“Xenocídio”, de Orson Scott Card, sob a ótica de Saint-Clair Stockler.

Tão logo tive a notícia de que a Devir estava lançando o terceiro volume da saga de Ender Wiggin, corri e fui ler a obra. Afinal, nós leitores brasileiros que não lemos em inglês estávamos esperando essa tradução por quase duas décadas.

Resumo rápido

Xenocídio (O jogo do exterminador e O Orador dos Mortos já foram devidamente traduzidos e publicados no Brasil, pela Devir, se bem que há muuuuito tempo) é o maior e o mais ambicioso livro da série até aqui.

Com pouco menos de 550 páginas, a história agora se subdivide em duas “frentes de batalha”, digamos: o nosso conhecido planeta Lusitânia (na “vida real” jamais teríamos um planeta colonizado por brasileiros com esse nome mas, OK Mr. Scott Card, vamos deixar passar esse deslize…) e o planeta Caminho, de colonização chinesa e taoista até a raiz de sua flora. No centro da história, novamente a família “adotada” por Ender: a geneticista Novinha e sua meia-dúzia de filhos, enteados de Ender, cada um mais brilhante do que o outro. O problema em questão, que faz a narrativa se mover: o vírus descolada, que está intimamente ligado a todo o ecossistema do planeta Lusitânia, é uma arma mortífera que ataca todo e qualquer organismo não-nativo do planeta. O Congresso das Vias Estelares acha-o perigoso demais para existir, com o risco de poder se espalhar pelos Cem Mundos, então envia uma esquadra levando um poderoso artefato – o Doutorzinho – que destruirá inteiramente o planeta, colocando o resto da humanidade a salvo.

Acontece que nós leitores sabemos desde O Orador dos Mortos que Lusitânia, além de lar dos porquinhos/pequeninos (a forma de chamar vai depender da empatia de quem os chama; mas se julgássemos pela capa, nós leitores os chamaríamos de clones de Alfie, o ETeimoso), uma espécie inteligente, é agora também lar de humanos e – talvez o mais importante – lar da única Rainha da Colmeia que sobrou após Ender, o Xenocida, ter acabado com a espécie dos abelhudos – chamados na primeira tradução de O jogo do exterminador de “insecta”, o que prefiro – no primeiro volume da série.

Começa então uma luta desesperada contra o tempo para evitar a destruição do planeta Lusitânia envolvendo Ender, sua irmã Valentine (que chega numa nave com sua família e uma ex-aluna, mais o enteado brilhante e deformado de Ender, Miro), a inteligência artificial Jane, um pai e sua filha, da casta dirigente do taoista planeta Caminho, com a inesperada ajuda de uma criada. Todos tentando descobrir modos de evitar a chegada da armada e a consequente destruição de Lusitânia e seus habitantes.

Há uma questão moral envolvida – que é o cerne do romance – e debatida à exaustão por vários personagens em vários momentos da narrativa: é lícito destruir um planeta e suas espécies para salvar cem outros mundos? Pode-se sacrificar um punhado de humanos para salvar bilhões de outros? O desenrolar dos acontecimentos, e o final do romance, nos dirá.

Coisinhas que me incomodaram

A obra é muito bem escrita e essa sofisticação no enredo, com suas múltiplas linhas que se entrecruzam, é algo desejável desde O jogo do exterminador, que tem um enredo no final das contas muito simples, embora surpreendente.

Seja como for, há coisas que me incomodaram. Algumas na construção da obra, outras nas questões filosófico-religiosas que ela suscita.

Orson Scott Card, sabemos todos, é um mórmon, ou seja, um tipo de cristão só mais um pouquinho esquisito do que o normal. E sua Fé reflete-se, toda inteira, na tessitura do romance: a evangelização dos porquinhos, que havia se iniciado em O Orador dos Mortos, está a todo vapor em Xenocídio. É muito interessante ver todo o ecossistema dos porquinhos (esposas, irmãos, paiárvores, etc.) envolvido com o Cristianismo e usando metáforas bíblicas, mas não sei até que ponto um fanático paiárvore cristão, figura crucial em determinado ponto da narrativa, é de fato um personagem crível, que se sustenta. Para mim, foi um pouco demais. Pequeninos usando trechos do Velho Testamento como metáforas para explicar a sua condição e o seu mundo… Não, a minha suspensão da descrença não foi forte o bastante para engolir isso.

O autor é bastante realista com relação ao Cristianismo e suas consequências em vários momentos da narrativa, mas nunca reconhece o que de fato ele é: um instrumento de manipulação de corações e mentes. O curioso é que nesse terceiro volume da saga, uma outra “religião” é introduzida: o Taoismo, no planeta Caminho. Porém essa religião, que também é uma filosofia, acaba sendo ridicularizada por Orson Scott Card como sendo nada mais do que um mero instrumento de manipulação da casta governante do planeta. Dois pesos e duas medidas: o Cristianismo, com todos os seus zilhões de furos, falhas e crueldades, no final serve para alguma coisa boa enquanto que uma outra religião nada mais é do que formalismo e manipulação. Enfim: nada muito novo. Isso acontece todo o tempo na Fantasia (alô C.S. Lewis!) quanto na Ficção Científica – em especial a de Scott Card – e até mesmo na chamada “literatura mainstream”. Só que me incomodou.

Outra coisa difícil de engolir é a família de Novinha/Ender, que em poucas semanas consegue resolver questões que assombram a humanidade há muito tempo. Um exemplo? A descoberta de uma maneira de viajar mais rápido do que à velocidade da luz. Uma família de meia dúzia de irmãos que deve ser a mais brilhante de toda a literatura, versados em física quântica, química, genética, psicologia, religião, biologia – e nossos descendentes… Que orgulho.

Também a explicação (finalmente!) para a existência e, sobretudo, para a localização de Jane, a inteligência artificial, foi pouco convincente e “resolvida” apressadamente. Acho que o autor chegou muito perto de uma obra de Fantasia, com a sua “explicação científica” para Jane.

Um grave erro cometido por Scott Card, agora no nível da construção da narrativa, é a de chamar à ação determinados personagens no início do livro que terão, mais tarde, impacto e importância zero na narrativa, terminando como não mais do que figurantes de luxo. A promissora presença da irmã de Ender, Valentine, e do seu enteado deformado, Miro, são um exemplo disso. O primeiro contato dos dois é descrito em páginas antológicas, mas depois sua utilidade na narrativa desaparece, melancolicamente. Parece que Scott Card usou Valentine apenas para agradar aos fãs, que certamente reclamariam de sua ausência, e não por ela ter uma real importância para o conjunto da narrativa. O mesmo acontece – só que de forma muito mais lamentável e capenga – com a “ressurreição” de Peter, o Hegemona, o irmão psicopata de Ender e Valentine. Sua reaparição num esquema meio “deus ex machina”, andando pra cima e pra baixo usando frases pretensamente sarcásticas e cheias de veneninho, foi patética. Me lembro do menino Peter de O jogo do exterminador: ele me deu medo. Muito medo. O Peter de Xenocídio é um playboyzinho ridículo. E o pior: ele vai embora com a personagem mais legal do romance!? Poderia citar mais alguns personagens que têm sua importância completamente diluída no decorrer da narrativa, mas creio que vocês já entenderam.

Parece que uma vintena de personagens foi demais para Scott Card lidar – se bem que, repito, já era hora de a saga de Ender se encorpar. Estou curioso para saber como serão os próximos volumes. Nos EUA já foram publicados 6 romances da chamada “Saga de Ender”. Há também a série “Shadow”, do mesmo universo, mas que segue em paralelo e não pertence à linha narrativa da Saga. Orson Scott Card é um brilhante escritor, cheio de inventividade e fôlego, e provavelmente as próximas histórias serão melhores. Espero que ele tenha se lembrado da afirmação bíblica do “a quem muito é dado, muito será cobrado” e tenha havido um cuidado maior na manipulação dos personagens dos próximos volumes.

Espero que os leitores brasileiros que só leem em português não tenham que esperar mais 20 anos para descobrir isso.

Uma última observação

Desta vez, a Devir está de parabéns: a revisão – que é o calcanhar de Aquiles das editoras brasileiras que publicam obras de FC e Fantasia –, fora um ou outro deslize, o que é normal numa obra de mais de 500 páginas, está muito boa. Percebe-se que houve um cuidado especial nesse quesito. A capa não é lá essas coisas, mas está de acordo com as dos outros romances de Ender publicados aqui. Se bem que a nave da capa não é fiel à construída pela Rainha da Colmeia, que a rigor nada mais é do que uma caixa com uma porta, sem nem mesmo sistema propulsor – enquanto que a da capa está nitidamente flutuando por meios próprios. Mas quem disse que uma capa tem de ser fiel à obra, não é mesmo?

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14 Respostas to ““Xenocídio”, de Orson Scott Card, sob a ótica de Saint-Clair Stockler.”

  1. Tweets that mention Xenocídio de Orson Scott Card sob a ótica de Saint-Clair Stockler. « -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by AntonioLuiz MCCosta, tmoricz, Alex de Souza, Saint-Clair Stockler, tmoricz and others. tmoricz said: Xenocídio de Orson Scott Card sob a ótica de Saint-Clair Stockler.: http://wp.me/pAp8d-xh […]

  2. Orson Scott Card Says:

    O que nao e obvio no livro e que forma somente a primeira parte da historia, que se completa no livro “Filhos da Mente.” E para mim, e interessante que a religiao de Lusitania parece a este resenhador a ser “cristão,” quando o importante e que a religiao e catolica. Nao sou catolico nem mais que siga Taoismo, e xenicidio nao tenta a fazer proselitismo para uma nem outra. Se fosse colonia de turcos, os pequeninos se convertiriam a ser Muslim, e teriam citado passagems do Quran. Conversos geralmente sao mais fervente que aqeles que se nasciam numa religiao.

    Por favor, desculpe a falta de marcas de acento – e tambem minha falta de fluencia em portugues depois de tantos anos fora do brasil.

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Prezado Mr. Card, muito obrigado pela gentileza em fazer comentários sobre a minha resenha. A informação de que ‘Xenocídio’ é a primeira parte da história que se completa com ‘Filhos da mente’ (ainda não traduzido no Brasil) lança uma outra luz sobre o livro. Quanto ao fato de os habitantes de Lusitânia serem “católicos”, isso não muda o fato de que o Catolicismo é uma religião cristã e, como tal, carrega o pesado fardo de séculos de perversidades e deturpações. Abraços de um seu fã brasileiro!

  3. porco Says:

    Muitíssimo bem visitado o blog. Gosto bastante do livro, um clássico, mas concordo com quase todas as críticas!

  4. Daniel Borba Says:

    Tibor/Saint-Clair, gostei muito da resenha. Na verdade, apesar de fã do Orson Scott Card, eu confesso que não gostei tanto desse livro quando o li. Mas muita coisa só veio a fazer sentido no livro seguinte, aí passei a apreciar “Xenocídio”. “Children of the Mind” é um livro incrível, daqueles que a gente não consegue largar e fecha a saga muito bem. Abraços.

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Oi Daniel. Tomara, então, que a Devir não demore a lançar Filhos da mente, né? Espero que não precisemos esperar mais 20 anos pra ler as continuações. Já pensou? Se for traduzido um livro a cada duas décadas, é capaz que eu tenha morrido antes de o último ser lançado O_0

      • Daniel Borba Says:

        Hehehe… vc tem razão. Temos que torcer pra eles lançarem logo a série Shadow. O primeiro livro é muito bom, periga a ser melhor q todos os outros, exceto O Jogo do Exterminador. Talvez por aproveitar os mesmos eventos…

  5. carlosrelva Says:

    Além de ter sido atencioso em responder à crítica, ainda o fez em português!

    Parabéns pela atitude simpática, Orson!

  6. silviocesar Says:

    Excelente crítica. Apesar de não concordar em certos aspectos.
    Vamos lá: Não acho que Card tenha sido desrespeitoso com o Taoísmo. O aparente excesso de cristianismo na obra pode aparentar esse caminho mas acho que o autor quis realmente alinhar seu pensamento com as correntes mais modernas da Física que, em um olhar mais amplo, quase soam metafísicas por aproximar conceitos que antes eram absurdos e hoje em dia já podem ser considerados como possíveis.
    O cristianismo é a muleta do autor. Mas poderia ser qualquer coisa para outro escritor. O povo da Caminho foi manipulado, é verdade, mas segue os caminhos de suas crenças, jamais abandonando seus preceitos. Apenas enxergando a verdade de seus governantes, assim como fez o povo de Lusitânia ao se impor um isolamento e o conseqüente risco de extinção pela esquadra do Congresso das Vias Estelares.
    Concordo com você que as soluções foram meio apressadas. Mas esse erro todos comente e nem Card está livre deles.
    A explicação dos filotes, por exemplo, é elegante e não foge dos conceitos atuais da ciência. Na verdade, cada vez mais os estudiosos estão olhando para o mundo de forma mais integrada, como um imenso organismo. Se isso se aproxima do conceito religioso de Deus, eu não vou afirmar.
    A realidade é como a vemos. Acessar o cerne desse mecanismo (Jane, o “lado de Fora”) é uma forma encontrada por Card de buscar um uso meio que intuitivo – não sei até que ponto o autor realmente estava ciente do que estava fazendo quando publicou o livro – da Teoria das Cordas (ou algo assim. Posso estar falando besteira). A própria Jane seria um resultado da interação entre mentes diferentes, tanto humanas quanto alienígenas, e é perfeitamente plausível para o funcionamento da história. Novamente, a forma como essas soluções foram apresentadas foi realmente o ponto negativo da história.
    Valentine não esta no livro apenas como coadjuvante de luxo. Ela é historiadora e está lá para testemunhar um evento histórico da humanidade: a possibilidade do xenocídio definitivo não de uma, mas de duas raças alienígenas. Ela é o contraponto em vários momento do livro entre pontos de vista diferentes e várias vezes ajuda na solução deles. (SPOILERS!!!) O surgimento da uma Valentina jovem no final do livro só atesta a importância da personagem na formação bagunçada da psiquê de Ender. Peter, no caso, seria o que ele foi em vários momentos na Escola de Guerra: um ser cruel e destrutivo.
    Resta esperar por mais livros dessa saga genial.
    E, convenhamos, que luxo ter uma crítica rebatida pelo próprio autor, hein? E ainda mais em português!!!
    Parabéns!

  7. Gerson Says:

    Boa crítica, Saint-Clair.

    Se já tinha reservas quanto à aquisição deste romance, das resenhas anteriores que li em publicações estrangeiras, sua análise competente me convenceu de que, definitivamente, não vale a pena perder tempo com um universo ficcional que, a meu ver, deveria ter parado em *O Orador dos Mortos*. Para o público leitor brasileiro que não lê em inglês, uma pena: esperou quase duas décadas por muito, muito pouco.

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Pois é, Gerson. Acho mesmo que esperamos mesmo muito por algo que ficou muito aquém de O jogo do exterminador.

      Abraços!

  8. Elayne Lima Says:

    hahaha!!! Eu sabia q peter ía voltar!!!! Ainda não li, mas acho q vale à pena conferir!!! A volta de peter ficou clichê, mas li em um dos comentários q em filhos da mente existem mais explicações! Encontrei um consolo nisso!!!

  9. Sarah Says:

    Vc sabe se tem cm baixar esse livro, eu português, quero muito e não acho em lugar algum

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