Anno Domini. Lido e comentado.

Quando terminei de ler a coletânea O livro negro dos vampiros, a imagem que criei dessas coletâneas caça-níqueis foi exatamente a de um conjunto de contos sem qualidade suficiente nem para sair da gaveta ou da lixeira do autor pretendente ao título de escritor, salvo raras exceções.

Iniciei a leitura de Anno Domini (organizado por Claudio Brites e Helena Gomes) com a certeza absoluta de estar mergulhando noutra coletânea que acabaria me deixando aborrecido.

São cinquenta e três contos tematizados. Idade média.

Cinquenta e três narrativas cujas abordagens são extremamente recorrentes. Vinganças a mão cheia, belas donzelas, cavaleiros de armadura reluzente, castelos, magos, orcs, elfos, camponeses e morte. Muita morte. Carnificinas horríveis.

Me espanta que existissem tantas camponesas habitando sob condições rudes, oprimidas por vontades acima das suas, laborando no campo arduamente do nascer do Sol ao ocaso, belas. Belíssimas. Cabelos soltos ao vento como num comercial da Revlon, rostos angelicais de pura beleza, olhares meigos, pele macia e alva… Fico boquiaberto com isso. Pensava, sinceramente, que as camponesas, em sua esmagadora maioria, nas condições em que viviam (principalmente nas condições citadas na maioria dos contos), fossem menos charmosas.

Imagino mulheres rudes, cabelos desgrenhados, mão e pés calosos, unhas quebradas (nem todas tem calçados apropriados), pele poeirenta e suada, sovaco de dias e ranho no nariz.

Mas a imaginação dos autores dessa coletânea prova que pode vencer as limitações impostas pela realidade e criar ambientes e cenários mágicos nas mais improváveis situações.

Podem pensar que estou a afiar a minha espada, pronto para, num golpe certeiro, arrancar a cabeça dos organizadores dessa coletânea. Mas estão errados.

Surpreendi-me com contos bons. Surpreendi-me com contos médios numa escala larga (aqui, serve um adendo. Muitos contos médios seriam considerados ruins, mas preferi conceder pontos àqueles que, de alguma forma, tentaram quebrar paradigmas ou surpreender o leitor, mesmo que com uma ideia um pouquinho mais arrojada. Isso não significa que, se fosse eu a organizar a coletânea, eles seriam aceitos).

Há, claro, contos ruins e não haveria como não tê-los, também aos Ecas, Duplo Ecas e até dois Triplo Ecas.

Mas li dois a quem atribui um Uau! E isso me causou espanto.

Separando o joio do trigo, peneirando bem, eu daria a essa coletânea um Médio. Acreditem, trata-se de uma avaliação bem diferente da realizada com O livro negro dos vampiros, que recebeu Eca! sem chances para apelação. Isso não significa que eu esteja mudando meus conceitos em relação a essas coletâneas. Ainda as abjuro. Mas dou a mão à palmatória: talvez nem todas sejam tão ruins assim.

Agora vamos aos contos, respectivos autores e consequentes avaliações:

1- Os quatro – Claudio Brites – Médio

2- A batalha do cavaleiro negro – Renato Arfelli – Médio

3- O Graal e o contador de histórias – J. Feltrin – Médio

4- O bolor e o frio – V. Netto – Ruim

5- Uma noite na Taberna – Kathia Brienza – Bom

6- Um breve segundo – Leandro Chernicharo – Ruim

7- O último relato – Gabriel Torres – Médio

8- Você! – Rafael de Agostini Ferreira – Ruim

9- Batismo de fogo – Leandro “Radrak” Reis – Bom

10- A peste – Chico Anis – Médio

11-  Desata-me! – Helena Gomes – Uau!

12- A poção dos desejos – Victor Maduro – Médio

13- Sonhos de outrora – Addam – Médio

14- Na escuridão gelada – André L. Pavesi – Médio

15- O preço da vingança – Nazarethe Fonseca – Bom

16- O dragão da noite e a rosa de chamas – Marcos Lopes – Duplo Eca!

17- O forte das rosas – Thiago Lobo – Médio

18- Cassandra Corbu – Ademir Pascale – Médio

19- O algoz do verão – Thiago Cabello – Ruim

20- A fé dos inocentes – Sergio Sparsbrod – Ruim

21- O Drakkar de Leif Eriksson – Jonatas Turcato Syrayama – Bom

22- O misterioso caso do unicórnio azul – Douglas MCT – Médio

23- Obsessão – Hanna Liis-Baxter – Médio

24- A idade das trevas – Almir Pascale – Ruim

25- Andarilha – Rúbia Cunha – Ruim

26- Esperando pela morte – Claudio Villa – Médio

27- O príncipe – Danny Marks – Médio

28- A filha da parteira – Angel – Bom

29- Reino das trevas – Ana Luiza da Silva Garcia – Ruim

30- Kidush Hassen – Bruno Freitas Oliveira – Bom

31- A morte negra – Arlete Sobral – Triplo Eca!

32- A noiva de lúcifer – Ricardo Delfin – Bom

33- Santo cavaleiro – Rossana Santos – Ruim

34- Prisioneiro – Márcio Aragão – Ruim

35- A peregrinação de um camponês oprimido – Karina Brossi – Ruim

36- Reversos – Raphael Draccon – Eca!

37- Asas – Madô Martins – Bom

38- O ferreiro mágico – Paulo Dumi – Ruim

39- Hoje, na idade média – Rodrigo Prata – Eca!

40- A menina Elfa – Albarus Andreos – Médio

41-  Proibido – Monica Sicuro – Ruim

42- Vendeta – José Roberto Vieira – Uau!

43- Dias de sombra – Livany Salles – Médio

44- Krispin – Gustavo Lopes – Ruim

45- Vastidão – J.B. Alves – Ruim

46- Herança maldita – Gabriel Torres – Bom

47- Desejo – Kathia Brienza – Bom

48- Vingança – Bruno Schlatter – Triplo Eca!

49- A faca cravada – Brontops – Bom

50- Inverno – Ruim

51-  Prisioneiro da suspeita – J. Feltrin – Bom

52- As três pedrinhas – Nicolas Vasconcelos – Bom

53- Do pó ao pó – Helena Gomes – Bom

Talvez vocês se perguntem onde andam os emoticons. Acontece que dá trabalho inseri-los e preferi ficar na preguiça. Quem sabe na próxima :).

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12 Respostas to “Anno Domini. Lido e comentado.”

  1. Simone Saueressig Says:

    A única coisa que realmente não entendo, é que sentido tem fazer uma coletânea com 53 contos. 53. É muita coisa! Fazendo uma coletânea menor, de uns 20 contos (o que já é grande), um livro menor e um preço menor, não haveria possibilidade de vender mais? (Estou perguntando mesmo. Por um lado parece que sim, mas 50 autores conseguem vender para mais gente do que 20, é claro.) Me preocupa a qualidade destas coletâneas. Isso não vai terminar afastando os leitores do gênero? (me refiro àqueles que vão tomando suas primeiras “doses” do Fantástico com esses textos).
    Abraços,
    Simone

    • Tibor Moricz Says:

      Simone, essas coletâneas não são publicadas em busca de sentido nenhum, a não ser o resultado financeiro advindo delas. Contrariam as declarações de seus organizadores que pregam a tentativa de engrandecimento da literatura de gênero no país. Não acredito que tenham, porém, o condão de afastar possíveis leitores. A grande maioria deles é formada por jovens com pouco ou nenhum senso crítico (o que lhes permite gostar do trabalho). O que me preocupa é que possam, apenas, nivelar por baixo a produção da literatura de gênero nacional. Os leitores com senso crítico mais apurado não vão entender essas obras como referências de nossa literatura (espero…rs).

    • Saint-Clair Stockler Says:

      Acho que os organizadores não querem ter o trabalho de fazer, digamos, 3 coletâneas de 18 contos ao invés de uma única com 50 e tantos. Eles querem ganhar dindin logo de uma vez. E, convenhamos, da forma como fazem eles realmente ganham $$$ rápido e com menos trabalho, né? 😉

  2. Carlos Orsi Says:

    O trecho sobre lindas camponesas oprimidas me fez lembrar de Agnes de Chastillion, uma das criações menos conhecidas do Robert E. Howard, que apanha do pai e está prometida em casamento a um vizinho seboso… Só que, no melhor estilo howardiano, ela pega uma espada, eviscera o pai, castra o noivo e cai no mundo. Ainda é incrivelmente original, suponho, quase um século mais tarde…

  3. Camila Fernandes Says:

    Não li o livro, não posso opinar sobre ele. Mas concordo que uma coletânea mais enxuta, além de ser menos custosa, tem maiores chances de apresentar apenas contos legais, em vez de tantos médios e ruins. Poucos e bons. Qualidade acima da quantidade.

    Hoje em dia, quando sou convidada para uma coletânea, dou uma olhada nos lançamentos anteriores da editora em questão e pergunto assim, como quem não quer nada, quem mais estará no projeto.

  4. jrcazeri Says:

    Que interessante, autores conhecidos como Leandro Reis, Nazarethe Fonseca, Ademir Pascale e Raphael Draccon na coletânea. E nenhum deles ganhando um “uau”.
    Tem coisas que os autores nacionais não deviam mais dizer: que são tão bons quantos seus colegas estrangeiros (na maioria esmagadora das vezes, não chegam nem perto), que a mídia não dá espaço para a divulgação de suas obras (que mídia? a Veja? tem centenas de blogs divulgando até a primeira redação escolar de muita gente por aí), e que entrar no mercado editorial é difícil. Não é. Existem facilidades absurdas para quem quer ser publicado. O que anda faltando é qualidade, pois quantidade, temos pra dar e vender. Praticamente todo leitor de fantasia também se acha autor e pronto a ser lançado mundialmente. A pretensão é o que desgasta o gênero e faz muita gente fugir da literatura fantástica brasileira.

  5. Flávio Medeiros Says:

    O Carlos Orsi me fez lembrar uma história que ouvi em Praga, no convento da Loretta. Lá tem uma santa que era uma donzela, que foi espancada até a morte pelo pai porque deixou a barba (sim, a barba!) crescer para afastar um pretendente. Morreu de apanhar e virou santa. Aposto que, se eu escrevesse um conto com essa história, o Tibor me daria um sonoro “ECA!”…rs*

  6. Saint-Clair Stockler Says:

    Tibor, tenho medo de ganhar um “Triplo eca!” com o meu conto Sookie, Sookie que mandei pra você dar uma lida ontem… O_0

    • Tibor Moricz Says:

      Quer que eu o comente em público, no blog? 😉

      • Eduardo Zhukov Says:

        Semana que vem finalmente vou te enviar para a sua residência o meu livro DEFENSORES DE DHALARRAD: A GUERRA DA RESTAURAÇÃO para você analisar e resenhar, se puder…

        Cuidado com o que vc for escrever senão um torpedo fotônico vai explodir a sua casa! Hahahahaha!

        Abrs.

  7. Jonatas Turcato Syrayama Says:

    Olá,
    fico contente que tenha lido o livro todo e que tenha gostado do meu conto. Pelo menos ganhei um “bom”. É sempre muito difícil escrever e atingir um “algo novo” sem cair na tentação do clichês e a pesada influência midiática que sofremos. Mesmo assim ao tratar de um coto de temática medieval, sabia que tudo giraria em torno de armaduras, cavalos, dragões e castelos. Tentando sair um pouco da linha, mas ainda na mesma época procurei retratar a descoberta da América pelos vikings 500 anos antes de Colombo. Obviamente misturei a parte histórica e elementos da mitologia nórdica. Espero que a ideia tenha sido passada de acordo.
    Com relação ao tenha “fazer coletâneas caça níqueis” não sei se foi essa a intenção dos organizadores, mas posso afirmar que aos autores, apenas foi a oportunidade de divulgar de alguma forma os seus trabalhos. Concordo que havia contos bons, médios, excelentes e péssimos… Mas já vi autor de grande “porte” pisando na bola também.
    Resumindo: agradeço a leitura e momento de reflexão, acho que é para isso que escrevemos: compartilhar. Possuo contos do site Recanto da Letras e ando escrevendo sobre Lendas Urbanas. Adoraria receber mais leituras e críticas, mesmo que seja um eca “bem explicado” para que u posso melhorar. Grandes abraços
    Jonatas

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