“Sense of wonder” e malabarismo estilístico.

O diálogo abaixo surgiu após um comentário do Saint-Clair na postagem anterior. Exemplifica a maneira como interpreto as narrativas herméticas que pouco ou nada me acrescentam. Não acredito no sense of wonder pelo sense of wonder. Ele não serve como justificativa para si mesmo.

Todos sabem (pelo menos deveriam saber) que escrever fácil é muito difícil. Entendam como fácil uma historia (estamos falando de literatura de gênero) compreensível, com argumento inteligente, boa prosa, gramaticalmente correta, fluida, bem construída, que arrebate o leitor, que o transporte. É isso, afinal, que ele quer ao ler histórias com enredo.

Ah, mas literatura de gênero precisa de enredo, necessariamente? Eu acredito que sim. Senão não seria “de gênero”. Malabarismos linguísticos só são interessantes para uma pequena parcela de “iniciados”.

Tudo bem que o enredo não precisa ser linear. Pode ter uma elaboração que a torne única ou destacada entre as narrativas mais tradicionais. Mas isso ainda não tira dela a obrigação de interagir com o leitor, levando a leitura a uma conclusão satisfatória.

Tibor:

Eles escrevem bem, sim. Mas me incomoda que tentem escrever usando malabarismos estilísticos. Literatura de gênero é, apesar da redundância, literatura de gênero. EXIGE argumento, EXIGE enredo. Ignorar isso é tentar fazer um mix com o malabarismo circense de parte da literatura maisntream. Ambos ficam corrompidos nessa tentativa. Tanto os leitores do realismo vão torcer o nariz pro trabalho, quando os leitores do gênero. O que parte desses autores acaba fazendo é uma narrativa mainstream com pitadas de terminologia científica. Em vez de FC acabam criando um gênero híbrido que não tem a ver com nada. Uma espécie de Quasímodo literário.

Saint-Clair Stockler:

Mas você não acha que pode haver outro caminho pra literatura de gênero? Não desconsiderando o que você falou (com o que concordo inteiramente), não pode haver por aí fora alguém que faça malabarismos estilísticos e, ainda assim, seja escritor de gênero?

Tibor:

Posso aceitar esses malabarismos se eles conseguirem se justificar na trama e não como demonstração da habilidade do autor, num excesso de egocentrismo idiota. Tem gente que exagera, pô.

Saint-Clair Stockler:

Mas acho que empregam essa técnica para criar o sense of wonder nos leitores.

Tibor:

Eles tentam forçar o sense of wonder nos leitores. Há maneiras de conseguir isso sem apelar para malabarismos. E, convenhamos, se só nos malabarismos esse sense of wonder é alcançado por eles, temos aí um grande problema, não acha?

Saint-Clair Stockler:

Mas eu não estou dizendo que TODO escritor de ficção de gênero tem que fazer assim. O normal é fazer como você disse. Mas não podemos admitir algumas exceções?

Tibor:

Claro que as exceções são admissíveis. Só não podem exigir que eu, apesar de admiti-las, ainda tenha que gostar delas. Mas respeito quem, como você, gosta. Existem autores que conseguem atingir o sense of wonder sem apelar para malabarismos e a esses eu respeito muito mais. Leu o conto do Cirilo no Imaginários 3? É um bom exemplo sobre o que estou falando. Conseguir surpreender o leitor com uma história arrebatadora e bem contada é muito mais difícil do que criar cenários bizarros, personagens misteriosos, prosa criptografada e diálogos sem pé nem cabeça (cenários bizarros e personagens estranhos por si só, podem ser ingredientes de ótimas histórias). Tem gente que lê esses malabarismos e tem orgasmos. Eu tenho vontade de rasgar as páginas.

E não, o Saint-Clair ainda não leu o conto citado por mim. Se você também não leu, faça um favor a si mesmo e leia!

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19 Respostas to ““Sense of wonder” e malabarismo estilístico.”

  1. Ataíde Tartari Says:

    Uma expressão comum entre os críticos gringos é “agarrar o leitor pela lapela”. O escritor que consegue fisgar o leitor com essa intensidade é reverenciado. Aqui é mais comum reverenciarem quem escreve em hieroglifos. No meu caso, sempre procurei por estilos de prosa que me arrebatassem, que me agarrassem pela lapela. Eu dou valor a isso, as vezes mais do que ao enredo. E definitivamente não tenho saco — nem graduação em Letras — pra interpretar hieroglifos.

  2. Saint-Clair Stockler Says:

    Acho que assim como há diversos tipos de autores, também há diversos tipos de leitores. E creio que, assim como eu não teria nada contra uma ficção de gênero mais “hermética” ou “sofisticada”, também deve haver outros leitores que também não teriam nada contra.

    Continuo achando que primordialmente – mas não exclusivamente – a ficção de gênero tem que ter uma escrita límpida como cristal, que não perturbe o leitor para que ele possa apreciar a história, o enredo, o plot (ou como se quiser chamar). Mas também continuo achando que toda regra pode e deve ter suas exceções. Uma vez falei isso numa comunidade do Orkut, e repito-o agora: acho que seria legal que a Ficção Científica ou a Fantasia tivessem o seu James Joyce.

  3. Antonio Luiz Says:

    Acho que o “malabarismo estilístico” pode ser usado a favor do conteúdo e do sucesso geral do conto. Um exemplo é o “Protagonistas e Figurantes” do Luiz Brás no Cyberpunk da Tarja: a narrativa incomum, em segunda pessoa, junto com outros jogos, reforça a estranheza e modernidade do cenário e a complexidade (até filosófica) da situação.

    Mas também poderia citar exemplos negativos, inclusive do próprio Luiz Brás. Como o “Déjà-Vu” na Contos Imediatos da Terracota, que usa um estilo incomum para o gênero, fluxo de consciência, mas conta uma história de aventura militar que, para mim, não combinou nada com esse formato. Em vez de se reforçar, forma e conteúdo se anulam mutuamente, ao meu ver.

    Eu gosto de usar linguagem de época ou regional quando acho que combina com o tema e o cenário, como sabe quem leu os meus contos. Sempre com a ideia de enriquecer a experiência, de torná-la mais real e completa. Assim como escolher a trilha sonora certa para uma cena no cinema ou o molho mais adequado para o prato.

  4. Paulo Fodra Says:

    Tibor, eu concordo com o seu ponto de vista. Textos simples e objetivos são bem mais difíceis de fazer.

    Como leitor, acredito que a essência de um texto seja a trama, Também acho que uma trama boa não isenta o autor de caprichar na forma. Eu procuro textos que me façam vivenciar emoções que não são minhas. Que me transportem, como você bem disse. Tenho encontrado muitos textos que pretendem ser, mas não são, narrativas. Contos que não fecham – e por fechar não me refiro a uma conclusão ou explicação dos fatos, mas sim a uma intenção fechada. Não levam a lugar nenhum.

    Como escritor (ainda que iniciante) sei que existem diversos recursos estilísticos e linguísticos que podem trabalhar a favor de uma história, ajudando a transportar o leitor para onde se deseja. Mas, se usados sem intenção ou critério, podem diluir a trama até fazer o leitor perder o foco, o raciocínio, a trama.

    Concluindo, acredito que hermetismo e malabarismos afins só são válidos se servirem a um propósito. E sabedoria e destreza ao aplicá-los anda bem rara por aqui.

  5. Ataíde Tartari Says:

    Apesar de me faltar uma pedra de roseta, eu já intrepretei algumas coisas hieroglíficas do Jean Baudrillard (filósofo pop que inspirou Matrix). Também interpretei o Breve história do tempo, do Stephen Hawking, mas neste caso eu tinha uma pedra de roseta fornecida pela leitura de Asimov, Clarke, Sagan, etc. Tudo isso pra dizer que concordo com vc, Saint, que exceções são importantes. Como na democracia, onde as minorias não devem nunca ser… extirpadas

  6. Zeugma Says:

    Eu não sou crítico profissional, então não tenho muita certeza do que direi a seguir:

    Outro dia fiquei pensando sobre esta questão de hermetismo e etc. Não sei se é a mesma coisa, mas fiquei imaginando se não é a mesma coisa que aconteceu/acontece nas artes visuais.

    Com o advento da fotografia, a arte realista foi perdendo “criadores” e o pessoal começou a procurar vias menos… er… “diretas” de representação. A ideia não era mimetizar a realidade, mas representá-la por outros meios… Começou com impressionismo, expressionismo, depois cubismo, futurismo… até ficar cada vez mais abstrato.

    Penso eu, se com o cinema e as televisão, algo parecido não aconteceu com a literatura. De forma mais branda, sem dúvida. Porque uma história visual usa muito mais de argumento e enredo… Aspectos estilísticos podem acabar encobertos por uma boa história. Li uma crítica do Inácio Araújo “contra” o Fabuloso Destino de Amelie Poulain que era justamente esta: uma boa história contada de forma absolutamente “quadrada”.

    Então, se o argumento e enredo ficam mais evidentes e são mais “narráveis” em filmes e cinema, será que a literatura não começou a procurar estas outras formas de se expressar pelo mesmo motivo?

    Daí alguns gêneros serem particularmente desfavorecidos no formato literário e outros serem beneficiados… Terror, suspense, policial, são favorecidos: por mais rápido que se leia, vc acaba sendo subjugado pela velocidade de leitura dos parágrafos e pela expectativa do que está acontecendo…

    Ficção Científica – penso eu – acaba sendo desfavorecido: um ambiente “Blade Runner” e “Minority Report” não é muito mais facilmente absorvido em cinema do que na literatura? Será que isto não favorece o surgimento de “experimentos” (herméticos ou não) na ficção científica?

    Abs

    • Tibor Moricz Says:

      Se considerarmos a FC um gênero menos ágil que o Terror, suspense e policial (não concordo inteiramente), seria de se supor que a busca fosse no sentido de fazê-la interagir com o leitor de forma mais harmônica, dando a ele uma rápida compreensão da narrativa. Assim, os hermetismos funcionariam às avessas, tornando o gênero ainda mais distante de seu público. Acho curioso que atualmente exista uma preocupação cada vez mais adjacente dentro da literatura mainstream com o enredo. Justamente quando começam a dar os primeiros passos (ainda no campo da discussão) na procura de tramas mais ricas, outros escritores, na contra-mão, insistem em manter-se no clube do bolinha, lidos por seus pares e mais ninguém.

  7. Daniel Moricz Says:

    Bom não sou escritor, nem entendo patavina (como dizia minha vó) de jargões literários… mas tenho graduação em letras… hauhahu
    Brincadeiras a parte, acredito que para todo o tipo de gênero ou não gênero, o enredo se faz essencial. Li a pouco tempo um livro de contos onde o autor, apesar de talentoso no meu ponto de vista acabou escrevendo um livro extremamente inútil e irrelevante onde as histórias pareciam começar e acabar no meio do nada. Não me causou nenhum tipo de sense of wonder, se eu entendi bem o que significa.
    Sabe, o que realmente importa, acredito eu, é fazer com que o leitor se prenda a história, se identifique com ela, queira ser o protagonista, ou o vilão. Que ele ame o que está lendo. E para isso, o conteúdo, e só o conteúdo é o que vale. A maneira de escrever, a simplicidade ou elaboração, tudo isso são ferramentas… mas no fim, o conteúdo é o principal.
    Particularmente, gosto de histórias que fluem, com texto simples, que não nos obriguem a ler com um dicionário ao lado.
    E acho que para que isso aconteça, o autor também tem que estar apaixonado pelo que está escrevendo. Escrever porque tem vontade de ser escritor e não porque ama sua história é um começo mais do que errado acredito eu. E tentar impressionar devido ao vocabulário e não pelo texto um erro maior ainda…
    Por isso ainda não escrevi nada!

    • Tibor Moricz Says:

      Um pouquinho de dicionário também é bom, Daniel. Ajuda a gente a melhorar o nosso vocabulário. 🙂

      • Daniel Moricz Says:

        Ah sim… use com moderação. O exagero é que incomoda.
        Quando o vocabulário elaborado é natural, faz parte do vocabulário ativo do autor, isso não influencia no quanto o texto flui.

  8. Afonso L. Pereira Says:

    Também fico com a questão do enredo fluir de forma clara, sem experimentações estilísticas complicadas demais ou que estas venham em primeiro plano. Os enredos, claro, também não precisam ser tão diretos quanto são as história de Asimov, por exemplo, que sempre foi acusado de não “esmirilhar” estilisticamente seus contos, porque ele era um exímio contador de histórias, mas daí você tentar viajar “visualmente” em algo abstrato demais ou que venha exigir esforços para entender ou “advinhar” onde o autor quer chegar, hum… sinceramente, pra mim não dá, não.

    A literatura de gênero é interessante porque ela centra o seu foco no leitor, o autor escreve pensando em “mexer”, causar emoção e não exigir dele “a emoção estilizada” do autor. No entanto, discordo um pouco do Tibor. Acho que buscar, por vezes, um meio termo entre a literatura “mainstrean” e de gênero, não faria mal algum pra quem quer ver a literatura de gênero mais respeitada entre os críticos de literatura de modo geral. Nada de extremos, sempre o meio termo.

    • Tibor Moricz Says:

      Aha! Mas aí é que está. Não estou querendo afastar a literatura de gênero da mainstream. Sou um dos maiores defensores da preocupação com a forma. Muitos de nossos escritores de gênero, como já disse o Braulio Tavares, se deixam fagocitar pela ideia e esquecem de contar bem suas histórias. O que me aborrece é o exagero, é a pantomima, é o abstrato elevado à enésima potência, tirando dos leitores comuns qualquer pretensão de entendimento da obra. E discordo do Saint quando ele diz que a literatura de gênero precisa de um James Joyce. Sinceramente, Joyce é uma droga! Um meio termo entre King e Joyce estaria no ponto (nem tanto ao céu, nem tanto à Terra).

      • Daniel Moricz Says:

        Ai concordo com você 100%… o exagero é que perturba e ao invés de enriquecer empobrece a obra.

  9. Zeugma Says:

    Eu já não sou tão anti-“malabarismo”.

    Afinal, nossos sonhos (sonhos mesmo, aqueles que a gente tem dormindo) não primam por histórias elaboradas, com começo, meio e fim, e, entretanto, acabam por provocar reações emocionais vívidas.

    Mas concordo que, por trás do malabarismo, pode não haver nada relevante a ser contado.

    Por outro lado, às vezes, temos uma história bem estruturada, construída, etc, que simplesmente não nos diz nada. É como aquela piada que acabou, damos risada e não nos faz pensar, não nos faz refletir… Acaba ali.

    Particularmente, acho que uma história pode ser escrita de forma mais delirante ou de forma mais “quadrada”, desde que consiga inquietar.

    Outro dia, houve uma discussão aqui sobre o que torna o texto relevante. Eu também não sei o que é, como definir, se há uma “fórmula”… Talvez varie de pessoa pra pessoa. Talvez não: estamos em um tempo onde somos levados a crer que inexistem interesses coletivos.

    Mas acho isto mais importante. Vai ver o difícil de escrever esteja nisso: uma forma ideal de contar que corresponda e transmita esta ideia/ideal relevante por trás da história. E se você não experimentar, nunca sairá do A+B (que é difícil de ser bem feito, mas também não deixa de ser uma fórmula).

    • Alvaro (Pai Nerd) Says:

      Sonhos e arte surrealista não são “sem pé nem cabeça”. Consegue-se uma interpretação psicanalitica que “coloca as coisas no lugar” (não precisa nem ser freudiana). Um filme absolutamente onírico, Giulieta dos Espiritos, tem um enredo excelente.

  10. Alvaro (Pai Nerd) Says:

    Tem uam coisa que um crítico de artes plásticas disse sobre a arte comtemporânea. Se algo tem que ser explicado para que possa ser entendido, não é arte. Creio que cabe no que o Tibor disse.

  11. Daniel Moricz Says:

    Penso diferente…. se algo tem que ser explicado para que possa ser entendido é porque é esquisito.

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