De Bar em Bar entrevista Hal Duncan

Hal Duncan é escritor de ficção Científica, Fantasia e ficção estranha em geral, membro do Círculo de Escritores de Ficção Científica de Glasgow e colunista mensal no BSC Review. Publicou dois romances: "Vellum" (que recebeu o prêmio Spectrum e Tähtivaeltaja e foi indicado para muitos outros) e "Ink". Publicou também a novela independente "Escape from Hell", vários contos em revistas e antologias e a coleção de poemas "Sonnets for Orpheus". Seu trabalho também inclui a letra "If you Love me, you’d destroy me" para a banda escocesa Aereogramme’s e o musical "Nowhere town", recentemente premiado em Chicago.

Estava escuro. Deparei-me com arvores cujas raízes expostas retorciam-se no solo, recobrindo-o quase totalmente. O caminho era dificultado por elas e pela escuridão que me forçava a caminhar devagar, passos curtos e cuidadosos. Não raro tropeçava, cambaleava e me apoiava nas raízes úmidas e escorregadias.

Quando apertei o botão de meu relógio quântico supus uma entrevista num pub, com bastante cerveja ou uísque. Talvez uma boa briga para esquentar os músculos. Cadeiras lançadas de um lado ao outro, mesas derrubadas, garrafas estilhaçadas. Gritos, xingamentos e risadas. Porque uma boa briga precisa ter risadas. E depois gelo para acalmar as contusões.

Mas quando o torvelinho provocado pela mudança de realidade se acalmou, me vi num cenário desolado. Árvores tão altas e tão cerradas que era impossível saber se havia um céu além delas. Arbustos espinhentos disputavam lugar com troncos e raízes. E havia uivos, rosnados e rugidos não muito distantes.

Procurava por Hal Duncan, mas tinha medo de chamá-lo. Temia que um grito pudesse atrair os ferozes animais que disputavam espaço, próximos dali.

Esfreguei os braços tentando afugentar os arrepios. O ar estava pesado, quente e denso. Não havia fumaça, mas eu podia senti-la, tênue, no ar. Controlei o medo que vinha assomando devagar e prossegui tentando não tropeçar e cair.

Não avancei nem três metros.

Por entre uma densa ramagem que eu tentava vencer, surgiu um homem com olhar alucinado e portando uma clava. Ergueu-a acima da cabeça e estava prestes a desferir um poderoso golpe contra mim, quando interrompeu o movimento. Ficamos, ambos, estáticos. Olhando-nos.

Era Hal Duncan, pela graça de Deus.

— Abaixe esse porrete, homem! – pedi com certa urgência, enquanto ele continuava me olhando com expressão esgazeada.

Ouviu-me, enfim, e abrandou os movimentos, abaixando o braço armado. Soltou um suspiro e balançou a cabeça.

— Foi por pouco, disse.

Então sorriu e gesticulou me mostrando a redondeza.

— Não é lindo? – perguntou ele.

— Muito – respondi, mal humorado. — Onde está a beleza desse lugar? – inquiri enquanto ultrapassava, enfim, a ramagem densa e me colocava ao lado dele.

— Não a beleza do lugar, mas a beleza da situação – ele respondeu, me deixando sem entender nada.

— Que situação?

— Não sente o ar? Não sente o cheiro? Não ouve os animais nervosos? Não vê as árvores, as raízes… Estamos às portas, você sabe. Ah, você sabe muito bem!

— Meu nome não é Virgílio — respondi com um estremecimento.

— Nem o meu é Dante, mas estamos e você sabe disso.

Observei a redondeza tentando me lembrar de quando é que havia folheado a Divina Comédia a última vez. Fazia tempo, uns bons anos. Lembrava-me das pinturas de Gustave Doré e do quanto as imagens haviam me perturbado.

— Para que a clava? – perguntei receoso da resposta.

— É que as coisas são um pouco diferentes, aqui.

— Creio que já devo parecer meio clichê, mas essa é uma entrevista. É para isso que estamos aqui e não para caçadas a animais ferozes.

Hal ergueu a clava e manuseou-a com bastante perícia, fazendo-a girar no ar.

— Esse porrete não é para caçar animais. É para nos proteger dos anjos.

Apenas olhei para ele. Não vi em sua expressão nada que pudesse me fazer pensar que estivesse brincando ou tentando me assustar. Mordi os lábios, respirei fundo e, após uma boa olhada ao redor, fiz-lhe a primeira pergunta:

— De acordo com uma entrevista anterior, parece que você tem compromissos estéticos e estilísticos com as histórias que escreve. Diga-me como você vê o dilema entre forma e conteúdo na literatura de gênero.

Hal não respondeu de imediato. Parou de girar a clava e estreitou os olhos, atento a alguma coisa. Fez-me sinal pedindo que o acompanhasse e saiu, caminhando na minha frente, saltando raízes e desviando-se de espinheiros. Deparamos-nos com uma clareira. No centro dela havia uma cova ou um poço e de dentro brotava uma luz forte e cheiro de carne queimada. Ouvi gemidos. Hal cutucou em meu ombro, fez sinal para que me mantivesse quieto e preparou o porrete, erguendo-o à altura dos ombros. Para meu espanto um anjo de asas brancas e fulgurantes desceu, esvoaçando sobre a cova. Hal lançou-se para frente num salto, brandiu a clava e estraçalhou o crânio do anjo que se estatelou no chão, à nossa frente.

— Mas… Mas… Mas… O que você fez? – perguntei, estarrecido, indo até ele.

Enquanto Hal limpava a clava numa pedra, livrando-a de cabelos loiros e encaracolados e gosma de cérebro, ignorou essa pergunta, preferindo responder a feita anteriormente.

— Eu vou começar sendo difícil e dizendo que não existe literatura de gênero. Toda a literatura é de algum gênero; o caso é que alguns gêneros têm má reputação devido as suas ligações com o marketing comercial, enquanto outras – como realismo cotidiano – se passam como se não tivessem gênero, sendo vendidas como ficção. Claro, você poderia juntar as categorias comerciais como ficção de gênero, mas além da pressão para a formulação que vem com o marketing, eu não vejo nenhuma razão para tratar os dois grupos separadamente. Ou poderia se juntar os gêneros de ficção estranha – o que incluiria realismo mágico e fantástico a todos os tipos de trabalho que não são considerados “gênero”. De qualquer forma, vou continuar a ser difícil dizendo que não há dilema entre forma e conteúdo. Palavras são a única substância. Palavras não tem conteúdo; é o todo que dá significado. Elas têm denotações, claro, mas cada uma também te atinge com seu grupo único de conotações, de modo que se você trocar uma palavra em uma frase, você muda o significado. Não dá para ter duas frases com diferentes formatos para o mesmo conteúdo básico; se tem duas diferentes articulações, duas construções, dois significados diferentes. Cada narrativa é uma articulação de palavras moldadas em frases, parágrafos, passagens, cenas, capítulos. É uma estrutura de palavras. Cada narrativa conjura uma história, claro, e esta história pode ser resumida cruamente em termos de roteiro e tema. Alguns leitores lerão pelo roteiro e tema, imaginando que é responsabilidade da narrativa providenciar o “conteúdo”. É direito deles, mas não acho que devemos prestar muita atenção a filisteus e filósofos que na verdade não apreciam a narrativa como algo além de um meio para um fim – seja este fim uma ilustração da ação ou introspecção da condição humana. Estas são recompensas que o leitor tem todo o direito de esperar, claro, mas se você realmente aprecia narrativa, você está procurando por ambos, e para conseguir isso, a história tem que ser conjurada por uma narrativa que as articule corretamente. Em suas palavras. Palavras são o único ingrediente.

Eu ainda estava trêmulo, vendo o corpo do anjo sacudido por curtos espasmos. A cabeça estraçalhada de onde vazavam líquidos. Estávamos ao lado da cova e me atrevi a lançar um olhar para dentro dele. Vi o que pareciam figuras humanas se movendo em meio ao fogo.

— Anjos… Para que prestam anjos? – perguntou-me com expressão aborrecida.

— Anjos e Deus – balbuciei. – são divinos… – minha voz não foi maior que um chiado.

Hal abraçou-me e me conduziu para além do poço, ao que parecia ser uma clareira. Não era. Tratava-se do topo de um penhasco. As poucas árvores sobreviventes na pura rocha projetavam seus ramos retorcidos para o vazio. Foi possível ver o céu e, riscando-o por todos os lados, objetos voadores como borrões de velocidade vertiginosa. Dominei o medo e me aproximei da borda, lançando um olhar aterrorizado para baixo.

Ravinas e platôs. Cordilheiras baixas. Focos de incêndio espalhados por todos os lugares. Explosões súbitas lançavam fogo e magma para os altos. Rios de lava corriam pelo solo. Vi sombras indistinguíveis se movendo de forma aleatória no chão e figuras voadoras, como chispas de luz, dando rasantes.

Mesmo não podendo identificar nada com clareza, senti uma angústia profunda. Estremeci mais intensamente, desvencilhei-me do abraço de Hal e recuei alguns passos. Ele me olhou profundamente, a clava apoiada no chão. Era possível ver atrás dele, no céu escuro que se perdia no horizonte, os clarões que se projetavam lá de baixo.

Gaguejei a segunda pergunta. Minhas mãos tremiam. O frio havia ido embora. Eu suava.

— Você diz que é um militante com tendências anarquistas. Há muitos debates políticos entre você e outros escritores, ou não?

— Você precisa se decidir, Tibor.

— Decidir o quê? – perguntei, aflito.

— Há uma guerra em curso. Você precisa definir de que lado você está – e então ergueu a clava, apoiando-a no ombro.

— Não estou interessado em guerras. Sou um homem pacífico. Esta é uma entrevista.

— Não responderei a sua pergunta. Você será um perdido nessas terras de fogo até que eu lhe responda todas. Sei bem disso.

Terá que fazer escolhas ou passará a eternidade vagando em profundo sofrimento.

“miserável” eu pensei, irritado. Hal balançava a clava, impaciente.

— Ok – eu disse por fim. – estou com você.

Ele sorriu, escancarando os lábios. Seus olhos brilharam de satisfação. Veio até mim e me levou de volta à beira do precipício.

— Então vamos nos divertir, cara!

Foi quase como dar um salto para a morte. Senti-me agarrado pelos ombros e erguido no ar com extrema facilidade. Ergui o rosto, lançando um olhar rápido para quem ou o que me segurava. Empalideci imediatamente. Vi um ser imenso, com asas negras. O rosto enfurecido exibia dentes pontiagudos, olhos rasgados e rutilantes, orelhas pontudas, escamas e cabelos que se moviam de forma estranha, como se fossem milhões de larvas agarradas ao crânio. Olhei para baixo, então, tentando conter a náusea provocada pelo pavor. Hal Duncan estava a alguns metros de mim, montado às costas de um desses demônios. Brandia a clava como um cavaleiro, pronto para arrebentar mais cabeças.

— Na verdade, não sei se sou suficientemente radical para me qualificar como um militante, um pouco revoltado, talvez, apenas sigo tendências políticas – anarquista, socialista, pacifista – muito em inconformidade uma com a outra e muito informado pelo pragmatismo, para realmente se encaixar em uma militância reconhecível. — iniciou Hal, me fazendo perder parte do que dizia, ora pela situação inusitada e assustadora, ora pela distância e deslocamento de ar — Apesar de estar, talvez, me tornando mais ativista em termos de políticas estranhas conforme envelheço; eu estou certamente ficando mais bocudo quando se trata de políticas de ficção considerando os outros – abjeção na base de sexualidade, raça, sexo, identidade, habilidade, etc. De qualquer forma, sim. O debate político é parte importante dos círculos em que me envolvo, eu diria, tanto em termos de vida cotidiana quanto em termos de escrita.

À medida que descíamos consegui identificar as figuras ensombradas que se moviam no solo. E também as chispas de luz que davam rasantes. Eram homens e mulheres, confusos, perdidos. As chispas eram anjos.

Fomos deixados num altiplano, cercados por vales mais ou menos profundos. Hal agitava-se me instando a acompanhá-lo. Corria na direção de uma trilha tortuosa que nos levaria para baixo. Não queria ficar para trás nem, principalmente, sozinho. Então o acompanhei.

— A Escócia tem uma “cultura de pub” onde política e religião são tópicos constantes. Cresci com isso, tanto que acho esquisito quando entro em contato com pessoas que pensam que este tipo de assunto não deveria ser colocado em pauta em encontros sociais. Por exemplo, eu tive um correspondente do meio-oeste dos EUA, um teólogo católico, que se referia com aquela etiqueta de jantar em relação ao meu blog, porque de onde ele vem as pessoas não costumam ter debates acalorados a fim de não causar ofensas. Dane-se, eu digo. É isso que realmente importa!

Ele parou diante de uma rocha. Vimos uma mulher arrastar-se pelo chão, suja, imunda, coberta de dejetos. Gemia e ria alternadamente. Pareceu não nos ver. Hal cutucou-me e apontou para o céu, num ponto ao nível do horizonte, onde nossos olhares quase não podiam alcançar, obstruídos pelo terreno acidentado e cercado de pequenos monturos. Vi uma fileira do que pareciam almas ascendendo. Seguiam para cima até o que parecia uma abertura dimensional – lembrei-me de a Faca Sutil, obra de Philip Pullman.

— Seguem, em fuga. Não são almas de humanos redimidos, como você pode pensar – e sorriu um sorriso de pleno delírio. – São o que sobrou dos anjos que estamos matando.

Estremeci pela milésima vez.

— A comunidade online de escritores de ficção estranha e leitores parece ser bem intensa nestes termos também – continuou Hal, reencetando a caminhada –, ao menos nos blogs e diários que sigo você vê a política aparecer com grande frequência – o que é bom. Apesar de nem sempre ser o debate mais positivo, devo dizer. Muitos deles, especialmente quando lidam com políticas raciais, tendem a degenerar muito rapidamente conforme o pânico e o ultraje moral começam a dar marradas. Por pânico moral eu me refiro a defesa irracional e negações sempre que você sugere que um trabalho é um tanto… Eticamente desonesto. Alguns que gostem dele irão imediatamente reagir como se você estivesse erroneamente acusando-os de estuprar gatinhos.

Paramos mais uma vez. Diante de nós de estendia um vale medonho onde corriam córregos de água sulfurosa e borbulhante. Havia gente dentro e fora dessas águas. Carnes despregadas dos ossos, olhos pendurados, pés onde artelhos quebrados iam se soltando à medida que caminhavam. Dois deles carregavam a própria cabeça, cambaleantes. Um anjo surgiu, súbito, e cortou um dos sofredores pela metade usando uma espada de fogo.

Nunca em minha vida me senti mais aflito e atormentado que nessa ocasião. Hal estava efusivo.

Olhei para cima e vi uma luta em curso. Anjos e demônios esvoaçavam entrechocando-se, tridentes e espadas batiam uns contra os outros. Penas negras e brancas, luminosas, desciam em cascata. Vi alguns anjos e alguns demônios despencarem, ora estatelando-se contra o solo pedregoso, ora afundando nas águas.

Apressei-me a fazer a terceira pergunta.

— Você se considera especificamente um autor de gênero ou considera o gênero apenas um momento, uma fase? Pretende ainda escrever histórias realistas, assim como escreve poesia, ou não?

Hal olhou para mim como quem olha para um idiota.

— Temos mais o que fazer além de perguntas e respostas, não acha?

E lançou-se para frente, correndo pelos estreitos corredores formados pelas correntes de água. Fui atrás dele, com medo que pudéssemos nos perder um do outro. Vi quando ele se jogou contra as costas de um anjo que lutava ao nível do solo, em visível desigualdade. Três demônios o atacavam, desferindo nele golpes poderosos com os tridentes. Hal agarrou-se ao pescoço do anjo e tentava levá-lo ao solo.

Conseguiu.

O que vi depois foi uma carnificina. Desmembraram o ente celestial, espalhado suas vísceras pelo terreno. Vibraram, depois, cheios de glória, pela vitória em mais uma batalha. E então um dos demônios caiu, vitimado por um raio fulgurante que brotou do céu, trespassando-o. Os demais alçaram voo e partiram, rápidos.

Hal voltou, ofegante.

— Acho que minha resposta para esta pergunta já esta dada, até certo ponto. Toda literatura é de um gênero ou outro. Enquanto me distancio de uma etiqueta de categoria de marketing, não vou proclamar que meu trabalho não seja Ficção cientifica/fantasia, apesar de que, para ser honesto, não considero estes rótulos particularmente significativos para o campo de ficção estranha. Há uma comunidade lá da qual sou feliz em participar e que não quero ofender – a não ser que seja como um participante lutando contra a falta de senso tribalista, não querendo ver definições ligadas àqueles rótulos fechados com o intuito de excluir toda a porcaria maluca que cresci vendo como ficção cientifica. Quer dizer, há algumas tribos que insistem nas mais bitoladas definições, e se este pensamento vencesse no final do dia eu daria com os ombros e os deixaria de lado, mas preferiria que isso não acontecesse. Eu poderia ver minha própria marca de camisas esquisitas sendo vendidas sem as etiquetas por decisão da editora, mas ainda estaria pensando e falando sobre elas como ficção cientifica.

Hal respirou fundo, jogou a clava para o lado e se sentou, apoiando as costas contra uma pedra. Fiz o mesmo. Ela estava quente, o ar quase irrespirável. Um coração solitário batia a alguns metros de nós. Sem corpo, sem sangue, sem nada. Só batia, num ritmo compassado e aparentemente calmo.

— Se eu tenciono mudar o tipo de coisa que escrevo, para fazer trabalhos que não sejam ficção estranha? Bom, eu tenho um script que é basicamente um filme colegial, sem nenhuma daquelas esquisitices que você encontra nos meus contos e romances, então quem sabe que tipo de coisa pode acabar sendo de meu gosto mais para frente? Tenho gosto eclético, e meio que gosto de experimentar o atípico em meu próprio trabalho – escrever um musical aqui, um filme colegial acolá, e, claro, poesia. Eu meio que gosto da ideia de trabalhar em tantos gêneros quantos me venham a mente. Então não refuto a possibilidade de, de repente, fazer algo puramente realista. Mas também não acho que isso seja provável. Realismo contemporâneo é limitado por definição, excluindo o estranho. É propositadamente excluir um conjunto de ferramentas literárias, limitando-se ao mimético. É como retirar as cordas do seu violão, deixando apenas uma e eu não consigo imaginar o porquê de eu querer me restringir dessa forma. Quer dizer, como um único experimento no minimalismo da pura mimese, claro; mas como um compromisso de abordagem por um período de tempo? Foda-se esta merda. Você pode ser realista sem ser puramente realista. E não ser puramente realista significa que você pode fazer uma caralhada a mais do que os Realistas Contemporâneos tem se limitado a fazer.

Ele silenciou. Fiquei quieto, também. Olhando ao redor. Escutando o retinir distante, resultado de batalhas esparsas que pareciam nunca acabar.

— Você não vai matar nenhum anjo? – perguntou-me, de repente.

— Não – respondi tentando aparentar tranquilidade. – estou sem saco de estourar miolos, agora.

— É divertido. Deveria tentar.

— Noutra ocasião, talvez.

— Te empresto minha clava, se quiser.

— Obrigado pela honra! Vou me lembrar disso quando resolver fazer uma chacina no paraíso.

Ficamos calados de novo. Uma pena de luz desceu lentamente e caiu diante de mim, bem em frente de meus pés. Ia pegá-la, mas evanesceu ao menor toque.

— Nem um nariz quebrado, nem uma perna arrancada? – insistiu Hal.

— Depois. Ainda tenho mais duas perguntas. Responda-me a próxima e vamos matar o que nos aparecer pela frente, ok?

— Ótimo! Assim que se faz, Tibor. Pergunte!

— Fala-me a respeito de Vellum e Ink, romances não conhecidos no Brasil. Como surgiu a ideia de escrevê-los e como tem sido o retorno de suas publicações?

— A fagulha inicial foi um incidente na biblioteca da universidade de Glasgow quando eu ainda era um estudante cheio das noções de Necromicon de Lovecraft e do Book of Sand (Livro de areia) de Borges na minha imaginação. Eu havia feito uma pesquisa “perda de tempo” sobre Nostradamus e descobri que a biblioteca tinha uma cópia na “Ferguson Special Collection” (Coleção especial Ferguson) que eu sabia estar no subsolo, mas nunca havia visitado. Então fui até lá e dei de cara com uma atendente sentada sozinha nesta sala sombria cheia de estantes de livros tapadas com vidro. Ela claramente não recebia muitos visitantes, e então, estava muito disposta a ajudar, e assim que disse o que estava procurando ela foi a uma saleta dos fundos e voltou com um enorme tomo de capa de couro. Ela tinha me dado uma ficha para preencher com o nome do orientador e tudo mais, então eu estava meio que cagando nas calças a essa hora, porra, eu havia ido até lá apenas por curiosidade. Veja bem, o livro precisava ser guardado em travesseiros de espuma. Ela me deu luvas de pelica para manuseá-lo. E quando abri o artefato de valor inestimável, com suas páginas amareladas pelo tempo – e estamos falando de um manuscrito aqui – eu tive a plena certeza de que não tinha a menor razão válida para ficar mexendo com ele.

Hal pegou a clava e a posicionou mais próxima dele, bem junto ao quadril. Esticou uma das pernas, chutando um fêmur solto por ali.

— Tudo que pude fazer foi ficar lá, sentado por uns quinze minutos, folheando e fingindo que fazia anotações em meu caderno, como se realmente o estivesse estudando. Mas conforme olhava para aquele totalmente inescrutável tomo, meio que fiquei impressionado por ele, pelo mistério do seu texto, o couro de sua capa, a textura das páginas. E ali, de alguma forma, me veio esta ideia de que se ficção de fantasia tem seus objetos de poder – espadas mágicas e coisas do tipo – com certeza o derradeiro objeto de poder quando se trata de qualquer fantasia era o livro onde a história havia sido escrita. Aquela fagulha ficou e se tornou a ideia para o derradeiro Livro das Horas – aqueles livros de escrituras e sermões para duques e príncipes, dividindo o ano em meses, dias, horas do dia, com textos apropriados para cada período. Isso se tornou o Livro de Todas as Horas, um tomo fictício contendo tudo já escrito e tudo jamais escrito – porque teria que conter o texto apropriado a todos os momentos possíveis, certo?

Então Hal abaixou-se de repente, me obrigando a fazer o mesmo. Tarefa complicada quando estamos sentados. Meio que caí de lado, batendo o ombro no chão e manchando a camisa com sangue. Um raio de luz perdido, provavelmente ricocheteado resvalou num monturo e veio direto para a rocha onde estávamos. Não sei como Hal viu ou antecipou o acidente, mas agradeci aos infernos pela pronta reação dele.

Mesmo com o coração aos saltos – o meu e não aquele que batia solitário à nossa frente –, aprumei-me enquanto ele fazia o mesmo, continuando o raciocínio anterior.

— Passei dez anos sem perceber que estava escrevendo Vellum e Ink na verdade, trabalhando com todos estes contos e noveletas que se sucediam em termos de tema e personagens e tropo como este livro. Foi só quando havia escrito o que hoje é o prólogo do Vellum – que se referia diretamente àquele incidente – que todo este material começou a se juntar no que seriam os dois romances. Em termos de resposta, tem sido sensacional. Não sei como eles têm se saído em alguns países – não tenho muito contato com a editora da publicação em espanhol, por exemplo – mas em alguns mercados fui surpreendido. Puxa, eu nunca esperei que ele seria escolhido por editoras como a Macmillan no Reino Unido, Del Rey nos EUA, então quando ele começou a decolar e os direitos de tradução começaram a ser vendidos, foi completamente surreal. E onde obtive contato com editoras ou diretamente com os leitores… Tem sido incrível vê-lo decolar. O lançamento da edição em Finlandês na Feira de Livros de Helsinki foi um ponto alto. O livro esgotou duas vezes enquanto eu estava lá e quando deixei o país já estava indo para a segunda edição. E claro, o fandom finlandês é incrível, então aquela semana toda foi demais.

Respirou fundo, soltando o ar num sopro ruidoso e bateu as palmas das mãos, saltando de pé. Estava radiante.

— Pronto! Agora você vai sentir a maravilha que é esmagar uma cabeça!

Levantei-me, esticando as calças sujas. Observei o relógio quântico de relance. Hal ergueu a clava e a entregou para mim. Era pesada e eu mal pude segurá-la, quando mais erguê-la acima de minha cabeça. Mas precisava dar continuidade à farsa. Ele me mostrou um ponto difuso ao longe, onde uma refrega parecia ocorrer.

— É a sua chance. O Anjo, lá, está em desvantagem.

— Vamos juntos – eu disse, incentivando-o. – Preciso de meu mestre para me dar confiança.

Ele sorriu, compreensivo. Deu-me tapinhas no ombro e então soltou um brado de guerra que eu imitei. Arrancamos numa corrida insana, driblando moribundos e saltando poças sulfurosas. Num dado momento larguei a clava e apertei o botão do relógio lançando-nos de volta à nossa própria realidade.

Não havia outra pergunta. A entrevista já havia se encerrado.

Hoje Hal Duncan não responde aos meus emails. Compreendo que esteja bravo comigo, mas creio que acabará entendendo que fiz o certo. Enganá-lo não foi nada bonito, mas terão que concordar: foi necessário!

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6 Respostas to “De Bar em Bar entrevista Hal Duncan”

  1. Simone Saueressig Says:

    Tibor! Sensacional! Tentar dizer outra coisa é ser redundante! Abraços,

    Simone

  2. Brontops Says:

    Bom, a Simone me perdoe, mas preciso ser redundante e, pior ainda, repetitivo: Ficou sensacional.

    Atiçou minha curiosidade: certamente, não existe nada dele publicado em português, certo?

    Abs

    • Tibor Moricz Says:

      Certo, Brontops. Tanto Vellum quanto Ink, seus dois romances, só podem ser encontrados lá fora. A Amazon é uma boa possibilidade. Capaz de encontrar na seção de livros usados da Amazon por um excelente preço e em ótimo estado de conservação.

  3. Daniel Moricz Says:

    Vou compra-los… fiquei curioso após traduzir a entrevista dele.

  4. Cirilo S. Lemos Says:

    Essas entrevistas são sempre divertidas.

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