O caçador de apóstolos de Leonel Caldela, lido e comentado.

Leonel Caldela é autor dos livros O Inimigo do Mundo, O Crânio e o Corvo e O Terceiro Deus, todos baseados no jogo de RPG Tormenta. Não li esses livros, o que me impede de fazer um paralelo entre eles e esse recente, analisando, dessa forma, a evolução (ou não) do autor.

O caçador de apóstolos foi publicado pela Jambô Editora.

Não posso negar que vinha nutrindo certa curiosidade em conhecer seu trabalho após ler resenhas elogiosas e também críticas a seus livros.

O caçador de apóstolos conseguiu me fisgar nas primeiras páginas, mantendo-me absorto na leitura até cerca de um quarto de seu volume. Impossível não reparar nas falhas técnicas de narração, mas o ritmo intenso me impedia de dar a eles a atenção devida.

A narrativa gira em torno de três personagens principais: Iago, Atreu e Jocasta. Baseia-se na criação de mitos, em lutas encarniçadas, em traições, reviravoltas e surpresas, na figura da igreja como inimigo (e amigo) permanente e na de Urag (Deus) como salvador. Não vou me estender aqui sob o risco de começar a revelar spoilers.

O caçador de apóstolos alterna momentos de ritmo alucinante com outros sonolentos. O livro poderia perder pelo menos cem páginas sem que a história fosse prejudicada. A redução em benefício da concisão e da objetividade. As 408 páginas acabam se revelando cansativas.

Às vezes o autor é muito econômico na narração, principalmente nos diálogos, tirando a possibilidade de explorar melhor as nuanças da ação e de aprofundar um pouquinho mais a personalidade dos interlocutores (que são, via de regra, superficiais). Também pontua a ação e os diálogos com frases curtas (ou meras palavras solitárias) que os seguem em parágrafos próprios.

Parecem recursos de texto teatral, rubricas que marcam situações. Soam muito estranhos num texto literário. Exemplo: “pausa”, “silêncio” e os bizarros: “madeira”, “pisquei”, “piscou”.

Os diálogos parecem ser o ponto fraco do autor, embora não sejam ruins nem propriamente insatisfatórios. Incomodou-me muito o fato dos personagens sempre estarem “dizendo” alguma coisa, mesmo quando estão fazendo perguntas. Vou explicar melhor com um trecho do livro:

— Pai, mãe, que saudade – disse a filha Jocasta.

— Precisa de alguma coisa, filha? – disse o pai.

— Deus dá tudo de que preciso.

— É uma santinha – disse a mãe, já lacrimejando.

— Deus lhe deu uma família que a ama muito.

— Rezamos por você todos os dias.

— Pensei que nem se vissem – disse Jocasta

— Sua mãe e seu pai querem o seu melhor – disse a mulher.

— E você quer o nosso melhor também, certo? – disse o homem.

— Soubemos que falou com a voz – disse o pai.

— Contei que meus pais me trouxeram para esta peregrinação sagrada – disse Jocasta.

— Que bom que sabe disso – disse o homem.

— Como é a voz? – disse a mulher.

E por aí vai, a fórmula sendo repetida inúmeras vezes ao longo da obra.

Há também formações estranhas e estruturas mal concebidas:

“Senti arrepios agonizando a partir das mãos, descendo a espinha e espremendo meu esfíncter”.

“Gordura veterana”.

“pedregulhos insolentes”.

E algumas pérolas como: “Por onde eu olhava, havia algo a ser visto”.

Claro que o autor poderá sempre recorrer-se do argumento de que quem erra não é ele e sim o narrador (Iago), que se trata de escritor com qualidades técnicas duvidosas, embora de criatividade esplendida.

Há também pontas soltas e cenários e situações mal exploradas (e que deixam o leitor “boiando”) que, se espera, sejam resolvidas no livro que seguirá a esse em 2011, intitulado Deus máquina.

Mas não são essas constatações que tiram o brilho do livro. Leonel Caldela ainda não está em condição de ser apontado (como o foi em resenha recente) como o apóstolo número 1 da alta fantasia brasileira (talvez o seja, então, por falta de concorrentes), mas caminha com passos seguros para se tornar uma das principais referências no gênero. O caçador de apóstolos dosa ação e humor, introspecção e explosão. Escrito para ser uma autêntica obra de entretenimento, consegue atingir o seu objetivo.

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16 Respostas to “O caçador de apóstolos de Leonel Caldela, lido e comentado.”

  1. Daniel Moricz Says:

    É, agora entendo o que você quer dizer quando fala que um texto deve ser sempre “bem escrito”.
    Queima o filme de uma história muito boa ao que me parece…

  2. Cirilo S. Lemos Says:

    A capa é do Gregório?

  3. Guilherme Says:

    Sim, Cirilo, a capa é do Evandro Gregório (que tem assinado Greg Tocchini para o mercado americano).

  4. ramirocatelan Says:

    Imagino que o livro tenha bem mais desses erros que foram citados. Se antes estava receoso, agora não mais: não vou ler essa parada aí nem a pau. E não me importa o quão boa seja a história, porque acabaria me irritando e prestaria mais atenção às falhas do português.

  5. Parreira Says:

    Tenho medo de vc, Tibor. Qualquer dia vc acaba comigo.

  6. Eduardo Zhukov Says:

    Não devemos radicalizar… Sem dúvida que o erro de natureza gramatical e/ou ortográfico abundante, em qualquer tipo de livro, é uma das coisas que atrapalham um bom processo de assimilação da obra pelos seus leitores. O autor, que por diversos motivos alheios ao nosso conhecimento, tais como dificuldades financeiras ou operacionais na obtenção de um bom processo de revisão no início da sua obra é algo que na minha opinião considero tolerável se ele é um exelente construtor de conteúdos. Mas se os anos passam e o autor, que se torna mais conhecido, permanece recalcitrante ao processo de aperfeiçoamento do seu trabalho literário, acredito que naturalmente o processo de análise crítica de suas obras será proporcionalmente mais severo na medida que esse tempo avança… Cada um de nós deve desenvolver, na minha modesta opinião, um processo crítico justo e sensato. Cada caso é um caso. E para finalizar a minha opinião nessa tertúlia acrescento palavras que não são minhas: (…)porque com a mesma medida com que medirdes também vos medirão de novo. Essa não é uma opinião mística ou religiosa, apenas uma opinião democratiamente justa de Jesus no escritos de Lucas, o religioso da asia menor ou oriente médio, a mais de 20 séculos atrás. Escrevo isso ouvindo, nesse momento, as interessantes músias de Lady Gaga que estou descobrindo agora (Just dance), enquanto trabalho e escrevo. Abraços a todos!

  7. marcelobighetti Says:

    Oi Tibor, o que você quis dizer com “falhas técnicas de narração”?

    • Tibor Moricz Says:

      Uma delas está descrita na matéria. Esquecer que personagens respondem, questionam, replicam, perguntam, comentam, sugerem. Eles não dizem. apenas.
      Também há esses cortes abruptos desenvolvidos entre parágrafos com a intenção de criar dramaticidade, mas o resultado é nulo. Onde “Madeira”, “Piscou” ou “Pisquei” serviram para enriquecer a trama e elevar o clima da narrativa?
      Existe a inserção na história de um novo e insuspeito cenário (que me parece de ficção científica) que obviamente nos remete para o próximo livro da série; mas ele é colocado de maneira súbita e logo “esquecido”. Dá a impressão de que o autor se perdeu na história. Fora descrições equivocadas que uma simples releitura atenta e criteriosa teria detectado.
      O narrador da história se pretende pouco confiável, mas ele é de uma segurança absoluta quando, sempre que vai narrar algo que não assistiu, já nos diz que não sabe como as coisas aconteceram, mas vai tentar adivinhar…rs. Não há a surpresa posterior por termos acreditado numa coisa que não aconteceu de fato.
      E, claro, o fato de que mesmo a pancadaria, quando repetida ad nauseam, se torna sonolenta. Tripas espirradas nas paredes, página sim, página não, deixa a leitura muito cansativa.
      Há trechos mal estruturados, leitura difícil ou confusa. Teria que ler o livro de novo para identificar cada problema.
      Para mim, o fato do livro ter continuações (ou continuação) não evita ao autor a obrigação de deixar a grande e esmagadora maioria das tramas amarradas. Pontas soltas e explicações de menos irritam ao leitor exigente. E se eu não quiser ou não tiver oportunidade de ler o segundo livro? terei desperdiçado minha atenção numa trama incompleta e cheia de pontas soltas? Pois é.
      Mas, volto a repetir, um leitor que procura entretenimento sem grandes envolvimentos nem compromissos, vai se divertir com o livro. Um leitor exigente vai dar muitos tropeções.

      • Eduardo Zhukov Says:

        Muito bom Tibor!!! Ah, se todos os escritores apredessem com as críticas… Teríamos um universo literário muito melhor! 🙂

  8. jrcazeri Says:

    Parabéns pela opinião sincera sobre os livros que lê e resenha, é o primeiro blog que não participa da “panelinha” de autores nacionais. Já estava de saco cheio de blog que resenha o que não leu, elogia o que não conhece e indica o que não presta, só por ser “produto nacional”.
    Se os autores nacionais querem ser tão bons como os estrangeiros, e eles insistem em dizer que já são, é preciso mudar essa mantalidade protecionista e fechada às críticas construtivas. Não basta uma produção em larga escala, como vem acontecendo, é preciso profissionalismo, tanto dos autores, como das editoras. Cadê o trabalho de leitura crítica, revisão e copidesque dessa obra?

  9. Daniel Saavedra Says:

    Adorei esse livro, mesmo. É ótimo quando vamos prum livro não esperando nada e BOMM! Adorei. Realmente, é muito melhor em mitologia do que escrita, é como um bom filme gravado com uma câmera péssima.

  10. Luciano Says:

    Um espremer de esfíncter deve ser algo terrível! Jamais faria um personagem passar por um espremer de esfíncter.

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