Alterego – Lido e comentado.

A coletânea Alterego (Terracota Editora), organizado por Octavio Cariello traz um conjunto de vinte contos heterogêneos; mainstream, com um pé ou dois no fantástico e os assumidamente de gênero.

Talvez seja a coletânea mais equilibrada que li até agora. A maioria dos contos se estabelece nos patamares de avaliação “Bom” e “Ruim”, dividindo oito indicações cada uma. Três “Médio” e um “Eca!” a completam.

No caso dessa coletânea me sinto na obrigação de esclarecer uma coisa. Quando avalio alguns contos com um “Ruim” eu o faço seguindo os mesmos parâmetros que utilizo nas leituras de contos fantásticos. Ora, existem aqui alguns contos realistas e eles se diferem dos de FC / Fantasia / Terror, abrindo mão do enredo elaborado em benefício maior ou menor da forma. Assim, mesmo não me sentindo confortável em julgá-los, não creio que deva abrir mão de meus critérios avaliativos só porque se trata de um gênero e não do outro.

Isso poderá parecer injusto para alguns.

Mas que não se aborreçam esses autores, considerando minhas avaliações como uma experiência transgênero. Alguns contos assumidamente de gênero em Alterego também não atingiram nível satisfatório de qualidade.

1- Claudio Brites – Território –

Funcionário do metrô de São Paulo revela personalidade assassina oculta por verniz social que o torna respeitado e admirado pelos outros. Conto curto, com bom desfecho.

2- Valdo Resende – Jennifer, mamãe, é estéril –

Mineiro recém-chegado à capital interessa-se por morena sedutora. Flerte segue até que a morena cede aos encantos de Luiz Geraldo. Narrativa bem conduzida guarda um final bom mesmo que relativamente previsível.

3- Renato Lacerda – Fuga –

Homem perturba-se com sonhos recorrentes. Perseguições que o afligem. Pouca intimidade com a linguagem e condução fraca leva o leitor ao final previsível e insosso.

4- Albano Martins Ribeiro – Todos os luxos o lixo –

Adonis / Argemiro. Personagem alterna duas personalidades, cada uma vivenciando uma realidade distinta, mesmo que na mesma maloca, na mesma favela e com a mesma mulher. Boa condução onde a alternância de um para outro se dá com segurança.

5- Mario Carneiro Jr – O salteador noturno –

Adolescente magrelo se transforma em super-herói e tenta salvar a vida de mocinhas indefesas. Mas a condição que o tornou poderoso acaba se voltando contra suas próprias convicções e as mocinhas indefesas se tornam suas vítimas. Embora a ideia não seja ruim (até começa bem), a condução vai fraquejando até morrer sufocada na última linha.

6- Weberson Santiago – Ao vivo e em cores –

Programa de fofocas de TV acaba revelando mais do que o protagonista poderia supor. Não me conectei à história desde o início, lendo-a com um distanciamento que impediu qualquer tipo de avaliação mais efetiva. Achei o conto fraco.

7- Luciano Marques – O incrível Mccoy –

Western fantástico onde fora da lei possui características extraordinárias. Fui surpreendido com esse conto. Ideia interessante, boa condução e final previsível mas competente.

8- Roger Cruz – Seven boys e o enforcado –

Garoto que utiliza caminho alternativo para a escola acaba, mais tarde, surpreendido com um homem enforcado numa árvore. Narrativa apática, sem sal e sem razão. Não me disse absolutamente nada.

9- Weber Sauerbrown – Alterego –

Interno de manicômio dá escapadas onde vive outra personalidade. Conceito recorrente. Condução irregular.

10- Marcela Godoy – O guardião –

Carcereiro convive consigo mesmo, suas memórias, verdades ocultas e medos. O reflexo de si mesmo trazido à tona e expulso de forma dolorosa. Narrativa consistente e bem controlada.

11- Pedro Reichert – Algo anda nestas ruas –

Personagem caminha pelas ruas da cidade de madrugada e vê cenário de morte e desolação. Tentativa fracassada de criar clima de terror. Linguagem pouco hábil, repleta de erros de construção, transforma o conto num sacrifício de leitura.

12- Felipe Castilho – Saindo do armário –

Paciente que pensa que é super-herói nas horas vagas é tratado por médico que pensa que é herói em tempo integral. Sem novidades.

13- Patrícia Vieira – As ilusões que a madrugada traz – 

Vigia de condomínio fechado esconde verdadeira identidade para cumprir com objetivos criminosos. Como narrativa, legal, como manual para um assassinato, sem chances. O protagonista não ficaria um único dia livre depois disso. Mas gostei.

14- Brontops Baruq – O xadrez das mariposas –

Protagonista entediado e aborrecido relata a rotina cotidiana de uma cidade repleta de superpoderosos cujos poderes são concedidos burocraticamente através de cartas oficiais enviadas pelo correio. Narrativa que não esconde ironia nem sarcasmo na crítica social que realiza.

15- Thiago Pedrosa – A esperança é azul –

Personagem autodestrutiva se refugia na fantasia de ser um super-herói, acabando por sê-lo em momento dramático da história. Embora seja até comovente nas cenas que protagoniza, a história é clichê e não consegue fisgar.

16- Bruna Brito – Velhos amigos –

Quatro amigos se reúnem num bar para um encontro depois de certo tempo sem se verem. Ao final revelam as suas identidades ao leitor o que causa certo surpreendimento. Mas, fora isso, a narrativa é arrastada.

17- Alex Lopes – Redenção do inocente –

Narrativa relata o surgimento de um novo super-herói e a formação, a posterior, de uma espécie de liga da justiça. História clichê, amparada em centenas de outras que seguiram o mesmo argumento. Final bobo.

18- Gian Danton – Intangível –

Personagens com poderes correm a tentar salvar a vida de outro que não consegue controlar seu poder de intangibilidade. Conto relativamente curto, bem trabalhado, que consegue manter o ritmo e a atenção do leitor.

19- Guilherme Beltrami – A rosa –

Homens extrovertidos e populares mudam completamente depois de se relacionarem com Rosa. História de amor e traição elevada à enésima potência da chatice.

20- Octavio Cariello – Labirinto –

Criminoso recluso, vivendo uma vida postiça para fugir da lei corre o risco de ser escorchado por travesti. Clichê e previsível até a última linha.

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3 Respostas to “Alterego – Lido e comentado.”

  1. Ramiro Catelan Says:

    Hmm… não sei se tenho paciência pra coletâneas onde boa parte dos contos são médios/ruins/péssimos, com poucas exceções que valem a pena. E não conheço o trabalho dessa editora – ela não é do esquema pagou-publicou, ou é?

  2. Albano Martins Ribeiro Says:

    Pela parte que me toca, obrigado.

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