorte as mesmas bizarrices. Talvez as mesmas discrepâncias. Talvez os mesmos perigos, nem maiores nem menores.

Respirei fundo, tranquei os dentes numa mordida forte que me fez doer a mandíbula e, trêmulo de ansiedade, apertei enfim o botão.

***

Encontrei-me agachado, quase de cócoras, sobre um calçamento frio e úmido. Noite escura. Estava envolto por uma neblina densa cujos eflúvios me evocavam aromas menos nobres – fluídos corporais. Parecia ser um beco o trecho estreito de rua em que me encontrava. Às minhas costas, um muro alto.

Podia ouvir sons distantes de rodas batendo contra o chão duro de pedra, o relinchar de um ou mais cavalos, risadas indistintas, resmungos e cantorias.

Aprumei-me todo, esfreguei os braços nus, me dando conta do frio e da escassez de vestes com que tinha vindo. Fiquei, súbito, tenso com o relógio tão exposto, à vista de qualquer um. Se havia coisa que mais temia era ser roubado estando em cenário alternativo, perdendo, assim, toda e qualquer possibilidade de retorno à minha própria realidade.

Arrisquei um avanço cauteloso. Não podia ficar parado indefinidamente. Estava lá para entrevistar Kim Newman e precisava encontrá-lo.

Admito que caminhar por território desconhecido, com a visão francamente prejudicada pela neblina e cheio de temores, não é fácil. Não se tratava de um beco tão extenso, já que não mais que trinta passadas curtas e assustadas serviram para me fazer sair num local mais amplo. Uma rua, talvez. Um largo, provavelmente.

Avancei mais um pouco e parei, surpreendido pelo estrepitar de rodas e pelo bufo agitado de cavalos em franca disparada. Um coche, sim, era um coche, surgindo do nada, na escuridão. O cocheiro agitando as rédeas e fazendo a névoa se abrir à sua passagem.

Teria passado sobre mim se eu não fosse subitamente arrebatado. Puxado para trás e lançado contra uma parede, sem nenhuma gentileza. Meu pescoço foi fortemente agarrado, uma lâmina pressionada contra minha jugular. Dedos nervosos exploravam minha arcada dentária em busca de caninos salientes.

Permaneci quieto por longos e extenuantes segundos. O homem que me dominava aproximou o rosto. Bigode farto, óculos e cabelos compridos, descendo em cascata sob a cartola. Olhava-me com expressão tensa. Afrouxou um pouco o aperto da lâmina em minha garganta e perguntou-me o nome.

– Tibor – respondi, com a voz trêmula.

Bastou para que conseguisse, então, relaxar. Embainhou a lâmina dentro do cabo de uma engenhosa bengala com castão de prata e, ajeitando a cartola, pegou-me pelo braço e me arrastou para fora dali.

– Quando aceitei essa entrevista, não pensei que seria arremessado num cenário igual a esse – reclamou.

– Você sabia dos riscos – argumentei, enquanto era ainda conduzido.

– Pensei que era bravata. Papo de escritor. História fictícia, só no papel. Jamais poderia imaginar que…

– Todos têm a mesma reação – continuei – Ninguém acredita até que se encontre dentro de uma aventura para lá de verdadeira.

– Quero voltar!

– Não é assim que funciona. A entrevista precisa ser feita. As perguntas precisam ser respondidas.

Ele parou. Olhar firme em mim, rosto endurecido.

– Você tem idéia de onde esse seu relógio maluco nos colocou?

– Faço alguma. Neblina densa, o chão de paralelepípedos, coches em disparada… Londres?

– Whitechapel. Alguma coisa próxima do final do século retrasado.

– Fascinante! – Afirmei, soltando um sorriso.

– Vai sentir o fascínio escorrer pelo seu pescoço em grossas correntes de sangue se não se cuidar. Melhor dizendo, seu eu não cuidar de você. Esse território conheço muito bem.

Voltou a me conduzir, dessa vez menos açodadamente. Dávamos passadas largas pela calçada e, embora não pudesse adivinhar para onde me levava e nem como podia enxergar alguma coisa dentro da neblina, o fazia com uma certeza e uma ambientação surpreendentes. Passamos por transeuntes distraídos. Alguns ébrios. Damas de sorriso fácil e com olhares disponíveis – a caminho ou de saída de um dos numerosos bordeis da cidade.

Kim agarrou-me mais forte no braço quando ouvimos um grito agudo e rapidamente abafado. Parecia ter vindo de trás, alguns metros de onde já tínhamos passado.

– Vamos! – instou-me ele, forçando-me a caminhar mais rápido.

Aceleramos o suficiente para, em pouco tempo, chegarmos a um Pub chamado The Ten Bells. Trocamos a névoa exterior pelo ar viciado e denso provocado pela fumaça de cigarros e charutos. Kim me levou para uma mesa mais distante, oculta pelas sombras. Sentamo-nos com calma e vi rolar sobre o tampo gorduroso da mesa uma pequena moeda de prata. Um homem a fez desaparecer nas dobras de suas roupas e em troca colocou diante de nós duas canecas fartas de cerveja.

Observei o local. Homens alegres e obviamente “altos” e algumas garotas exibindo um comportamento que a boa virtude da época certamente condenaria se estivessem em local menos vicioso. Bebiam e se excediam nos gracejos, nas risadas e nas vulgaridades. Ninguém parecia nos reparar, embora eu me trajasse de forma absolutamente estranha para a época.

– A mim parece que está tudo bem – disse ao Kim, levando a caneca aos lábios e bebendo um gole pequeno e avaliativo da bebida.

– Aqui, nesta realidade, nada, nunca, está bem. Há sempre algo com que se preocupar. Um homem distraído é, rápido, um homem morto.

Pousei a caneca sobre a mesa. Achei a cerveja pouco encorpada.

– Kim, Anno Dracula é o primeiro livro de uma série. Seguindo a ele veio The Bloody Red BaronDracula Cha Cha Cha e vem ainda Johnny Alucard. Perguntar a um autor se ele considera as continuações tão impactantes quanto o primeiro livro pode parecer uma bobagem, mas ninguém melhor do que ele para avaliar a própria obra. Como você vê essas continuações? Você pegou carona no sucesso do primeiro para aproveitar a onda, ou fez as continuações porque achou que o cenário era rico demais para ser apresentado numa obra só?

Kim que até aquele momento apenas brincava com a caneca, sem experimentar a bebida, olhou para mim.

– Minha concepção original para o livro era vagamente produzir uma trilogia que se passasse entre os anos 1880 e a primeira guerra mundial. Apesar de ter essencialmente o cenário em mente, ainda não tinha nem trama nem personagens. Somente anos depois a história se encaixou. Escrevi Anno Dracula com a sensação de que provavelmente faria um romance ambientado na primeira guerra como sequência e isso me levou a Dracula Cha Cha Cha e outras histórias.

Parou por instantes, observou um casal que se divertia numa mesa do outro lado do salão, cofiou o bigode e então se inclinou sobre a mesa, em minha direção.

– Está vendo aquele casal? – perguntou-me num sussurro.

Desviei o olhar para o lado que ele apontava com o queixo.

– Sim – respondi.

– Long Liz e George Lusk. Você sabe quem são, presumo.

– Não faço a menor idéia.

Kim balançou a cabeça, inconformado.

– Você já leu alguma coisa a respeito de Jack, o Estripador?

– Acho que não o suficiente para responder a sua pergunta.

– Long Liz, Elizabeth Stride, uma das vítimas. George Lusk é o presidente do comitê de vigilância de Whitechapel.

– Você não está querendo sugerir que… George Lusk seja…

– Não, claro que não! Só me surpreende que fossem tão próximos. Agora, preste atenção na mulher que está próxima ao balcão, inclinada e conversando com o barman.

– Sim.

– Ela é Catherine Eddowes, outra das vítimas. Diga-me, até onde esta realidade alterada pode ser considerada semelhante à que conhecemos?

– Impossível dizer – respondi lacônico.

Kim voltou a cofiar o bigode. Olhar perdido entre as duas mulheres e o homem cujo cargo era um dos mais importantes na ocasião em que as mortes eram investigadas. Bebeu, enfim, um gole da cerveja e, estalando a língua, continuou com a resposta à primeira pergunta.

– Ter personagens sobrenaturais que vivem muito permite voltar à série sem ter que voltar necessariamente ao mesmo tempo e local do primeiro livro, o que não se encaixa bem numa noção hollywoodiana de sequência, embora seja bastante comum em obras de fantasia e ficção. Gosto de todos os livros, mas tive bastante trabalho para dar tons diferentes a cada um, mesmo tendo, todos eles, elementos recorrentes. No meu trabalho, frequentemente retorno aos mesmos personagens – criando múltiplas histórias sobre eles e mesmo múltiplas versões deles mesmos – como se construísse um conjunto de universos interligados. Alguns autores de quem gosto fizeram algo similar; Mike Moorcock e PJ Framer. O desejo de amarrar tudo em uma “grande meta-série” – M. John Harrison disse isto – é consideravelmente irresistível.

Bebemos, juntos, de nossas cervejas. O casal na outra mesa estava ainda de chamegos e Kim olhava-os insistentemente.

– No Brasil existe uma discussão intensa entre autores, jornalistas e críticos literários sobre a importância da literatura realista e da literatura de gênero enquanto possíveis gêneros intercambiáveis. Muitos defendem a idéia de que o formalismo da literatura acadêmica, acrescido da riqueza de enredo da literatura de gênero geraria uma literatura mais apreciável. Como você enxerga essa questão? Existe alguma discussão semelhante na Inglaterra?

– A literatura inglesa sempre pareceu privilegiar o realismo ao invés da fantasia, mas o realismo também é um gênero. Nós temos uma literatura – gênero e realista – muito rica. Não se trata de uma observação muito original para mim – acho que Peter Haining disse isso –, mas todo grande autor na Inglaterra tende a ter pelo menos uma história de horror, ou de fantasmas ou um romance de ficção cientifica em sua bibliografia. Há uma pré-disposição britânica em se levar ficção policial mais a sério do que, digamos, ficção cientifica. Mas há também muitos escritores britânicos de ficção cientifica de grande valor; alguns dos quais (Ballard, por exemplo, e até mesmo Wells) que ascenderam ao panteão dos grandes autores.

Kim calou-se e ferrou a mão sobre o castão da bengala que estava, até então, apoiada na mesa. Seus olhos acompanharam o casal risonho que se levantava e caminhava em direção da porta, prontos para abandonar o Pub.

– Ora, vejam só… – disse Kim, para logo depois continuar com a resposta –… pessoalmente, tenho uma relação estranha com o gênero: como crítico – escrevo majoritariamente sobre filmes – tenho o hábito de pôr as coisas em caixas de gêneros e rotular tudo; como escritor de ficção, gosto de combinações inusitadas de gêneros, trabalhos que fujam desse encaixotamento.

Kim afastou a caneca alguns centímetros. Puxou a bengala mais para próximo de si e ergueu o rosto, enquanto o casal desaparecia porta a fora.

– Anno Dracula, por exemplo, é horror, ficção cientifica, histórico, crime, fantasia, sátira, romance e suspense, alem de estar no subgênero de historias de vampiros e na teoria conspiratória de Jack, o Estripador, com todo aquele ar literário e o mundo compartilhado de pessoas famosas fictícias e reais da época vitoriana jogadas no meio. Não há parte da livraria onde o livro não possa ser colocado. E as sequências adicionam histórias de guerra, aventuras baratas, novela, mistério, Hollywood, super-heróis e pornografia, o que basicamente cobre todas as prateleiras.

– Hora de levantarmos e sairmos daqui – ele disse, em seguida.

– E para onde vamos?

– Seguir um interessante casal.

– Não é perigoso?

Ele olhou para mim, piscou um dos olhos e se ergueu, apoiando-se na bengala.

– Já que estamos na chuva, vamos nos molhar.

Deixamos as canecas quase intactas. A cerveja não era mesmo de boa qualidade. Os freqüentadores não se deram conta de nossa saída, assim como não pareceram se dar conta de nossa chegada. Abandonamos a irritante fumaceira para retornar à fria neblina. Kim parou por alguns instantes, atento aos ruídos externos. Olhar compenetrado, embora sentisse nele uma atenção muito mais instintiva que objetiva. Após alguns segundos, apontou a bengala para nossa esquerda e foi naquela direção. Eu o acompanhei, claro.

– As noites têm se revelado surpreendentes nesse final de século. Muita agitação. Imigrantes em excesso, dificuldades, protestos, choques raciais. Qualquer coisa é capaz de acender o pavio da discórdia. Assassinatos ocorrem sempre, mas os atribuídos a Jack, o estripador, ganharam notoriedade.

– Pretende salvar a donzela do assédio sexual do tal George Lusk? – perguntei, ironicamente.

Kim não respondeu, limitando-se a fender a neblina incansavelmente, numa caminhada resoluta. Súbito, parou. Como se o seu faro lhe indicasse caminhos alternativos. Virou a cabeça levemente para a esquerda. Uma trilha obscura seguia noite adentro. Ele passou a bengala de uma mão para outra, segurando-a perpendicularmente ao corpo.

– Agora, com cuidado e silêncio – disse, ao seguir a trilha.

Caminhamos por uma vereda estreita, barrenta. Saímos numa escadaria de pedra, limosa e escorregadia. Descemos seus degraus tentando não fazer barulho, tarefa mais fácil para mim, que calçava um par de tênis, do que para Kim, que usava botas pesadas. Ilusão pensar que estávamos sós. Havia gente caída pelo chão, uns bêbados, outros simplesmente adormecidos. Alguns rosnavam à nossa passagem, mostrando dentes pontiagudos, outros nos ignoravam por completo. Passamos por eles sem maiores problemas. O caminho voltava a se abrir, desembocando no que parecia ser uma praça, embora de dimensões reduzidas. Ouvimos risadas abafadas e gemidos de desejo.

Mais casais além daquele que procurávamos. Parecia um lupanar a céu aberto. Encostamo-nos a uma árvore, local de onde apenas entrevíamos silhuetas entregues à licenciosidade.

– Você tem mais alguma pergunta? – inquiriu-me Kim, disposto a conduzir a entrevista, mesmo em situação tão estranha e eminentemente perigosa.

– Como analisa a abordagem literária de Stephenie Meyer onde, em seus livros, os vampiros brilham na luz do dia? Você acha que o mito do vampiro deve obedecer sempre a arquétipos consagrados?

Kim agarrou-se ao castão de sua bengala e inclinou a cabeça de lado, forçando os olhos como se pudesse, assim, perfurar a cortina densa que a névoa nos proporcionava.

– Está na hora! – disse ele, dando um salto para frente enquanto fazia deslizar para fora da bainha da bengala uma lâmina estreita e afiadíssima. A mesma que pressionara em minha garganta logo após a minha chegada. Eu não sabia o que ele tinha visto nem o que pretendia fazer, mas me vi obrigado a acompanhar o avanço. Mais por medo de ficar para trás do que por coragem. Corremos poucos metros.

George Lusk estava nas garras de Long Liz. Literalmente. A mulher exibia longos e assustadores dentes. Feições transformadas. Uma das mãos de George ainda repousava por baixo da saia, agarrado ao objeto de desejo, mas tremia tanto que era capaz de dar a ela um orgasmo intenso e involuntário. Kim soltou um urro, girou no ar descrevendo um salto preciso e baixou a lâmina num golpe firme que a cortou de cima a baixo nas costas, abrindo-a num talhe medonho.

A praça foi tomada por gritos, uivos e rosnados. Long Liz caiu, rolou sobre si mesma e logo se pôs de pé. Avançou contra nós, pondo-me em pânico. Um tiro a fez dobrar-se sobre si mesma, enquanto levava as mãos à barriga. Kim, rápido, aproveitou para dar um segundo golpe. A cabeça decepada pôs fim à luta.

Saímos correndo, os três. Minhas pernas voavam enquanto minha respiração resfolegante mal me mantinha o fôlego. Contornamos a praça, retornamos por outros caminhos sombrios, chapinhamos em fezes e urina, escalamos obstáculos repentinos, sempre com a vívida impressão de existir alguém em nosso encalço, seguindo-nos avidamente. Paramos para descansar numa via aparentemente mais movimentada. George Lusk ainda carregava nas mãos o revólver que utilizara.

– Boa companhia, essa que arranjou – disse-lhe Kim, com a respiração acelerada.

– Parecia uma moça comum. Humana, quero dizer. As coisas mudaram muito por aqui desde que… Desde que ele, você sabe quem, chegou.

Kim olhou para mim, guardou a lâmina dentro da bainha – que era a própria bengala – e, aprumando-se, começou a responder a minha terceira questão.

– Acho que contanto que bebam sangue para sobreviver, são vampiros. Em Anno Dracula, sugiro muitas linhas de sangue vampirescas diferentes e análogas a cada vampiro já imaginado no folclore, na literatura e em filmes – até nos marcianos de Wells. Eventualmente, a série alcançará a época presente e terei que lidar com “romance vampiresco” – esta é uma notícia exclusiva: se houver um quinto livro na série, ele provavelmente se chamará Vampire Romance – como em Meyer e True Blood. Eu li Crepúsculo, mas não as sequências, e vi os filmes. Não são o que eu faria, ou até mesmo o que eu escolheria ler, mas são inquestionavelmente interessantes e se conectam com seu público de forma eficiente.

– Uma entrevista, é? – perguntou George – que coisa curiosa para se fazer durante ataques e perseguições.

– E é a mais doida de que já participei, tenha certeza disso – acrescentou Kim.

– Quais são seus projetos literários mais imediatos e o que cogita para um futuro próximo? – perguntei, finalmente, num suspiro. Feliz por ver a entrevista chegar ao fim, sem maiores problemas além dos já enfrentados.

– Neste momento estou trabalhando em uma nova edição de Nightmare Movies, um livro moderno sobre filmes de horror que escrevi nos anos 80. Além do texto antigo, estou escrevendo um livro totalmente novo cobrindo tudo aquilo que aconteceu desde então. Será lançado no Reino Unido pela editora Bloomsbury.

Um uivo seguido de um poderoso rosnado o interrompeu. Olhamo-nos assustados e já nos deslocávamos da parede em que estávamos encostados quando fomos violentamente atacados. Apesar das feições contorcidas, identificamos a senhorita Catherine Eddowes, que certamente devia ter nos seguido desde a saída do The Ten Bells.

Ela não parecia nada feliz. Na verdade, estava tomada pelo ódio. Com um golpe certeiro fez George Lusk sair rolando pelo chão, o revólver perdido em meio à névoa. Kim tentou desembainhar a lâmina, mas a bengala foi arrancada de suas mãos. Sem saber o que fazer, desferi um chute nas costas da mulher. Ela não pareceu sentir nada. Kim agarrou-se a ela, socando-a diversas vezes enquanto se esquivava da boca que tentava mordê-lo a todo custo. Ouvi as passadas afobadas de George, que fugia do local a toda pressa. “Maldito” pensei decepcionado.

– A resposta! – gritei.

A luta era ferrenha e vi que se não fizesse algo efetivo, Kim jamais conseguiria dá-la. Agarrei a vampira pelas costas, passando-lhe o braço pelo pescoço, numa gravata. Consegui, com isso, afastar-lhe a bocarra alguns centímetros do pescoço de Kim, que por muito pouco não fora ainda mordido.

– Meu próximo trabalho de ficção será Mysteries of the Diogenes Club, lançado pela MonkeyBrain ainda este ano. É um dos três – até agora – livros que correm paralelamente à série Anno Dracula…

Kim empurrou a mulher e caímos, os dois, eu e ela, no chão. Ainda agarrados, numa gravata tensa. Catherine lutava, tentando escapar. Era muito forte e eu não conseguiria contê-la por mais tempo. Virava a cabeça em ângulos impossíveis, tentando morder meu rosto.

-… E apresentam seus principais personagens, mas em uma história bem mais próxima a nossa época.

A bengala estava no chão. Kim a pegou com calma, desembainhou a lâmina e, mesmo exibindo um cansaço extremo, aproximou-a do peito da moça que parou, incontinenti, de lutar. Apenas olhou para ele, raivosa e ao mesmo tempo suplicante. Ignorando a súplica, ele aprofundou a lâmina, cortando tecidos e ossos. Abriu um buraco no peito e tornou exposto o coração frio. Larguei-a no mesmo momento, temendo que a lâmina acabasse cortando mais que as carnes dela.

Eu a vi estertorar. Lágrimas correram no rosto então suave, de olhos tristes e boca sedutora. Kim agachou-se, enfiou a mão dentro do peito e arrancou-lhe o coração, jogando-o distante, na rua. Engoli em seco diante da rudeza de suas ações.

– Existem poucas maneiras de matar um vampiro. Essa, talvez, seja a mais repugnante, admito. Mas chama a atenção.

– Estou também – continuou a responder enquanto limpava a lâmina em sua capa – mexendo com o – há muito trabalhado – Johnny Alucard e planejando uma coleção de histórias no estilo dos mitos de Lovecraft/Cthulhu. Acho que é isso. Acabou, ou gostaria de voltar ao Pub para acabar com as nossas cervejas?

– Está acabado. Não há mais perguntas – respondi, sem conseguir tirar os olhos da dama, morta e estripada na calçada – perdi a sede e qualquer apetite.

– Penso, então, que podemos voltar à nossa própria realidade. Tenho mais o que fazer. Essa aventura deu-me idéias novas. Apareça em Londres, qualquer dia – e Kim abriu um largo sorriso.

Assenti, movendo a cabeça positivamente, tentando sorrir sem muito sucesso. Procurei pelo relógio, felizmente ainda em meu pulso e, num aceno de adeus para Kim, retribuído, apertei o botão.

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7 Respostas to “De Bar em Bar entrevista Kim Newman.”

  1. Tweets that mention De Bar em Bar entrevista Kim Newman. « -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Adriana Amaral, Karl Felippe, Elton O. S. Medeiros, AntonioLuiz MCCosta, tmoricz and others. tmoricz said: De Bar em Bar entrevista Kim Newman.: http://wp.me/pAp8d-wL […]

  2. Alvaro (Pai Nerd) Says:

    Mais uma entrevista muito divertida e inteligente!

  3. Parreira Says:

    Deu pra sentir o clima, a névoa, a umidade. Excelente!

  4. DIOberto Souza Says:

    Também gostei bastante…
    Publique sempre simultaneamente a entrevista em inglês e a em português (curiosidade: Vc vai publicar em inglês as entrevistas anteriores que foram efetuadas em português?).

    • Tibor Moricz Says:

      Algumas entrevistas feitas no De Bar em Bar serão vertidas para o inglês e publicadas no From Bar to Bar. Vou esperar algum tempo antes disso para que o From Bar to Bar tenha uma frequência mais intensa de público estrangeiro. Aí, faço a publicidade dos autores que temos aqui no Brasil.

  5. Josiana Says:

    Muito legal! =)

  6. DROPS | Tudo Says:

    […] Tibor Moricz Entrevista Kim Newman: O escritor Tibor Moricz, autor de Fome, entrevista o autor do romance Anno Dracula (Aleph), na seção “De Bar em Bar” do seu É só Outro Blogue: https://esooutroblogue.wordpress.com/2010/06/07/de-bar-em-bar-entrevista-kim-newman/ […]

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