Portal 2001 – Lido e comentado.

Ter recebido todos os cinco portais tem sido uma honra que devo a Nelson de Oliveira, a quem agradeço pela enorme generosidade.

Recentemente me inquiriram sobre os dois primeiros (Solaris e Neuromancer) e se eu os tinha lido e comentado aqui no blog. Até pensei que tinha e fui procurá-los. Com surpresa descobri que, embora os tenha lido, não os resenhei.

Fica para uma próxima encarnação, então.

Perguntaram-me também porque ainda não tinha publicado nenhum conto nos portais. Respondi que até ia publicar no Neuromancer, mas problemas financeiros súbitos me impediram. Depois acabei desistindo por optar em manter um comportamento único para todas as coletâneas pagas. Ou seja: se tenho que pagar, então não participo.

Isso não tem nada a ver com qualidade editorial ou literária. Nem se se trata de coletânea caça-níquel ou não. Apenas critério.

Quanto ao Portal 2001, recebi e o li quase numa só tacada (tá, uma tacada que demorou uns cinco dias… rs). Gostei bastante desse, talvez mais que dos demais. Ainda assim há contos que não conseguiram dialogar comigo, nada tiveram a me dizer. Assim, ignorarei a esses, não os comentando (Não significam que sejam ruins, embora alguns sejam, sim, eca!). Poupo o meu vernáculo e poupo a integridade intelectual do autor.

Vamos aos meus comentários:

A república do recurso infinito – Braulio Tavares.

Braulio Tavares é hoje uma unanimidade nacional (por mais que toda a unanimidade seja burra, segundo Nelson Rodrigues). Dono de uma verve excelente e admirável criatividade. Nesse conto ele consegue ser bastante desconcertante. A excelência levada à enésima potencia fragmenta a sociedade em compartimentos cada vez menores e burocraticamente controlados. Traz como resultado a opressividade do controle estatal sobre o indivíduo.

Arribação rubra – Roberto de Sousa Causo.

O conto é um prosseguimento de trabalhos anteriores, publicados desde o primeiro Portal. Shiroma é a protagonista, uma agente mortífera e arduamente treinada. Assassina, trata-se de uma ferramenta eficaz nas mãos de tutores inescrupulosos. Dessa vez vi uma personagem mais falível. Não tanto inatingível ou implacável. O autor revelou que por trás da carapaça de eficácia se esconde uma mulher frágil e com anseios bastante humanos. Shiroma mesmo sob um aparente fracasso, completa sua missão de forma bem sucedida. Gostei muito da ambientação e do cenário. Dos contos do Causo com essa protagonista, o melhor até agora.

A paz forçada – Mayrant Gallo.

Nesse conto, o autor explora um futuro próximo onde questões políticas aparentemente insolúveis entre países, são resolvidas com pulverizações continentais. Mostra um avanço científico e tecnológico irreal para daqui a 30 ou 40 anos. Narrativa fluida e até contagiante, porém superficial. Mostra uma nova ordem mundial geopolítica numa abordagem muito periférica.

Além do espelho – Claudio Parreira.

Bebum numa mesa de bar devaneia ou vive uma realidade que só ele é capaz de atingir. Homem desesperado pela perda da mulher a quem amava faz trato com figura misteriosa, fruto do entorpecimento de seus sentidos ou entidade fantástica. Realidade e fantasia se misturam de forma que somos incapazes de dizer qual delas domina o cenário.

Sentinela – Delfin.

Avanço científico e tecnológico permite ao homem criar clones de si mesmo, estéreis, porém. O que não se poderia supor é que essa criação se tornasse independente, reivindicando direitos que antes não possuía. O problema se torna tão emblemático que apenas a guerra poderá resolver. É quando soluções alternativas são elaboradas. Boa narrativa de viagem no tempo, linguagem consistente e boa solução, embora relativamente previsível.

Herdeiro dos ventos – Mustafá Ali Kanso.

Esse conto me surpreendeu. Bela e poética narrativa sobre a necessidade de ser livre nos atos e pensamentos, sem patrulhamento ideológico e sobre a prisão que os incompetentes, os invejosos, os frustrados e os amargos constroem ao redor daqueles que buscam a realização pessoal.

Uma carta para Guinevere – Mustafá Ali Kanso.

Homem em vias de realizar uma viagem espacial e se ausentar da Terra por séculos em voo subluminar redige a derradeira carta aos que ama. Poético como o anterior, mas não tão intenso nem tão deslumbrante.

Planetas invisíveis: Diana – Brontops Baruq.

Em fuga de crises sucessivas, povo encontra na miniaturização a solução para seus problemas até que o verdadeiro problema se torne a miniaturização. Cenário fascinante que mereceria um trabalho mais longo. Uma novela ou um romance. Criativo e admirável.

Rebobinados – Brontops Baruq.

Presidiário enviado em viagem de 1.800 anos junto a um maníaco sexual. Luta diuturna para manter a integridade física. Interessante (embora absurda) concepção de longevidade para que os protagonistas terminem a viagem ainda vivos. Bem conduzido e construído.

Prometeu acorrentado reboot – Sid Castro.

Nave terráquea encontra planeta gigante com fascinante estrutura de vida. Boa condução embora tenha sido bastante previsível. A complexidade científica apresentada escapa ao meu conhecimento.

Novo Início – Marcelo L. Bighetti.

Esse conto mexe com argumentos difíceis de deixar de lado, pelo menos para mim. Nazismo, ufologia e viagem no tempo. Trata-se por isso, de um trabalho com o condão de me prender na poltrona, logo nas primeiras linhas. Por outro lado, o autor comete alguns pecadilhos. Um deles é o de entregar o final do conto logo na quarta página, tirando qualquer surpresa do leitor. Outro se vê na aparente necessidade de enxugar o texto. Coisas ficaram mal explicadas, como, por exemplo, o que a descoberta de um disco voador com tripulantes moribundos tem a ver com uma passagem temporal (ou buraco de minhoca). O autor não explica como os cientistas chegaram às suas conclusões. Também ignora as inúmeras possibilidades de alteração de passado que redundariam em futuros os mais díspares e não apenas naquele que encerra o conto. Assim, embora o argumento seja fascinante, faltou a ele maiores explicações para que tivesse mais consistência. Como uma parede de tijolos sem argamassa. Qualquer esbarrão e vai tudo por terra.

Contato alpha 9 – Rodrigo Novaes de Almeida.

Esse conto me fez lembrar vagamente de O túnel do tempo pelo estilo de narrativa. Observadores externos assistem momentos históricos extraídos dos sonhos de humanos. Buscam por um artefato com o poder de destruir toda a galáxia. O conto traz coordenadas geográficas que tive a pachorra de verificar. Não são aleatórias (Que cada leitor faça a mesma verificação e descubra a que lugares representam). Segue um bom ritmo.

Neve e sanduiches, A gruta de Vênus, Eblon, Mãos de borracha – Maria Helena Bandeira.

Os quatro contos seguem os mesmos parâmetros dos trabalhos anteriores dessa autora. Com um pouco menos de hermetismo, talvez, mas ainda demonstram o desinteresse numa história linear, com começo, meio e fim, perfeitamente delineados. Isso não é ruim. A autora brinca com situações cotidianas em cenários alienígenas ou não, cenários bizarros ou fantásticos, mas cientificamente alterados indicando um tempo (ou realidade) além do nosso. Não são particularmente bons, mas também não são particularmente médios (ruins não são). Me deu aquele gosto de gostei/não gostei tanto. Na necessidade de classificar, opto então por um bom.

Primeiro de abril: Corpus Christi – Luiz Bras.

Cidade autoconsciente sofre ataques que visam penetrá-la, compreendê-la e, se possível, neutralizá-la. A história confusa, alegórica e aparentemente sem sentido me obrigou a erguer a suspensão de credulidade e passar a lê-la como um texto de fantasia.

Futuro do pretérito Ricardo Delfin.

Narrativa muito interessante, inteira no futuro do pretérito. Remete-nos a uma espécie de fast forward antecipando acontecimentos futuros dramáticos. Nada a ver com FC (pra mim), tem os dois pés no fantástico.

Gazeta marciana – Ricardo Delfin.

Notícias de uma Marte futurística onde o homem já a colonizou e nela construiu suas cidades. Ambiente curioso embora nada muito diferente daquilo que vivemos agora. A existência de uma civilização marciana nativa desloca o conto da FC para a fantasia, descaracterizando o cenário.

Amor perfeito – Rogers Silva.

Ode ao amor entre dois antagônicos pós-apocalipse permite inúmeras reflexões. Narrativa de orações extensas e que nos obriga a uma leitura atenta. O risco de se perder entre os dois narradores é grande. Texto muito bem trabalhado, embora eu creia que se prolongue demasiadamente, tornando-a cansativa.

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10 Respostas to “Portal 2001 – Lido e comentado.”

  1. Saint-Clair Stockler Says:

    Gosto muito dos contos da Maria Helena Bandeira – que foi quem me deu um exemplar deste Portal de presente (Thanks, MHell!).

    Aliás, aproveitando, deixo um apelo público: MHell, tenho absoluta certeza de que você já tem material contístico pra mais de uma obra. Por favor, junte aqueles que você considera os melhores e faça um livro!

  2. Jota Says:

    Acho injusto não comentar ou sequer dar nota aos contos que não gostou. Sob essa desculpa de “Poupo o meu vernáculo e poupo a integridade intelectual do autor.” fica com cara de querer proteger intereses de amigos, pois em outras resenhas não foram poupados a integridade de ninguém. Uma pena, pois acaba perdendo a credibilidade…

    • Tibor Moricz Says:

      Os poupados não são meus amigos (com exceção de um, o Braulio Tavares). Se eu poupo os autores dessa vez é porque já cansei de dar murro em ponta de faca com as mesmas pessoas de sempre. Mas se você quer explicitações, vamos a elas:
      1- Marco Antonio de Araújo Bueno. Ao final dos contos escrevi: QUE PORRA É ESSA? ECA!
      2- Daniel Fresnot. Ao final dos contos, escrevi: QUE PORRA É ESSA? ECA!
      3- Rodrigo Novaes de Almeida. Ao final do conto, escrevi: QUE PORRA É ESSA? RUIM!
      4- Braulio Tavares. Ao final do conto não escrevi nada. Afinal, não entendi nada dele. RUIM!
      Melhorou um pouquinho agora?

      • Jota Says:

        Mas ficou essa impressão. Afinal: porque nessa coletânea allguns fporam poupados, e em outras coletâneas não?

      • Tibor Moricz Says:

        Verifique edição da resposta anterior.

  3. Parreira Says:

    Quelospariu! Juro que comecei a ler este post com medo, muito medo, afinal é a primeira vez que vejo um conto meu tão exposto e submetido a tantos leitores rigorosos. Logo de cara pensei que não ia nem ser comentado. Pero me enganei. E, pra quem está começando, um “bom” soa tão bem quanto um “uau!”.

  4. Nelson de Oliveira Says:

    Gosto de pensar que os portais formam uma coleção borgeana de espelhos muito diferentes. E leitores diferentes cedo ou tarde acabam encontrando um ou mais reflexos interessantes, entre outros desinteressantes. Essa diversidade me agrada muito. Como leitor, e também como organizador, sou fã absoluto dos contos da Maria Helena Bandeira, e concordo totalmente com Saint-Clair. Várias vezes já disse à autora: organize uma coletânea, publique esses contos, são excelentes. Se um editor se interessar pelo projeto, tenho certeza de que a Maria Helena vai se animar a organizar o livro.

  5. Helena Says:

    Bom, estou me sentindo com estes elogios do Saint e do Nelson, dois autores que admiro e duas pessoas que amo. Só não me sinto mais porque sou absolutamente insegura e talvez por isto, embora tenha material, ainda não tive coragem de procurar uma editora. Quem sabe, o toque de vocês me ajude a sair da toca?

    Quero aproveitar e agradecer ao Tibor pelo Bom no geral ( partindo dele é um grande elogio hehe) e por comentar os livros brasileiros. Eu o admiro por este gesto de respeito com os nossos escritores.

    Saint e Nelson, repetindo: amo vocês!

    Helena

  6. Rogers Silva Says:

    Que bom que há leitores como o Tibor Moricz – crítico, honesto e – dentro do possível – independente.

    No mais, acho que a avaliação geral da coletânea “Portal 2001” está muito melhor do que muitos outros livros comentados por aqui…

    Abraços.

    • Tibor Moricz Says:

      Com certeza, Rogers. E digo aqui que esse Portal foi o melhor de todos já publicados nessa série organizada pelo Nelson.

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