A cidade do terror de Miguel Carqueija. Lido e comentado.

Quando fui contatado por Miguel Carqueija para ler e comentar A cidade do terror, fiquei preocupado. Trata-se de uma edição eletrônica, publicada no www.contosgrotescos.com.br e é uma fanfic crossover, inspirada em mangás.

Jamais fui um leitor desse tipo de literatura. O modelo sempre me pareceu infantiloide (e posso estar cometendo o terrível pecado do preconceito de gênero), mesmo considerando que existam mangás de temática adulta.

Procurei por Miguel Carqueija e comentei sobre meus temores. Ele me despreocupou dizendo que esperava uma resenha literária, independente do gênero e da inspiração que a obra possui. Bem, pensei, isso posso fazer, baseando minhas opiniões estritamente naquilo que a leitura me provoca.

Então, vamos ao assunto.

Resumidamente, A cidade do terror conta a história de quatro garotas que, banhadas pela luz de um estranho monólito, adquirem desinibições que as destacam em áreas especificas de atividade. Uma delas se transforma em Centelha negra, uma espécie de paladina da justiça, lutando contra vilões numa cidade do Rio de Janeiro dominada pelo crime. Logo esse poder magnífico é dividido com as colegas, formando, assim, um quarteto de heroínas: Centelha negra, Centelha Amarela, Centelha Azul e Centelha Verde. O grande vilão da história se chama Espectro e ele pretende fazer com que o mundo seja tomado pelo mal (há evidentes citações à obra de Lovecraft).

Ou seja, uma sopa de clichês comuns do gênero.

A noveleta tem começo, meio e fim. Traz lutas, especulações, inquietações, enfrentamentos diversos, lições de moral e demonstrações explicitas de religiosidade cristã. Tudo que uma obra do gênero precisa ter, com exceção da religiosidade exacerbada. Mas isso não me incomoda tanto como parece incomodar a outras pessoas. Nada mais natural que o autor transfira para o seu trabalho muito de suas crenças pessoais.

Embora tenha conseguido prender minha leitura em suas múltiplas cenas de ação, literariamente a obra tem pouco a oferecer. Parece-me um desenho animado transcrito para o papel.

As quatro personagens principais são fúteis e, embora se preocupem com o futuro da cidade e do mundo, combatendo vilões, parecem não ter mais na cabeça que um punhado de miolo mole. Os diálogos são banais e muitas vezes sem pé nem cabeça, as soluções encontradas são simples, as estratégias são óbvias e os resultados são convenientemente bons. Se todos os vilões fictícios do mundo fossem tão fáceis de derrotar, não precisaríamos de paladinas da justiça em nossas histórias.

Miguel Carqueija se preocupa com a forma da narrativa, desenvolvendo-a tecnicamente bem. Mas abusa de palavras cujos significados precisam ser pesquisados no dicionário. Minaz, mendaz e estomagado são três delas. Há mais. Assumo minha ignorância em relação às duas primeiras. Fui pesquisá-las.

São, porém, termos descartáveis. Podem ser muito bem substituídos em benefício do fluxo e do rápido entendimento. Assim como escreve “pitza” em lugar de pizza. Se fosse um recurso para caracterizar a fala de um dos personagens, eu nada diria. Mas quando até o narrador onisciente diz “pitza”, vemos que há algo errado.

Imaginem as heroínas flagrando criminosos e, antes de atacá-los, se saírem com essa:

“— A noite estrelada é bela para o amor… não a enfeiem com o crime e a violência. Deixem que os amantes se amem… e que o mundo siga em paz o seu destino.”

Se eu fosse um dos vilões, enfiava o revólver na boca e puxava o gatilho. Não seriam necessárias as lutas. Bastaria que elas decorassem o máximo de frases como essas para salvar o planeta.

Fica claro para mim que se trata de uma obra infanto-juvenil. Mas mesmo pré-adolescentes e adolescentes precisam de histórias um pouquinho mais elaboradas, com tramas mais complexas. Personagens um tantinho mais profundas, com uma psicologia mais densa. Diálogos inteligentes, deduções buscadas após debate intelectual efetivo e vilões menos previsíveis.

Se eu encarar A cidade do terror única e exclusivamente como uma obra de entretenimento, diria que chega a atingir o objetivo. Uma história sem pretensões e sem compromissos, se não com uma leitura rápida.

Para quem gosta de enredos semelhantes, lutas e lições moralizantes, A cidade do terror é um prato cheio.

Mas pode ser que toda essa minha avaliação não valha nada e eu tenha cometido a ignomínia de desmontar uma obra que apenas segue parâmetros universalizados do gênero. Ou seja: perfeita dentro daquilo que é aceito e esperado pelos fãs.

Sei lá. Vocês que façam a derradeira avaliação.

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Uma resposta to “A cidade do terror de Miguel Carqueija. Lido e comentado.”

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