De Bar em Bar entrevista Jean-Claude Dunyach.

Jean-Claude Dunyach, nascido em 1957, tem Ph.D. em matemática aplicada e supercomputação. Trabalha para a Airbus em Toulouse (sul da França). É escritor de ficção científica desde o início da década de 1980, e já publicou sete romances e sete coleções de histórias curtas, ganhando o prêmio de ficção científica francesa em 1983, quatro Rosny Ainé Award em 1992 (2), 1998 e 2008, bem como o "Grand Prix de l'Imaginaire" em 1998 e Prix Ozone em 1997. Seu último romance, "Etoiles Mourantes" (Dying Stars), escrito em colaboração com o famoso escritor francês Ayerdhal, ganhou o "Grand Prix de la Tour Eiffel", em 1999, bem como o “Prix Ozone”. Jean-Claude Dunyach também escreve letras para canções francesas, que serviram de inspiração para um de seus romances sobre um cantor de rock and roll em um futuro devastado; turismo na Antártica com uma orquestra filarmônica de zumbis.

A incerteza é uma das piores coisas quando se aproxima o momento de apertar o botão do relógio quântico e dar início a mais uma entrevista. Já estive nos cenários mais doidos. Já vivi situações de perigo intenso. Já tive, até, minha própria personalidade alterada. Sei muito bem que posso não voltar de uma dessas entrevistas. Os entrevistados estão cientes, também, dos perigos a que se expõe. Como Pilatos, lavo as minhas mãos em relação ao meu destino e ao deles.

Apertei o botão num suspiro longo. Fechei os olhos um instante antes disso. Como se a cegueira momentânea pudesse me proteger de qualquer perigo. Vã ilusão.

***

Quando abri os olhos novamente, vi-me envolto por uma bruma. Pensei ter voltado a Whitechapel. Desconfiei que não quando vi árvores e arbustos. O chão de terra e cascalho, lama e poças esparsas.  Guinchos de aves noturnas rasgavam a noite. Estava frio. O céu era cortado por relâmpagos que explodiam ainda distantes. Farfalhavam as copas das árvores, movidas por ventos contínuos. Uma chuva forte ia se anunciando.

Caminhei devagar pelo chão escorregadio. Olhando com cautela, tentando vencer a névoa que recobria o chão como um grosso tapete. Parei quando escutei o que parecia um rangido longo e lamentoso. Um atrito profundo e angustiante. Identifiquei a direção e hesitei em seguir por ela. Estava atrás de Jean-Claude Dunyach e não de problemas.

Venci com certa dificuldade os obstáculos naturais que se interpunham a meu avanço. Deparei-me com uma pequena clareira. No centro dela, alguém ajoelhado diante de uma rocha. Nas mãos uma longa faca que era afiada ininterruptamente. A pessoa, que logo identifiquei como sendo o próprio Jean-Claude, exibia uma expressão dura, olhar congelado na lâmina que raspava na pedra.

Engoli em seco.

Ele voltou o rosto para mim e eu recuei um passo, assustado. Ele não interrompeu o trabalho. Moveu os lábios num sorriso quase imperceptível e voltou a atenção ao objeto que tinha nas mãos. Sorriu um pouco mais, ergueu a faca, movendo-a como uma espada, porém lentamente, cortando a névoa fria. Levantou-se e tentou se aproximar. Até conseguiria se eu, temeroso, não recuasse cada vez mais.

— É o Tibor, não é? Não tem o que temer. Minha preocupação está lá – disse ele, adiantando-se e abrindo as ramagens de um arbusto denso.

Duas ou três dezenas de metros adiante havia um casarão. A silhueta sombria era destacada pelos relâmpagos cada vez mais constantes. Podia jurar que vi uma luz rutilante, demoníaca, brilhar em ambas as janelas superiores. Estremeci, de frio e medo.

— O que há naquela casa? – perguntei com a voz quase num sussurro.

— A mentira. A mentira está lá dentro – respondeu.

— Para que a faca? Para que isso tudo? É só uma entrevista. Eu faço as perguntas, você dá as respostas. Vamos embora e está tudo bem. Fiquemos por aqui.

— Impossível. Se ficarmos, ela virá até nós. Aguarda-nos… veja! A casa parece respirar.

Jean-Claude aproximou a lâmina da faca bem perto do rosto. Soprou no metal como se tentasse afastar minúsculas farpas do recém-afiado gume. Olhar embevecido. Senti um arrepio intenso. Receei que o relógio quântico tivesse alterado a personalidade dele. Que tivesse estimulado nele um sentimento suicida qualquer. Um instinto de demência que o fizesse se lançar numa batalha sobrenatural, movido não por impulsos de autodefesa, mas sim por desejos enlouquecidos de enfrentamento.

Então ele soltou a ramagem, respirando fundo. Abaixou a mão armada, olhou para mim com um brilho estranho nos olhos e sorriu.

Vive la Science Fiction! – Exclamou enquanto contornava o arbusto e se dirigia para o casarão com passos resolutos. Não tive alternativa se não segui-lo. Enfrentei meus próprios medos em defesa do francês. Apesar de ele conhecer os riscos dessas entrevistas, eu me sentia responsável por ele e por qualquer outro entrevistado. Não podia deixar que se metesse naquela enrascada sozinho.

Chegamos ao alpendre subindo três degraus cuja madeira velha e rachada estalava sob nossos pés. Ruídos indistintos e de origem desconhecida nos chegavam, vindos de dentro da casa. Provocaram-me arrepios profundos. Jean-Claude aproximou a mão da aldrava, velha peça metálica já quase tomada pela ferrugem. Antes que pudesse tocá-la, a porta se abriu num rangido assustador, revelando um interior de trevas.

— Oh, Deus… – lamuriei.

— Coragem, homem! A vida é feita de lutas constantes – filosofou Jean-Claude.

Então empurrou a porta terminando por abri-la por completo. Vimo-nos numa espécie de limiar. Ainda no alpendre podíamos nos considerar salvos, mesmo que nas fronteiras entre a sanidade e a loucura. Antes que eu relutasse mais uma vez, antes que eu fosse inteiramente tomado pelo pavor e saísse correndo de lá, Jean-Claude tomou-me pelo braço. Empunhou a faca de forma ameaçadora, como se pretendesse apunhalar o vazio a nossa frente e, puxando-me com ele, lançou-se para dentro. A porta se fechou às nossas costas num estrondo que fez estremecer as vidraças por trás das grossas cortinas.

Entramos cambaleando, trôpegos, cegos pela escuridão profunda. Tropeçamos em móveis e fomos nos estatelar no chão, entre gemidos abafados.  Encostamo-nos ao que parecia ser uma parede, próximos um do outro, respirações aceleradas.

— Em breve nossos olhos se acostumarão ao escuro e poderemos enxergar melhor — ele sussurrou. — Até lá é conveniente permanecermos aqui, quietos.

— O que me preocupa é quem ou o quê está por aí, com os olhos já acostumados à escuridão — comentei temeroso.

O ar dentro da casa estava mais frio que do lado de fora. Uma brisa cortante parecia soprar, vinda de todos os lados. Estalos e rangidos se repetiam em todos os lugares. Tateei o bolso e achei uma caixa de fósforos. Exultei intimamente pelo achado. Risquei um palito e a chama foi rapidamente apagada.  Risquei outro e tive o mesmo resultado. Fiquei irritado com Jean-Claude. Se continuasse soprando as chamas, jamais sairíamos daquele canto. Jamais nos livraríamos da escuridão.

— Pare de soprar! Não vê que quero nos tirar dessa situação? – protestei.

— Eu não estou soprando nada. Dê-me aqui essa caixa – ele riscou um palito, protegendo-o com uma das mãos. A luz pareceu explodir, trazendo-nos muito mais do que um ambiente cheio de pó e móveis velhos cobertos por longos lençóis. Um vulto imenso, acocorado, oculto por um manto negro que não deixava ver quase nada dele, a não ser os olhos de brilho satânico, estava à nossa frente. Tão próximo que poderíamos ter sentido seu bafejo se ele fosse vivo e bafejasse.

Gritamos juntos. O palito apagou-se. Jean-Claude brandiu a faca, jogando-se para frente na tentativa de atingir a aparição. Eu me encolhi, apavorado. Escutei móveis tombando, panos rasgando, gritos abafados, o choque do metal contra o piso frio.

Putain de Merde! – grunhiu Jean-Claude depois de alguns instantes.

— Você o pegou? – perguntei.

Ouvi seus passos vacilantes. Mais algumas trombadas. Uma cadeira caindo no chão. Depois uma luz esmaecida fez o salão se iluminar.

— Não, mas encontrei um interruptor.

Levantei-me, com as pernas tremendo. Jean-Claude estava do outro lado da sala, próximo à porta. Entre nós uma barafunda: cadeiras, lençóis e abajures tombados. Uma nuvem de pó ainda em suspensão, provocada pela luta recente. Nas paredes, quadros antigos. Tapeçarias, luminárias, prateleiras exibindo cerâmicas decorativas. Uma escada em caracol levava para o andar superior. Um corredor lateral conduzia aos fundos da casa.

— O seu conto Déchiffrer la Trame foi publicado no Brasil em 2000, no fanzine Megalon. Ainda que seja numa publicação não profissional, causou uma forte repercussão positiva no fandom brasileiro da época. Você tem sua obra publicada em outros países? Teria alguma perspectiva de publicar um livro no Brasil?

Jean-Claude olhou para mim, piscando ainda os olhos com alguma rapidez, tentando se acostumar à súbita claridade. Franziu o cenho e fez sinal de que não havia entendido nada. Pigarreei, limpando a garganta e repeti a pergunta, dessa vez num tom mais alto, para que ele me pudesse me ouvir. Ele limpou a testa com as costas da mão, procurou a faca que estava caída entre duas poltronas, respirou fundo e respondeu com certa surpresa.

— Uau, eu não sabia disso! Digo, a forte repercussão. É muito difícil avaliar como uma história é recebida noutro pais – às vezes você tem respostas maravilhosas e às vezes falha miseravelmente. E, frequentemente, você não consegue nem traduzir as críticas e opiniões sobre seus livros! É terrivelmente frustrante. Você sabe que alguém lá fora leu sua história e não tem como receber um feedback. Eu realmente deveria ver o Brasil com meus próprios olhos. Tem sido uma fantasia há anos. Nunca pisei na América do Sul, o que é um tanto perturbador. Já tenho mais de 50 anos e estou perdendo um continente inteiro. Eu tive material publicado em vários países. Em sua maioria contos e coleções, que são mais baratas de traduzir. No entanto, alguns de meus romances estão disponíveis em italiano e húngaro. Não há perspectiva de ter algo publicado no Brasil, pelo menos que eu saiba. Mas se você tiver alguma editora local que esteja interessada, eu ficaria feliz de entrar em contato. Possuo os direitos de todos os meus romances e contos, e assim posso fazer acordos por mim mesmo – e sou barato, pode acreditar!

Jean-Claude fez sinal para a escadaria, deixando claro que pretendia subir. Lembrei-me das luzes que vi nas janelas superiores e gemi baixinho. Aquela casa escondia mistérios e eu não tinha nenhuma intenção de descobri-los.

— Você está atrás do quê, exatamente? – perguntei tentando ganhar tempo, antes que ele atingisse o primeiro degrau.

— Fantasmas. Os mesmos que assolam o seu país, o meu país, e os países onde a ficção científica é vista com preconceito.

Estreitei os olhos, confuso com a resposta. Alguns instantes depois minha expressão se aclarou. Considerei a empreitada, todavia, um desperdício de tempo.

— E sozinho você acha que resolve o problema?

— Talvez não. Mas estou tentando fazer alguma coisa. Os outros apenas debatem. Blá-blá-blá inútil. Além do que, não estou sozinho. Você está comigo.

Deixei-me tomar por uma coragem inaudita. Abandonei a covardia e me propus a enfrentar o desconhecido com Jean-Claude. Ele estava certo. Tínhamos que fazer alguma coisa. Ficarmos parados, só discutindo o assunto, não resolveria nada.

— Nós brasileiros conhecemos muito da Ficção Científica praticada nos países de língua inglesa e menos da escrita na Europa continental. Nos dê um breve panorama do mercado editorial francês atual para os livros de Ficção Científica e Fantasia – perguntei enquanto subíamos a escadaria.

— Bem a situação é bem contrastada. Durante a última década, o mercado francês de Ficção Científica tem sido devorado aos poucos – ou atacado – pela fantasia e bit-lit, como em todos os outros lugares. Isto não quer dizer que paramos de escrever e publicar Ficção Cientifica, mas tem sido cada vez mais difícil ser visível no meio das pilhas de livros sobre dragões, feiticeiros e deusas vestindo biquínis metálicos – Confesso que não me oponho aos biquínis. Então, os livros de ficção científica colonizaram o mercado para jovens adultos – muitos de nossos melhores novos autores, como Johan Heliot, Xavier Muméjean, Christophe Lambert, Jeanne-A Debats, Jérôme Noirez, Lionel Davoust, têm ido muito bem nesse sentido – e alguns livros conseguiram trilhar seu caminho até coleções mais populares.

Paramos no meio da escadaria. As luzes no salão se apagaram e ouvimos risadas contidas, que pareciam percorrer os tijolos da velha mansão. Jean-Claude continuou subindo.

— Você consegue vender material de pura ficção cientifica na França, — continuou, tentando disfarçar a preocupação e o medo — mas não deve mencionar em lugar algum que é FC. E é esse maldito fantasma que persigo agora, se é que me entende. No entanto, eu sinto que as coisas estão mudando, como Bob D. disse um bom tempo atrás. A FC está de volta para se vingar, com novas tropas e uma boa quantidade de novos autores que estão prontos para a batalha. Durante um dos mais importantes festivais dedicados a nossa literatura, os famosos Imaginales na maravilhosa cidade de Epinal – veja www.imaginales.fr – eu escutei uma discussão entre nossos principais editores de fantasia e FC – há coleções de FC na maioria das grandes editoras francesas como Bragelonne, Gallimard/Denoël, Laffont, Flammarion, Fleuve, Noir/Pocket, etc… – e todos estavam concordando que a fantasia e a bit-lit estavam em derrocada enquanto a FC estava um pouco melhor. Vamos adicionar a este fato termos uma excelente revista de ficção cientifica chamada “Bitfrost” – veja www.belial.fr/pages/bitfrost – publicada por uma editora pequena, mas muito profissional chamada “Le Belial”, outra revista de FC chamada Galaxies – veja http://monsite.orange.fr/galaxies-sf/ – diversas fanzines e vários fóruns dedicados a FC, sem mencionar as várias iniciativas da imprensa, por exemplo, ActuS http://www.editions-actusf.com, ou Griffe d’Encre, http://www.griffedencre.fr/. Nós inclusive temos um editor de “difíceis, mas realmente recompensadores” livros de FC que está vendendo muito bem e conseguindo prêmios. O nome é “La Volte” – veja www.lavolte.net – com autores que realmente devem ser lidos como Stéphane Beauverger, Jacques Barbéri ou Alain Damasio. Finalmente Retour sur l’horizon, uma grande antologia de ficção cientifica francesa, sob a direção de Serge Lehman, foi lançada no último Outubro por Denoël. Atraiu muita atenção da mídia e estamos aproveitando esta onda, no momento. Eu estou começando a me sentir otimista com a ficção cientifica na França. Eu não teria dito isto três anos atrás. E li alguns autores locais que são muito bons, incrivelmente bons.

Tentei riscar mais um palito de fósforo, dessa vez com sucesso. A pequena e tremeluzente chama revelou um interruptor a poucos centímetros das mãos ansiosas de Jean-Claude. Ele a ligou e um candelabro decadente lançou uma luz mortiça sobre o corredor largo e atapetado. Ignoramos a escuridão atrás de nós para nos concentrar nos aposentos que ladeavam o corredor. Ao final, uma vidraça suja de onde podíamos ver o céu carregado, riscado por relâmpagos com uma frequência impressionante.

— Mesmo sendo um dos autores mais premiados da FC francófona, aparentemente você não vive da literatura, mas sim de seu emprego como engenheiro aeronáutico. Assim, uma pergunta: Não dá para viver de literatura na França?

Jean-Claude se aproximou de uma das portas, encostou nela a orelha  tentando auscultar alguma coisa, enquanto fazia gestos com as mãos, solicitando um pouco de silencio. Logo depois se afastou dela sinalizando que lá nada havia.

— Eu não vivo de literatura mesmo, por duas razões: Não tenho tantas ideias, então não escrevo muito – 15 livros em 25 anos – e realmente gosto do meu trabalho como engenheiro. Mesmo que estivesse arrebentando no mercado literário, passaria algum tempo fazendo pesquisa cientifica porque amo isso. Se você adicionar a isso o fato de que sou casado, com duas filhas – 25 e 23 anos – que requerem uma vasta quantia de dinheiro para sustentarem seu desejo incontrolável por roupas novas, computadores e brinquedos, feriados caros e tudo mais, vai entender que minha situação em casa não me encoraja a me tornar um escritor pobre em tempo integral.

Voltou a se encostar a outra porta. Concentrou-se nos ruídos internos. Olhou para mim com um sorriso sinistro e apontou a maçaneta, agarrando-se com força à faca.

— Falando mais seriamente, é difícil viver de literatura na França por que o mercado é pequeno e nós somos numerosos. Dá para se viver de traduções, escrevendo para revistas, fazendo turnê pelas escolas – quando você é um escritor para adolescentes – mas requer muito trabalho. Claro, alguns autores estão escrevendo Best Sellers com muitas traduções internacionais – Bernard Werber ou Henri Loevenbruck no nosso gênero -, alguns estão vivendo disso – Pierre Bordage, Ayerdhal… – mas a maioria dos nossos autores tem um necessário trabalho diurno para por o pão na mesa.

Nem tentou abrir a porta. A força que fez quando jogou o ombro contra a madeira bastou para escancará-la. A luz do corredor foi o bastante para que pudéssemos ver o fantasma de manto negro sentado a uma poltrona, nas mãos um livro que lia ferozmente. Quedamo-nos estáticos por breves instantes enquanto identificávamos a leitura. Jean-Claude foi tomado por uma ira assombrosa e se lançou contra o vulto, agitando a faca temerariamente.

— É ficção científica! – ele berrava a plenos pulmões enquanto distribuía golpes a torto e a direito.

Vi o fantasma esvanecer num instante, desaparecendo da poltrona e voltando a aparecer ao lado de uma cama larga com dossel. Seus olhos lampejavam furiosos e suas mãos em garras moviam-se ameaçadoras na direção de Jean-Claude. Abandonei minha passividade e, num átimo, saltei na direção dele, agarrando-o com força. Fomos ambos para o chão.

A luta teria perdurado por longo tempo não fosse o fantasma um produto ectoplasmático. Embora a surpresa o tenha feito ficar bem preso pelo meu abraço, logo recuperou o controle das ações e desapareceu, deixando-me no chão, envolto em brumas. Jean-Claude, eufórico, exibia um pedaço do manto que havia conseguido cortar num dos golpes desferidos.

— Ele está fraquejando! E lê ficção científica sem se dar conta disso, o miserável. Esse é o pior tipo de fantasma do preconceito que existe.

— Orson Welles.

— 1984.

— Muitos não consideram…

— São tolos. Claro que são. Não admitem. Não lhes interessa admitir.

Atirei-me na poltrona que o fantasma ocupara. O livro estava no chão, ao lado dela. Peguei-o e o folheei.

— A existência de uma província de língua francesa como Quebec facilita a entrada de autores franceses no mercado americano ou Quebec, na verdade, existe fora deste mercado?

Jean-Claude sentou-se na beirada da cama. Observou orgulhoso o pedaço de pano nas mãos e aproveitou-se dele para limpar o suor que lhe porejava a fronte.

— Não há entrada de autores franceses no Mercado Americano. Ponto final. Eu sou o autor de FC mais publicado e traduzido nos EUA e isso se deve tão somente ao fato de eu ser rico o suficiente para pagar por minhas traduções. O mercado americano está estruturalmente fechado. Editores não leem línguas estrangeiras – alguns leem em espanhol, dizem – e pedem que você traduza seu próprio livro para inglês antes de enviá-lo. E não te pagam suficientemente bem para cobrir o preço da tradução. Temos enfrentado essa situação por décadas e não vejo nenhum sinal de melhora. Eu tive dois dos meus principais romances parcialmente traduzidos para o inglês – 150 páginas e um resumo – e recebi respostas de editores americanos dizendo: Ok, parece promissor; agora queremos ler o resto do trabalho antes de te enviar um contrato. O fato, porém, é que o resto do trabalho era muito caro para bancar sem um contrato. Situação bloqueada. Quebec está fora deste mercado. A única vantagem de Quebec é que você acha excelentes autores por lá. Minha tradutora Sheryl Curtis, é com certeza uma das melhores!

— Vamos sair em busca do desgraçado pelos outros aposentos? – perguntei, já começando a me divertir com a caçada.

— Claro que sim. Não podemos, em nenhum momento, deixar de combater esse miserável.

Tínhamos, então, que continuar a busca. Saímos do quarto e fomos para um ao lado. Jean-Claude não parecia mais disposto a auscultar as portas. Abriu-a num pontapé vigoroso, revelando uma pequena biblioteca cujas prateleiras estavam praticamente vazias.

O quarto seguinte estava repleto de baratas, aranhas e centopeias. Retorciam-se no chão como uma alcatifa compacta e semovente. Recuamos enojados, mas Jean-Claude logo se aproximou mais uma vez.

— Se tem um truque que esses miseráveis utilizam é esse. O de nos enganar com cenas revoltantes. Mas se esquecem de que utilizam contra nós argumentos que dominamos com maestria. Somos os artesãos de cenários semelhantes.

— Vai entrar aí?

— Se ele nos quer longe daqui é porque é aqui seu principal esconderijo.

Olhei para a massa nauseante de insetos e relutei.

— E se forem pestilentos? E se forem venenosos?

— A pestilência e o veneno estão no preconceito. Vamos, homem. Coragem!

Engoli em seco, senti minhas mãos tremerem. Admito que baratas me afligem, centopeias, não ligo para elas. Mas aranhas me apavoram. Antes que ele entrasse, lhe fiz a última pergunta.

— De acordo com sua experiência como editor (Bragelonne) e autor, você concorda que a ficção cientifica europeia como um todo tende a ser mais conservadora no uso de linguagem tradicional de FC (por exemplo, uma história precisa se utilizar de elementos que possam ser reconhecidos para ser considerada FC) do que escritores ingleses e americanos (que tentam de tempos em tempos subverter os fundamentos)?

Jean-Claude que parecia determinado a entrar parou diante da pergunta. Vi seus olhos soltarem chispas.

— Não, me desculpe, não concordo de jeito nenhum! Há um importante movimento literário na França, e provavelmente no resto da Europa, para explorar transgênero, ficção transgressiva como chamamos – veja o artigo Bibliothèque de l’Entre-Mondes por Francis Berthelot, um dos nossos melhores autores literários – que é equivalente ao slipstream no mercado Anglo-Saxão. Editores podem ser conservadores, e normalmente o são, mas para nós, autores, a ideia de subverter as regras e brincar com as fronteiras artificiais dos gêneros é extremamente atraente. Na coleção Retour sur l’horizon, que já mencionei, um terço dos textos foi considerado “realmente inesperado” pelos críticos. Afinal, muitos autores franceses são inspirados pelo surrealismo ou “noveau roman” que são parte da nosso cenário literário. Então não acho mesmo que nós franceses somos mais conservadores do que escritores americanos. Claro, o mercado americano é muito grande e você pode ter tanto uma forte linha de histórias militares espaciais e franquias de romances – Star Wars e afins -, como livros que são mais inesperados. Mas na França, todo ano mais ou menos, aparecem alguns livros que tentam empurrar os limites um pouco mais adiante. Até por que, é disso que se trata a ficção cientifica, ora essa!

Então se voltou para o quarto com o olhar decidido, a faca bem segura. Entrou pisoteando a massa cerrada de insetos, fazendo-os estalar e soltar uma gosma intensa e malcheirosa. Regurgitei minha última refeição e, tentando ignorar a náusea, entrei atrás dele.

O fantasma se espremia, acuado, num canto do quarto. Junto a ele um amontoado de livros que lhe servia de alicerce em suas crenças deturpadas. Jean-Claude espetou um deles com a faca e o jogou em minhas mãos. Matadouro 5 de Kurt Vonnegut.

— Ficção Científica!  – Bradou Jean-Claude, tomado por um frenesi.

Espetou outro, arremessando-o para meu lado. Quase o deixei escapar. Era Associação Judaica de Polícia de Michael Chabon.

— Ficção Científica! – Bradou mais uma vez Jean-Claude, mal se aguentando no regozijo.

O terceiro, espetado e arrancado de sob os braços do fantasma, que àquela hora gemia inconsolável, fendido pela dor e pelo ódio, era Laranja Mecânica de Anthony Burgess.

— Ficção Científica! – Arrebentou Jean-Claude num grito exultante de alegria. — Tudo Ficção Científica! Maldito! Você lê ficção científica e nem se dá conta disso! Não admite para si nem para os outros!

O fantasma ficava cada vez menor. Pensei, mesmo, que ele fosse se agigantar e nos atacar de forma violenta. Que fosse querer nos arrebentar, estraçalhando nossos corpos. Mas que nada! Encolhia-se aterrorizado, soltando gemidos angustiados de terror. Os livros ao seu lado viravam as folhas de forma intensa como se soprados por um furacão. Logo as folhas começaram a se soltar das capas e a voar pelo quarto, incendiando-se em seguida. Ficamos assistindo a isso, fascinados, mas logo nos demos conta de que não apenas as folhas e os livros reagiam de forma estranha, mas a casa inteira! O chão e as paredes iam se fendendo, estalando, soltando pedaços do reboco. Tudo tremia como se agitado por um tremor de terra.

Olhamos um para o outro, conscientes do perigo que estávamos correndo. Saímos do quarto aos trambolhões. O corredor atapetado ondulava sob nossos pés. Olhamos em direção da escadaria, mas os degraus se soltavam e batiam desvairados como se manipulados por algum pianista enlouquecido. Foram momentos de pânico até que entendemos que nossa única escapatória seria nos jogando pela grande vidraça que encerrava o corredor.

Não pensamos duas vezes. O teto e as paredes iam fazendo dobras, como se um imenso origami estivesse em curso. Corremos e nos lançamos, explodindo a vidraça em milhões de cacos. Fomos cair em uma poça de água, lodosa e malcheirosa. Rolamos enlameando-nos e depois, assustados, rastejamos até ficar longe o suficiente para não sermos tragados pela incrível transformação que a casa estava sofrendo.

Vimos quando ela foi se encolhendo, dobrando-se em estalos e pequenas explosões de fogo. Cada vez menor até que foi engolida pela terra, desaparecendo.

Estávamos sem fôlego, corações acelerados. Olhos vidrados no lugar onde houve poucos instantes atrás, uma mansão mal-assombrada. Levantamo-nos ainda cautelosos e nos dirigimos até o centro da imensa clareira recém-formada. Jean-Claude com a faca nas mãos.

— Não bebemos nada. Não houve bar – disse Jean-Claude.

— Às vezes, acontece – respondi.

— Nem havia mesmo clima para isso.

— Vencemos o fantasma do preconceito? – perguntei num fio de voz, mudando o assunto.

— A luta é constante. Essa foi apenas uma batalha.

— E com facas? Ora. Somos autores de ficção científica. Não podia ter vindo com algo mais apropriado? Talvez um desintegrador subatômico?

Jean-Claude olhou para mim e depois para o relógio quântico.

— Indústria brasileira, é? Se sim, está explicado o porquê dessa faca. Se fosse fabricado na França, maravilhosa França, eu estaria aqui com um magnífico, um estupendo, um maravilhoso…

Não deixei que ele terminasse. Antes que aquele discurso ufanista atingisse níveis intoleráveis e evitando a chuvarada que começava a cair, apertei o botão do relógio quântico tirando-nos dali.

***

Essa entrevista contou com a colaboração de Luis Filipe Silva, Delfin e Marcello Branco.

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3 Respostas to “De Bar em Bar entrevista Jean-Claude Dunyach.”

  1. Tweets that mention https://esooutroblogue.wordpress.com/2010/06/24/2047/ -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by tmoricz, tmoricz. tmoricz said: : http://wp.me/pAp8d-x1 […]

  2. Ivo Heinz Says:

    Faz uns 3 ou 4 anos que eu li “The Night Orchid”, livro dele que saiu nos EUA, recomendadíssimo pelo David Brin, que o conhece bastante; eu gostei muito.

    Antigamente, lááá nos anos 70, muitos autores franceses foram publicados aqui: Régis Messac, René Barjavel, Jean Hougron, etc… pela Francisco Alves, Círculo do Livro.

    E vários outros pela portuguesa Argonauta: J. H. Rosny-Ainé (Belga), Stefan Wul, Jean Pierre Andrevon, Pierre Versins, etc….

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