Eu não gosto de qualquer coisa, e você?

Recentemente, e põe recente nisso, escutei um argumento que me soou tão absurdo, tão despropositado, tão sem senso que não consegui evitar em vir aqui e desabafar.

Na caixa de comentários da postagem sobre a leitura do livro UFO, disseram que fui insensível por não reconhecer os méritos da editora em lançar autores novos. Acusaram-me de não tecer loas a essa iniciativa, seja lá quanto isso tenha custado a cada autor envolvido (conheço os valores, mas não vou entrar nesse mérito). E me hostilizaram por não “entender” que a editora é nova e, portanto, sujeita a organizar trabalhos de baixa qualidade.

Como se tempo de mercado fosse premissa para justificar porcarias.

O que quero dizer é que uma coletânea ou antologia, não importando se paga ou não, deve, por obrigação, exigir e oferecer a maior qualidade possível. Entende-se por qualidade todo o processo editorial. Da chamada para a submissão à distribuição. E entende-se como “possível” o máximo a que cada editora pode chegar. Algumas, como a Draco e a Tarja (falando de editoras relativamente recentes) oferecem muito boa qualidade, beirando a excelência (e, em alguns casos, a atingindo com louvor). Outras como… E como… Oferecem qualquer coisa.

Eu não sou o tipo de leitor que aceita qualquer coisa, você é?

Sei que esse é um papo pra lá de repetitivo. Todos nós já nos cansamos de ouvir essa ladainha centenas de vezes. Mas me parece que se trata de um assunto que deve ser trazido à baila de vez em quando.

Uma chamada recente para uma antologia saiu-se com uma ótima. Reproduzo abaixo um trecho dessa chamada para que a analisem por si mesmos:

“A antologia XXXX continuará recebendo textos. Assim, daremos tempo aos que ainda tem a intenção de enviar seus textos e àqueles que quiserem fazer suas mudanças.

A parte boa é que agora os autores não terão que pagar para publicar na antologia XXXX.

EXATAMENTE! O AUTOR NÃO TERÁ QUE PAGAR NADA!

A participação será gratuita. Portanto a seleção será mais rígida.”

Notaram? Como não cobrará nada, a editora tratará de tornar mais rígida a seleção de contos. Com o autor pagando, entra qualquer coisa.

E eu já disse que detesto qualquer coisa.

E detesto coletâneas de varejo organizadas por editoras pouco exigentes.

Será que vai demorar muito pra essa mentalidade tacanha mudar um pouquinho que seja? Será que vão se dar conta que pra organizar uma coletânea de qualidade (mesmo que paga), basta um tantinho mais de empenho (e não de tempo de mercado)?

Fome por grana solapa qualquer tentativa de fazer alguma coisa boa. E assim caminha parte de nosso mercado editorial…:(

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16 Respostas to “Eu não gosto de qualquer coisa, e você?”

  1. Paulo Fodra Says:

    Eu também fiquei engasgado com o comentário no outro post, Tibor. Você conseguiu, passada a raiva, dar uma resposta embasada àquele argumento absurdo mas, infelizmente, muito comum.

    Os defensores dessa bandeira esquecem que a baixa qualidade leva o canal (coletâneas) ao descrédito, porque tornará virtualmente impossível separar o joio do trigo. A consequência é o fracasso financeiro desse modelo de publicação. E o mercado de ficção continuará nas mãos dos títulos importados…

  2. Roberto Belli Says:

    Excelente, Tibor! Não é todo mundo que tem essa coragem. É assim que nós (brasileiros) poderemos construir uma literatura de gêneros mais consistente. Com crítica. Os autores, mesmo os criticados, deveriam aplaudir a sua iniciativa, como fez o Carqueija. Eu sou um que acho fundamental a crítica e leio todas elas. E depois, é sempre bom saber que temos crítica, o pessoal lá de fora vai nos respeitar mais. Abraços.

  3. Saint-Clair Stockler Says:

    “Pouco tempo de mercado” não é desculpa em absoluto. A Draco é caçulinha e NUNCA cobrou dos autores, antes pelo contrário, né Dr. Moricz? Nossas antologias Imaginários 1 e Imaginários 2, mais a nossa futura antologia Brinquedos mortais remuneraram/remunerarão os autores e organizadores, e mesmo assim deu/dará pra fazer obras “diqualidadi” 😉

    O que posso dizer COM CERTEZA MAIS QUE ABSOLUTA é que tem muita gente inescrupulosa, cínica e cara de pau ganhando uma boa grana no mercado editorial aproveitando-se dos sonhos de pessoas inexperientes.

    Afinal: por que tanta gente quer porque quer ser escritor, hein? Não consigo entender… O_0

  4. Eduardo Zhukov Says:

    Eu também não gosto de qualquer coisa… e há tantas coisas que, se não se tomar o devido cuidado, pode até prejudicar a nossa saúde. 🙂

  5. Artur Lins Says:

    Caro Tibor, ando meio afastado do meio literário. Parei de escrever há alguns meses, mas continuo lendo e lendo… isso me ajudará a melhorar minha escrita, mal não faz.

    Eu concordo plenamente com você. Estamos tão saturados de produção literária de má qualidade que, quando alguém argumenta que uma editora nova tem de lançar material desse nível, penso que o trabalho das editoras que buscam realizar um bom trabalho pode ser posto em dúvida. Mas aí eu tb penso que isso é importante, para que o joio seja separado, né?

  6. Kuja Says:

    APORIA: uns gostam do nariz, outros da meleca

  7. Delfin Says:

    Perfeito, Tibor, é isso aí.

  8. Afonso L. Pereira Says:

    Olha, este assunto, invariavelmente, sempre causa polêmica porque acaba mexendo com os sentimentos de centenas de escritores amadores que estão aí na luta, tentando o seu lugar ao sol. Alguns com talento, outros nem tanto. Há quem esteja ainda envolto na ilusão de que é um excelente escritor, que já está preparado, que não precisa evoluir, que ele (ou ela) é o “cara” e ponto final. Não precisa ficar ouvindo “besteiras”. Outros reclamam que o que lhe falta é a oportunidade que as editoras não lhe oferecem. Então, o negócio é partir mesmo para as coletâneas pagas e arriscar pra ver no que vai dar.

    Aí, quando lemos as críticas sobre as coletâneas pagas, recebemos o tal choque de realidade.

    Penso que os potenciais escritores de futuras coletâneas pagas, com estas discussões, têm a oportunidade de, mesmo não concordando com algumas coisas, refletir melhor sobre o assunto. Isto vale tanto para os escritores autosuficientes, organizadores em geral, e as editoras, também, que se obrigam a sistematizar melhor as tais coletâneas, uma vez que haverá as incomodativas “pedras nos sapatos”, os blogueiros que dizem as coisas na lata, de forma dura.

    Peço licença ao Tibor para sugerir, aos que ainda não leram, a leitura do elucidativo post, dividido em 3 partes, escrito por Eric Novello, intitulado “Coletânea paga é tudo lixo?” (http://ericnovello.com.br/coletanea-paga-e-tudo-lixo/). O Eric, assim como o Tibor, não faz só a crítica pela crítica, mas também dá dicas de como entrar numa coletânea que preza pela qualidade.

    • Tibor Moricz Says:

      Esteja a vontade para adicionar os links que julgar procedentes, Afonso. Li “Coletânea paga é tudo lixo?” e gostei muito. Tem tudo a ver. Só é duro encontrarmos uma coletânea paga que preze prioritariamente pela qualidade. Quando eu encontrar uma, caio duro…rs

  9. Carlos E. Baptista Says:

    Pode parecer preconceito, mas prefiro permanecer inédito a pagar pra publicar…excelente post, Tibor!!

  10. jrcazeri Says:

    Acho que já está bem claro que a péssima qualidade de muitas publicações recentes, coletâneas e romances inclusos, se deve ao pouco profissionalismo e alta ambição de certas editoras. Os autores iniciantes ou amadores sempre serão bem vindos, quando finalmente puderem apresentar um trabalho minimamente digno de publicação, e são os mais lesados por essas empresas.
    A função editorial de rejeitar certos trabalhos é essencial para manter a qualidade editorial, atrair leitores e manter viva a literatura fantástica em todos os seus gêneros. Publicar sem selecionar é uma ofensa ao mercado, aos leitores e também aos autores!
    Como amadurecer e desenvolver um talento bruto sem um editor digno e competente para avaliar seu trabalho e rejeitá-lo, se preciso for? Antes não publicar do quer ser iludido e acabar com uma “mancha” no currículo logo no início da carreira.

  11. Alvaro (Pai Nerd) Says:

    Uma recusa também faz parte do aprendizado do autor novo, assim como uma crítica negativa, justa ou injusta. A capacidade de ouvir um não e ponderá-lo será uma constante na vida profissional de qualquer autor, mesmo já consolidado.

    • Tibor Moricz Says:

      Várias recusas precisam fazer parte do aprendizado de um jovem autor. Só assim ele se esforça no próprio aprimoramento (pelo menos em meio as pragas que ele roga para editoras e críticos…rs). Recebi um punhado delas.

  12. Eric Says:

    Oba!
    Olha eu citado aqui.
    Abs! Eric

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