To fandom or not to fandom, that’s the question.

Não é nova a discussão sobre a importância do fandom na literatura de gênero brasileira. Eu mesmo devo ter abordado esse assunto umas vezes. É fato que o fandom representa pouco ou quase nada para as editoras nacionais. É fato que o fandom exige mais do que oferece.

É fato que o fandom está mais para vuvuzela do que para jabulani.

Mas declarações recentes fazendo ver que o fandom ficará na mão, perdendo sua principal porta-voz e hostess me fez questionar mais uma vez a importância que ele tem dentro de nosso cenário.

O fandom é formado por leitores (e candidatos a leitores) e escritores (e candidatos a escritores e candidatos a candidatos a escritores) de gênero.

Formado por células, centenas delas, expande-se e retrai-se de modo quase uniforme, dando-nos uma sensação de estarmos diante de uma entidade viva. Defende-se que o fandom seja um dos principais sustentáculos do gênero no país; mas, creiam, só se for do que é importado. O produto nacional amarga uma vendagem ridícula.

O fandom é pródigo na leitura de resenhas. Lê todas. Isso elimina para muitos a necessidade de ler o livro que originou a crítica. Quando perguntarem sobre o assunto, bastará que se lembrem da resenha. Poderão discorrer sobre a obra com propriedade. Ninguém desconfiará que não foi lido.

O fandom adora concursos e iniciativas que possibilitem a publicação de contos, mesmo que em espaços virtuais de vida curta. O fandom adora ser ciceroneado. Adora se abrigar sob as asas de uma galinha de ovos de ouro. Melhor ainda se conseguir colher os ovos e correr com eles, cacarejando como se ele mesmo os tivesse botado.

O fandom adora puxar saco. Adora se fazer de claque. Isso ajuda a abrir portas. Não significa que goste do objeto/pessoa que finge admirar, nem que concorde com qualquer coisa relacionada ao objeto/pessoa da suposta adoração.

Hostess devem se manter longe do fandom. Porta-vozes igualmente. Ele suga, como vampiro, as energias do pobre coitado que na maior boa vontade se dispôs a ajudar.

O fandom pede, pede, pede. Mas não oferece, não prestigia, não valoriza.

O fandom é como um dragão chinês. Contorce-se de um lado ao outro, corcoveia, exibe as garras, solta fumaça pelas ventas, mas, por fim, é só um boneco de papel machê.

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25 Respostas to “To fandom or not to fandom, that’s the question.”

  1. Artur Lins Says:

    Pode ser até que sirva para manter coesa uma trama esquecida?

    O fato é que eu gostei do post. Me dá uma nova visão sobre essa instituição tão aparentemente complexa que, na verdade, é bem simples.

    Abraços! e tudo de bom.

  2. Marcello Branco Says:

    Do jeito que você coloca, Tibor, parece que o fandom não presta para nada. O fandom é uma expressão social associada, no caso, à atividade literária de FC. É fato que ele perdeu coesão e identidade, por causa da internet, do fastio dos membros mais antigos e pela entrada de novas pessoas desvinculadas da tradição, do fandom que existia nos anos 80 e 90. O fandom tem importância (ou pode ter) na organização de atividades, na formação de uma comunidade consciente de objetivos comuns, na valorização dos talentos. Assim, o fandom tradicional – baseado no norte-americano, mas um fenômeno internacional onde quer que exista FC literária – sempre se caracterizou por clubes, fanzines, convenções e prêmios. Tudo isso existiu com força antes da internet entre nós, mas foi perdendo importância por causa das peculiaridades acima apontadas. Talvez seja o caso de se buscar um novo modelo de fandom, ou então aprender a lidar com maturidade com este momento mais disperso e segmentado, onde o individual tem prevalecido sobre o coletivo na FC&F brasileira.

    • Tibor Moricz Says:

      O fandom, hoje, Marcelo, está sem identidade. Não agita. Espera que agitem. O fandom indica o livro, mas não compra.

  3. Simone Saueressig Says:

    Cacetada, Tibor! Mas é bem assim. E se vale o detalhe, o fandom adora o que está na moda. Se bem que o que está na moda é o que está nas resenhas e se encaixa no que tu dissestes. O que não estiver nas resenhas, não está na moda, então não interessa. Bem o que dissestes, candidatos a candidatos a leitores. Uma pena. Eles não sabem o que estão perdendo…

  4. Carlos E. Baptista Says:

    Sempre fui leitor de FC,e tento escrevê-la desde menino, mas só nos anos noventa me aproximei do fandom que há aqui, embora 2001 tenha me aberto os olhos pra fc desde seu lançamento, quando era menino. Saber que existe uma FC brasuca de responsa me deixou feliz, e deu força pra escrever, mas achar livro À VENDA é um problema..eu. como de costume, acho que é falta de formação editorial…e “A Princesa Marte” só ser lançado em português AGORA, francamente!! Se os fãs são mal informados, os editores bem menos!!! Tenho a forte sensação de que, há algumas décadas, a maioria dos livros no Brasil só faz enfeitar estante…

  5. Saint-Clair Stockler Says:

    Belíssima resenha, Dr. Moricz (fiquei com vontade de assinar embaixo).

    Veja só um exemplo do que o fandom (não) faz: escrevi a resenha do Xenocídio com toda atenção, com todo carinho, cheio de amorzinho. Se não me falha, ela teve mais de 650 acessos, mas os comentários não chegaram nem a meia dúzia!? O que quer que seja o fandom atual (concordo que ele hoje é bem diferente do que era nos anos 80/90), ele é uma entidade letárgica. Sem ânimo. Preguiçosa. Ao invés de comer feijoada, quer papinha Nestlé na boquinha.

    E, sim, concordo 110% contigo: o fandom não compra e não lê literatura brasileira de gênero.

  6. Saint-Clair Stockler Says:

    (Esqueci de dizer:)

    O fandom é cheio de boas intenções, mas de boas intenções o inferno está cheio.

    O que precisamos é de gente COMPRANDO, LENDO, COMENTANDO as nossas obras.

  7. Daniel Moricz Says:

    Não tinha a menor idéia sobre esse negócio de fandom, mas lendo o post e os comentários, concordo. Com o post é com Saint’Clair. O mercado hoje está cheio (infleizmente) de pessoas que olham, olham e não compram e nem lêem. E pior, as vezes até fingem que leram (o que é hilário e sempre fica na cara que é mentira). Realmente precisa-se de incentivo a compra de livros e de leitura e eu me encaixo nos que precisam consumir mais livros. Não sou um viciado em FC, mas ainda assim, sei que deveria ler mais.
    Há uma inversão de valores muito séria hoje em dia infelizmente. O individuo nem pestaneja para gastar 30 reais num lanchinho furreca do McDonalds, mas para comprar um livro, pagar a entrada para um show ou comprar um CD, acha 20 reais MUITO caro. É um absurdo e é uma pena mas é verdade…

  8. Alvaro (Pai Nerd) Says:

    Tenho visto muita gente esbravejar contra um fenômeno social chamado “fandom”. Não podemos nos esquecer que somos parte dele e devemos tentar fazer a nossa parte. O Chico Buarque disse certa vez que os escritores brasileiros não leem seus pares. Parece que o fenômeno transcende nosso mundo de FC… Nunca li tantos autores nacionais como nos ultimos 3 anos, por causa do Homem Nerd e depois do Pai Nerd. Tenho recomendado a leitura dos livros que gostei. Percebo que há algo começando a viver no meio do fandom retratado por Tibor, que foi esquecido pelo seu recorte da realidade. Creio que estamos no começo de um bom momento e devemos colocar a nossa energia nisso.

  9. Kuja Says:

    O fandom nacional poderia chamar-se “Mônadas Assassinas”…
    Kuja

  10. Antonio Luiz M. C. Costa Says:

    Acho injusto reduzir a Ana Cristina (desculpem qualquer coisa, mas gosto de dar nomes aos bois) a “hostess” ou “porta-voz” do fandom. Talvez ela tenha levado o fandom mais a sério do que ele merece, mas ela também produziu como escritora e editora e o trabalho dela de organização e promoção do gênero nos últimos anos (como também o do Silvio Alexandre, por exemplo) foi importante para promover a ficção científica e a fantasia para além do tal do fandom e ampliar e renovar seu público.

    Dito isso, acho que, de fato, quem quer escrever literatura de gênero hoje não deve se preocupar com adular o fandom tradicional. É preciso ouvir a opinião de outros, mas é preciso procurar a de leitores sinceros e representativos do público que lhe interessa. O velho fandom se satisfaz com reciclar comentários sobre os livros sagrados – ou seja, Star Trek e os autores da Golden Age que leu na juventude – e não quer se arriscar lendo e opinando sobre novidades. Não adianta nem querer bancar o médium e tentar psicografar Asimov ou Arthur Clarke.

    • Tibor Moricz Says:

      Sem dúvida, levou mais a sério do que merece. E sem dúvida esse nosso fandom está muito mais preocupado em ser lido do que em ler. Mas não nego que existam exceções dentro dele. Só não posso considerar que 15 ou 20 pessoas ativas no mercado em prol de nossa literatura sejam consideradas representativas de uma entidade como o fandom. O fandom é muito mais que isso. E eu falo dessa massa inerte que adora um oba-oba mas na hora do vamos ver…

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Prezado Antonio, desculpe discordar mas acho que ao menos uma parte do fandom, mesmo que “não-oficialmente”, mesmo que por inércia, deu a Ana Cristina Rodrigues o status de “porta-voz”, sim.

      E a própria ACR parece que não via problemas nisso. Em suas próprias palavras:

      “Em cinco anos, moderei a maior comunidade no Orkut sobre FC literária, editei zines, livros e sites, promovi novos autores nesses meios, fui no rádio e na tevê, dei entrevistas, fiz leitura crítica, participei de debates e mesas-redondas, me despenquei para eventos para vender livros (meus sim, mas principalmente dos outros). Cuidei do coletivo pensando que cada livro de Ficção Especulativa vendido no país era um beneficio de todos.”

      Se isso não é ser “porta-voz” ou “representante”, não sei mais o que seria.

      • Antonio Luiz M. C. Costa Says:

        Saint-Clair, isso que a Ana diz nas palavras que você cita, qualquer um de nós devia ser capaz de dizer. Não fiz exatamente o mesmo, nem tanto quanto ela, mas também resenhei (e resenho) novos autores, fiz (e faço) leituras críticas, participei de debates e fui (e vou) a eventos pensando em promover o gênero como um todo, além de tentar escrever alguma coisa. Isso não faz de mim um representante ou porta-voz do fandom – nem sei se chego a pertencer a ele. Sou apenas porta-voz de mim mesmo e de meu gosto por ficção especulativa.

  11. Daniel Borba Says:

    Olá Tibor, gostei do seus comentários e concordo com grande parte do que disse, especialmente sobre as resenhas e a literatura importada. Também concordo com a Simone. Existe um pseudo-fandom (sim, pseudo) que vai muito pela moda. Na época de Harry Potter, era bruxaria. Na época de Senhor dos Anéis, era fantasia. E atualmente a gente tem os fã-clubes do que está na moda também (Crepúsculo? Sim… porque vai ver quantos dos fãs de Crepúsculo de hoje em dia são realmente fãs de literatura fantástica ou de vampiros…). Desses grupos, um ou outro continua ligado ao fandom ou ao “fantástico” de algum modo. O resto diz que amadureceu, que a fase passou. E aí, só se consome realmente o que vem de fora. O que é produzido aqui é tratado como de má qualidade por uma maioria que só sabe seguir a moda.

  12. Alvaro (Pai Nerd) Says:

    Daniel, sem dúvida!
    Meu filho fala do “complexo de vira lata”, que permeia tudo o que fazemos: vemos o exterior como fonte de qualidade e o aqui produzido como “porcaria”.

    Quanto ao pessoal que se esforça em produzir eventos, como Ana Cristina e o Sylvio Alexandre, ou que militam em editoras, como Roberto Causo, Ademir Pascale, Eric Novelo e tantos outros, palmas para eles. Ainda bem que tem gente ainda lutando, nem, que seja contra moinhos de vento.

  13. Eduardo Zhukov Says:

    Tibor, concordo com você “Ipsis Litteris” sobre as fandons ou a sua esmagadora maioria.

    E ainda faço uma pergunta para essas pseudo-fandom: “quis custodiet ipsos custodes?”

    É que hoje eu estou com a crise do latim! Rsrs!

  14. Delfin Says:

    Opinião corajosa sobre o fandom, Tibor. Corajosa porque o fandom vai começar a fofocar de você pelas costas, fazer intrigas etc. Tudo isso porque, infelizmente, o fandom não aceita críticas. Ainda. Será que isso pode mudar, o fandom pode amadurecer? Possível é. Mas há o problema do fandom ser formado de grupos cada vez mais pequenos e distintos. Isso torna o fandom cada vez mais pequeno e restrito. E, para o mundo editorial, cada vez mais irrelevante. Não precisaria ser assim. Mas isso não é comigo.

    • Tibor Moricz Says:

      Se é para fofocas e intrigas que vive o fandom, terei, então, feito algo de útil para ele. Algo que lhe justifique a existência. Mas preferia vê-lo prestigiando a literatura de FC nacional, comprando os lançamentos e elogiando ou criticando conforme o caso. E não sempre os mesmos 20 ou 30, e sim a grande massa do fandom, aquela que vive nas sombras, com medo da luz do sol.

  15. Ernesto Says:

    Eduardo,

    “Custodies sunt raptores”
    :-)))))

  16. Afonso L. Pereira Says:

    Bem, provavelmente o que vou registrar aqui nos comentários pode ser bobagem, mas relevem, por favor, se o absurdo for muito grande porque fui há pouco tempo “convertido”à literatura de gênero, coisa de 3 anos, mais ou menos. Sempre gostei de FC e Terror, mas de forma esporádica, sem ser fiel ao gênero. Mas neste curto período que venho acompanhando as leituras dos blogues, e considerando o que Tibor escreveu neste post, ainda sim, me admira muito que o Fadom ( associando-o estritamente a FC brasileira ) foi e ainda é uma entidade sólida e palpável de perceber como movimento literário.

    O Terror e a Fantasia, citando outros gêneros da literatura fantástica ( ou especulativa ), nem de longe alcançam o prestígio que tem a FC. Não acompanhei os tempos, talvez saudosos para muitos, do Clube de Leitores de Ficção Científica nas décadas de 80 e 90, mas sei que foi de lá que se herdou esta “visibilidade” mais consistente, fato que os outros gêneros ainda não conseguiram. O gênero Terror, por exemplo, é historicamente mais velho do que a FC e aqui no Brasil, pelo menos neste momento, não temos diversos nomes para evocar que sejam representativos assim como tem a FC. Pode-se falar de André Vianco, mas, mesmo ele, não se considera um autor de Terror. Por aí se vê que, bem ou mal, o Fadom ainda “respira” bem e tem capacidade para se renovar e expandir, penso eu.

    Cabe, talvez, reativar, adequar e elevar o CLFC no que ele tinha de melhor, pois há um bom tempo não se faz menção a ele na Internet, a não ser que ele tenha se diluido em várias comunidades do Orkut e eu tô boiando na observação.

    • Antonio Luiz M. C. Costa Says:

      Afonso, na minha opinião, o CLFC morreu de morte natural, por falta de evolução e de interesse dos integrantes. Sua função era basicamente manter o contato entre os fãs do gênero por meio de publicações em papel e isso deixou de ter interesse com a popularização da internet. O que resta dele, na prática, é uma lista de discussão no Yahoo! Se tiver interesse, confira em http://br.groups.yahoo.com/group/lista-do-clfc/

      • Afonso L. Pereira Says:

        Entendo. Imaginei que talvez um site bem criativo, que pudesse reavivar aqueles tempos, fosse bem vindo. Há uma quantidade considerável na rede de blogues que poderiam orbitar em torno dele, cada qual disponibilizando conteúdo interessante num espaço único. Percebo que há links entre os blogues, mas não é a mesma coisa do que manter uma linha editorial direcionada. Percebo, também, que apesar dos gerenciadores de comunidades do Orkut buscarem elevar a discussão de FC, muitas vezes, perde-se o foco daquilo que se pretendia inicialmente, mesmo assim, por enquanto, parece ser o único caminho para reunir as pessoas que gostam do gênero.

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