Solarium 2, lido e comentado

Recebi a coletânea Solarium 2, contos de ficção científica, de Matheus Quinan. Publicada pelo Multifoco e organizada por Frodo Oliveira, essa coletânea gravita no mesmo horizonte de eventos de outras coletâneas semelhantes. Reúne 25 autores num único objetivo: escrever histórias que consigam fugir da mediocridade geral.

Na orelha do livro está escrito que a proposta da obra é apresentar novos autores, fazê-los desenvolver seus talentos, que aprendam a tomar gosto pelo gênero. Dessa forma me parece inapropriado que o livro seja vendido. Deveria ser gratuito. Porque pagar pra ler contos sem um nível médio de qualidade que justifique a publicação é masoquismo.

Há contos bons nele? Claro que sim. Mas dessa vez nenhum que tenha me arrancado um “UAU!”. Por outro lado, os “ECAS!” Abundaram.

Vamos lá:

A ascensão de Maya – Ronaldo Luiz Souza – MÉDIO

O conto começa mal, com um diálogo tão desastroso quanto parece ser o Imediato que troca impressões com o Capitão da nave. A aproximação de um com o outro ocorreu de maneira tão espalhafatosa que pensei se tratar de uma comédia. Enganei-me. Apesar do começo claudicante o conto que narra a procura de vida fora do sistema natal dos protagonistas consegue se sustentar. Mantém um razoável nível de tensão.

777 – Igor Silva – RUIM

Conto que pretende ser engraçado, mas não é. Que se pretende sério, mas não é. Que se pretende adulto, mas não é.

A estrela cadente – Luiz de Souza – MÉDIO

Mulher solitária anseia ser amada quando nave aliada despenca do espaço para um lago próximo à sua casa. Adivinha quem veio para jantar? O homem que ela tanto ansiava, amnésico, pra melhorar. Um Deus Grego! Trepam noites e dias. Mais tarde o encanto se quebra e a carruagem se transforma em abóbora. Macho alfa é resgatado e a mulher volta a ficar sozinha. História romântica lugar comum disfarçada de FC. Quem espera que lhe caia do céu um parceiro sexual insaciável, leia e aprenda! Isso é fantasia!

Beta teste – Rubem Cabral – BOM

Rapaz pago para ser beta teste de games acaba se transformando no Deus de um jogo de realidade virtual. Fascinante narrativa que consegue arrastar o leitor linha após linha na teia de fatos e de conflitos que vai se desenrolando numa cidade que parece tudo, menos virtual.

Heliófilos – J. Miguel – RUIM

História rocambolesca, onde humanos e pós-humanos guerreiam entre si. Uns na superfície, imunes à luz ultravioleta (já que a camada de ozônio foi para o vinagre), outros no subsolo. O autor perde muito tempo com explicações técnicas e científicas para embasar a sociedade da época. Logo surge um terceiro integrante nesse imbróglio hollywoodiano: alienígenas querendo conquistar o planeta. Por quê? Ninguém sabe. Nem o autor, nem o leitor, nem os protagonistas. A premissa inicial é até interessante, exige muito mais empenho para ser devidamente explorado. Final previsível.

Memórias – Frank Bacurau – MÉDIO

O autor passa quase 90% do texto explicando como o mal de Alzheimer se manifesta e a forma de revertê-lo. O cientista protagonista da história mergulha em elucidações médicas e científicas até que uma paciente passa a tratá-lo como se fosse outra pessoa (e não o médico que cuida dela). Final trágico. Embora se utilize de terminologia científica e descreva um cenário hipoteticamente futurista, a narrativa não tem nada de FC para mim. O final deixou a desejar.

O último reduto – José Geraldo Gouveia – RUIM

Homem preparado para ser o mensageiro da morte através de mensagens subliminares é enviado para o Último Reduto dos Rebeldes a fim de destruí-lo. A única coisa que esse mensageiro conseguiu foi demonstrar a fragilidade narrativa da história e a pouca intimidade do autor com a linguagem e com consistência de argumentação.

O E.T. espião – Lauro Winck – ECA!

ET vem à Terra para analisar possibilidades de sua raça se estabelecer por aqui. Conto curto que tenta dialogar com a comédia. Muito mal escrito, passa longe.

A nave dos deuses – Emanoel Ferreira – BOM

Narrativa indigenista fala da relação de silvícolas com seus deuses. Nave espacial oculta em abrigo subterrâneo é objeto de adoração. Povo aguarda o retorno desses deuses honrando seus símbolos até que um dia eles retornam, mas outros dessa vez. Final surpresa encerra um conto bem conduzido.

Brincando de Deus – Bia Machado – BOM

O direito de viver e morrer discutido à luz da ética médica. Mulher com morte cerebral é mantida em coma induzido até que haja recursos científicos para devolver-lhe a vida. Discussão moralista onde se confrontam dois médicos resulta em final trágico. Trágico?

Herança – Daniel Lima – BOM

Caipira implanta curiosa tradição na família. Um dia, ao ouvir um estrondo, vai verificar o que o provocou e se depara com uma nave espacial caída em suas terras. Confronto com alienígena moribundo coloca-o diante de uma incrível revelação. Narrativa simples, sem frescuras, bem conduzida.

Nem tudo é o que aparenta – Henrique Weizenmann – ECA!

Conto horrível que narra uma aventura bélica de um piloto de caça contra um terrível armazém, armado até os dentes.

Onda atômica – Duda Falcão – BOM

Hecatombe nuclear lança a Terra na mais absoluta destruição, com a falência da sociedade e de seus conceitos éticos e morais. O que sobra, são grupos antagônicos que caçam uns aos outros em busca de alimento. Que se trata de carne humana. Qualquer semelhança com o livro “Fome”, escrito por mim pode não ser mera coincidência. Narrativa bem conduzida, questões morais abordadas exageram no “mea culpa”, soando panfletárias demais.

2019, O programa Titã – Alex Lopes – MÉDIO

Space Opera. Aventura bélica leva os humanos a defender a Terra de uma invasão alienígena. Condução modesta, resultados previsíveis.

A sala das garrafas – Matheus Quinam – MÉDIO

Conto narra a história de pai, filho e sala secreta. E segredos atiçam curiosidades. Narrativa consegue vencer alguns problemas de construção e o final chega a ser perturbador.

Entre o céu e a terra – Jota Fox & Misael Archanjo – RUIM

História longa demais tenta criar um clima a Arquivo X, mas se perde na própria extensão. Demora a apresentar os fatos, escondendo-os do leitor numa tentativa frustrada de criar expectativas. Sociedades secretas, trabalhos misteriosos, personagens confusos, viroses desconhecidas… Trata-se de uma salada indigesta. Condução fraca acaba expondo inúmeros problemas narrativos.

Les habitants du soleil – Cássio Michelon – BOM

Experiência alucinógena conduz protagonista a uma fantástica e aterrorizante viagem até o Sol. Se o que presencia lá é fato ou devaneio, não se sabe. Isso, porém, acaba mudando a sua vida e sua concepção do Universo. Boa narrativa, condução segura.

O espelho – Rubem Cabral – ECA!

Civilização alienígena é visitada por outros alienígenas. Narrativa fraca, argumento (que argumento?) previsível.

Roswell – Humberto Amaral – MÉDIO

Conto curioso que reinventa o evento ocorrido em Roswell dando a ele pinceladas cômicas. A narrativa, agradável e razoavelmente consistente, segue sem sobressaltos. O final, contudo, foi decepcionante.

Aconteceu num dia quente de verão – Luiz Mendes Jr. – BOM

Homem desperta para um novo dia de trabalho, mas algo está diferente. Não há ninguém nas ruas. A cidade subitamente mergulhada num terrível vazio. A busca por explicações se torna premente. Mas a resposta é uma surpresa para ele e para o leitor. A narrativa alterna bons e maus momentos. O final compensa a flutuação de qualidade.

Experimento – Fillipe Jardim – ECA!

Autor esquarteja a protagonista, a literatura e o bom gosto do leitor.

Manuscrito de viagem – Jorge Eduardo Magalhães – ECA!

Não cheguei a terminar a leitura. Aparentemente um homem apaixonado viaja no tempo para reencontrar a amada reencarnada. Prosa ruim e premissa absurda me impediram de continuar.

O lado oculto da Lua – Frodo Oliveira – MÉDIO

O conto começa com explanação sobre os sonhos e ambições de um homem que quer ser astronauta e se esforça para isso, continua num ritmo de manual de autoajuda e se não fosse salvo por um final surpresa, teria sido um desastre.

O sobrevivente – Bruno Borges – MÉDIO

O mundo acabou, vítima das guerras. Todos morreram? Não. Não o médico que criou a fonte da vida eterna, a cura para todos os males do corpo. Narrativa em ritmo de discurso político, religioso e ecologicamente correto. Um enorme desfile de “mea culpa, mea maxima culpa” e autopiedade. O final, a última e derradeira linha, trouxe uma ironia tão inesperada que acabou valendo o conto.

Sapiens – Cátia Cernov – MÉDIO

Conto pergunta: quem habitará a Terra depois do fim? Os homens ou os anfíbios, espécie mutante em franca evolução? Discorre a respeito dos problemas planetários, fim dos tempos, crises ecológicas (recorrente no livro) durante um embate numa mesa de sinuca e antes da sexta do rock.

Me abstive de comentar os problemas de revisão de cada conto. Mas esses problemas abundam em todo o livro, revelando o pouco cuidado que a editora dedicou ao assunto. Lamentável. E os emoticons se recusaram a ficar onde eu os queria. Então hoje, de castigo, ficam de fora.

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16 Respostas to “Solarium 2, lido e comentado”

  1. jrcazeri Says:

    Calculando: com 7 bons e 9 médios, 64% da obra se salva. Para uma coletânea de autores iniciantes e que não estão familiarizados com o gênero, é um bom número.

    Não é o ideal, mas já está acima da média de outras coletâneas. Só acho que narrativas onde se encontram naves em jardins, quintais e lagos deviam ser proibidas pelo bem da iniciativa em favor da originalidade. Esse tipo de situação é vista até em desenho do Pica-Pau.

  2. Matheus A. Quinan Says:

    Obrigado pela leitura, Tibor. Seu veredicto foi mais ou menos o esperado por mim, mesmo (inclusive sobre meu conto).
    Abraço.

  3. Saint-Clair Stockler Says:

    E segue Tibor Moricz arranjando inimigos pelas esferas internéticas… rsrsrs.

    • Tibor Moricz Says:

      Saint, vou postar aqui uma troca de emails com o Claudio Brites, editor da Terracota, que vai de encontro ao que você disse:

      Tibor, meu caro,

      Gostaria de agradecer por estar lendo com tanta atenção os livros da Terracota. Mesmo que não se coloque como crítico, mas leitor ativo, é um prazer ter alguém avaliando nossos trabalhos. A pior tristeza é não ter retorno, ainda mais num começo, no geral, difícil. Recebemos muitos emails de leitores, mas a grande maioria elogiando para poder, um dia, quem sabe, ter seu trabalho publicado. Alguém ler, porque gosta de compartilhar leituras, é raro. Ainda mais, tornar essas leituras públicas. Valeu mesmo.

      No meu caso, particular, vi que recebeu uns esqueletos que eu escondia no armário (Livro Negro [mesmo], Anno Domini)… rs… mas ok, fui redimido, acho, no Cartas do Fim do Mundo… além de manter uma média, nos contos, que, no meu cálculo, está no “BOM”, prum cara que sempre ficou no “C”, nas escola…

      Brincadeiras a parte. Se permitir, gostaría de manter essa linha e enviar o romance que escrevi com Kizzy, Carlos e Cariello, A Tríade… se estiver afim. Claro.

      Eu respondi elogiando a grandeza de espírito dele em receber as críticas sem mau humor. Ele respondeu:

      Não é grandeza de espírito. Eu não escrevo porque quero que massageiem meu ego, eu não sou escritor, sou professor de escola pública, escrevo porque acredito que a arte é muito mais barata do que remédios de tarja preta, escrevo porque a palavra flui com mais facilidade que o desenho e a música em mim e escrevo porque as vozes mandam. rs… se eu quisesse ego massageado, não publicava, dava pros meus amigos, minha mãe e pronto.
      Eu teria te dado o A Tríade no Fantasticon se te conhecesse. Pelo pouco que conheço dos seus gostos, o livro vai apanhar, mas eu não ligo. É bom estabelecer diálogo com alguém que vai mesmo dialogar. Que não vai falar bem dos amigos e mal dos inimigos, como alguns por aí. Vou deixar autorizado um exemplar para você. E vamos ver no que dá.

      Isso, Saint, é o comportamento de uma editora séria. As outras… se se incomodam e ficam aborrecidas comigo, bem… lamento por elas.

      • Saint-Clair Stockler Says:

        Bem legal mesmo a postura do Brites. Isso é que é vontade de fazer uma coisa legal e séria! Felizmente, nem só de “editores” picaretas vive a ficção de gênero no Brasil 😀

  4. Emanoel Ferreira Says:

    Tibor, a resenha me pareceu honesta. Gostaria de saber o que achou das ilustrações da edição, feitas por Jou Martins e J. Fox (esse que assina o conto “Entre o céu e a terra” com Misael Archanjo). É evidente que o mais importante são os textos, mas senti falta de um comentário (geral, é claro) sobre as ilustrações, que acabam pontuam cada conto.

    Um abraço.

    • Tibor Moricz Says:

      Ilustrações não são meu forte, Emanoel. Mas eu diria que, numa primeira avaliação, me parecem toscas. Pra falar a verdade, não gostei delas.

  5. Emanoel Ferreira Says:

    Hum… Ok. Eu também não entendo muito de ilustrações, mas acho que a qualidade dos desenhos oscilou, embora considere que em torno de um conceito melhor.

    Parabéns pelo blog.

  6. Tweets that mention Solarium 2, lido e comentado « -- Topsy.com Says:

    […] This post was mentioned on Twitter by Adriana Rodrigues, Roberto Causo, Roberto Causo, Antonio Luiz MCCosta, tmoricz and others. tmoricz said: RT @SaintStockler: A postura do Claudio Brites (editora Terracota) é que é exemplo de um trabalho editorial sério: http://bit.ly/cNoYTN … […]

  7. Duda Falcão Says:

    Olá, Tibor!
    Sempre é legal encontrar alguém que faz crítica dos nossos textos.
    Agradeço pelos comentários, pois sempre ajudam o autor a pensar no que escreveu. Ainda não li o seu livro “Fome”, portanto, é mera coincidência a semelhança que por ventura você tenha encontrado. Na verdade, as criaturas que surgem nesse texto são uma inspiração lovecraftiniana. Mas, posso dizer que fiquei curioso em ler sua obra. Vou adquiri-la assim que possível. Um abraço e sucesso.

  8. Rubem Cabral Says:

    Gostei da crítica, mesmo tendo um “BOM” e um “ECA!”, hahahaha. Abraços, Tibor.

  9. Jorge Eduardo Magalhães Says:

    Como alguém pode falar mal de um conto que não leu até o fim? mas tudo bem, opinião é igual bunda, cada um tem a sua. (por isso não dou a minha)

    • Tibor Moricz Says:

      Quando um conto é ruim, a gente não precisa se flagelar até o fim para saber disso. O conto é ruim. O conto é Eca!

  10. Letras Elétricas Says:

    […] Moricz detestou «O Último Reduto», que saiu pela antologia Solarium 2, da Editora Multifoco. Com razão, eu […]

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