Saint-Clair Stockler resenha Annabel & Sarah, de Jim Anotsu.

Sugeriram-me que fizesse uma resenha do livro de Jim Anotsu Annabel & Sarah, sugestão que acato com muito prazer porque faço parte das centenas (gostaria de poder escrever “milhares”, mas vocês sabem: estamos no Brasil…) de fãs do primeiro livro do jovem – sim, bem jovem – autor.

Annabel & Sarah é um livro que vai beber em várias fontes: desde as Alices de Lewis Carroll, passando pelo noir americano (Raymond Chandler, Dashiell Hammett, James Ellroy) chegando aos Beatniks (Jack Kerouac, William Burroughs, Charles Bukowski, Lawrence Ferlinghetti). Há também citações ou influências de mangás (quando li o livro, o vilão só aparecia na minha cabeça como um personagem de um quadrinho japonês), HQs como Sandman, música pop, poetas como Edgard Allan Poe, desenhos animados como A viagem de Chihiro…. Você pode estar pensando: “Caramba, deve ter saído uma salada daquelas”. Pois é: saiu mesmo. Mas o resultado é impressionantemente bom. Nada destoa de nada, tudo se harmoniza para apresentar ao leitor uma bela, saborosa e criativa história, que nos prende até o seu desfecho. Jim Anotsu, percebe-se, é um leitor voraz, mas as citações e influências que aparecem no livro em momento algum nos dão a impressão de pedantismo, de que o autor queria mostrar que era muito “lido” (adoro esta expressão). Percebe-se que ele se divertiu escrevendo o livro e homenageando suas paixões literárias.

A história se passa parte em Londres, parte em outros “mundos paralelos” aonde as irmãs gêmeas radicalmente opostas Sarah e Annabel vão parar quando uma delas é raptada pelo vilão e a outra tem de ir atrás para salvá-la. A partir daí a narrativa se divide entre Sarah em um estranho lugar chamado Allegria e Annabel, auxiliada por Dean Chinaski, uma raposa que é o protótipo do detetive noir. Duas história pelo preço de uma (muito boa sacada). Interessante como Jim Anotsu consegue caracterizar muito bem os “mundos” ou “regiões” diferentes em que se encontram Sarah e Annabel. Com Annabel e Chinaski nós estamos em pleno romance policial de linhagem americana, como se estivéssemos lendo um livro de Raymond Chandler ou Dashiell Hammett. A raposa detetive Dean Chinaski é uma figuraça, sempre com uma tirada sarcástica na boca – aliás, os diálogos do livro são muito bons. Essa parte da narrativa é sombria e noturna, não só por se passar no período da noite, mas também pelo seu trágico desenlace. Já as aventuras de Sarah, a irmã sequestrada, que se passam numa terra que nada tem de alegre embora chame-se Allegria, é mais “lisérgica”. Lisérgica no sentido de que é mais “colorida” e mais “leve”, e também cheia de personagens que parecem saídos de uma “viagem” muito doida, embora a pobre Sarah vá comer o pão que o Diabo amassou na casa da vilã secundária da história. Essa é a parte “Fantasia” da narrativa, em contraponto à parte “Policial” de Annabel. Seguindo as a(des)venturas de Sarah, é então que aparece outra personagem encantadora: Beatrice, uma menina fantasmagórica e enigmática que a gente tem a impressão o tempo todo de que não bate bem da bola. Assumo que caí de amores por ela… Sou louco por personagens bizarros.

Não vou contar o final da história, claro, e nem mesmo darei pistas. Seria um total desrespeito para com Jim Anotsu e um bando de personagens que fizeram a minha vida muito feliz durante os dias que levei para ler o livro, só digo que foi uma das leituras mais divertidas que fiz nos últimos meses. Me diverti tentando perceber as citações que Anotsu espalha pela narrativa como “brindes” aos leitores. Se você nunca ouviu falar dos Beatniks, ou não sabe o que é “romance noir”, não se preocupe: sente-se confortavelmente em sua poltrona ou jogue-se de cabeça pra baixo em cima da cama, agarre Annabel & Sarah e comece a ler, sem maiores preocupações/obrigações. Você verá que a narrativa vai fisgá-lo e que fluirá agradavelmente até seu fim. É meio como assistir a um filme.

Agora vou contar-lhes uma coisinha que não me agradou: já não é de hoje que autores brasileiros de Fantasia, Terror e Ficção Científica ambientam parte ou toda a sua história no estrangeiro, em geral Estados Unidos, se bem que no caso de Annabel & Sarah seja a Inglaterra. Fico me perguntando se isso seria realmente produtivo no atual momento em que a ficção de gênero brasileira pretende se firmar de uma vez por todas. Pode ser uma cisma injustificada da minha parte, mas acho que deveríamos ver mais personagens brasileiros vivendo suas aventuras aqui no Brasil, nem que seja pra gente marcar território. Eu gostaria que Annabel e Sarah (que, então, nem se chamariam assim) fossem duas garotas brasileiras, ao invés de gringas. No caso de Jim Anotsu, há uma “desculpa”: a gente percebe que ele é primordialmente influenciado pela literatura de língua inglesa, talvez daí a necessidade de situar seus personagens no contexto da cultura anglo-saxã/americana. No final das contas o livro saiu tão bom que a gente até perdoa – mas espero que isso não se torne uma tendência da nossa ficção.

Não posso deixar de comentar a respeito do excelente trabalho gráfico que foi feito com Annabel & Sarah. O livro tem uma capa muito legal, das melhores que tivemos nos últimos anos, e a diagramação é linda: o trabalho interno é digno de um prêmio de design. Tenho reparado que as pessoas elogiam bastante não só a história como também a parte visual da obra. É isso aí: livro é, também, um produto que precisa ser vendido, e é muito mais gostoso a gente ler um livro com um cuidado gráfico tão evidente. A Editora Draco está de parabéns!

Quando será que Jim Anotsu nos brindará com outra história cheia de criatividade e aventuras, hein?

Nota: se você é autor ou editor, gostou desta e de outras resenhas publicadas, e gostaria de ter seu livro (Ficção Científica, Terror ou Fantasia) resenhado no É só outro blogue, por favor nos envie exemplares. Gostaríamos de comprar e resenhar todos os lançamentos que estão ocorrendo no Brasil, mas se assim o fizéssemos rapidamente nos tornaríamos réus em processos judiciais das operadoras de cartões de crédito.  Seja solidário! 😉

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9 Respostas to “Saint-Clair Stockler resenha Annabel & Sarah, de Jim Anotsu.”

  1. Parreira Says:

    Um livro que já tá na minha fila!

  2. Douglas MCT Says:

    Ótima resenha, Saint-Clair.

    Conheço o Jim e sua obra de outra época e tive o prazer de ler uma primeira versão do livro — ao qual me apaixonei.

    É uma das minhas futuras leituras e, após esta resenha, fiquei ainda mais instigado a ter o livro logo em mãos.

    Abraço!

  3. Mariana Paixão Says:

    A cada resenha que eu leio fico mais ansiosa pra ler esse livro, e com sua resenha não foi diferente. Comprei o livro semana passada, e está entre minhas próximas leituras da semana!
    Adorei a resenha, e devo concordar: a arte está muito boa! Na primeira vez que vi o livro pessoalmente na livraria fiquei um bom tempo só vendo todos os detalhes!

  4. Eduardo Zhukov Says:

    Tibor eu não me esqueci de você. Daqui a alguns dias o meu livro Defensores de Dhalarrad: A Guerra da Restauração estará em suas mãos! Abrs!

  5. Lívia Martins Says:

    Ai Saint, eu estou lendo e amando! Ainda não vou ler a resenha uma vez que livro escrito pelo Jim e resenha sua, eu já tenho tudo pra gostar \o/

  6. Jim Anotsu Says:

    Nossa! Caramba,essa foi a resenha mais $¨$#% que eu li de Annabel & Sarah. Então eu só posso agradecer ao Saint e ao Tibor também. Annabel foi o meu primeiro trabalho publicado e fiquei muito supreso mesmo com as respostas positivas até agora que na verdade ultrapassaram minhas expectativas. (Eu esperava que 5 pessoas lêssem – do meu círculo de amizade). E espero que eu possa ser ainda melhor no próximo romance e vou me empenhar de verdade nisso. Valeu!!!

  7. marcelo tonidandel Says:

    Belíssima capa, remetendo ao Punk Rock nas décadas 70 e 80!

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